domingo, 11 de fevereiro de 2018


Depois de 16 injeções na bunda combatendo uma infecção urinária, o padre reclina todo o banco do táxi, viaja praticamente deitado. Com as nádegas em petição de miséria, ele pede que eu evite os buracos. Missão impossível. A cada mínima trepidação, o pároco geme e excomunga o atual prefeito, que não cuida da pavimentação:
- Maldito seja.
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Imagine um homem muito irritado. Tentando transmitir ao taxista sua irritação, desabafar, relatar seu problema, na tentativa, quem sabe, de diminuir sua raiva. Acontece que esse passageiro é daquelas pessoas que teve algum problema sério na garganta, laringe, câncer, sei lá, então fala com a ajuda de um aparelho que encosta no pescoço, o que lhe confere uma voz robótica, por vezes incompreensível. Numa longa corrida, em que ele "falou" sem parar, suando e gesticulando, o que consegui compreender, resumindo, foi o seguinte:
O homem passou o dia com dor de dente, muita dor. Não resistindo à dor, no fim do dia, resolveu ir a um dentista. O tal dentista, depois de examiná-lo, aplicou-lhe uma anestesia e arrancou seu dente. Durante a noite, passado o efeito da anestesia, o dente voltou a doer. Doer muito! Foi-lhe arrancado o dente errado!
Imagine contar essa trágica história num táxi em movimento, possuído pela raiva, mistura de Darth Vader com Pato Donald, tentando fazer-se compreender, desferindo tapas na própria perna, sapateando e jurando um dentista de morte. Nada fácil.
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- Taxista, alguém perdeu algo aqui no banco traseiro do seu táxi.
- O que é?
- Tá aqui no cantinho, às suas costas, parece ser uma Esperança.
- As pessoas tem mesmo perdido muito a Esperança...
- Ela é antiga, por certo, mas parece bem alimentada.
- Sim, as pessoas alimentam Esperanças. Deve ter sido perdida por uma passageira idosa que transportei antes da senhora. Agora estou lembrando, ela inclusive comentou que iria votar nulo nas próximas eleições.
- Tadinha, é triste perder a Esperança.
- Fazer o que?
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Atenção você, passageiro que pegou meu táxi agora há pouco, saindo do Sheraton, falando indignado ao celular, reclamando do representante de Abu Dhabi que não comprou seus diamantes por as pedras não terem procedência lícita, você que pedia pelo telefone que reservassem o vôo para a China, que confirmassem com o contato do submundo chinês de pedras preciosas que você estava indo pessoalmente a Pequim levar as gemas valiosas, que aceitava o preço da máfia asiática, você que usava perfumes caros, um celular dourado enorme e que parecia não notar a existência do taxista. Atenção, eu tenho duas más notícias para você.
1- taxistas existem, são pessoas e tem o péssimo hábito de prestar atenção no que seus passageiros falam.
2- você esqueceu no meu táxi um estojo de veludo com um conteúdo que talvez lhe interesse reaver - a menos que o amigo tenha colocado dentro dele os cacos que recolheu de um parabrisa quebrado.
Contato no privado.
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- Rodoviária, taxista, voando, tô atrasada!
- OK.
- O senhor não se importa de irmos pelo meu aplicativo? Esses dias, um táxi queria fazer uma volta enorme.
- A senhora pode escolher o caminh..
- Eu já estou abrindo aqui o google maps... ai meu celular tá travado, iniciando... procurando rede, ai taxista, ai, ai, ai, dá pra ir tocando?
- Acho que lembro o caminho.
- Essa conexão da Vivo tá uma porcaria, busca, ro-do-vi-a-ri-a, buscando... clica, calculando rota, espera, não, essa rodoviária é de Balneário Pinhal! meu Deus! clica, ro-do-vi, vai tocando, senhor, vejamos aqui, buscando... "deseja qualificar nosso aplicativo?", mais tarde, agora não, "atualizar o Google Maps", nova versão, não, agora não, não atualizar.
- Será que chove?
- Pronto! achou! "estamos prontos", "dirija com cuidado", "vamos começar", "em 300 metros dobre à esquerda".
- Mas a rodoviária fica pra direita!
- Eu sei que fica pra lá, mas, droga, o app... tá acabando minha bateria, "recalculado rota", "dirija com cuidado", o senhor tem carregador pra iPhone? não?, eu tô atrasada, pelo amor de Deus, senhor! "recalculando rota", modo economia de energia, ok, "dirija com cuidado", "acenda os faróis", "preserve o meio ambiente", PRO INFERNO O MEIO AMBIENTE! o senhor tem carregador, taxista, tem carregador??
- Vinte Reais.
- Pra carregar o celular?
- O valor da corrida, R$20, chegamos na rodoviária.
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Duas corridas, cinco livros vendidos.
#ChupaPauloCoelho
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Você, que fez uma corrida de R$8 no meu táxi e pediu um recibo de R$120. Você mesmo! Dei uma boa olhada no seu Facebook. Quanto post bonito pregando decência e moralidade. Quanto textão criticando políticos, corruptos. Que reputação mais ilibada a sua, hein?
Coisa linda.

PS: forneci recibo de R$8.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Santa Corrida

Enquanto parava o táxi, analisei melhor a dupla na calçada, que solicitava meu serviço. Uma mulher, na casa dos 60, baixinha, gordinha, vestido antiquado. Junto dela, um cara mais novo, gordinho também, mas estilo bem diferente: fones de ouvido roxos, enormes, óculos fundo de garrafa, camiseta de torcida organizada e bermudão. Enquanto a mulher fazia sinal para meu táxi, o cara se sacudia como se estivesse tirando um solo em uma guitarra imaginária, cabeça jogada pra trás, olhos fechados, mó viagem. Ela embarcou pela porta traseira, com dificuldade nas pernas enquanto ele sentou-se na frente, ao meu lado. Centro da cidade.
Por conta dos fones com volume muito alto, o gordinho falava comigo aos berros. Desconfiado de sua próstata, ele queria saber de mim quantas vezes levanto à noite para urinar, quantas vezes seria o normal, ele diz que chega a ir três vezes ao banheiro em uma noite, mija aos pingos, blá, blá, blá... tudo isso aos berros. A mulher, por sua vez, apenas observava o movimento. Até aí, tudo bem, o problema foi na hora de pagar a corrida.
- Deu treze, mãe, treze Reais. Paga aí, eu só tenho 10 pilas aqui.
- Paga tu, eu só tenho 50 Reais. Paga a corrida.
- Só tenho dez, mãe.
- Como assim só tem 10? E o dinheiro que eu te dei?
- Paga aí, mãe. O taxista tem troco.
- Mas eu te dei dinheiro, Jair! Tu está dando o teu dinheiro praquela vagabunda, Jair? Não me diz que tu está sustentando aquela piranha, Jair!
- Que piranha, mãe, paga a corrida.
- E o dinheiro que eu te dei, Jair? Te dei 50 Reais, Jair!
- Isso foi semana passada, mãe, comprei remédio.
- Que remédio, Jair, tu está saindo com aquela lambisgoia de novo, aposto que está sustentando aquele filho dela, aquele filho não é teu Jair, ela te engana, te passa pra trás, Jair, tu não está vendo, meu filho! Não é possível!
- Em casa a gente conversa, mãe, paga a corrida, o taxista tem que trabalhar.
- Paga tu, Jair, te dei dinheiro, Jair.
Como a coisa não desatava, aceitei os 10 pilas do Jair, tudo bem, deixa assim. Ele se desculpou aos berros - o rock'n roll ainda explodindo nos fones de ouvidos. Aparentando culpa no cartório, Jair ainda tentou ajudar a mãe a desembarcar do táxi, gentileza que ela dispensou aos tapas e xingamentos. De posse dos meus suados dez pilas, desliguei o taxímetro e parti pra outra. Já era.
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Uma mulher nua faz sinal para meu táxi. Ela embarca no carro completamente nua, sequer um anel que lhe cubra parte de um dedo. Nada. Como veio ao mundo. Quando vou arrancar o táxi, a mulher lembra que esqueceu de algo e pede que eu espere um instante. Ela entra em casa e volta em um minuto ainda totalmente nua, mas com o cabelo preso. Quando finalmente partimos, ela exclama aliviada:
- O senhor acredita que eu já ia saindo de casa sem tiara?!
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Hard news
Acaba de acontecer
Táxi requisitado para Socorro. Homem baleado no abdômen, sangrando (uma toalha encharcada de vermelho tentando conter o sangramento). Alta velocidade, gritaria, pânico. Tentativa de assalto (o carro dele, crivado de balas, ainda deve estar obstruindo a Bento Gonçalves neste momento). Desceu do táxi na emergência do HPS consciente, caminhando, desejei boa sorte. Capa do banco traseiro do táxi retirada para lavagem.
Vida que segue
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Segundo me contou, ela queria apenas pintar o cabelo, ajeitar as unhas, dar um tapa no visual. E comer uma fatia que fosse de melancia. Restrições alimentares, açúcares, taxa de glicose, tempo de protombina e outros enigmas cientificos, ela falou que queria apenas uma inocente fatia de melancia, e uma luz mínima no cabelo que lhe permitisse encarar a morte de frente, redimida por uma mecha de beleza e um resto de paladar. Peguei-a no salão de beleza, aberto só para atendê-la, àquela hora da madrugada, "pra quê servem as amigas". A melancia já tinha comido, o cabelo chapado, iluminado, zero cutículas, dizia-se pronta para encarar seus 50% de chance, enfrentar uma cirurgia de mais de 10 horas, isso, claro, se a aceitassem de volta ao hospital de onde ela tinha fugido no fim da tarde, na troca de plantão da enfermagem. Sentia-se mais forte, agradeceu-me a paciência de escutá-la, taxistas nem sempre se preocupam. Desceu do táxi segurando o suporte de metal, a bolsa de medicação pendurada, quase vazia, injetada em seu braço, a camisola aberta nas costas deixando a bunda à mostra, que se dane, logo o dia amanheceria, uma mesa de cirurgia a esperava, a chance de não ver novamente a luz do sol, cinquenta por cento, a ideia era entrar no céu causando, se fosse o caso, cabelo pintado e o bico doce. Entrou pela porta do hospital sob olhar curioso do vigia, que, na dúvida, achou melhor deixá-la passar antes de começar as perguntas. Depois de uma passageira dessas, restou desligar o taxímetro e procurar o sono.

sábado, 27 de janeiro de 2018

- Taxista, quero que o senhor me leve ali onde a gente doa sangue, no hemofílico, hemofóbico...
- Hemocentro?
- Esse aí.
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Começo a corrida com uma passageira e termino com outra: a arte da maquiagem num táxi em movimento é para poucas.
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A mulher tinha uma criança no colo, uma bolsa pendurada no ombro e tentava se proteger da chuva que resolveu cair pesada (nível cataratas do Iguaçu) no exato momento de embarcar no táxi. Abri a porta o mais que pude e ela se jogou.
A criança carregava um brinquedo tipo uma mola colorida, que enganchou no trinco da porta, a bolsa abriu-se despejando uma papelada sobre o banco, o guarda-chuva made in china resolveu não fechar, trancou aberto, jogou água por tudo, a chuva despencava maciça, grossa, criança, mulher, papelada, táxi, tudo absolutamente encharcado, molhaçada completa, criança chorando, mola arrebentada, papéis amassados, guarda-chuva jogado fora, palavrões proferidos em abundância.
Quando finalmente conseguiu fechar a porta do táxi, o cenário do banco traseiro era de guerra, Líbia pós-bombardeio, tsunami no Japão. Enquanto tentava salvar seus documentos, consolava a criança, secava os óculos, organizava a bagunça, a mulher pediu que eu tocasse para o Fórum, vara de família.
- Problemas.
- Problemas, taxista. E essa chuva é o menor deles.
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- Taxista, desculpe eu lhe perguntar, mas o senhor não teria um comprimido de Viagra para me vender?
- Não senhor, lamento. Estou desprevenido.
- Certo, certo. Dê uma paradinha ali na farmácia, então, por favor.
- Pois não.
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Imagine que você é um taxista, que está no seu ponto, pensando na morte da bezerra quando visualiza o seguinte grupo de pessoas vindo pela calçada em direção ao seu táxi:
Na frente, caminhando decidida, uma anã, turbante na cabeça e muitos colares (guias de umbanda) pendurados no pescoço. Ela veste uma saia diminuta, que deixa à mostra suas perninhas cobertas com meias arrastão e suas sandálias tipo plataforma.
Atrás dela, dois homens enormes, brutamontes vestidos de branco dos pés às cabeças, carregam uma mulher aparentemente tonta. Com a cabeça baixa, os cabelos cobrindo o rosto, a mulher se deixa levar pelos homens, braços dados à força, os pés meio que arrastando.
Você, então, olhando aquela cena bizarra, vendo que aquelas pessoas pretendem embarcar no seu táxi, pensa com seus botões de taxista: eu devo ter feito alguma coisa em vidas passadas, colado chiclete na cruz, sei lá, devo estar pagando algum pecado. Com tanto táxi pela cidade, não é possível que isso só aconteça comigo.
Sentada no banco da frente, a anã, Mãe de Santo, indica o caminho do seu terreiro. Depositada no banco traseiro, ainda segura pelos dois homens, a mulher parece aceitar seu destino: quieta, apenas a respiração pesada, ruidosa escapando pelas narinas. Tudo parecia levar a uma corrida tranquila, até que, passando em frente ao Palácio Piratini, o encosto da passageira resolve se manifestar.
"EU VOU MATAR TODO MUNDO! EU VOU MATAR TODO MUNDO! VOU MATAR!"
A mulher esperneando, os homens cuspindo palavrões, a anã jogando suas guias, mandando acelerar, um grupo de sem-terra que pretendia invadir o Palácio cercando o táxi com suas bandeiras vermelhas e gritos de fora Sartori, pernadas, suor, a anã tentando acender um charuto, "VOU MATAR!", segura, puxa, acelera, CUT, MST, megafone, saravá, afoxé, acelera, meia arrastão rasgada, buzina, plataforma voando, passa por cima, toca, "TODO MUNDO!"...
Então você pensa que mais de três décadas ao volante de seu táxi talvez já tenha sido o bastante, pensa que talvez você já tenha visto tudo o que tinha pra ver, que talvez já seja tempo de parar. Mas, a cada nova corrida, o mundo insiste em te convencer do contrário.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Amanhecendo o dia, um clube noturno solicitando táxi. O segurança traz uma jovem em estado avançado de embriaguez. Ela vomita antes de ser depositada no meu carro - isso é bom, uma coisa a menos pra me preocupar. Em um resto de lucidez, ela me informa o endereço e mostra o dinheiro. Vambora.
Chegando no local indicado, a jovem não parece ter forças para descer. Desliga o táxi, ajuda, upa, arrasta. Ante a porta do prédio, minha passageira se abraça em mim e começa a chorar. Confessa que não mora mais alí. É a casa do seu ex-marido, começa a contar uma história enrolada que não tenho interesse em ouvir. Volta pro táxi.
Antes de cair num limbo de inconsciência, misto de álcool e depressão, ela informa seu verdadeiro endereço. O sol, já alto, ilumina o rosto borrado de maquiagem e desamparo.
Finalmente na casa certa, atende ao interfone uma voz de criança. Aparentando uns 10 anos, o garoto examina a jovem estirada no banco traseiro do táxi. É sua mãe. Ele vai abrindo as portas, eu a levo no colo até a cama. Surpreendentemente maduro, o garoto paga a corrida desculpando-se. Não deve ser a primeira vez e ele parece intuir que não será a última.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Rodava despreocupado quando a passageira, do nada, abriu as janelas traseiras do táxi.
- Estou com o ar condicionado ligado, senhora.
- Já vou fechar, taxista. É que soltei um peidinho.

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Sujeito fumando na calçada faz sinal pro meu táxi. Depois de uma última tragada, ele embarca com as bochechas infladas, segurando as narinas, apagando a bituca que sobrou do cigarrarinho artesanal.
- O senhor continue aqui pela... pela... pela...
- Riachuelo.
- Pela Riachuelo, e dobre passando o hotel... hotel... o... o...
- Grande Hotel.
- Isso, passando o Grande Hotel, desça a... a... a...
- Caldas Júnior.
- Essa mesmo, a rua do shopping... shopping...
- Shopping Rua da Praia.
- Eu vou ficar ali na Casa de Cultura...
- Mário Quintana.
- Isso aí, taxista.
- Algum evento lá?
- Palestra sobre os efeitos da maconha no cérebro humano...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


Vovozinha fofa, de bengala, anágua rendada espiando por baixo do vestidinho azul meticulosamente passado a ferro, cabelo arranjado em um coque. Arriscaria uns 100 anos. Pra quebrar o gelo, arrisquei um tema que sempre funciona com passageiros dessa idade:
- E esse calor! Que coisa, não?
- Credo, nem está tão quente, o senhor parece velho reclamando do clima.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Taxista, essa elegância toda não é à toa, eu preciso estar bem apresentada, faz parte da minha atividade, esse corpão também, horas de academia, Crossfit, malhação, a roupa justa ajuda a salientar as curvas, curvas, as curvas são importantes no que eu faço, mesmo que não haja contato físico, e na maioria das vezes não é necessário, mas eu lido com libido, com imaginação, trabalho o desejo, curvas são importantes, disparam a libido, assim como o perfume, por que o senhor acha que uso essa fragrância caríssima?, o olfato tem poder, taxista, ele mexe com a cabeça dos homens, cremes, pele perfeita, mesmo que não haja o toque, pele de pêssego é importante, tez morena, pelos oxigenados, maquiagem, batons, cílios longuíssimos, cabelo sedoso, vale tudo, taxista, vocês homens são bichos complicados, o visual conta muito pra vocês, o senhor me entende, quando se trata de intimidade, de mexer no que há muito tempo não é mexido, me chamam, não tem nada de científico no que eu faço, é química, mas química de sentimentos, alma, é sensorial, precisa conexão com o cliente, o senhor pode me deixar ali em frente àquela clínica, na placa verde onde diz fertilização humana, ali mesmo, o que eu faço poucas são capazes, taxista, é por isso que me chamam, todas as clínicas de fertilização tem meu número, existe uma forma cirúrgica, digamos assim, de coletar esperma de homens mais maduros, mas nem todo o paciente lida bem com esses procedimentos invasivos, os médicos sabem disso, sabem que nada substitui a mão humana, digamos assim, é um trabalho especializado, que não se aprende na escola, não existe curso ensinando, Técnica Acompanhante em Coleta de Esperma, não tem essa profissão, por isso eu cobro caro, eles pagam porque o resultado vem, não adianta mandar o paciente para um banheiro com uma revista pornô e um potinho na mão, nem vídeo no smartphone, esses senhores maduros não funcionam com touchscreen, velhos querem tocar a pele, taxista, touch skin, mas não necessita contato, no máximo um carinho, um sussurro, um hálito de Baton, um decote, um insinuar de langerie, homens são visuais, é a imagem que conta, por isso a elegância, a roupa justa, o senhor entende, por isso eles me chamam, a Sônia aqui acha as células reprodutivas masculinas mais encabuladas, trás à luz o espermatozóide mais tímido, menos provável, isso mesmo, o senhor pode me deixar aqui, na placa verde, quando deu a corrida, é o valor do taxímetro, não é?, a clínica paga, eles pagam bem, homens maduros tem dinheiro, a Sônia aqui entende, enche o potinho, faz o que tem que ser feito, taxista, o senhor me entende, arredonde o valor, eles pagam, passar bem taxista.


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Na infinita privacidade de um táxi em movimento, meu passageiro confessou-se preocupado. Prestes a levar sua nova namorada pra cama, na hora dos finalmentes, não sabe qual será a reação da moça ao notar o "problema" na sua perna - levantando a bainha da calça, revelou a tornozeleira eletrônica, nada discreta, nada sensual.

O amor e seus desafios.

sábado, 11 de novembro de 2017

Cair da tarde, um temporal se armando, relâmpagos, trovões, eu manobrando o táxi em um beco complicado, altos da Conceição Degolada, zona conflagrada, tensa, uma moto para de repente, freada brusca, quase encosta na porta do táxi, o motoqueiro bate no vidro, faz sinal para que eu abra a janela, o dia virando noite, a chuva chegando, o motoqueiro, o beco estreito, a escuridão, o medo, já era, vou morrer, o olho arregalado, coração acelerado, assalto, pânico, baixo o vidro, já vendo o dinheiro, o celular, pode levar tudo, mas o motoqueiro parece perdido:

- Amigão, sabe onde fica a mulher que faz aborto aqui na vila?
- Ã? quê? Aborto? o quê?
- Tu conhece aqui? A velha que faz aborto, tu sabe? conhece?
- Velha? Não, não, só tô largando uma corrida... não, não sei… eu...
- Putz, deixa pra lá.

O motoqueiro acelera, engata a marcha, só então percebo a garota na garupa da moto, ela está agarrada à cintura do rapaz, pelo vão do capacete, por uma fração de segundo, é possível notar seus olhos miúdos, angustiados, uma fração de segundo, o olhar da menina parece procurar respostas, onde eu estou metida?, o motoqueiro, a menina, a velha aborteira, não sei, estou só manobrando o táxi, a chuva cai pesada, o dia vira noite, o motoqueiro arranca, eu acelero, relâmpagos, a moto desce o beco, procuram a velha, procuram respostas, eu solto a respiração, trovões, procuro entender, procuro a saída, volto pro asfalto, desligo o rádio, desligo o taxímetro, respiro fundo, por hoje chega.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Caro colega taxista que dia desses transportou uma morena estonteante até o aeroporto. Saiba que ela é minha passageira. Saiba que ela me contou sobre a música em inglês que o sr colocou a rodar e da tradução simultânea que o sr fez, na tentativa (patética) de impressioná-la. Não, colega taxista, ela não sentiu-se atraída pelo seu bigode, nem pelo seu cabelo trabalhado no gel, muito menos pelo seu conhecimento da lingua inglesa. Saiba que além de linda, minha passageira é tradutora juramentada do idioma bretão. A graça que ela achou, na verdade, foi do seu papel de ridículo!

Ah, sim, caso o sr leia este post, ela pede para avisar que Moonlight Serenade quer dizer Serenata ao Luar. Nada a ver com "Lua de chocolate".

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Tenho um colega que mora em Viamão, abaixo do cemitério velho. Ele disse que quase toda tempestade acontece de um caixão escapar e descer boiando pela sua rua. Na enxurrada de anteontem, o esquife teria trancado no boeiro! Ventania, escuridão, água invadindo as casas, o morto sacolejando na esquina, acossado pela correnteza, os mais corajosos agarrados às alças do caixão, tentando desobstruir a canalização... Sufoco!!

E eu que pensava ser o taxista mais mentiroso da praça.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

No banco de trás, a vovó se interessa pelo meu livro.
-- Taxitramas...
-- Sim, histórias aqui do táxi.
-- São coisas que acontecem no táxi?
-- Sim. Sou o autor.
-- Quem é o Autor?
-- Eu. Sou o Mauro Castro.
-- É taxista, o autor?
Nesse ponto, percebi que ela tinha problemas de audição. Comecei a gritar.
-- SIM, SOU EU, O AUTOR, SOU O MAURO!
-- O senhor já leu esse livro?
-- SIM, SOU O AUTOR!!
-- Diário de um taxista...
-- (suspiro)
Nesse ponto, passei a responder por gestos.
-- É pra vender?
-- (Sinal de positivo)
-- Quanto custa?
-- VIN-TE!! (sinal de vitória, dois dedos em "V")
-- Não conheço o autor, Mauro Castro... Será que presta?
-- (sinal de positivo com o dedão e com a cabeça)
-- Deve ter autógrafo na Feira... vou comprar lá.
Desisto.

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Era pra ser só uma corrida até o cemitério, mas meu idoso passageiro ofereceu uma gorja para que eu o acompanhasse até o túmulo da falecida. Foi uma looonga caminhada pelos corredores do São Miguel e Almas, com paradas estratégicas para meu cliente descansar as costas ou para conferir as fotinhos dos muitos conhecidos seus que já descansam em paz.
Tudo ia bem até tentarmos acender as velas para a falecida. O vento de finados dificultava a operação. Tentei proteger o fogo com algumas flores de plástico. Funcionou por um tempo, até que as chamas alcançaram as pétalas e tudo começou a incendiar: vasos, flores, fotos, velas... tentei apagar com o paletó que meu passageiro havia tirado, mas a roupa incendiou também.
O fogo pegando, fumaça preta, meu cliente passando mal, gente acudindo, zelador correndo com balde, maior auê! Em meio a confusão, apareceu até uma freira gritando, suplicando aos céus por ajuda divina. Por sorte as chamas cederam antes de atingir o caixão da falecida.
Voltando pra casa, meu passageiro jazia aniquilado no banco traseiro do táxi. Paletó chamuscado, dentadura quebrada (caiu na confusão), fralda ensopada, olhar perdido atrás do óculos torto. Nada daquilo parecia fazer sentido para ele. Nem para mim. Que fique registrado (Facebook é melhor que cartório) meu desejo de ser cremado. Minhas cinzas jogadas sobre o ponto de táxi. .

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-- Alô, ponto de táxi.
-- A Luciane ou a Cláudia estão?
-- Não, nenhuma das duas, senhora.
-- É que eu prefiro taxista mulher...
-- ...
-- Quem está falando?
-- Mauro.
-- Ah, o escritor! o Sr pode vir então.
-- Mas não sou mulher...
-- Sim, mas lhe conheço, é como se fosse.

sábado, 5 de novembro de 2016

Caiu a casa!

Parecia uma corrida como tantas outras, normais, só mais uma mulher bem vestida em um táxi rumo à Zona Sul. A coisa começou a ganhar contornos peculiares quando percebi que minha passageira não estava se maquiando no banco traseiro, na verdade, ela secava suas lágrimas. Um choro silencioso precisa ser respeitado. Deixei quieto.

Chegando em frente à sua casa, em Ipanema, a mulher pediu que eu estacionasse o carro em frente a entrada da garagem. Ela fez questão que fosse bem em frente. Pediu que eu descesse e a acompanhasse até a porta, ela alcançaria algumas coisas para eu levar até um outro endereço. Tudo muito estranho, mas prometeu que eu seria bem remunerado… em tempos de crise.

Ela entrou, deixou a porta aberta, e eu fiquei na soleira esperando, batendo o pezinho, tentando imaginar o que estava rolando, afinal. Não demorou a surgirem as explicações.

Um carro buzinou na rua, alguém querendo entrar na garagem. De dentro da casa, a mulher gritou para eu não tirar o táxi de onde estava, que já me entregaria a encomenda. Na rua o carro buzinando, o motorista irritado, a mulher mandando eu deixar o táxi lá. Comecei a perceber a roubada.

O motorista desceu e veio tirar satisfações. Era o marido da mulher. Eu dei de ombros, estava seguindo ordens. Estava a ponto de apanhar quando a esposa apareceu arrastando umas malas. As coisas do marido. Ela o tinha flagrado com a amante, pegou o táxi e veio juntar as trouxas do homem, não o queria mais em casa.

-- O senhor não precisa mais levar as coisas, meu marido mesmo leva tudo embora. Eis aqui o pagamento pela corrida. Muitíssimo obrigado. Eu assumo daqui -- Disse a mulher, resoluta, as frases firmes como uma rocha.


Os dois ficaram discutindo a relação na porta da casa - perda de tempo, a meu ver, o homem parecia não ter a menor chance com aquela esposa traída. Enquanto isso, eu saía pela tangente com uma bela gorjeta no bolso e um renovado respeito à fidelidade conjugal.

sábado, 23 de julho de 2016

Viola enluarada

O homem que fazia sinal para meu táxi na calçada carregava uma garrafa e um violão. Já estava anoitecendo, mas resolvi fazer uma última corrida, o violão foi o fator decisivo para que eu parasse. Afinal, alguém que gosta de música merece crédito.

O sujeito pediu que eu o levasse até a Azenha. Contou que estava começando um namoro, que resolvera fazer uma surpresa para sua amada: comprou uma champanha, duas taças, pegou seu violão, ensaiou a música preferida dela… Faria uma serenata!

Uau, um romântico!

Ao longo da corrida, o passageiro me contou que sua namorada tinha terminado seu casamento, mas que o ex-marido não aceitava bem a separação, continuava a importuná-la. O homem tentava, em vão, voltar para casa. Visando animar sua querida, meu cliente resolveu fazer-lhe a surpresa musical.

O problema é que meu passageiro, apesar de cantar bem, era um músico iniciante, tinha pouca prática com o violão. Quando falei que tocava razoavelmente bem o instrumento, o cara implorou-me para ajudá-lo. Quer saber? Vamos nessa.

Estacionei o táxi e fomos para o portão da moça - eu de viola em punho e meu apaixonado cliente com a champanha e as taças. Tasquei os primeiros acordes da canção e meu parceiro começou a cantar. Logo uma luz se acendeu na casa - parecia estar funcionando. Meu passageiro empolgou-se e colocou sentimento na voz.

Felizmente eu tinha deixado o táxi aberto. Foi só o tempo de jogar o violão pra cima, me enfiar no volante, dar a partida e arrancar fedendo. O passageiro, aos berros, mandando eu acelerar!

Por pouco o marido da mulher não nos alcançou. Ao que parece, ele tinha conseguido reconquistar a esposa. O homenzarrão saiu pela porta da frente, só de cuecas, com um cutelo enorme na mão, prometendo partir meu passageiro ao meio. Por sorte, atrapalhou-se com a chave do portão. Tempo suficiente para batermos em retirada.

Quando minha mulher perguntou onde tinha conseguido as taças e a champanha, expliquei que era uma gorjeta que fiz por merecer.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Taxista economiza até na hora de fazer xixi.

Chego em casa apertado. Corro cruzando as pernas, o mais rápido possível - que não chacoalhe tanto - em direção ao banheiro. Estou vestindo uma calça daquelas que tem uma corda na cintura. Entro no banheiro atabalhoado, já levantando a tampa do vaso e desatando o tope da cintura ao mesmo tempo. É aí que me dou mal: ao invés de desatar o laço, puxo um nó cego!

Vendo que não consigo desfazer o nó, tento baixar as calças de qualquer j...eito. É inútil, e acaba apertando ainda mais o nó! Minhas unhas estão curtas, bate o desespero, grito por socorro, minha mulher corre até o banheiro onde imagina, pelo fiasco, que eu esteja morrendo. Explico a situação, ela se esforça, não consegue, eu clamo a deus, minha cadelinha passa a dar voltas latindo, minha bexiga está a ponto de explodir, minha mulher grita, quebrou uma unha, o psicológico atua, começo a pensar em uma cascata, Garganta do Diabo, muita água, minha mulher, de joelhos, tenta desatar a corda com os dentes, Niágara, Oceano Atlântico, suor escorrendo, cadela uivando. No auge da agonia, lembro da tesoura no armário do banheiro, afasto minha mulher, corto a corda, a calça, tudo! Aaaahhhhhh!

Enquanto a bexiga esvazia, uma cor azulada invade minha mente, o céu, o paraíso, Mega-Sena acumulada, prêmio Nobel de literatura. Quando abro os olhos minha mulher está sentada no chão, encostada na parede, exausta, minha cadela agora abana o rabo, o mundo volta a girar, tudo volta a fazer sentido, a vida é bela. Caramba, que delícia mijar

sábado, 7 de maio de 2016

Tivemos aqui em nosso ponto de táxi, há muitos anos, um passageiro que cometeu um crime. Matou um homem. Um caso passional, rumoroso à época. Ele foi a julgamento, condenado, tentou fugir para o exterior, foi pego, baixou o presídio.
Pois bem, esse homem embarcou no meu táxi hoje. Foi uma corrida em clima estranho, pra dizer o mínimo. Não falamos no crime. Cumprida a pena (sobre a qual também não falamos), ele está tentando retomar sua vida, da forma que pode, como um anônimo vendedor de pneus.
Desejei-lhe sorte.

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A garota embarca no banco traseiro, dá de cara com o expositor do meu livro, pensa um pouco e exclama:
-- Bah, tu és o TAXITRAMAS, o cara das fotos de retrovisor! Te conheci na Austrália! Eu tava lá, com o Ciência sem Fronteiras, e o pessoal da UFRGS começou a comentar tuas fotos de Porto Alegre... Prazer!
Desculpem se fico me exibindo, mas precisava compartilhar esse momento.

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A passageira com uma bolsa cheia de medicamentos, uma farmácia ambulante. Explicou que seu marido morreu recentemente, sobrou uma quantidade enorme de medicação. Propôs pagar a corrida com remédios. Tinha de tudo: desde analgésicos, ansiolíticos, até supositório siliconado e um tubo semi novo de pomada pra hemorróida...
Preferi receber em dinheiro.

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Magrão num Palio branco é o primeiro no sinal fechado, eu atrás com meu táxi. Percebo que ele está com a cabeça baixa, postura típica de quem está mexendo no celular. Pensei: o sinal vai abrir e ele não vai arrancar. Dito e feito.
Dei um bipe bem curto na buzina, ele se antenou e foi.
Mais adiante, novo sinal e a história se repete. Novo bipe na buzina. Desta vez, porém, o Magrão levantou a cabeça, viu o sinal verde, mas voltou a mexer no celular - uma última curtida, sei lá.... Foi quando eu emputeci e enfiei a mão na buzina de vez. Quem nunca?
"Nosso lado animal, vez em quando, precisa tomar sol."

domingo, 17 de abril de 2016

Você precisa ingressar em uma avenida movimentada na hora do rush, está com o carro apontado, pisca ligado, esperando a gentileza de um outro motorista. O tempo que você vai levar para conseguir sua chance depende, basicamente, do seu carro.
Sim, a gentileza é seletiva.
Caso esteja "pilotando" um Mercedes, a generosidade não tardará. Sinais de luz, dedinhos de positivo, sorrisos cúmplices. Se o seu carro for um Chevette velho, tenha paciência, olhares esquivos não perceberão seus apelos.
Agora, se você estiver dirigindo um táxi. Esqueça, meu filho. Nem a figa pendurada em seu retrovisor vai lhe ajudar nessa.

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Saindo da padaria sou abordado por uma moradora de rua. Ela pede umas moedas, alega ter cuidado do táxi, me chama de amigo, diz que está de aniversário hoje. Desvio dela e entro em um pequeno corredor que leva ao banheiro da padaria.
Quando volto à calçada, a mulher ainda me espera. Quer dinheiro prum café. Decido premiar sua perseverança. Enquanto recolho um punhado de moedas menores, ela faz o sinal da cruz e aponta para o céu. Antes de lhe passar os ferrinhos, pergunto qual o seu signo. Pega de surpresa, ela engasga, desconversa, diz que cuidou bem do meu táxi, estica a mão em direção às moedas. Percebendo que ela havia esquecido a história do aniversário, insisto no signo. A pedinte se irrita, finge estar magoada com minha desconfiança, pergunta se vou lhe dar o dinheiro.
Ela parte sem me agradecer. A soma que arrecadou comigo não valeu o sacrifício. Não pagará nem uma pedra. Dureza.

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Sei que homens são inseguros (eu que o diga), entendo que a primeira visita ao apartamento de uma namorada é difícil, um momento decisivo, acho até válida a visita ao terreiro de umbanda na noite anterior. Tudo ajuda, eu sei. 
Agora, meu amigo, perguntar ao taxista que está lhe transportando para o tal encontro se ele tem um Viagra para lhe vender... Tenha a santa paciência.

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O cara jura que foi o primeiro punk de Porto Alegre. Tocou terror nas madrugadas do Bom Fim com sua namorada, a Cicuta, cabelo moicano, espetado de piercings e bebendo vinho no bico... 
Perguntou se poderia pagar o táxi com Banricompras. É azulejista de mão cheia, mas, no momento, faz bico de vigia noturno - o dindin só sai na sexta. Nem sinal da rebeldia setentista. Tudo que ele queria era chegar em casa a tempo de ver a novela.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Gang das gordas

Em meio ao burburinho da Praça XV, três mulheres embarcam no táxi. Uma gorda, branca, senta na frente comigo, outras duas mais jovens, negras, no banco de trás. As três carregam bolsas volumosas. Logo que arranco, a mulher da frente diz que gostaria de comprar um churrasquinho de gato, fica braba quando eu passo pela carrocinha e não paro - imagina a sujeira de farinha. O destino é a Vila Conceição Degolada.
À medida que a corrida se desenrola, percebo, pela conversa das passageiras, que elas são o trio de assaltantes que assombra há algum tempo o Centro da Capital. A Gang das Gordas. Enquanto revisavam suas bolsas, fazendo um tipo de inventário do que conseguiram no dia de “trabalho”, uma das mulheres do banco de trás, que parecia ser nova no “negócio”, deixa escapar:
-- Teu marido sabe que tu sai pra roubar?
A gorda da frente chama sua atenção: “Te liga, meu!”. Como se precisassem esconder aquilo que o taxista já havia percebido. Daqui em diante, passo a reproduzir simplesmente algumas frases soltas que ouvi pelo resto da corrida.
-- Tu precisa parar de apanhar do teu homem.
-- Aquelas coronhadas eu levei por causa daquela piranha da mulher dele.
-- Então tu és filha do fulano da Tuca? Mas tu disse que não tinha pai!
-- É, sou filha dele, mas tu sabe né, ele tá preso.
-- Tu tá fumando demais, quando tiver a minha idade vai estar toda enrugada.
-- Mas eu nem tô mais fumando muito, só maconha.
-- A fulana ameaçou me dar uma facada, eu mandei ela se botar, acha que tenho medo?
-- Mas ela briga bem, já apanhei dela, tu tens que chegar chutando a cara.
-- Amanhã a gente vai pra Viamão, lá não nos conhecem ainda.
-- Ontem só faturei R$300. Tá fraco esse fim de ano.
A corrida acaba bem em frente a uma delegacia, nos altos da Barão do Amazonas. Elas não parecem temer a polícia. O taxímetro marca R$21. Cada uma delas já tinha os seus sete reais na mão. Estão acostumadas, pelo jeito voltam de táxi todos os dias depois do “trabalho”. Ao se despedir, a gorda tenta ser simpática: “Valeu, tio, te cuida, ai”.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Corridinhas curtas

Nada irrita mais um passageiro atrasado que um taxista de bem com a vida. O tipo de taxista que fica tamborilando com os dedos no volante enquanto o sinal está vermelho, o tipo que canta baixinho e balança a cabeça ao som de Nana Caymmi, esse tipo irritante de taxista que não entra no clima de ansiedade do seu passageiro atrasado.
Respondo que ele (o tempo) adormece as paixões, eu desperto, confirma a Nana, bem a propósito, composição do Blanc.

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A mulher aproveita a corrida para trocar a fralda do bebê. OK, faz parte, abro uma fresta na janela.
Agora adivinhe o que a passageira da corrida seguinte encontra, descartada no cantinho do banco traseiro do meu táxi....
Acertou quem pensou em uma fralda cagada.

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Rosa Inglesa
Primeira passageira da semana é a Cheirosa - nunca perguntei seu nome. Costuma passar a corrida elaborando complexos coques com os quais reprime seus bastos cabelos negros. A morena selvagem desembarca do táxi com elegância executiva. Mas de todas as características dessa passageira (e são muitas, garanto) a que mais me chama a atenção são os aromas que exala. Perfumes tão sofisticados quanto seus penteados. A fragrância de hoje: English Rose.

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Peguei o passageiro em uma revenda Mercedes. Acredito que o próprio gerente da loja veio abrir a porta do táxi tal a importância que parecia ter o homem. Ele estava com pressa. Muita pressa. E irritado, discutia ao celular - problemas com a fazenda de gado.
Entre uma ligação irada e outra, oferecí-lhe meu livro. Vinte pilas. "Se me sobrar um troco..." e voltou a salivar xingamentos ao telefone.
Só o que o homem carregava em seu braço esquerdo (aliança, pulseiras, Rolex e Ihone) dava pra comprar meu táxi e sobrava dinheiro. No final da corrida, ainda destilava palavrões ao celular. Achei mais prudente não lembrá-lo do livro. Ao desembarcar, deixou cair uma embalagem de comprimido sobre o banco. Como estava vazia, sequer o alertei. Rivotril.

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Minha passageira era uma baixinha simpática e falante. Usava um vestidinho daqueles com uma cinta fina logo abaixo dos seios (não entendo lhufas de moda, mas essa sofrível descrição é importante aqui), o que deixava a "bata" (?) mais curta na parte da frente, salientando o abdômen dilatado da mulher. Pediu que eu a levasse até o Hospital Fêmina (referência no atendimento à gestantes).
Enquanto procurava o dinheiro para pagar a corrida, perguntei se já sabia o sexo do futuro filho. Distraída ela fez cara de desentendida. Imbecil, ainda insisti na pergunta, agora apontando o queixo para a barriga da coitada.
Não, ela não estava grávida. Era médica naquele hospital...
Difícil conviver com a culpa de ter, provavelmente, arruinado o dia de uma mulher.

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Toda garbosa no banco traseiro do meu táxi, a idosa explica porque não pode comprar meu livro (R$20): vai gastar R$80 mil no conserto do telhado da sua casa em Punta.
Informo que a corrida custou R$12,50. Ela me passa duas notas: uma de dez e outra de cem!! Eu tento avisá-la do engano, mas ela está ocupada procurando as moedas. A muito custo, consigo fazê-la trocar a nota de cem por uma de dois. Ela me agradece sem muito entusiasmo e segue procurando as moedinhas. Consegue reunir apenas R$0,45. Pergunta se pode ser assim....
Fechado.

o0o0o0o

Fim de expediente, a mulher embarca no meu táxi digitando ao smartphone. Sequer me olha. Informa o destino da corrida sem tirar os olhos da sua tela superamoled. É uma passageira típica desses tempos. Digita compulsivamente, não pisca. Blz.
Toc, toc, toc, toc, plim, toc, toc, plim, plim, toc, toc, toc, toc, toc, plim, plim, plim, toc, plim, kkkkkk, plim, toc, toc, toc, toc.
...
Ao final da corrida, por fim, levanta os olhos. Enquanto procuro o troco, ela procura as chaves da casa. Lembra que estão no carro. Lembra que foi de carro para o trabalho! Religa o taxímetro. Volta ao ponto de partida.
Toc, toc, plim, toc, toc, toc, kkk, curti.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Carta aos (colegas) taxistas

Eu fui um dos primeiros taxistas a comprar um celular quando essa “novidade” apareceu por essas bandas. Quando meus passageiros começaram a ligar diretamente para mim, eu apanhei dos meus colegas de ponto. Literalmente. Briga de rolar pela calçada. Tentaram me expulsar do ponto, mas não rolou: a EPTC entendeu que o passageiro tem direito de escolher o taxista que vai lhe atender, seja pelo telefone fixo, seja escolhendo no ponto, seja por celular… enfim. De lá para cá, muita coisa mudou. O próprio celular ficou mais inteligente, tornou-se smartphone.

Quando surgiram os aplicativos para chamada de táxi, o representante da Easy Táxi veio a Porto Alegre conversar comigo. Ele mesmo instalou o app no meu aparelho. Feito isso, pediu que uma funcionária da Easy, desde São Paulo, mandasse uma corrida para mim como forma de me convencer que a coisa funcionava. Saí daquela conversa como o primeiro taxista gaúcho parceiro do aplicativo. Meus colegas, desconfiados, apenas coçavam a cabeça. De lá para cá, muita coisa mudou. Apesar da gritaria dos contrariados, os aplicativos se estabeleceram.

No momento em que digito este texto, fevereiro de 2016, os taxistas de Porto Alegre estão preocupados com a concorrência do Uber, o aplicativo de “carona” colaborativa. Acontece que neste mesmo momento, a empresa Uber, nos Estados Unidos, está preocupada com o app concorrente Lift e seu bigode rosa, que por sua vez está de olho no SideCar, que oferece “caronas” mais descoladas, e isso é só o começo - a Capital gaúcha já estuda um sistema de aluguel de veículos elétricos aos moldes do BikePoa. O mundo está mudando numa velocidade espantosa (desculpem o clichê), o taxista que não perceber isso corre o risco de ficar à margem do mercado.

Os “colegas” taxistas que agridem motoristas do Uber prestam um grande favor à empresa americana - é a mídia mais eficiente e barata para divulgá-los. Além de colocá-los como os pobres injustiçados defensores da mobilidade urbana, detona uma verdadeira caça às bruxas entre os taxistas, que, aos olhos da população, posam como broncos selvagens e antiquados. Quando o motorista do Uber foi agredido naquele episódio lamentável em que todo mundo acabou no Palácio da Polícia, pouca gente perguntou por que o representante da empresa Uber em Porto Alegre chegou ao distrito em um… táxi. Deixa pra lá.

Não acredito que o táxi vá acabar - em plena Nova York, ainda é possível alugar uma carruagem -, mas estou atento às mudanças. Mesmo depois de 30 anos manuseando um taxímetro, não me sinto velho demais para novos desafios. Pretendo acompanhar as tendências. Meus clientes, por exemplo, não me verão mais dirigindo de bermudas, nem com os vidros abertos para amenizar o calor. Meus clientes podem pagar a corrida (mais livro autografado) com cartão de crédito/débito, desfrutam de um carro espaçoso, contam com gps, acesso à internet e a um papo amigo. Tudo sem acrescentar um centavo ao valor que consta no taxímetro. Gorjetas são bem vindas.

Acho que este é o futuro do táxi. Tornar-se um negócio mais moderno, proporcionar uma experiência agradável ao usuário a ponto de fazê-lo esquecer as outras opções - Uber, Lift, SideCar, elétricos de aluguel, carros autônomos, o que seja. O taxista precisa se puxar, não porque a prefeitura está cobrando, mas por uma questão de sobrevivência, porque o MUNDO está cobrando. É hora de deixar de mimimi, de olhar para a frente, pois é lá que o melhor está nos esperando. E é pra lá que eu vou.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Distantes epifanias

Duvido que algum taxista lembre de uma corrida que fez há vinte anos. Poucas lembranças sobrevivem a tanto tempo - quanto mais nesse opaco amontoado de recordações no qual se transformou minha memória. Não vou dizer que lembro em detalhes daquela corrida, mas recordo bem do clima, de uma certa atmosfera, digamos, pesada, contemplativa - talvez inevitável quando se está na presença de alguém que vê a sombra da morte aproximando-se. Tanto eu, taxista, quanto meu passageiro sabíamos que aquela poderia ser a última corrida de táxi de tantas que tínhamos feito naqueles meses. Muitas idas para o hospital. Ele soropositivo, eu seu fã.

Portadores do vírus HIV tinham um fim de vida difícil nos idos de 1996. O coquetel ainda estava por vir, o tratamento ainda incluía nefastas sessões de quimioterapia, pacientes adquiriam pouco a pouco um emagrecimento excessivo, uma palidez cadavérica. Impossível não notá-los circulando (quando tinham coragem de sair à rua). Meu passageiro parecia não se incomodar - pelo menos, tentava não demonstrar-se incomodado com as inevitáveis avaliações de canto-de-olho. Lembro perfeitamente de vê-lo atravessando a Getúlio Vargas, altivo, esguio, a bandana na cabeça, quase flanando em direção ao ponto de táxi. Aos olhos dos meus colegas, o homem era um condenado; de minha parte, torcia para que escolhesse meu táxi (que estava no meio da fila) como fazia desde que descobriu o improvável gosto pela literatura deste taxista.

Esta última corrida que fez comigo foi diferente. Não fomos direto para o hospital, como de costume. Avisado por mim que alguns outdoors divulgavam pela cidade o lançamento do seu livro, mostrou-se curioso, pediu que eu o levasse até um desses anúncios. Lembro que estacionei o táxi na Felipe de Oliveira, ao lado do ginásio da brigada. Ele ainda não era meu escritor preferido (eu costumava ler best-sellers americanos), talvez tenha se tornado naquele momento. Lembro bem que não sentiu-se lisonjeado com o anúncio, que lamentou a estratégia oportunista de divulgar um autor à beira da morte. Só faltou colocarem ao lado do seu nome, entre parênteses (aquele que está morrendo de aids). Ou talvez não fosse nada disso, talvez fosse uma avaliação um tanto severa de quem não se importava com mais nada - e ele não parecia se importar. Das poucas coisas que lembro daquela corrida, ficou a sensação de uma certa acidez nos comentários, uma revolta por trás da generosidade. Meu ilustre passageiro estava ainda mais diferente do que sempre fora.

Vinte anos depois daquela corrida, estou relendo Pequenas Epifanias, livro que contém uma carinhosa dedicatória assinada por Márcia Abreu, de quem ganhei o livro, na qual me agradece por ter “compartilhado um pouco daqueles tempos difíceis” com seu irmão Caio Fernando Abreu. O inesquecível Caio F.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Cá entre nós

Recado aos meus colegas taxistas, que estão trabalhando em Porto Alegre neste momento com o ar condicionado desligado:
Não reclamem do Uber.

Recado aos meus colegas taxistas que estão trabalhando nesse momento em Porto Alegre e que ainda não aceitam pagamento com cartão porque vão perder zero-vírgula-não-sei-quanto por cento por corrida:
Não reclamem do Uber.

Recado aos meus colegas taxistas que estão trabalhando nesse momento em Porto Alegre, vestindo aquela bermuda velha e encardida, que suas mulheres já tentaram colocar para doação, mas que vocês teimam em continuar usando:
Não reclamem do Uber.

Você, colega taxista, que está trabalhando nesse momento em Porto Alegre, ruminando ofensas à prefeitura por ter que instalar um taxímetro que lhe obrigará a pagar imposto sobre sua renda real:
Não reclame de políticos corruptos.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Sigam-me os bons!!

Matéria na ZH sobre meu projeto no Instagram. Fotos da cidade de Porto Alegre feitas pelo retrovisor do táxi. Transformar o cotidiano em arte.
CLIQUE AQUI
Sigam-me no Insta!
https://www.instagram.com/taxitramas/

terça-feira, 20 de outubro de 2015

TAXITRAMAS VOL3

Lançamento 22 de outubro
entre 18:00 e 20:00HS
CarHouse-Toyota Zona Sul

Este livro contém cenas impróprias para todas as cidades. Histórias baseadas em corridas reais, que revelam tudo o que rola entre as quatro portas de um táxi: casais discutindo, bêbados discursando, travestis se montando, freiras aborrecidas, vidas em jogo, paixões eclodindo, perseguições desastradas, amantes patéticos, mulheres parindo, jovens conectados, idosos esquecidos... Fragmentos da vida alheia, rápidos, ilustrativos, capturados na velocidade de uma corrida de táxi.

domingo, 28 de junho de 2015

A mais longa das corridas

Em meados de 2003, um passageiro embarcou em meu táxi e, sem que eu me desse conta, mudou minha vida. Cyro Martins Filho era o então editor do jornal Diário Gaúcho. Ele sabia que eu lia muito, que gostava de literatura. Pois nessa corrida, há 12 anos atrás, ele me sugeriu que eu escrevesse as histórias que rolavam no meu táxi. Nascia ali o TAXITRAMAS. Passei a assinar uma coluna semanal no DG, o jornal da maioria.

Desde então, por 12 anos a fio, o Diário Gaúcho trouxe em sua última página da segunda-feira uma história envolvendo o cotidiano dos taxistas. Foram centenas de textos onde eu procurei relatar as agruras, as alegrias, a paixão, a força desta categoria que carrega o mundo em seus carros de praça.

Mas, para mim, esta longa corrida literária termina aqui. Creio que honrei o espaço privilegiado que o DG me reservou esse tempo todo. Só tenho a agradecer. Como disse no começo, esta coluna de jornal acabou mudando minha vida. Mudando para melhor. Vou me dedicar agora ao próximo livro, à série de TV que finalmente vai sair do papel... novos projetos.

É hora de dar lugar ao novo, de ouvir o que outros têm a dizer. Outro taxista, quem sabe? Quem sabe as histórias que contei aqui não inspirem outro colega a escrever as suas. Assunto é o que não falta:

Nesse momento, em um táxi, um casal está discutindo, um idoso está ruminando, uma criança está sendo consolada, um coração está se partindo, um torcedor está roendo as unhas, um namoro está começando. Em um táxi, nesse momento, uma mulher pode estar parindo, um cachorro vomitando no estofamento, um batuqueiro levando o despacho. Jovens bêbados, soldados fardados, mulheres fatigadas, travestis produzidos.

Nesse momento, em algum táxi, um político está discursando, um doente desabafando, uma amante recebendo flores, um casamento acabando, um crente pregando, um assaltante está puxando sua arma…

Deus há de estar em todos os táxis, nesse momento.

domingo, 24 de maio de 2015

A última corrida

           O taxista tinha trabalhado bem. Era tarde da noite, o movimento havia caído e ele decidiu  que era hora de recolher. Ia rodando pela avenida, luminoso desligado, em direção à sua casa quando uma mulher lhe fez sinal. Ele, então, resolveu fazer uma corrida a mais. Um erro. Uma corrida além da última sempre vem acompanhada de problemas.
            A passageira acabou levando o taxista para uma parte pouco habitada de uma vila pobre da periferia. Encerrada a corrida, quando já manobrava para voltar para o asfalto, surgiu um garoto correndo sabe-se lá de onde. Ele chorava muito. Agarrado à porta do táxi, o menino implorou que o taxista acudisse sua mãe, que estava ferida. Mesmo contrafeito, o taxista não teve como negar o socorro.
            Em seguida, surgiu da escuridão o pai do menino trazendo a mulher no colo. Segundo o homem, ela tinha sido vítima de uma bala perdida. Estava baleada no peito e precisava ser levada com urgência a um hospital. O taxista, então, empreendeu uma desesperada corrida rumo ao Pronto-socorro.
            Alta velocidade, alerta ligado, mão na buzina. O menino chorava, no banco da frente, enquanto o homem, atrás, tentava estancar o sangue que brotava no peito da mulher. A vítima, que no começo urrava de dor, aos poucos foi silenciando. Logo, ouvia-se só um gemido e depois nem isso. Um péssimo sinal.  
            Em uma rápida parada para cruzar um corredor de Ônibus, o homem abriu a porta de trás do táxi e saiu correndo, deixando o taxista com um menino assustado e uma mulher inconsciente dentro do carro. Seguindo aos apelos do garoto, o taxista acabou tocando, assim mesmo, para o hospital.
            A mulher chegou morta ao Pronto-socorro. Mais tarde, na delegacia, o menino confessou que tinha sido o próprio pai o autor do disparo, por isso havia fugido. Depois de prestar os devidos esclarecimentos, o taxista foi liberado. Chegou em casa arrasado, com o dia já amanhecendo.
            Ficou a lição: jamais fazer uma corrida além da última.