domingo, 15 de julho de 2012

A falta de banheiros públicos

Uma das lembranças mais vivas que tenho do Centro do Rio de Janeiro é o cheiro de creolina. Estranho. Alguém me explicou que a prefeitura lava as calçadas com o detergente para tirar o odor de urina das ruas. O fato é que as cidades, de uma forma geral, não estão equipadas para as demandas fisiológicas da população.

Eu estava em um dia de sorte. Meu táxi não parava vazio. Saía um passageiro, embarcava outro. Tinha tomado um copão de suco e minha bexiga estava estourando. Precisava urgente dar uma aliviada, mas não queria perder o ritmo do trabalho.

Descendo a Cristóvão Colombo, o largador de um ponto de táxi me passou o endereço de uma cliente, em uma rua próxima. Lá fui eu rumo à Travessa da Saúde, uma ruazinha sem saída, pouco habitada, em pleno bairro Auxiliadora. Chegando em frente ao prédio, o porteiro informou que a moradora desceria em dez minutos - uma eternidade para alguém que precisa demais fazer xixi.

O copão em que eu havia tomado o suco estava na lixeira do táxi. Ele parecia me olhar, parecia me dizer alguma coisa tipo: você está aqui nessa ruazinha deserta, onde não passa ninguém, esperando um passageiro que não vem, precisando muito esvaziar a bexiga e eu, aqui, vazio...

Certa vez, li uma matéria que dizia que os atletas de triatlon aprendem a fazer xixi enquanto pedalam durante as competições. Achei isso incrível. O domínio humano sobre o corpo. Mas a matéria não falava nada quanto a interromper a mijada no meio. Isso sim é uma coisa difícil.

Assim que eu cedi à tentação do copo vazio, que me ajeitei no banco do táxi e comecei a aliviar a pressão da minha bexiga. Assim que o líquido quente começou a deixar meu corpo e aquela sensação de prazer começou a percorrer minha espinha, exatamente nesse momento, a passageira surgiu caminhando acelerada em direção ao meu táxi.

A instalação de banheiros públicos em quantidade: eis uma promessa com a qual os políticos conquistariam meu voto nessa eleição.

5 comentários:

Sergio LB disse...

Mauro,

Muito boa! Mas suscitaste a minha curiosade neste enredo, digno de um "TaxiTramas". Três perguntas a fazer:

PRIMEIRA - Concluíste o 'serviço' antes da passageira sentar-se no táxi?

SEGUNDA - Se afirmativo, o que foi feito do líquido?
a) jogaste pela janela;
b) carregaste na viagem; ou
c) deste partida no carro sem a passageira.

TERCEIRA - Se negativo, que lambança!!!

Mauro Castro disse...

Sergio
As boas histórias são aquelas que ficam vivas na cabeça do leitor. Não acabam com o ponto final.
Há braços!!

vidacuriosa disse...

Teu comentário é exato. Quase sempre fico a pensar nas tuas histórias por algum tempo após ter lido a última frase. Por sorte, tenho o privilégio de seres meu amigo e, quando te encontro, consigo satisfazer minha curiosidade. Às vezes. Sobre banheiros públicos, certa vez sugeri ao jornal no qual trabalhava uma matéria sobre o fato de os mictórios do centro de Porto Alegre não terem placas indicativas, como se a intenção fosse mesmo escondê-lo dos usuários. É caso dos dois banheiros sob o viaduto Otávio Rocha e o da Praça da Alfândega (este último em eternas reformas). Não é de se estranhar que as ruas sejam malcheirosas como as das cidades na Idade Média. Infelizmente a matéria nunca foi feita pelo jornal. Abrs

Silvana Santos disse...

Decisão x atitude = pode ser uma simbiose maravilhosa, quando realmente colocadas em prática, e bora lá que a vida continuaaaaa!

Márcio Lauriano disse...

Apesar de ter nascido no RJ, não costumo urinar na rua, coisa comum na cidade. Mas uma coisa aprendi quando fui motorista em tribunal no interior de SP: uma garrafa vazia dentro do carro resolve muito problema.
Seus textos continuam ótimos com o passar dos anos.
Sucesso!

Marcio Lauriano
andandonasideias.blogspot.com