domingo, 3 de junho de 2012

Sexo x literatura

O ambiente de um ponto de táxi é ideal para quem gosta de boas histórias. Basta o serviço diminuir, os taxistas começam a parar em suas bases e a conversa rola solta. Dia desses, estávamos em meio a uma dessas reuniões animadas, quando, para completar o cenário, chegou o Bob, um guardador de carros das redondezas.

Em matéria de boas histórias, o flanelinha Bob não fica para trás. Principalmente quando narra sua luta contra um rato enorme com o qual divide sua residência. Mesmo já tendo corrido atrás do rato com um espeto, disposto a matar o roedor que fugia com um naco de salame porta afora, o bicho teima em voltar. Dia desses, Bob teria acordado no meio da noite com alguém roncando. Encontrou o tal rato dormindo embaixo do travesseiro ao lado... Nova confusão!

Mas nesse dia, em especial, o assunto no ponto era o sexo frágil. Nosso colega Carlão tinha chegado com o Diário Gaúcho, que trazia na página central uma foto espetacular de uma morena vestindo um biquini minúsculo. O jornal passava de mão em mão causando alvoroço. Quando Carlão já ia levando o DG para o táxi, o flanelinha pediu para dar uma olhada.

Fiquei de olho no Bob, imaginando que ele iria direto à página central. Para minha surpresa, ele pegou o jornal pelas costas, abriu a última folha e começou a ler. Só então, lembrei que estávamos na segunda-feira e que o guardador de carros é leitor assíduo da minha modesta coluna. Que beleza!

Bob ficou por um bom tempo preso à última folha lendo o que eu havia escrito. Vez por outra, balançava a cabeça e esboçava um sorriso. Quando terminou a leitura, fechou o jornal e devolveu ao Carlão, sem sequer olhar a foto da página central. O sorriso largo que Bob me lançou antes de partir era a prova de que meu texto tinha agradado. Bingo!

Em termos de preferência popular, futebol e sexo ganham de goleada. Mas se sobrar um espaço, a literatura marca seu golzinho.

domingo, 27 de maio de 2012

A cobra vai fumar!

Caía uma chuva fina sobre o bairro Azenha. O passageiro que me fazia sinal era um senhor de idade bem avançada, que não deveria estar na rua com um tempo daqueles. Parei bem junto à calçada. Ele fechou o guarda-chuva e embarcou desajeitado.

Meu idoso cliente pediu que eu tocasse até a delegacia mais próxima. Estava furioso. Tinha resolvido ir à polícia registrar queixa contra uns garotos que estavam “infernizando” sua vida. Segundo ele, o problema era a barulheira que a turma fazia com seus skates, bem em frente à sua casa.

Meu passageiro contou que tinha reclamado para os garotos, mas que haviam feito pouco caso, que continuavam com a baderna. Do alto dos seus oitenta e tantos anos, disse que teria saído de bengala em punho atrás dos desaforados, disposto a passar-lhes um corretivo. Depois disso, teria virado alvo de chacota da meninada, o que o estava levando à loucura.

Em tom de desabafo, o velhinho contou que esteve a ponto de cometer um desatino. Integrante da Força Expedicionária Brasileira, que combateu na segunda guerra, disse que chegou a engatilhar sua arma para atirar nos meninos. A imagem de sua falecida mulher, no porta-retratos, o teria feito desistir. Resolveu procurar a polícia.

Quando chegamos à delegacia, o idoso estava mais calmo. Já não falava mais nos skatistas. Passou a me relatar suas aventuras na guerra, na campanha da FEB na Itália. O velho abatido do começo da corrida agora parecia um menino, o olho brilhando, o peito inflado. Contou que mantinha sua farda guardada, impecável.

Quando desceu do táxi, ele já havia desistido de dar queixa. Não tomaria o tempo de um policial com seus aborrecimentos. Disse que voltaria para casa caminhando, pois caminhar lhe ajudava a organizar as ideias. A chuva tinha parado e o sol espiava entre as nuvens.

Apoiado em seu guarda-chuva, o ex-combatente despediu-se com um aceno e partiu rumo a, talvez, sua última batalha: a luta por respeito.

domingo, 20 de maio de 2012

Tudo vai acabar bem

Talvez porque o outono finalmente deu o ar da graça com suas manhãs de cartão postal e seu clima ameno. Talvez por eu ter dormido bem a noite passada graças ao silêncio do gambá que habita o telhado da minha casa, que talvez tenha resolvido criar seus filhotes em outro forro. Talvez por ter recebido um beijo mais doce do que de costume da minha mulher pela manhã, por minha filha ter dito que gabaritou a prova de biologia, por ter cortado a grama do jardim e descoberto que meu cacto vai dar uma flor. O fato é que estou animado.

Ainda há pouco, uma motorista em um carro enorme deu-me uma chance no trânsito, fez um sinal de positivo e sorriu. Talvez esse simples gesto tenha devolvido minha confiança no ser humano. Talvez nem tudo esteja perdido.

Talvez por ter assistido à presidenta anunciar na tevê que as coisas, enfim, vão melhorar, que o Brasil é o país da vez, que os juros vão despencar e minha pobre poupança continuará numa boa. Talvez por a notícia do jornal dar conta que a partir de maio o brasileiro vai parar de pagar imposto e começará a ganhar algum dinheiro para si mesmo. Talvez por ter achado uma nota de R$10 esquecida no bolso do meu casaco desde o inverno passado. Talvez por a primeira corrida do dia ter sido para aquela passageira exuberante, que enche meu táxi de simpatia e perfume francês. O fato é que estou otimista hoje.

Ou porque meu time sagrou-se campeão gaúcho, ou talvez por o Sol estar entrando em Touro e acabando com meu inferno astral. Talvez ainda por uma outra razão qualquer que minha ignorância não saiba explicar, não sei, a verdade é que sentei hoje para trabalhar em meu táxi com o ânimo de 26 anos atrás, quando fiz minha primeira corrida.

Existem motivos para apreensão. Nuvens carregadas de dúvidas pairam sobre os milhares de taxistas porto-alegrenses que, como eu, exercem sua profissão com dignidade e dedicação. Mas, hoje, alguma coisa me diz que tudo vai acabar bem.

domingo, 13 de maio de 2012

A paciência é uma arte

De repente, o trânsito entupiu. Os carros simplesmente pararam todos. Na terceira vez que o sinal abriu e ninguém se mexeu, minha paciência esgotou. Eu já estava levando a mão à buzina quando a motorista do carro de trás poupou-me o serviço. A mulher enfiou a mão na buzina e não tirou mais. Minha nossa!

Pelo retrovisor, eu observava a motorista histérica. Enquanto buzinava, ela gritava e gesticulava. Uma mulher de meia-idade, cabelo discreto e óculos de armação antiquada. Devia estar atrasada para algum chá beneficente. Logo, todos os carros do entorno estavam buzinando. Diante da histeria coletiva, até perdi a pressa.

Um pedestre atropelado era o “problema”. Na calçada, alguém improvisava uma massagem cardíaca na vítima enquanto esperavam o socorro. Mesmo com a pista já desbloqueada, os carros seguiam lentos para observar o evento. Alguns até mesmo paravam para (pasmem) fazer uma foto com o celular - já deve estar no Facebook.

Apesar de procurar manter a calma, vez ou outra acontece de eu perder a elegância no trânsito - o cara fotografando o atropelamento, por exemplo, ouviu uns “elogios” de minha parte. Mas ando exercitando cada vez mais minha paciência.

Certa vez, fiquei um tempão em frente a um prédio esperando por uma passageira que havia chamado meu táxi pelo telefone. Eu olhava para a portaria e nada da mulher aparecer. Aquilo foi me irritando. Por que as pessoas chamam o táxi se não estão prontas! Droga!

Ao embarcar, a passageira apressou-se em pedir desculpas. Explicou que cuida do pai, que está em estado vegetativo em cima de uma cama. No horário do almoço, ela vem correndo até sua casa ver se está tudo bem, pois a cuidadora contratada não entende muito de enfermagem. Disse que havia demorado a sair porque, na última hora, a sonda urinária do pai tinha escapado e ela não estava conseguindo reinstalar o tubo...Triste.

A paciência é uma arte que ainda estou longe de dominar. Mas a vida se encarrega de me passar algumas lições.

domingo, 6 de maio de 2012

O fascinante Presídio Central

Peguei a corrida no fórum central. Meus passageiros eram uma mulher de cabelos grisalhos, uma jovem com um bebê no colo e um garoto de uns 12 anos de idade, que se sentou no banco da frente. Destino: Presídio Central.

A conversa entre os passageiros permitiu que eu entendesse a situação daquelas pessoas. A mulher era mãe da jovem e do garoto. Eles moravam em uma pequena cidade do interior. Estavam na Capital tratando do processo do filho mais velho da mulher, que estava preso. O bebê no colo da jovem era filho do presidiário e estava aos cuidados da avó, já que a mãe da criança tinha problemas com drogas.

A mulher estava desolada. Dizia-se esgotada. Tinha vergonha até mesmo de sair à rua, em sua cidade, devido à condenação do filho. Reclamava que, além de tudo, estava sendo explorada por um advogado inescrupuloso, que lhe cobrava os olhos da cara. Segundo ela, o filho seria vítima da maldade da cidade grande.

Enquanto a jovem cuidava do bebe e tentava consolar a mãe, o menino no banco da frente parecia fascinado com a metrópole. Só se interessava pela conversa quando faziam alguma crítica ao seu irmão mais velho, que o garoto tratava como um ídolo. Apontou o tênis caro, que o irmão teria lhe dado de presente. A mãe apenas balançava a cabeça, desconsolada.

Mas o que mais chamou a atenção naquela corrida foi a reação do garoto ao avistar o Presídio Central. Ele ajeitou-se no banco para poder enxergar melhor. Admirado, apontou para o prédio em ruinas, pedindo para que a mãe e a irmã olhassem bem. Com os olhos brilhando, alertou que o irmão estava no pavilhão “C”, que participava de uma das facções que controlavam aquilo tudo. O orgulho transbordando em cada sílaba.

O garoto foi o primeiro a descer do táxi. Estava ansioso, torcendo para que o deixassem entrar. A mãe, enquanto pagava a corrida, revelou-se preocupada com o caçula. Temia que ele seguisse o exemplo do irmão mais velho, o que seria o fim para ela.

Sem comentários, apenas desejei sorte àquela mãe. Ela vai precisar.

domingo, 29 de abril de 2012

Isto não é um assalto!

O passageiro embarcou no táxi em estado lamentável. Maguila, como era conhecido, era um motorista de ônibus que atravessava um momento difícil. Em meio a uma crise de estresse e depressão, estava afastado do trabalho. Com a roupa amarrotada, barba por fazer e em avançado estado de embriaguês, Maguila pediu ao taxista que o levasse até os altos do Morro da Polícia.

Mesmo sendo um sujeito do bem, o motorista de ônibus tinha arranjado esse apelido graças ao seu tamanho avantajado e à sua cara emburrada. Estarrado no banco traseiro do táxi, meio dormindo, com um boné enfiado na cara e mal iluminado pela madrugada sem lua, Maguila parecia a pior das ameaças para o taxista assustado.

O taxista bem que tentou puxar assunto - uma conversa poderia provar que o passageiro não era perigoso. Mas Maguila não estava para papo. Tinha passado boa parte da noite sendo enrolado por uma prostituta, em um bordel imundo do centro da cidade. Além disso, estava com sono, tonto, mal ouvia o que o taxista dizia. Respondia com resmungos.

Quando o táxi começou a subir o morro, Maguila deu-se conta de que estava chegando. Hora de ver o dinheiro. Quando enfiou a mão no bolso de dentro da jaqueta para pegar a grana, porém, levou um susto: o taxista deu uma freada brusca, parando o carro atravessado no meio da rua. Pensando que seria assaltado, o motorista saiu correndo pela noite, deixando para trás o táxi com o motor ligado, a porta aberta e um passageiro espantado.

Para evitar um acidente, Maguila assumiu a direção, estacionou o táxi junto ao meio fio e ligou o pisca alerta. O jeito era esperar, não arranjaria outro táxi a uma hora daquelas.

Algum tempo depois o taxista reapareceu acompanhado de um vigia noturno a quem pedira socorro. Ao ver o brilho da arma apontada para ele, Maguila ergueu as mãos segurando o crachá da empresa de ônibus e o dinheiro para pagar a corrida.

Pelo resto do caminho o taxista foi todo desculpas. Maguila continuou a não lhe dar ouvidos. Estava tudo bem, desde que chegasse logo em casa.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Amigos para sempre

Eu estava em meio à confusão do trânsito quando o telefone tocou. Era um amigo internauta, que sempre deixa comentários inspirados no meu blog. Ele estava em Porto Alegre, queria me conhecer pessoalmente e levar um livro autografado do Taxitramas para sua casa em Santa Catarina. Anotei o endereço do hotel e toquei pra lá.

No caminho, deu um branco e esqueci o primeiro nome do meu amigo virtual. Lembrava apenas que era um nome comum seguido das letras P.L. Depois de tentar desesperadamente conseguir uma wireless para acessar à internet, resolvi tocar logo para o hotel, pois já estava atrasado. Quando bati o olho no homem postado na portaria do hotel, o nome veio. Eduardo!

Estacionei o táxi e batemos um papo animado. Em poucos minutos éramos amigos antigos, muitos assuntos em comum, ideias parecidas. Como estava mesmo na hora de passar o táxi para o parceiro da noite, entreguei o carro e fiquei com Eduardo no prédio da Fundação Iberê Camargo, que ele queria muito conhecer.

Depois de apreciar o impactante acervo do artista dos carretéis, reunidos em um prédio não menos genial, chegou a hora de irmos embora. E quem diz que conseguimos um táxi? Meu amigo vem de longe conhecer um taxista e ficamos sem condução! Sem problemas: ficamos, literalmente, a ver navios, batendo papo em frente ao prédio, admirando o sol poente mais lindo do mundo. Quase lamentamos quando o táxi chegou.

Só agora, escrevendo essa história, aliás, acabei lembrando que o taxista que nos resgatou no museu era uma figura, e contou uma corrida formidável que fez para uma mulher estranha com uma bolsa cheia de dólares. Acabei esquecendo de anotar aquela história, como tantas outras que meus colegas contam e caem no esquecimento...

O fato é que, naquela dia, um conhecido virtual tornou-se um grande amigo real, desses que abrimos a porta de nossa casa e fazemos questão da visita. Ele conheceu minha família, eu conheci a dele, e a internet, que muitas vezes é acusada de isolar as pessoas, tornou-nos amigos para sempre.



PS: Leia a outra versão desta história no blog VIRTUAL/REAL

domingo, 15 de abril de 2012

Falando pelos cotovelos

Mesmo antes de embarcar, a mulher já estava falando. Enquanto entrava no táxi, ela ia aumentando o volume da voz, explicando que se tivesse que esperar por mais um minuto naquele calorão ia acabar derretendo na calçada. Disse que a culpa dessas temperaturas extremas é do próprio homem, que destrói a natureza, que cada verão será mais quente que o anterior, até que morreremos todos...

A mulher não espera que eu comente alguma coisa. Emenda o assunto da temperatura com a importância de manter o bom-humor. É preciso encarar a vida de forma positiva. Disse que suas amigas fazem cirurgias plásticas, mas que esquecem de se divertir, de amar. A passageira explica que é contra qualquer tipo de droga, que nada é mais eficiente que um sorriso, que uma amizade, que as pessoas precisam viver a vida.

Espero um momento de silêncio para para dizer alguma coisa, mas é inútil, a mulher não para de falar. Percebo que ela, na verdade, está falando para si mesma, minha presença ali é um mero detalhe. Nesse ponto, o tema passa a ser religião, que as pessoas precisam aceitar Jesus nos seus corações. Eu, então, desisto de vez de falar qualquer coisa. Nem a cabeça balanço mais. Nem sim nem não. Limito-me a controlar o trânsito, que está pesado.

Quando volto a prestar atenção à mulher, ela esta falando de sua única irmã, que aproveitou o plano de demissão voluntária do governo, aposentou-se, comprou um sítio e se isolou do mundo. Não quis mais vê-la. Não atendeu mais às suas ligações. Um belo dia, a encontraram enforcada em uma figueira do sítio. Ela disse que reza pela alma da irmã, que os suicidas não sobem ao céu e tal e coisa...

Enquanto paga a corrida, a mulher percebe minha indiferença e desculpa-se. Explica que trabalhou a vida toda como dentista de crianças, que desenvolveu a técnica de falar sem parar para que os pequenos pacientes não tivessem tempo de reclamar. Disse que agora, sem perceber, continua falando pelos cotovelos.

Aceito as desculpas, feliz por não ter uma figueira e uma corda por perto.

domingo, 8 de abril de 2012

Pagando pra ver

Quando a passageira embarcou, o taxista sentiu que aquela corrida não seria apenas mais uma. A mulher sentou-se no banco da frente, inundando o táxi com sua sensualidade e seu cheiro de banho recém tomado. As pernas longas e bronzeadas, quase roçando na palanca de mudança, eram a antevisão do paraíso.

A conversa que a mulher jogou para cima do taxista foi esquisita. Mostrando-se angustiada, ela contou que precisava muito de ajuda. Disse que estava comprando um apartamento, mas para fechar o negócio, a construtora exigia que ela tivesse R$ 15 mil na conta. Para completar essa quantia, disse que lhe faltavam R$ 4 mil.

Ela explicou que era uma formalidade. Precisava apenas depositar o valor, tirar um extrato, e logo devolveria o dinheiro. Seria questão de horas. A mulher deixou claro que faria “qualquer coisa” para conseguir aquele montante. Disse que estava indo para casa, que ficaria sozinha, pensando onde conseguir o dinheiro. Enquanto explicava detalhes da operação e repetia que faria qualquer coisa para conseguir a grana, a passageira alisava sutilmente a perna do taxista e lhe lançava olhares de desejo.

Ao final da corrida, a passageira pediu que o taxista ligasse para seu celular, pois não estava achando o aparelho. Quando a campainha tocou, achou-o dentro da bolsa. Foi assim que o taxista ficou com o número da mulher na memória do seu telefone.

Mesmo sabendo que aquilo tinha tudo para dar errado, que tinha toda a pinta de ser um truque mal encenado, que poderia não ver mais a sua grana, o taxista acabou caindo na tentação. Ligou para a mulher alguns minutos depois. Valia a pena arriscar.

Perdeu o dinheiro. O dinheiro que estava economizando para sair do aluguel. Para comprar uma casa pré-fabricada, que colocaria nos fundos do terreno da sua sogra. O dinheiro que tinha custado horas de trabalho suado ao volante do táxi.

Ele contou que foram três encontros com a tal mulher até que ela sumisse com a grana. Três encontros que, segundo ele, valeram cada centavo perdido.

domingo, 1 de abril de 2012

Os 87 anos do seu Zé

Há sete anos, eu escrevia, neste mesmo espaço, uma crônica intitulada “Os 80 anos do seu Zé”. Naquela época eu já achava impressionante a disposição do meu colega octogenário, que mesmo com a idade avançada, não dava sinais de que deixaria o volante tão cedo. Um fenômeno!

Essa semana, eu ia por uma avenida movimentada, com uma passageira distraída no banco traseiro do táxi. A pista pela qual eu trafegava estava sendo retida por um veículo mais lento. Pensando em mudar de pista, dei uma olhada pelo retrovisor e quem eu vejo vindo atrás de mim, firme ao volante, com seu táxi também carregado? Ele mesmo: Seu Zé.

Imediatamente, a pressa de livrar-me daquela tranqueira transformou-se em serenidade. Por um segundo, peguei-me filosofando: aquele senhor, do alto dos seus 87 anos, não havia chegado àquela idade à toa. Por certo, a paciência, a calma, eram o grande segredo daquele incrível idoso. E por um segundo fiquei tranquilo na pista em que estava.

Nesse exato segundo, vi pelo retrovisor seu Zé ligando o indicador de direção e dando uma guinada seca no volante. Ele trocou de faixa, reduziu a marcha e acelerou. Passou por mim como uma flecha, deixando os tranca-ruas para trás. Aproveitou o sinal verde e sumiu de vista. Uma aula de direção.

Confesso que há 7 anos escrevi aquela crônica pensando em homenagear meu velho amigo
taxista que parecia aproximar-se da aposentadoria merecida. Mas o tempo parece não ter passado para o seu Zé. Ele continua firme e forte, com uma saúde inabalável, renovando a carteira de motorista com louvor.

Não conheço outro taxista que esteja em atividade com essa idade. Por sorte, ele é meu colega de ponto. Com uma memória invejável, é uma fonte infinita de histórias, ricas em detalhes, muitas das quais já contei aqui.

Eu não sei se vou durar mais sete anos (já ando sentindo o peso da idade), mas se ainda estiver escrevendo essas pequenas crônicas, prometo dar notícias do meu “jovem” colega, que, por certo, ainda estará me deixando para trás com sua vitalidade.

domingo, 25 de março de 2012

Vida louca

Os moradores de um beco de uma vila pobre acordaram no meio da noite com a barulheira. No meio do beco, um carro abandonado começava a pegar fogo. Um táxi. Não era a primeira vez que ladrões abandonavam carros roubados naquele lugar.

Aos poucos os moradores foram saindo das casas. Como o fogo aumentava, alguém tratou de chamar os bombeiros. O táxi ia sendo tomado pelas chamas. Impotentes, as pessoas observavam. Não havia o que fazer.

Foi quando alguém lembrou-se do último táxi roubado que fora abandonado naquele mesmo lugar: haviam encontrado o taxista dentro do porta-malas. E se também houvesse alguém dentro do bagageiro daquele carro? Não podiam deixar que o homem morresse ali. Precisavam fazer alguma coisa!

Não havia como pegar a chave, o carro estava em chamas, a fumaça tomava conta de tudo. Foi quando alguém apareceu com um pé-de-cabra. Abririam o bagageiro na marra!

Era uma operação arriscada, o carro parecia prestes a explodir. Mesmo assim os moradores arriscaram a vida tentando. A lata do táxi entortava, mas a fechadura não cedia. As pessoas puxavam com toda a força que tinham, a ponto de sangrarem as mãos. Alguém apareceu com uma picareta e começou a furar a lataria - se o taxista estivesse lá dentro, teria pelo menos um pouco de oxigênio.

Foi em meio a essa loucura que alguém chegou correndo. O taxista. O dono do carro, que tinha sido abandonado pelos assaltantes a algumas quadras atrás. Ao ver aquela gente toda destruindo a traseira do seu táxi, a única parte que o fogo ainda não havia consumido, o homem enlouqueceu. Será que todo mundo estava contra ele?

Depois de um princípio de briga, com o taxista indignado, os ânimos se acalmaram - afinal, os moradores estavam tentando salvar uma vida. O fogo apagou, a correria diminuiu...

Aos poucos, a agitação deu lugar à perplexidade. Moradores voltando para suas casas. O taxista chorando a perda total. A sirene dos bombeiros ao longe só aumentava a sensação de impotência, de abandono. Viver é mesmo uma louca aventura.

domingo, 18 de março de 2012

Carta aberta ao taxista

Caro senhor taxista. Analisando o conteúdo do seu netbook, acabei descobrindo que o senhor é aquele colunista que escreve no jornal Diário Gaúcho: não o reconheci pessoalmente. Devo dizer que minha mãe adora suas historinhas. A velha compra o jornal toda a segunda-feira e vai direto à última página ler o que o taxista tem para contar.

Como o senhor escreve sobre o seu cotidiano no táxi, presumi que escreveria sobre a nossa "corrida", por isso apressei-me em enviar esta carta para o jornal com minha versão dos fatos, na esperança que não fale tão mal de mim - o que deixaria minha mãe bem triste na próxima segunda. ​

Lamento que nosso encontro tenha sido, como direi, um tanto desagradável. Mas esse é o meu jeito de agir, se é que me entende. Preciso ser agressivo, mostrar que estou no comando, caso contrário minha empreitada pode acabar fracassando. E se tem uma coisa que eu detesto é perder.

Não pense que só o senhor ficou tenso em nosso encontro, taxista. Mesmo depois de tantos anos nessa atividade, ainda sinto-me inseguro, a gente nunca se acostuma com isso. Na verdade, eu e meu parceiro estávamos cercados de maus pressentimentos naquele dia. Mas, felizmente, tudo acabou saindo bem. Para nós, é claro.

Peço que me desculpe a gritaria, as ameaças de morte e os safanões. Fazem parte do show, como costumo dizer. Esse tipo de atitude acaba atuando no psicológico do taxista e o mantém nos trilhos, evitando que faça besteiras. Como no momento em que cruzamos com aquela viatura da polícia. O senhor se manteve firme. Isso lhe conservou a saúde, acredite.

Sei que lhe causei um belo prejuízo, mas isso é o que eu faço, entenda. Essa não é a melhor forma de ganhar a vida, mas foi no que eu me tornei. Com o dinheiro da sua féria, com a venda do seu celular e do seu gps, vou sustentar meus vícios por um tempo (drogas e mulheres estão cada vez mais caras). Quanto ao seu netbook, o receptador está impaciente, por isso vou terminando esse texto por aqui.

Assinado: seu assaltante.

domingo, 11 de março de 2012

Partindo para a ignorância


     Meu colega Toninho contou que estava abastecendo seu táxi para mais um dia de trabalho. O Carro dele é do tipo que "afoga": a bomba dá sinal que o tanque está cheio, mas basta uma sacudida no veículo para que entre mais combustível. Novo sinal da bomba, mais uma sacudida e o combustível volta a entrar. Meu colega estava em meio a esse processo quando chegou outro cliente para abastecer.
     Impaciente com os sacolejos, o homem colocou a cabeça para fora do carro e começou a atazanar o Toninho com coisas do tipo: "é pra hoje ou pra amanhã?, vai sacudir muito?". Meu colega disse que encarou o sujeito cabeçudo, que estava dentro de um Chevette velho com cara de poucos amigos, e resolveu deixar para lá. Acabou de abastecer.
     Não satisfeito, o sujeito continuou debochando: "Bota gasolina no porta-malas também, será que tem dinheiro pra pagar?". Meu colega disse que sentiu o sangue dando sinais de aquecimento, mas conteve-se em nome dos amigos do posto da Eduardo Prado onde é cliente antigo.
     Quando finalmente embarcou no táxi, Toninho contou que o homem colocou o cabeção para fora do Chevette e tascou um último desaforo: "Vai logo que o teu patrão precisa de dinheiro!". Meu colega disse que, então, estacionou o táxi e resolveu fazer o engraçadinho engolir as palavras. Partiu para cima do desaforado soltando fogo pelas ventas.
     Ao perceber que meu colega caminhava enfurecido em sua direção, o cabeçudo tirou os óculos que levava na cabeça, abriu a porta do Chevette e resolveu encarar. Toninho disse que gelou. O homem tinha jeito de brabo. Mas agora era tarde, estava resolvido a se atracar no sujeito. 
     Quando o homem "saltou" do Chevette, porém, o taxista disse que ficou espantado: o cabeçudo desaforado era um anão!
     Meu colega disse que não sabia se ficava brabo ou se ria diante daquele nanico saltando sobre as perninhas, punhos cerrados, querendo briga. Desconcertado, Toninho mandou o anão se catar e partiu para mais um dia. O tanque cheio e a paciência já esgotada.

domingo, 4 de março de 2012

Mil cavalos de força

O homem embarcou no meu táxi e pediu que eu parasse mais adiante, um pouco antes da esquina. No cruzamento à nossa frente, no meio da rua, meia dúzia de pessoas discutiam. O clima estava quente. Palavrões, gestos fortes. Pareciam a um passo da agressão física.O passageiro ao meu lado explicou o que estava se passando.
Meu cliente e outros dois homens que discutiam na esquina faziam parte de uma espécie de comissão de moradores. Eles já vinham havia algum tempo em atrito com os religiosos que depositavam seus despachos nas esquinas do bairro. Como não estavam vendo resultado, tinham decidido radicalizar. Partir para o confronto.
Assim que a discussão acabou, com o pai de santo e seus clientes batendo em retirada, o homem ao meu lado pediu que eu parasse o táxi na esquina onde seus dois companheiros recolhiam o despacho em um grande saco de lixo preto. A ideia deles era seguir o religioso e largar o material na frente da casa dele. A impressão de que eu estava me metendo em uma fria era clara.
Os cidadãos não deram ouvidos às minhas queixas. Assim que parei, os homens embarcaram correndo com o saco de lixo transbordando velas, quindins e sabonetes. Uma garrafa de cachaça teve de ser levada separada pois não tinha tampa. Meus clientes tinham pressa. Não podiam perder o carro do pai de santo de vista!
Acontece que o batuqueiro não era fraco. Tinha uma dessas camionetas importadas com mil cavalos de força. Na subida da Cristiano Fischer, meu táxi movido a pôneis malditos ficou para trás, perdeu terreno de forma humilhante. Só faltou os passageiros descerem para empurrar (muito triste contar isso), não sobrou nem rastro do religioso fujão.
A corrida de volta não foi das piores. Os cidadãos acabaram achando melhor que tudo acabasse daquela forma. Com a cachaça passando de boca em boca, eles chegaram à conclusão que aquela loucura toda não fazia mesmo muito sentido. Chegaram a filosofar que a perda de potência do meu táxi pudesse ser obra de Deus. Ou de algum Orixá, vai saber.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Como Maria perdeu um fã


Meu colega Eliseu não é um sujeito de todo mau. Ele até que conta umas piadas legais de vez em quando e atualiza a turma com as informações da hora, já que está sempre sintonizado nas rádios de notícias. O problema do Eliseu é quando ele começa a falar de horóscopo e novela. Ai tem que sair de perto.
A primeira coisa que Eliseu faz quando um passageiro embarca no táxi dele é perguntar o signo do vivente. De posse dessa informação, o taxista elabora toda uma previsão astrológica fajuta, misturando os astros sem o menor critério, com a cara de pau que Deus lhe deu. Um saco. Tem passageiro fugindo dele.
Mas são as novelas a grande paixão do Eliseu. Fim da tarde, passageiros brigando por um táxi, meu colega desliga o taxímetro e vai para casa curtir seus folhetins. Azar. Se de horóscopo ele não entende um ovo, de novela é preciso reconhecer: Eliseu é o cara.
De todos os artistas de novelas, meu colega nutria particular paixão por uma jovem atriz. Uma promessa da teledramaturgia que encanta os espectadores tanto por sua interpretação quanto por suas curvas sinuosas de quadris. Uma garota de traços libidinosos a qual chamaremos aqui de, digamos, "Maria". Mas essa paixão acabou mal.
Certo dia, Eliseu estava em frente a um hotel quando lhe apareceu à porta do táxi ela mesma, a própria Maria, em carne e osso! Queria conhecer a cidade. Deixou o trajeto a critério do Eliseu, que mal podia acreditar no que estava acontecendo. Com o coração aos pulos, meu colega ligou o taxímetro e partiu para a melhor corrida de sua vida.
Percorridos todos os pontos turísticos da capital, o táxi voltou ao hotel. Depois de tascar um beijo na bochecha do Eliseu que o deixou nas nuvens, a diva girou nos calcanhares e partiu rebolando. Meu colega chamou-a, perguntou se não estava esquecendo de nada (o taxímetro contava R$ 138).
Desculpando-se por sua indelicadeza, a atriz voltou, pediu uma caneta ao taxista, destacou uma folha do talão de cheques e escreveu no verso: "Obrigada por tudo. Um beijo, Maria".

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Três pingos a cada lampejo


Deixei meu parceiro Danilo pilotando o táxi e parti rumo ao litoral. Resolvi esticar o feriado de carnaval em uma prainha deserta, para desespero de minha filha adolescente. Nada de relógio, TV ou computador. Esta crônica, por exemplo, estou escrevendo à mão, sem editor de texto nem corretor ortográfico. Uma façanha!
Bem que tentei usar a única Lan House da prainha para escrever, mas a tarefa se revelou impossível. Os poucos computadores do lugar são monopolizados pelos adolescentes que, como minha filha, preferem o Facebook à areia. Sendo assim, desenvolvi uma estratégia própria para produzir esta crônica.
Vou cedo para a beira da praia, finco o guarda-sol, encho os pulmões de maresia e ponho-me a escrever na areia entre mariscos e tatuíras. Uso o celular da minha filha para fotografar cada grupo de frases, antes que alguma onda insensível leve-me as ideias. Com sorte, pela metade da manhã consigo elaborar um bom parágrafo. Feito isso, volto satisfeito à sombra do guarda-sol e ao livro que estou lendo do português António Lobo Antunes.
À tarde, chega a vez de transcrever as fotos para o papel (de pão). A tarefa precisa ser cumprida antes que anoiteça, pois a luz elétrica ainda não chegou à casa que aluguei para passar esses dias. Aqui, entre os cômoros de areia, o breu da noite só é rompido pelo brilho da lua e pelo flash do farol, que, além de orientar os navegantes, proporciona-me um lampejo de luz a cada 14 segundos.
A combinação mosquitos, pele queimada e calor não me deixa dormir. Insone, passo a madrugada ouvindo o gotejar da torneira do banheiro. Três pingos a cada lampejo do farol.
Caso você esteja lendo estas mal traçadas linhas na segunda-feira de carnaval, é porque consegui postar o papel de pão no correio a tempo de chegar ao jornal antes do fechamento da edição. Pode não ser uma obra-prima da literatura portuguesa, mas é o que consegui arranjar sem o Google por perto.
E neste carnaval, lembre-se: se beber, chame o Danilo!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Amor (nem tão) bandido


     Certas histórias, de certas passageiras, só uma taxista mulher vai ouvir. Ainda mais quando a taxista é a minha colega Luciane, uma espécie de Freud de saia. Eu não sei o que é que a Lu tem que as passageiras sentam no banco do táxi dela como se deitassem num divã. Aproveitam a corrida para desembuchar suas angústias.
     O caso que a Luciane me contou era de uma passageira de bom nível, executiva de um hospital, que apaixonou-se por um bandido. A mulher pegou o táxi aflita, estava indo para o presídio ver o que poderia fazer por seu namorado, um conhecido ladrão de bancos, que estava preso, sendo ameaçado de morte por seus colegas de cela.
     A passageira contou que havia conhecido o sujeito na sala de recuperação do hospital. Ela teve curiosidade de ver quem era o homem que merecia a vigilância de tantos policiais armados. A curiosidade evoluiu para o namoro que, inclusive, teria provocado o divórcio da mulher.
     Mas o papo de mulher para mulher no decorrer da corrida mostrou que aquele romance ia além do clássico caso de "amor bandido". A passageira confessou que a paixão ardente do início havia passado. Porém, agora, além de amante, ela tinha  virado uma espécie de administradora dos negócios que o ladrão possuía fora da cadeia. E ai morava o perigo.
     Ela precisava trocar o namorado de cela, salvá-lo da morte a qualquer custo. Segundo a passageira, sua situação era delicada. Ela havia contraído vários empréstimos, inclusive com agiotas, para pagar honorários de advogados e outras dívidas. Tudo seria pago em breve, quando o marginal progredisse para o regime semiaberto. Assim que deixasse o presídio, ele reaveria a fortuna que só ele sabia onde estava enterrada. As dívidas seriam quitadas e eles estariam ricos.
     A Luciane só me autorizou a contar essa história porque soube pela mídia que o tal bandido foi assassinado na cadeia. Ao que tudo indica, o meliante partiu deixando para trás uma mulher empepinada e uma bolada enterrada em algum lugar.
     É a vida.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O teste do café

Dia desses, parei em um ponto que estava vazio, no bairro Teresópolis. Eu era um "bocada", como costumamos dizer aqui em Porto Alegre. O largador do tal ponto perguntou se eu buscaria corrida solicitada pelo telefone - coisa que um bocada não é obrigado a fazer. Informei que sim.

O telefone tocou, o homem atendeu e ficou pensativo. Veio até meu táxi a passos lentos. Estávamos só eu e ele no ponto. Antes de me passar o endereço, ele confirmou se eu buscaria mesmo a corrida, pois aquela era uma passageira "difícil". Como não chegava nenhum táxi do ponto, ele mandou eu mesmo.

A passageira era uma mulher elegante. Trazia uma bolsa enorme e uma xícara na mão. Cumprimentei-a e ajudei-a a embarcar. Ela precisava ir até o bairro Santana, mas por um caminho alternativo, fugindo do movimento da terceira perimetral. Um trajeto sinuoso e acidentado, serpenteando por ruelas secundárias.

A xícara estava cheia de café, que a mulher ia bebericando pelo caminho enquanto conversava. Ela explicou que o largador do ponto estava orientado a enviar somente os taxistas que já tivessem passado no "teste do café". O teste consistia em levá-la por aquele caminho tortuoso sem que o café derramasse. Segundo ela, muitos não passaram na prova.

Outra exigência que ela fazia é que o taxista a cumprimentasse ao abrir a porta. Ela não abria mão de um cordial "bom dia". Fazia questão destas duas coisas: dizer bom dia e não virar o café. Não achava que estivesse pedindo muito. Por sorte, fui aprovado nos dois quesitos.

Ao desembarcar, a passageira se atrapalhou e deixou a xícara cair! Ela ficou paralisada observando a louça espatifar-se na calçada. Depois de soltar alguns palavrões, a mulher se recompôs. Falou que já havia mesmo cansado daquela xícara. Enquanto recolhia os cacos, disse que ia comprar um desses copos com tampa, pois já estava na hora de acabar com aquele estúpido teste do café. 

Ao despedir-se, sem a xícara e com um sorriso sincero, a passageira parecia bem mais leve e simpática.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pesadelos em uma noite quente​


A noite se arrastava abafada e úmida. Trinta e tantos graus sob as estrelas. Nos pontos de táxis, motoristas com o motor do carro ligado, vidros fechados, esperavam a próxima corrida dormindo dentro de seus paraísos particulares. Dane-se o preço do combustível. Eu rodava com o ar condicionado no máximo, quem quiser se refrescar que me faça sinal.
A passageira que embarcou não parecia se importar com o calor. Pediu que eu tocasse para a delegacia mais próxima. Voando, de preferência. Tinham ligado para o seu serviço. A polícia havia feito uma batida no condomínio onde ela morava. Haviam prendido seu marido. Ela não estava acreditando.
Enquanto rodávamos, ela fazia ligações. Tentava entender o que estava acontecendo. Por certo havia algum engano, seu marido era um homem de bem. Pai de dois filhos, bom marido. Só porque estava desempregado, porque moravam em um condomínio pobre. Estava cansada de ver a polícia "pedalando" as portas dos apartamentos. 
As ligações davam conta que acusavam o homem de envolvimento com o tráfico de drogas. Tinha sido levado algemado. A passageira não acreditava no que estava ouvindo. A pobreza não é crime. Sempre passou bons valores a seus filhos, sempre os manteve afastados das más companhias. Viviam de forma humilde, mas com dignidade. Limpos.
Depois de bater em duas delegacias sem sucesso, fomos ao palácio da polícia. Acompanhei a mulher até a porta. Estaria ali, caso precisasse continuar a corrida. Fiquei observando a cena. O marido estava algemado a um corrimão. Ao ouvir a mulher gritar por seu nome, o homem a olhou por um segundo e baixou os olhos. Culpado.
Depois de agredir o marido, a mulher foi contida pelos policiais, informada dos horários de visita no presídio e orientada a se retirar. Levei-a para casa. Ela só pensava no que dizer aos filhos. Estava arrasada.
Depois dessa, fechei o táxi e fui tentar dormir, encarar mais uma noite abafada, povoada por mosquitos e pesadelos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O que é que o baiano tem?


    O homem estava saindo do motel a passos largos, com uma lata de cerveja na mão. Atrás dele, tentando acompanhar seu rítmo, uma mulher. Quando viu meu táxi, o sujeito estendeu a mão, derramando um tanto de bebida. Parecia aflito.
     Ele embarcou apressado. Ficou irritado quando viu que a mulher havia entrado no táxi também. Estavam discutindo. Enquanto eu tocava em frente, o homem tentava me convencer que mulher nenhuma presta. Que a "fulana" que estava no banco de trás tinha ferrado ele. Segundo meu passageiro, a mulher devia ter colocado alguma coisa na bebida que fez com que ele dormisse até aquela hora da manhã - tinham entrado no motel na tarde do dia anterior. De tanto ser espinafrada, a mulher desceu na primeira sinaleira que paramos. Bateu a porta e se foi sem falar nada. O homem sequer olhou para trás.
     A preocupação do meu passageiro era qual desculpa daria quando chegasse em casa. Confessou que era um mulherengo incurável. Não resistia a um rabo de saia. Sua mulher já o teria prevenido que a próxima que ele aprontasse seria a última. 
     Não deu outra. Enquanto pagava a corrida, o porteiro do prédio o aconselhou a não dispensar o táxi pois seus pertences tinham sido depositados na portaria. Tinha ordens de não deixá-lo subir. A mulher não queria falar com ele nem pelo interfone. Aparentando calma, meu passageiro aceitou as determinações da mulher. Vamos nessa.
     Ele não tinha muita coisa: duas mochilas, um poster do Che Guevara e um violão. O passageiro contou que sua verdadeira mulher mora na Bahia, de onde veio para trabalhar nas obras da Arena do Grêmio. A mulher que acabara de despejá-lo, tinha encontrado em um baile, estavam morando juntos havia alguns meses.
     Deixei-o em um alojamento em Canoas onde foi recebido com festa por outros trabalhadores baianos. Pelo visto, os peões o tinham como ídolo. Um baiano arretado, bom com o violão e com as mulheres, segundo garantiram. 
     Sei lá. Não o vi tocando o violão.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Terrível lembrança de um acidente

Com a violência da colisão, o taxista perdeu a consciência. Quando voltou a si, o táxi já havia parado de capotar. Tudo em volta estava quebrado, o táxi virara um monte de ferro retorcido. Vidros quebrados, teto esmagado, taxímetro pendurado. Para não dizer que a perda tinha sido total, o rádio ainda funcionava.
Em estado de choque, esmagado entre as ferragens que lhe perfuravam a carne, o taxista sequer tentou se mexer. O sangue quente lhe escorria pela face. O volante prensava seu peito, as costelas, provavelmente quebradas, impediam que seus pulmões funcionassem direito. Não sentia as pernas, a cabeça girava. Sentiu que estava morrendo.
Alguns minutos de agonia se passaram até que o socorro chegasse. Primeiro alguns pedestres, que o olhavam horrorizados, depois os paramédicos. O taxista sentiu-se o centro das atenções, coisa que nunca conseguira em toda sua vida sem graça. Quase ficou feliz. 
O socorrista fazia o que podia. Tentava acalmá-lo. Parecia experiente. Não devia ser a primeira vítima que via morrer entre as ferragens frias de um carro estúpido. Enquanto recebia medicação na veia, enquanto tentavam desentortar o aço que lhe prendia as pernas, o taxista fez apenas um pedido: que desligassem aquele maldito rádio, para que pudesse morrer em paz. E depois apagou.
Acordou 7 dias depois na UTI de um hospital. Estava todo estoporado. Cabeça enfaixada, braços engessados, tubos espetados por todo corpo. Doía-lhe tentar se mexer, mesmo assim fez alguns pequenos movimentos com pés e mãos, para certificar-se de que não lhe faltava nenhum pedaço. Estava inteiro.
O enfermeiro sorriu ao vê-lo acordado. Perguntou se lembrava o que tinha acontecido.
Do acidente, o taxista lembrava apenas uma coisa. O rádio ligado. A maldita música que estava tocando e que ficou ecoando em sua cabeça pelos 7 dias em que esteve em coma, e ainda agora o infernizava: Delicia, delicia assim você me mata/ Ai, se eu te pego, ai ai se eu te pego......

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um lindo Picasso preto!


     A mulher era uma loira turbinada, apresentadora de um programa de tevê de um desses canais comunitários que ninguém assiste. Ela recebeu uma verba do produtor do tal programa (seu marido) para comprar um carro, que serviria para as reportagens. E lá foi a loira para a região dos picaretas de automóveis.
     Ela entrou em uma loja de carros usados que fica ao lado de um motel. Depois de fechar negócio, a loira saiu da revenda exultante. Depois de caminhar um tanto pela calçada, resolveu pegar um táxi. Quando fez sinal, estava bem em frente ao motel, por isso a confusão. Tão logo embarcou no táxi, ela iniciou uma ligação para contar ao marido que tinha comprado o carro. A conversa ao telefone, da loira que pegou o táxi em frente ao motel, foi mais ou menos essa:
     - Oi, amor, nem sabe, fiquei com o Picasso preto! Aquele que estava namorando na internet... Ao vivo ele é muito mais lindo, cheiroso,  enorme, muito potente! Tu sabe como é que eu sou, né?, tu sabe que eu me apaixono mesmo... Deu vontade de não sair mais de dentro dele, amor!
     Quando o taxista perguntou se ela fazia programa, a mulher ficou admirada. Finalmente havia encontrado alguém que conhecia seu programa, naquele miserável canal de tevê que ninguém assiste. 
     Comigo aconteceu algo semelhante. Uma mulher com uma roupa justa e o rosto carregado de botox embarcou no meu táxi falando ao celular. Ela afastou por um segundo o aparelho da boca para dar o destino da corrida, que eu entendi como sendo "Motel Sharewood" - um bom motel da zona leste da capital.
     A conversa que ela continuou ao telefone, porém, acabou mudando a primeira impressão que tive da minha passageira. Ficou claro que ela não era nenhum tipo de prostituta, nem estava indo para nenhum motel. Eu tinha entendido mal. Ela era uma empresária e estava indo para o melhor hotel da cidade: Hotel Sheraton! Por sorte, desviei para o destino certo antes que ela  percebesse o mal-entendido.
     Nossa mente suja é o problema.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ela só pensa naquilo


Fazia muito tempo que eu não levava uma cantada no táxi. Com o passar dos anos, o avanço da calvície, o branquear dos cabelos que restaram, enfim, as mulheres já não me olham como antes. A postura profissional também ajuda a manter a distância. Não costumo misturar as coisas. Seja como for, a cantada me surpreendeu.
     Parei o táxi com a porta traseira exatamente onde a passageira estava parada, mas ela pediu que eu voltasse o carro, para que embarcasse na frente, ao meu lado. Ela não queria estragar as unhas, pediu que eu abrisse a porta, a ajudasse com o cinto de segurança. Tive quase que abraçá-la para pegar a fivela. Vamos lá.
     A passageira contou que detestava Porto Alegre. A cidade grande, a correria, os homens afrescalhados - foi nesse ponto que a conversa começou a ficar estranha. Enquanto reclamava dos homens que não olhavam mais para ela, pousou sutilmente a mão em minha perna. A princípio achei que fosse um gesto carinhoso. Deixa estar.
     Minha cliente contou que havia "matado" dois maridos. O primeiro teria morrido com apenas 5 meses de casamento. O segundo, teria durado 2 anos. Desde então, não teria mais arrumado um homem que prestasse. Queixou-se que, de uns anos para cá, ninguém mais queria saber dela. Nesse ponto, dei um jeito de tirar sua mão da minha perna.
     Com os olhos de malícia ampliados pelos óculos de lentes enormes, ela perguntou se eu era casado, se eu traía minha mulher, esse tipo de coisa - sempre pontuando a conversa com variados tipos de palavrões. Dei um jeito de satisfazer a curiosidade de minha passageira com o mínimo de intimidade. Ela ficou desapontada quando recusei-me a fornecer meu número de celular.
     No final da corrida, qual uma Dercy Gonçalves dos pampas, ela pediu que eu alcançasse sua bengala, que, segundo ela, era a única coisa dura que pegava havia muitos anos (!). Fiquei impressionado quando ela me revelou sua idade: 93 anos. Se tivesse perguntado, eu lhe daria, no máximo, uns 92.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Uma história sem moral

Não foi difícil calcular a idade da minha passageira: ela disse que se prostitui desde os 12 anos de idade e que trabalha nisso há 50 anos. Sessenta e dois, portanto. Ela estava indo ao médico. Disse que tem uma grave doença que a está deixando cega. Confessou, no entanto, que isso não a impede de trabalhar pois passa a maior parte do tempo de olhos fechados mesmo. Disse que não se interessa pela aparência dos seus clientes.
Depois de trabalhar nas melhores casas noturnas da cidade, onde era uma das acompanhantes mais requisitadas, ela contou que agora faz ponto na rua, à beira da Avenida Borges de Medeiros, "há 30 anos embaixo da mesma árvore". Foi mãe cedo, quando teve um caso com um jovem jogador de futebol, que mais tarde tornou-se um megaempresário do esporte. Minha passageira disse que orgulha-se de ter o nome dele na certidão do filho, mas que nunca pediu-lhe um centavo por isso.
Pode ser apenas uma prostituta decadente querendo impressionar um taxista, mas a mulher me pareceu verdadeira.
Por outro lado, temos uma passageira no nosso ponto que se relaciona com 2 homens casados, mais velhos. Há cerca de  2 anos ela engravidou provavelmente de um terceiro namorado, um jovem drogadito com quem anda sempre. Agora, a mulher explora seus amantes casados fazendo cada um deles acreditar que é o pai da criança - situação que eles aparentemente aceitam.
Dia desses, ela pegou meu táxi. Passou no emprego de um dos "pais" que lhe abasteceu de dinheiro. Depois, fomos até uma loja onde o outro "pai" a esperava com uma tevê de plasma na caixa. Sempre com o filho no colo, ela mandou que enfiassem a televisão no táxi e levou direto para o jovem delinquente, que deve trocar o aparelho por drogas.
O pior é que ela ensinou a inocente criança a chamar os 3 homens de pai, o que soa ridículo ao ouvido do taxista que a leva de um endereço ao outro.
Deve haver alguma moral nessas duas histórias, só não sei onde está.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O homem que arrastava os pés

Aconteceu que eu peguei uma corrida longa, para a zona norte. Para não voltar rodando vazio, resolvi parar em um ponto, que estava vago por lá. Abri a porta do táxi, reclinei um tantinho o banco e relaxei, apreciando a paisagem. Foi quando cruzou em frente ao meu táxi o mendigo que arrastava os pés.


Era um desses típicos moradores de rua. Roupa encardida, barba longa e um charuto apagado no canto da boca. Levava um saco nas costas e um colchonete enrolado embaixo do braço. O pobre homem tinha um companheiro, um cachorro de raça indefinida. O bicho se deixava levar atado à cintura do mendigo. 
Como já disse, o homem arrastava os pés. Ele calçava uns sapatos muito grandes. Mas muito grandes mesmo. Deve ter herdado de algum jogador de basquete. A fim de não perder os pisantes, o mendigo arrastava os pés como se estivesse patinando no gelo em câmera lenta.
Inspirado na cena, comecei a rascunhar uma crônica sobre essas figuras folclóricas que toda cidade grande tem. Pessoas que vivem em seus universos particulares. A moça que acha que é dona de Porto Alegre e anda pela rua vestida de rainha; O garoto que corria pela avenida Nonoai dirigindo um carro imaginário do qual, na verdade, só tinha o volante; A mulher que acha que é agente de trânsito e vai para os cruzamentos apitar...
Estava distraído, escrevendo essas coisas, quando bateram na janela do táxi. Era o mendigo que havia voltado. Com o charuto balançando perigosamente entre os lábios, ele perguntou se eu poderia trocar R$50. Achei engraçado e resolvi entrar na brincadeira. Disse que sim.
O homem, então, tirou do bolso um feixe de notas de R$50. Novinhas. Devia ter mais de mil reais! Ele escolheu, com cuidado, uma entre todas as notas (talvez a menos nova) e me passou. Devolvi o dinheiro trocado. Ele agradeceu, guardou o dinheiro sem conferir, resmungou alguma coisa para o cachorro e se foi - arrastando os pés para não perder os sapatos.
A cidade não cansa de me surpreender.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Homens e outros animais domésticos

A passageira me reconheceu quando entrou no táxi. Ela refrescou minha memória. Havia feito uma corrida muito tempo atrás. Tinha praticamente se jogado na frente do meu carro. Estava desesperada pois tinham ligado para o serviço dela dizendo que seu gato estava pendurado na sacada do seu apartamento, prestes a se esborrachar no chão.

Lembrei-me da corrida. Foi uma correria danada. Lembrei que ela havia dito que não era a primeira vez que o gato caía da sacada. Para evitar outro acidente, tinha colocado uma rede de contenção, mas de alguma forma o bicho tinha passado para fora e estava pendurado. Lembro que chegamos em frente ao prédio e o gato não estava mais lá. Ela, então, pagou a corrida e saiu correndo condomínio adentro.
Desta vez a mulher estava calma, descontraída. Falou que acompanhou por algum tempo minha coluna do jornal para ver se eu contaria a história da corrida para salvar um gato. Contou que o gato havia sobrevivido à queda da sacada, mas que, algum tempo depois, fora devorado por um pitbull. Ao que parece, esgotaram-se as 7 vidas do animal. 
Minha passageira contou que, depois do episódio do gato, tinha tentado ainda outro animal de estimação. Ela teria comprado um pequeno roedor, mas o bicho também tinha morrido de forma trágica. O animal teria roído o fio do ar condicionado e levado um choque de 220w. Depois do churrasquinho de Hamster, ela disse que encerrou sua relação com a bicharada.
Espirituosa, a mulher disse que, no momento, tem dedicado sua atenção a um outro tipo de gato: um certo motorista de ônibus que faz seu coração bater mais forte. Um verdadeiro gatinho, segundo ela. 
Fui obrigado a concordar com minha bem-humorada passageira. Realmente, o bicho homem, quando bem tratado, é um animal doméstico dócil, que não causa maiores problemas. Por via das dúvidas, no entanto, aconselhei minha cliente a manter a rede de contenção na sacada. A liberdade é a pior tentação.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Perfume de mulher

Minha passageira era uma morena de parar o trânsito: pernas longas como esperança de taxista, cabelos cacheados e sedosos caindo sobre os seios fartos que a blusa mal conseguia conter. E foi justamente em um destes seios que a beldade foi buscar o dinheiro para pagar a corrida.                      
Em um gesto rápido, ela soltou um botão e a blusa abriu-se aliviada, ampliando ainda mais o já generoso decote. Com habilidade cirúrgica, a morena afastou o soutien até o limite do aceitável e tirou de lá o dinheiro - todo o processo acompanhado em detalhes por meu olho vidrado.
Cheguei no ponto contando vantagem, todo prosa. Mostrei, inclusive, a cédula passada pela morena, que guardei na carteira, entre meu dólar da sorte e o trevo de quatro folhas. Meu colega Biela, no entanto, fez pouco caso. Disse que teve um caso semelhante, porém bem mais cabeludo. No caso do Biela, o furo é mais embaixo.
Meu colega contou que sua passageira também era linda como a flor que nasce entre as pedras. Igualmente morena. Mas estava sem dinheiro. Chegando ao destino da corrida, em uma vila pobre, ela chamou pela mãe, uma mulher gorda, suada, que estava sentada na calçada fumando e limpando as unhas com uma faca. Um vira-lata sarnento observava a cena. 
Ao ver a filha chegar no táxi, a mulher, sem a menor cerimônia, esticou a cintura da calça e enfiou a mão dentro da calcinha, na parte da frente, lá no fundo, e tirou de lá uma nota de R$10 para pagar a corrida. Segundo Biela, a cédula cheirava mal e tinha um aspecto "viscoso", como se estivesse guardada lá por algum tempo.
Com o estômago embrulhado, meu colega disse que foi obrigado a aceitar a nota, já que era a única de que a gorda dispunha. Pediu que a mulher jogasse o dinheiro sobre o banco do táxi e partiu. Biela contou que deixou a cédula ali por algum tempo, pegando um ar.
Biela disse que usou a tal nota para comprar um aromatizante para o carro. Já a minha carteira segue naturalmente perfumada.