domingo, 19 de maio de 2013

O poder da meia-calça


Tudo parecia uma grande loucura. Parecia um filme ou coisa parecida, uma pegadinha, alguém estava aprontando pra ela, devia haver alguma câmera escondida. A mulher não acreditava que estava passando por aquela situação. Mas tudo era infelizmente muito real: os bandidos, o revólver em punho, as ameaças de morte. Pelo menos os ladrões tinham sumido.


A situação era ridícula: amarrada com a própria meia-calça a um taxista desconhecido em uma estradinha de terra entre o nada e lugar algum. Perdidos na noite em algum canto da Zona Rural de Porto Alegre. Um filme de terror. No fundo, o pânico não deixava que ela raciocinasse direito. Só torcia para que os assaltantes não voltassem.

Maldita hora em que ela correu em direção àquele táxi com películas escuras nos vidros. Estava chovendo, não queria se molhar, entrou correndo no táxi, nem viu se estava ocupado. Nem poderia ver com aqueles vidros escuros horrorosos. O carro não só estava ocupado como o taxista estava sendo assaltado. Um dos bandidos apenas desviou a arma da cabeça do motorista e apontou para ela enquanto o outro ordenava que a “corrida” continuasse.

Passageira e taxista foram abandonados em uma estrada de chão batido distante de tudo. Ficaram apenas com a roupa do corpo, amarrados um ao outro pela meia-calça da mulher. Uma espécie de chacota que os ladrões bolaram antes de embarcarem no táxi e sumirem na escuridão. O ronco do motor se perdendo na distância. Depois, o silêncio. O coaxar dos sapos. Ao menos a chuva havia parado.

Foram encontrados por um carroceiro ainda de madrugada. O homem puxou uma faca enorme que brilhou à luz da lua. Mais uma vez ela pensou que ia morrer. Foi o único jeito de soltar a meia-calça. Cortando-a. O dia amanheceu com passageira e taxista sendo conduzidos em uma carroça imunda até o telefone mais próximo, onde providenciaram resgate.

O taxista nunca mais usou insulfilm, a passageira tem evitado as meias-calça.

domingo, 12 de maio de 2013

A elegante e a fofinha


Parei o táxi em frente à porta do edifício de tijolos à vista e esperei. Sabia que, em instantes, a porta se abriria e sairia por ela minha passageira. A elegante ou a fofinha.


Trabalhando no mesmo ponto de táxi há muitos anos, conheço bem os passageiros do bairro. Muitos deles, conheço pela voz, ao atender o telefone. Não é o caso deste prédio de tijolos à vista da rua Barbedo onde temos duas passageiras que ligam pedindo táxi. As vozes das duas são muito parecidas, impossível saber quem vai sair pela porta.

As duas passageiras são jovens, e igualmente belas - como já disse o poeta, beleza é fundamental. Não sei o nome delas, são garotas reservadas, pouco falam. Para que minha cabeça possa se organizar, eu, intimamente, penso nelas como a elegante e a fofinha. Feministas, revoltai-vos.

Uma tem um corpão esculpido em academia, a outra está um tanto acima do peso. A primeira está sempre bronzeada, indo para o clube. A segunda, estuda para concursos, pega pouco sol, usa o táxi apenas para ir para as provas. Sempre que paro em frente ao prédio, fico na expectativa de quem sairá pela porta. A elegante ou a fofinha.

Fazia um bom tempo que não atendia ao chamado de nenhuma delas - e como já disse um outro poeta, o tempo não para. Quando a porta se abriu, acho que meu queixo caiu alguns centímetros. Surpresa!

A corrida foi para o Tribunal de Justiça. Nossa passageira passou no concurso, está muito bem empregada, radiante. Está até comunicativa, brincando com o taxista. Não admirou-se quando comentei sobre sua notável mudança. Divertida, comentou que a dieta realmente fez milagres, mas que o principal foi fazer as pazes com ela mesma. E com o mundo, por consequência!

As duas passageiras do prédio de tijolos à vista agora estão magras, mas, na minha cabeça, o título de elegante passou para a ex-fofinha. Ao revelar-se Inteligente e bem-humorada, ela mostrou que a verdadeira elegância não é uma questão de peso.

domingo, 5 de maio de 2013

Amador e a astróloga cega


Conheci meu colega Vinícius na padaria. Estava no balcão fazendo meu pedido quando ele se apresentou: “Vinícius, mas pode me chamar de Amador”. De cara, o taxista explicou que é conhecido na praça como Amador, pois nenhum homem ama tanto as mulheres quanto ele. Segundo me contou, já amou 1.375 mulheres, mais uma.


Com tantas informações, assim, logo no primeiro aperto de mão, sentamos na mesma mesa para que ele me contasse melhor sua história.

Enquanto traçava um pastel folhado com café, Vinícius me contou que foi ao volante do táxi que conheceu a maior parte das 1.375 mulheres, mais uma, com quem transou. Mas que história é essa de 1.375 mais uma? Meu colega sorriu enquanto examinava seu pastel. Já esperava pela pergunta, claro.

Cursando o último semestre da faculdade de psicologia, Amador considera-se profundo conhecedor da alma feminina. Ele explicou que lembra o número exato de mulheres com quem transou porque não foi apenas sexo: amou cada uma delas.

Foram mil trezentas e setenta e cinco mulheres, mais a astróloga cega.

Segundo meu colega, a cega embarcou no seu táxi como uma deusa. A mulher mais deslumbrante que já viu. Como ela não podia enxergar sua camisa entreaberta, seus óculos na testa, seu cabelo comprido, meu colega apelou para outra de suas armas de sedução: a música. Espetou no rádio um CD do Pink Floyd. Bingo!

A mulher acabou levando o taxista para o hotel granfino onde estava hospedada. Devido à gritaria da cega em meio ao sexo selvagem que praticaram, Amador teria sido convidado pela gerência a se retirar do hotel. Em meio à confusão, ficou sabendo apenas que ela era astróloga profissional. Sexo com sol em escorpião é mais que amor.

Enquanto pagávamos a conta, Vinícius Amador deixou-me algumas dicas valiosas, caso eu queira fazer sucesso com as passageiras. Por exemplo, adotar um apelido que desperte a curiosidade delas.

Pensei em Mauro Tentador. Afinal, eu tento, tento e não arrumo nada.

domingo, 28 de abril de 2013

Procura-se uma Santa


Meu colega Diogo é um taxista divertido. Quando chega ao ponto, monopoliza as atenções. É um cara de bem com a vida, desses que fazem nossos dias mais leves. Diogo costuma se apresentar com um texto decorado, que ele declama como se fosse um verso. Eu até anotei para não esquecer:


- Bonitão e dançador, tremendamente sedutor, carinhoso, educado, perfumado, o cabelo ajuda. Melhor beijo de Ipanema. Diogo, ao seu dispor.

Das tantas histórias que Diogo conta, minha preferida é o caso que se passou em uma boate onde os taxistas costumavam se reunir para dançar. Os colegas sacanas teriam desregulado seu isqueiro, deixando-o com a chama enorme. Ao tentar acender o cigarro de sua companheira de salão, Diogo teria colocado fogo na peruca enorme que a mulher usava, transformando sua parceira em uma verdadeira tocha humana!

Dia desses, apenas eu e Diogo no ponto, conheci outro lado do meu colega. Vi seus pequenos olhos verdes ficarem marejados.

Ele contou que sua mãe, vindo de Florianópolis, sem condições de criá-lo, deixou-o em uma fazenda. Ainda criança, sem conhecer nada, ele resolveu sair de onde estava para procurar pela mãe. Perdeu-se e passou a viver na rua. Teriam sido 3 longos anos lutando pela sobrevivência, até que um casal se compadeceu com o menino maltrapilho. Resgataram Diogo, deram-lhe um lar e dignidade.

Depois de 43 anos de praça, sentado no banco do nosso ponto, Diogo me afirmou que tem orgulho de sua trajetória de vida. Considera-se um vencedor: “Casado, dois filhos, sete netos, três bisnetos, dois cachorros e um celular de 3 chips”. Nada mal.

Na conversa que tivemos, acabei descobrindo que dentro daquele senhor de cabelos brancos ainda existe um menino que gostaria de encontrar sua mãe... Ela se chama Maria Santilina da Silva, e talvez tenha retornado para Florianópolis onde era conhecida como “Santa”.

Caso dona Santa leia esta história, saiba que tem um filho incrível, que ainda sonha encontrá-la.

domingo, 21 de abril de 2013

Sobre passageiros cansativos


O  telefone do ponto chama. Do outro lado da linha, ouço um pequeno soluço antes da solicitação de um táxi. É um passageiro que liga todos os dias. Já o conheço bem. Ele sempre dá o mesmo soluço antes de começar a falar. Apenas pelo soluço, já sei quem é, para onde vai e qual será o assunto durante a corrida: críticas ao governo.


O homem já embarca criticando alguma coisa. Políticos e governos em geral são seus alvos prediletos, mas, na verdade, ele fala mal de tudo. A baixa qualidade dos programas de tevê, as roupas dos jovens, a indústria nacional... nada presta para ele. Resumindo: é um chato. Nas raras vezes em que a esposa anda com ele, pede ao taxista que faça o favor de ligar o rádio. Assim, o marido entende que deve calar a boca.

Tem também a passageira que só fala em doença. As corridas são sempre para alguma consulta médica. Ela está sempre em busca de um especialista que alivie suas dores. Antes mesmo de embarcar, ela avisa: “hoje, meu esporão de calcâneo está me matando”. Ela entende tudo de doença. Sabe mais que os médicos. Quando seus próprios males aliviam e o taxista pensa que o assunto será outro, a mulher passa a informar sobre a saúde da mãe, uma velhinha que também vive doente. No momento, a idosa está com uma “contratura intraglúteos”. Travou a musculatura da bunda devido a uma injeção mal aplicada. Um horror, que minha passageira descreve em detalhes.

São passageiros previsíveis, cansativos. Como o senhor que adora Vectra, o veículo da Chevrolet. Meu passageiro só sabe falar deste carro. Já teve vários deste mesmo modelo. O Vectra é uma “joia sobre rodas”. Toda a corrida falando das malditas qualidades do Vectra.

Ai você tenta desvirtuar o assunto com algum comentário sobre, por exemplo, a chegada do inverno. O primeiro critica as ridículas campanhas do agasalho, a segunda prevê uma nova crise de asma. O último, claro, discorre sobre o incrível sistema de calefação do... Vectra!

terça-feira, 16 de abril de 2013

O taxista e o governador


Confesso que acompanhei o caso dos assassinatos dos meus colegas taxistas de Livramento e Porto Alegre com uma certa distância. Trabalhando ao volante de um táxi há longos 27 anos, aprendi a lidar com a violência que cerca minha profissão. Aprendi que uma das formas de encarar o perigo é, justamente, não pensar muito nele. Para continuar abrindo a porta do meu táxi para quem quer que me faça sinal, procuro não pensar em como a corrida pode acabar. Simplesmente vou trabalhando, tentando evitar que meu medo controlado se transforme em pânico. Por isso mesmo, acompanhei o caso dos assassinatos com uma conveniente miopia, mesmo que isso me causasse o embaraço de, muitas vezes, conhecer detalhes dos crimes pela boca de meus passageiros.

Assim que se tomou conhecimento dos seis assassinatos em série, muitos se apressaram em associar os crimes à ligação dos taxistas com o tráfico de drogas. Foi o tipo de comentário que mais ouvi, num primeiro momento. Parecia a causa mais provável, a hipótese mais plausível, apesar de leviana. Sempre refutei essa suposição fácil, mesmo porque, não conhecia pessoalmente nenhum dos colegas mortos.

Do pouco que acompanhei pela imprensa sobre o caso, foi justamente esse tipo de ilação maldosa que mais me deixou indignado. Não as conversas à boca pequena que ouvi de colegas, passageiros, amigos, pessoas que emitiram suas desconfianças em conversas informais comigo. O que mais me incomodou foram duas declarações que, lamentavelmente, ouvi do senhor Tarso Genro, Governador do Estado.

Assim que ocorreram os crimes, quando ninguém ainda supunha o que de fato havia ocorrido no interior dos seis táxis, o governador apressou-se em desvincular os assassinatos de Livramento e Porto Alegre - até ai, tudo bem, ele foi induzido ao erro, assim como a maioria da polícia. O que me causou estranheza foi, nessa primeira manifestação, com a categoria ainda chocada, que o governados salientasse a necessidade de os taxistas “de bem” denunciarem os maus colegas, que tinham ligação com o tráfico de drogas. Não me pareceu aquele o melhor momento para se tocar no assunto. Coloquei-me no lugar dos parentes que estavam chorando suas perdas, que poderiam ter ficado sem ouvir aquele tipo de insinuação. Mas vamos lá.

À medida que as investigações avançaram, as coisas começaram a clarear. Descobriu-se, por fim, que os seis taxistas eram pessoas idôneas, que perderam suas vidas trabalhando honestamente, servindo às comunidades das quais faziam parte. Descobriu-se que foram vítimas indefesas de um assassino frio e calculista.

Depois de todos os detalhes torpes revelados pela polícia (em uma investigação exemplar), que revelou a sordidez do assassino, ouço novamente nosso governador falando ao microfone da Rádio Gaúcha. Quando penso que ele vai usar o momento para tranquilizar a categoria, nosso mandatário volta a salientar a necessidade de se identificar e excluir do sistema os taxistas que teriam ligação com o tráfico de drogas e a prostituição infantil (?)!

Todos sabemos que existem problemas na categoria dos taxistas e que eles precisam ser enfrentados, que existem taxistas corruptos, assim como advogados corruptos, médicos corruptos e (ao que parece) políticos corruptos. Mas, com todo o respeito, que momento mais infeliz para se insistir nesse assunto, senhor Tarso Genro.

Penso que seria melhor que tivesse ficado quieto.

domingo, 14 de abril de 2013

Fragmentos de uma noite louca


O taxista sonhava com a Shakira lhe beijando a face. Quando acordou, teve que afastar o focinho de um vira-latas e sua língua áspera. Custou a atinar onde estava. Aos poucos, percebeu que estava nu, deitado na grama, no alto do Morro da Polícia. O táxi com as portas abertas, os faróis ligados. A cidade, aos seus pés, amanhecia.


Os primeiros movimentos do taxista foram difíceis. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Em câmera lenta, pôs-se a recolher a roupa que estava espalhada pelo brejo. Lentamente, as coisas começavam a fazer sentido. Fragmentos da noite anterior chegavam aos poucos. Lembranças vagas de uma corrida estranha.

O endereço onde solicitaram a corrida era uma fábrica abandonada. Motos enormes com faróis acesos entravam e saiam acelerando. O taxista encontrou sua passageira saindo de um galpão em ruínas onde as pessoas dançavam ao som de música eletrônica. Ela era uma morena estonteante enfiada em um minúsculo shortinho jeans. Tinha os braços tatuados e carregava uma garrafa de uísque.

O taxista lembrava da morena ter brigado com seu namorado motoqueiro. Queria dar um rolê, esquecer aquela festa, as malditas motos e as jaquetas de couro. Lembrava de quando a morena o convenceu a subir o “Morro das Antenas“ com a promessa de seus seios explodindo na blusa. A suspensão do táxi sofrendo lomba acima, na estradinha de terra.

Enquanto se vestia, as lembranças chegavam a granel.

A última imagem que o taxista lembrava da noite anterior era da garrafa de uísque. Do primeiro gole que ele prometia evitar, nas reuniões do AA. Lembrava da morena desabotoando sua camisa, da lua cheia, das rosetas espetando suas costas.

Pela altura do sol, já devia ser tarde. Nem sinal da morena. Vinte e sete ligações perdidas no celular. Sua mulher desesperada. O patrão já devia ter registrado na polícia o sumiço do táxi. O jeito, agora, era comprar um analgésico e encarar as consequências daquela corrida maluca.

domingo, 7 de abril de 2013

Nas mãos dos vagabundos


Pouco antes do meio-dia. Parecia só mais um passageiro me fazendo sinal na calçada da Rua Duque de Caxias. Um jovem de bermudas, branco, aparentando uns 20 anos. Depois que parei, enquanto o rapaz embarcava, outro homem, negro, boné e óculos escuros atravessou a rua e entrou pela porta de trás. Ficou sentado às minhas costas.


Não foram poucas as vezes em que pensei que seria assaltado. Passageiros mal-encarados, indo para locais ermos, suspeitos. Alguns, nitidamente drogados, cheirando a álcool. Em nenhuma destas vezes fui assaltado. Ao final destas corridas, senti-me culpado por ter desconfiado dos passageiros que estavam me pagando.

Talvez por isso, acreditei que os dois caras que entraram no meu táxi na Duque de Caxias, em plena luz da manhã, não me assaltariam. O sujeito sentado ao meu lado falava de futebol. Pelo retrovisor, vi quando o cara sentado atrás tirou os óculos por um momento. Ele tinha um olho vazado. E permanecia calado.

Na altura do Ginásio Tesourinha, parei em uma sinaleira, ao lado de uma viatura da Brigada Militar. O sinal abriu e seguimos em frente. Eu me negava a acreditar que seria assaltado. Não queria ser injusto com os passageiros que, até então, não tinham me feito nada.

Passando o Estádio Olímpico, o passageiro de trás me puxou pela gola e espetou alguma coisa afiada na altura do meu rim. Um assalto. Enquanto eu dirigia rumo à incerteza, o sujeito da frente fazia a limpa no táxi. Celular, GPS, dinheiro...

Já no Bairro Glória, avistei outra viatura da Brigada vindo em nossa direção. Senti uma estocada na barriga. O bandido do banco de trás ordenou que eu entrasse em uma rua, evitando que cruzássemos com a PM. Foi preciso decidir rápido. Escolhi dobrar a esquina. A pressão da lâmina no meu flanco cedeu.

No fim, deixaram-me ficar com o táxi e a vida, o que não é pouco. Mas nem sempre é assim. Aos colegas que morreram, minha homenagem. Aos que choram por suas perdas, meu pesar.

domingo, 31 de março de 2013

Aprendendo a ficar quieto

A mulher embarca no táxi como um foguete. Está atrasada, precisa chegar ao banco antes que feche. Vencidas algumas quadras, ela percebe que pode ter esquecido o cartão do banco. Revisa a bolsa freneticamente até que dá-se por vencida: precisamos voltar.

Depois de subir ao seu apartamento, a mulher volta irritada. Tinha esquecido o cartão em outra bolsa. É quando eu abro minha boca grande para um comentário infeliz:


- Mulheres e suas várias bolsas.

É o suficiente para a passageira passar o resto da corrida criticando minha observação machista. Além de atrasada, agora ela está ofendida, pois jura que tem apenas 2 bolsas e odeia mulheres consumistas, e taxistas engraçadinhos.

Um estrangeiro embarca com um endereço em um papel. Com meu inglês meia-boca, descubro que ele é turco, que está divulgando a doutrina islamita no Brasil. O homem tem uma barba enorme, olheiras profundas, mas é muito simpático. Aos poucos, a corrida fica descontraída a ponto de eu lhe perguntar o que está achando das gaúchas. Meu passageiro, então, fecha a cara. Diz que é casado... Depois de alguns segundos de silêncio, o turco acrescenta em tom grave: “I love my wife” (eu amo minha mulher). O clima dentro do táxi pesa a ponto de arrearem as molas.

Em outra corrida, estou parado em um congestionamento com um passageiro de meia-idade ao meu lado. Pelo retrovisor, vejo que vem caminhando pela calçada uma garota com aparência de universitária, mas que é, na verdade, uma prostituta de luxo, conhecida dos taxistas, que a levam para trabalhar nos motéis da vida.

Imaginando que o grisalho ao meu lado poderia se interessar, penso em comentar sobre o serviço discreto da moça, mas acabo silenciando no último segundo. Quando o passageiro avista a garota, abre o vidro do táxi e grita:

- Oi, filha, está indo pra onde? O pai te leva de táxi!

Alguém já disse que o homem leva dois anos para aprender a falar e a vida inteira para aprender a calar a boca.

domingo, 24 de março de 2013

Café com um jovem colega


Se me perguntar se eu já vi alguém enriquecer no táxi eu te respondo: nunca vi. Vi gente enlouquecer, isso sim. O cara pirou. Não conseguia atravessar uma avenida. Ia muito bem, até que tivesse que atravessar uma avenida. Não conseguia, enlouqueceu, abandonou a profissão. Eu, por exemplo, não fiquei rico, mas também não enlouqueci, entende? Paguei meu apartamento, eduquei meus filhos, quero ver se troco o táxi este ano... Quem precisa mais?


Não se pode esperar muito do dia, compreendeu? Acordar cedo, sair rodando, abrir a porta para quem faça sinal. A recompensa vem a granel, nada de grandes boladas, trata-se de acumular tempo ao volante, ir juntando o dinheiro no bolso até que tenha algum valor descente.

Em meio à rotina, umas poucas alegrias. Tipo essa padaria no meio da manhã, os colegas trocando ideias, a atendente simpática atrás do balcão com seu sorridente “O de sempre?”. O jornal do dia que a padaria deixa os taxistas espiarem de graça. No mais, é dirigir sem parar, levar gente prá lá e prá cá, gente que não se importa contigo, que só quer chegar ao seu destino, sacou?

Claro que surpresas podem acontecer, pequenas e grandes. Naufragar em um alagamento, salvar com a buzina um cego que ia ser atropelado, escapar da velhinha que tenta te acertar com a bengala porque achava que estava sendo passada para trás no valor da corrida. Esse tipo de coisa que vale a pena ser lembrada, que você conta quando chega em casa, na mesa do jantar. As mulheres querem saber como foi o dia dos maridos, sabe como é?

É verdade que pode acontecer de uma passageira inundar seu táxi com um cheiro de banho recém tomado. Uma morena esguia, com cílios mais longos que o normal, que treme levemente o lábio enquanto passa o destino da corrida. E mesmo que não haja nada entre vocês, ela te acompanha em pensamento pelo resto do dia, entende? Coisas boas também acontecem em um táxi, sabe? Eu sei que tu sabe.

Me passa o açúcar, por favor.

domingo, 17 de março de 2013

Um táxi lotado de russas

Imagine 4 mulheres dentro de um táxi falando sem parar. Agora, imagine 4 mulheres dentro de um táxi falando sem parar... em russo! Aconteceu comigo, esta semana.

As mulheres eram lindas. Muito loiras, muito altas, muito bem vestidas. Estavam saindo de um shopping, cheias de sacolas, bastante empolgadas. Lotaram meu táxi com suas compras e exuberância. A que sentou na frente, apesar do sotaque carregado, era a única que falava português. Contou que eram russas, que ela morava no Brasil havia alguns anos, mas que suas amigas estavam apenas de visita.

O destino da corrida era uma pequena igreja ortodoxa russa, que fica na zona norte da cidade. Enquanto eu arrancava o táxi e a passageira ao meu lado me passava o endereço, suas colegas tagarelavam no banco de trás. Com seu português esforçado, a loira explicou que suas amigas estavam encantadas com o Brasil. Em especial com o clima.

Era fácil distinguir a russa que morava no Brasil: era a única bronzeada. Suas amigas tinham a pele branca como leite, e não pareciam nada à vontade com o calor de Porto Alegre. Ar condicionado no máximo, por favor.

Depois de me passar as informações, a russa bronzeada (dona dos olhos mais azuis e brilhantes que já vi) virou-se para suas conterrâneas e o papo esquentou. Passaram a falar como umas loucas, em alto volume. Impossível compreender qualquer coisa. Niet.

No final da corrida, resolveram catar todos os trocados que tinham nas bolsas. Estavam voltando para a Rússia e queriam se livrar do dinheiro brasileiro. O valor arrecadado entre elas foi o dobro do que constava no taxímetro. Deixaram tudo para mim, como forma de gorjeta.

Perguntei para a loira bronzeada como se agradecia em russo. Ela me ensinou uma palavra esquisita que eu repeti para suas amigas, ao que todas caíram na gargalhada. Fui informado, então, que tinha aprendido a chamá-las de gostosas.

Parece que a malandragem não é uma exclusividade brasileira.

domingo, 10 de março de 2013

O valor de uma amizade

Tempos atrás, peguei uma corrida em um supermercado. Uma passageira idosa, muito frágil, cheia de compras. Chegando à sua casa, ela pediu que eu levasse os volumes até a porta. Foi quando eu vi o Maverick. Ela tinha na garagem um carro clássico dos anos 1970. O veículo estava como novo, apenas tapado de pó.

Algum tempo depois, conversando com um amigo que restaurou um velho Maverick a ponto de deixá-lo impecável, lembrei do carro que eu havia visto naquela garagem. Meu amigo ficou muito interessado. Disse que tinha vendido o carro dele, e que estava em busca de outro. Fiquei de anotar o endereço certinho, assim que passasse pela casa daquela velhinha.

No outro dia mesmo, passei pela casa da dona do Maverick. Anotei o endereço em um papel e larguei sobre o painel do táxi.

Aconteceu, então, uma grande coincidência.

Um homem pegou meu táxi para ir até o banco. Pediu que eu o aguardasse, pois ia sacar muito dinheiro. Minutos depois, saiu da agência com um envelope que, segundo ele, continha R$ 300 mil. Contou que era colecionador de carros antigos, que estava indo ao Uruguai comprar um carro com aquele dinheiro.

Conversa vai, conversa vem, ele me confessou que estava à procura mesmo era de uma Simca ou de um...Maverick! Disse que estava difícil achar um carro desses em bom estado.

Eu, então, contei ao colecionador sobre o papel que estava sobre o painel. Sobre o endereço que eu havia acabado de anotar para um amigo. Ele ficou excitado, fez menção de levar a mão ao papel, mas eu o contive com um gesto. Momento tenso. Meu passageiro assegurou que aquela informação era valiosa para ele. Deu a enteder que poderia me pagar pelo endereço.

Esta semana, meu amigo passou no meu ponto para mostrar seu novo Maverick. Fechei o táxi e embarquei no possante para uma volta. Rodamos pela cidade tirando a maior onda, cotovelos nas janelas, sorrisos escancarados. O ronco de um motor V8 e uma velha amizade são coisas que não tem preço.

domingo, 3 de março de 2013

Pelotinha e as namoradas

Pelotinha era um taxista conhecido. Apesar de franzino, era metido a brigador: não levava desaforo pra casa. Frequentava tanto as delegacias que já era amigo da polícia. Vivia metido em confusão. Eu o conheci assim que comecei a trabalhar em táxi. Nessa época, ele já era veterano na praça.

Lembro de uma vez, desafiado por outros taxistas, em um ponto da Praia de Belas, ver o Pelotinha colocar a perna atrás da própria cabeça. Apesar da idade, ele tinha uma saúde invejável, e gostava de mostrar seu excelente preparo físico.

Nosso folclórico taxista também era um grande contador de proezas, que ele enfileirava a ponto de passar uma tarde inteira contando vantagem. Quando eu o encontrava em uma padaria do Bairro Santana onde os taxistas costumavam tomar café, podia perder horas de serviço escutando as histórias cheias de detalhes que ele narrava.

O caso preferido do Pelotinha era a corrida que ele fez para duas lésbicas que tinham saído de uma boate. Uma delas estava tomada de ciúmes, pois achava que a outra andava de olho em um travesti. A discussão acabou partindo para a violência, a ponto do taxista expulsar as passageiras do táxi, para que brigassem na rua.

Inconformado de ver a garota apanhando da namorada, Pelotinha teria se envolvido na briga e, segundo ele mesmo contava, acabou apanhando das duas, que se uniram para espancá-lo. Sacana, ele dizia que tudo havia acabado em um motel, onde passageiras e taxista se amaram até o amanhecer.

As últimas notícias que circularam sobre Pelotinha, davam conta que ele estava envolvido com uma japonesa misteriosa. Lembro de tê-lo visto desfilando com essa mulher dentro do táxi. Uma morena de feições orientais, vestida de preto, com maquiagem pesada. Chamava bastante a atenção. Depois que o taxista sumiu sem deixar notícias nem aos parentes, boatos na praça insinuavam que a tal japonesa o teria matado em um ritual de magia negra...

Mas isso já é uma outra história.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Paciência e mate amargo

O grupo estava parado em frente a um posto de combustível na Terceira Perimetral. Tentavam, sem sucesso, conseguir que um táxi parasse. Mesmo em uma avenida bem iluminada, os taxistas desconfiavam do bando de marmanjos acenando no meio da madrugada. Mas o bandeira 2 Danilo, índio criado em Bagé, resolveu arriscar. Além de macho, precisava de grana.

Os homens “depositaram” um colega no banco de trás. Pediram que Danilo o levasse até a parada 42 de Viamão. Depois disso, embarcaram em um outro carro e sumiram. O sujeito mal conseguia falar de tão bêbado. Quando o taxista perguntou se tinha dinheiro, o passageiro respondeu enrolando a língua:

- Me deixem na Perimetral que eu pego um táxi pra casa!

Chegando na parada indicada, em Viamão, Danilo tratou de acordar o passageiro, que tinha apagado de vez. Ao ser informado pelo taxista que tinham chegado à parada 42, o homem arregalou os olhos atordoados e exclamou:

- Eu fico na Perimetral, deixa que eu pego um táxi!

Quando o homem finalmente conseguiu achar sua casa, informou que precisava acordar sua mãe, para que ela pagasse a corrida. Paciente, Danilo, que sempre carrega no táxi uma cuia de chimarrão, resolveu servir um mate amargo ao vivente, para que ele se aprumasse. Afinal, mãe nenhuma merece ser acordada por um filho naquele estado.

Quem visse a cena era capaz de não entender: taxista e passageiro chimarreando em um táxi, alta madrugada, em uma vila perdida de Viamão. Nada como um bom mate em silêncio para organizar as ideias.

Na hora de acordar a mãe, o homem parecia tímido. Sem a chave do portão, chamava por uma tal de Leonor sem muita convicção. Vendo que aquilo não ia funcionar, Danilo pediu licença ao homem, fez uma concha com as mãos em torno da boca e soltou um berro que acordou metade da vila: “LEONOR!!”. Em um instante a mulher apareceu.

Pouco tempo depois, Danilo já voltava à Capital com o dinheiro no bolso e a sensação do dever cumprido.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O ladrão de lençóis

O casal já embarcou no táxi discutindo. A mulher jogou meia dúzia de sacolas para dentro do carro, sentou no banco de trás e bateu a porta com raiva. O marido, no banco da frente, também levava suas sacolas, também tinha a cara emburrada. O taxista não deu bola. Só mais uma corrida.

A mulher reclamava da vida que o marido levava. Queria que ele tivesse um emprego como todo mundo. Carteira assinada, essas coisas. Estava cansada da correria, das confusões, de dar explicações a vizinhos. À beira de um ataque de nervos, ela chegava a desferir pequenos tapas no marido. Não demorou a começar a chorar.

O homem não deixava barato. Também batia boca. Tentava impor sua opinião pela altura da voz. Enquanto dirigia, o taxista defendia-se das gotas de saliva que voavam em sua direção.

Antes da metade da corrida, a mulher pediu o divórcio. E o marido aceitou. Sugeriu que dividissem as sacolas (cada um ficava com o que tinha na mão). Disposta a não passar mais um segundo que fosse ao lado do homem, a passageira pegou seus volumes e desceu.

Pelo resto da corrida, o homem explicou a situação. Seu negócio era roubar lençóis. Era o que sabia fazer. Supermercados, lojas, shoppings, qualquer tipo de comércio, ele roubava. Desenvolveu técnicas ninjas para burlar a segurança. Falava com orgulho. Especializou-se em lençóis. Só produtos de qualidade.

O problema é que, como combinado no começo da corrida, quem pagaria o táxi seria a sogra do passageiro. A mãe de esposa divorciada, portanto. Mas a velha, óbvio, negou-se a liberar a grana ao saber que a filha tinha abandonado o barco, digo, o táxi.

Quando o taxista chegou em casa com aquela sacola de lençóis, sua mulher torceu o nariz. Afinal, quem paga uma corrida de táxi com lençóis? Roubados, ainda por cima!

Na manhã seguinte, o clima entre o taxista e sua mulher era dos melhores. Tiveram uma noite perfeita, com direito a sexo e sonhos angelicais. Tudo embalado em lençóis de seda.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mais um assalto

Tratava-se de um passageiro comum. Um jovem falando ao celular. Nada que chamasse a atenção. Ele pediu que eu tocasse para o Bairro Cristal. Passava pouco do meio-dia.

A conversa ao celular parecia ser com um amigo de longa data. Meu passageiro falou que tinha “saído”, que estava “na área” de novo. O papo cheio de gírias começou a me deixar desconfiado. Aos poucos fui percebendo que o sujeito não era flor que se cheirasse.

A próxima ligação foi para uma antiga namorada. O cara reclamava por ela não o ter esperado, por ter arrumado outro. Avisou que estava de novo na ativa, que estava arrumando dinheiro para comprar um barraco, mas que ela estava fora dos planos dele.

Parecia claro pra mim que o sujeito estava saindo da prisão, mesmo assim me deixei levar. A ruazinha que ele pediu que eu entrasse era entre uns prédios residenciais, não despertava suspeitas, ainda mais a uma hora daquelas. O que não percebi é que a rua não tinha saída, que no final havia apenas um beco que levava a uma favela.

O rapaz levantou um tanto a blusa e segurou a arma sem retirá-la da cintura. Pediu que eu passasse o relógio, o celular, a féria...Aquela situação terrível que todo  taxista conhece.

Meu batimento cardíaco aumentou de vez quando uma mulher com um cachorrinho pela guia aproximou-se do táxi. A cena dentro do carro congelou. O ladrão com a mão na arma, eu com o braço estendido em sua direção, segurando o dinheiro. Nós dois, imóveis, esperando que a mulher saísse do lado do táxi. Senti uma gota de suor escorrer pela testa.

Não posso afirmar com segurança, mas sou capaz de jurar que o cachorro fez xixi na roda do meu carro. A dona do bicho, mangolona, não desconfiou daquele táxi parado no final da rua, com dois homens imóveis dentro. E ainda deixou o animal mijar no pneu!

Na delegacia, o policial registrou mais uma de tantas queixas de taxistas assaltados, mas recusou-se a colocar o maldito cachorro no boletim de ocorrência.

Chateado.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sobre velhice e tapas

Quarta-feira é dia de buscar dona Dora (nome fictício) na clínica geriátrica, em Canoas. Sua única filha é minha passageira antiga. Ela visita a mãe dia sim, dia não, mas às quartas-feiras usa meu táxi, pois é o dia em que traz sua mãe a Porto Alegre. Dia de almoçar com o bisneto, de tomar sorvete e olhar as “modas”.

Dona Dora faz questão que eu a conduza até o táxi. Pega em meu braço com gosto. A idosa me pergunta se minha mulher está cuidando bem de mim. Por trás dos grandes óculos de lentes cor-de-rosa, ela traz um olhar malicioso. Revela que um morador da clínica anda querendo fazer sexo com ela. Constrangida, minha passageira pede que eu perdoe sua mãe pois ela não sabe mais o que fala. Não dou bola.

A jornada de poucos metros até o táxi é vencida com calma, a passos curtos, com muitas paradas para admirar a natureza. O tempo não tem importância para quem já passou dos noventa.

À tarde, na corrida de volta para Canoas, paramos em um mercadinho para comprar um mata-moscas. Um “tapa”. É um apetrecho simples, uma varinha com uma rede de plástico na ponta. Não custa nem dois reais. Dona Dora, porém, recebe o produto como um presente valioso. Ela diz que precisa muito de um tapa. Eu, particularmente, nunca vi mosca naquela clínica.

Depois de deixar dona Dora no lar, na volta para Porto Alegre, minha passageira, que já está na terceira idade há algum tempo, costuma fazer longas reflexões sobre a velhice. Diz que lamenta ver sua mãe naquele estado. Uma mulher que teve uma destacada vida profissional, insistindo em comprar um tapa, para matar moscas que só ela vê, inventando assédios sexuais, perdendo a razão. A vaidade impossível de quem volta a usar fraldas...

Eu, que já não sou mais um garoto, ando cada vez mais impressionado com essa corrida das quartas-feiras. Dia desses, me peguei admirando uma estante de palavras cruzadas (dizem que ajuda a prevenir o Alzheimer). Agora, ando pensando em comprar um tapa.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Anjos não conhecem a morte

Triste é não poder chorar, não poder deixar que as lágrimas deságuem o amargor que está corroendo a alma. Difícil é ter que ser forte, é ter que desviar o olhar para que ele não revele a dor...

Ao instalar-se no banco traseiro do táxi, a mulher respirou fundo e pediu que eu aguardasse um minuto antes de partir. Ela pegou um lenço e secou os olhos. O rosto vermelho. Os soluços mostravam que ela já vinha chorando havia algum tempo. Perguntei se estava tudo bem. Uma pergunta idiota. Claro que não estava.

A corrida era curta, minha cliente, uma mulher de meia-idade, estava indo buscar sua netinha na creche, a poucas quadras do meu ponto. Ela pediu que eu esperasse um instante, para que conseguisse se recompor. Para que respirasse um pouco. Não queria que a criança a visse daquele jeito.

Minha passageira havia perdido sua filha recentemente. Vítima de um tipo raro de câncer, a jovem teria morrido em poucos meses, no auge dos seus vinte e tantos anos. É difícil para uma mãe assimilar um golpe desses, mas a vida precisa ser levada adiante. Havia uma criança esperando que a buscassem na creche. Uma criança que não veria mais sua própria mãe.

A garotinha embarcou no táxi correndo. Tinha passado o dia elaborando um brinquedo com uma espiga de milho. Orgulhosa, mostrava os detalhes para a avó. As pernas de palitos, os olhos de feijão. Confessou que não via a hora de chegar em casa para mostrar à sua mãe o boneco que havia feito. Um anjo não conhece a palavra morte.

A mulher pagou a corrida em silêncio. Disse-lhe que lamentava sua perda e desejei sorte com a neta. Ela esboçou um sorriso amarelo em agradecimento.

A garotinha seguiu na frente, saltitante, levando seu boneco de milho, puxando a avó pelo braço. A energia da criança parecia dar forças à mulher, que além de levar a mochila colorida da neta precisava carregar também seu próprio fardo: uma tristeza cinza, escura, enorme. A tristeza de quem sequer pode chorar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Nêgo Tirso e o bolo voador

Meu colega adotou seu apelido como nome próprio. Costuma apresentar-se à moda James Bond: Meu nome é Tirso, Nêgo Tirso. Ele me explicou que foi sua mãe que começou a chamá-lo assim, desde criança, a ponto de suspeitar que a velha ao morrer sequer lembrava seu nome de batismo.

Nêgo Tirso é um taxista afro-descendente de tamanho (muito) avantajado. Trabalhando como empregado, em táxis de frota, modelos populares, pequenos, meu colega Tirso precisa usar seu banco muito recuado. No limite do trilho, com o encosto bem reclinado, quase encostando no banco traseiro. Mesmo assim, suas pernas ficam roçando no volante.

Apesar da aparência ameaçadora, nosso colega é pura ternura. Uma dama, praticamente. Ele se diverte contando um entrevero que teve no trânsito. Um motorista de uma camionete enorme parou para brigar com o taxista que o havia apertado. Ao ver o Nêgo Tirso descendo do táxi, porém, o homem teria desistido da discussão e batido em retirada.

Mas a história que melhor retrata nosso doce colega é uma corrida que ele fez para uma senhora que carregava um enorme bolo de aniversário. Desses bolos que, de tão grandes, são montados sobre um tabuleiro de madeira. A mulher ia equilibrando o bolo enquanto Nêgo Tirso dirigia com todo o cuidado possível. Acontece que um cachorro atravessou na frente do táxi...

Depois da freada, o bolo estatelou-se contra o painel do carro. A mulher ficou só com o tabuleiro nas mãos, que, indignada, arremessou contra a cabeça de Nêgo Tirso ao sair porta afora. Não pagou a corrida nem a limpeza do carro.

Por uma dessas coincidências do destino, isso aconteceu na Avenida Azenha, bem na altura do Albergue Dias da Cruz. A calçada estava cheia de moradores de rua, que esperavam o horário de abertura do abrigo. Nêgo Tirso disse que não teve dúvida: abriu o táxi e deixou que o pessoal se servisse de bolo.

Meu colega jura que até um parabéns a você foi cantado. Não duvido.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Baunilha e chocolate

Não sei se os verões estão cada vez piores ou é minha intolerância ao calor que vem aumentando. O fato é que Porto Alegre anda ardendo em brasa. Nesse dia, no entanto, depois de derreter os pneus pelas ruas da cidade, eu estava finalmente indo passar o táxi para o motorista da noite.

Na esquina da João Pessoa com a Ipiranga, a EPTC realizava uma ação de educação para o trânsito. Colocaram à margem da avenida uma placa com a mensagem “Dirigiu e bebeu”. Logo a seguir, uma homem coberto por sacos pretos rasgados, segurando uma foice.

A morte.

Danilo, meu parceiro da noite, já me esperava na pracinha da Azenha onde fazemos a troca de turno. Comentei com ele sobre a ação da EPTC, que eu achara um tanto chocante. Meu colega, então, apontou para um boteco em frente à praça. Mandou que eu desse uma olhada atrás da viatura da polícia. Aquilo sim era chocante.

Depois de entregar o táxi, fui até o boteco. Normalmente passo por ali mesmo. Nos dias de calor, um rapaz vende sorvetes na porta do estabelecimento. Um camburão estava atravessado em frente à máquina de sorvetes. Sentada em uma cadeira, na calçada, do lado de fora do boteco, junto ao sorveteiro, uma senhora jazia morta. Por falta de um lençol, estava tapada com um plástico transparente, à espera da perícia.

Dois homens que apreciavam a cena mórbida comentavam que ela sentiu-se mal, pediu para sentar e morreu. Parecia estar ali há um bom tempo, pois já não chamava mais a atenção. Em segundos, os homens deixaram o local comentando a contratação do técnico Dunga.

Olhei para o garoto do sorvete. Ele estava ali parado, tentando ganhar a vida, apesar de tudo, postado entre a viatura e a cadeira, tentando obstruir a incômoda visão da morta, que atrapalhava os negócios. Ao me ver, perguntou se eu compraria um sorvete.

Peguei uma casquinha mista e saí filosofando com meus botões. O que seria a vida, senão um misto de doce e amargo, nascimento e morte? Baunilha e chocolate.

domingo, 30 de dezembro de 2012

As luzes da virada

Chega uma hora que todos vão para casa, que tudo sossega. A euforia das lojas, toda a correria cessa. Chega uma hora que mesmo as pombas acham seus ninhos. Antes da meia-noite, a cidade fica às moscas. O Centro Histórico, então, é o que mais sente.

O taxista Danilo estava sozinho no ponto do “Guaspari”. Ali onde a Borges de Medeiros inicia, onde, normalmente, pulsa o coração da cidade. Apenas um táxi no ponto, nem um cachorro sem dono circulando, muito menos passageiros. O taxista cochilava ao volante.

As batidas no vidro acordaram Danilo. Achou que fosse a Rádio Gaúcha, que transmitia a retrospectiva do ano. O taxista mal acreditou que um passageiro havia aparecido. Um velho amarrotado, barba por fazer, mas parecia querer um táxi! Abriu a porta. Antes de embarcar, porém, o homem explicou sua situação.

Estava sem grana. Precisava ir até a Vila Nova. Pagaria a corrida, sua esposa tinha dinheiro em casa. O olhar sincero do velho e a falta de passageiros melhores a uma hora daquelas, fez o taxista aceitar a corrida arriscada. Entregou pra Deus.

Enquanto o táxi rasgava as avenidas desertas rumo a Zona Sul, o passageiro contou sua história. Tinha um filho internado em um hospital. Viciado em drogas pesadas, o rapaz acabou levando o velho à falência. Depois de vender tudo o que havia em casa, o filho acabou vendendo um rim e, por fim, caiu doente.

O velho fora visitar o filho no hospital. Acabou dormindo em uma cadeira. Confundido com um paciente, deixaram-no ali até anoitecer. Tinha conseguido condução para o centro da cidade, mas já não havia mais ônibus para a Vila Nova àquela hora. Por isso, o táxi.

O taxista ficou aliviado ao receber pela corrida. Também tinha seus problemas e grana era um deles. Depois de abraçar o velho, desejou-lhe sorte e partiu. O foguetório e as luzes espocando no céu anunciavam a virada do ano. Voltou a ligar o rádio em busca de companhia. Deu-se por satisfeito com Roberto Carlos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Já que o mundo não acabou...

Sexta-feira, 21 de dezembro de 2012. Trabalhei o dia todo, a noite chegou, e nada de acabar o mundo. E agora? Contando com o apocalipse, não escrevi nada. Afinal, não haveria mais Diário Gaúcho na segunda-feira. Como preciso mandar ainda hoje um texto para o jornal, faço às pressas uma lista dos passageiros que passaram pelo meu táxi nesta data.

Um funcionário público queixando-se do casamento em crise, uma mãe prometendo mundos e fundos para o filho ficar na creche, uma pensionista treinando a assinatura para o recadastramento, um ex-detento empolgado com uma oportunidade de emprego, um dentista desiludido com a profissão claustrofóbica, uma garota sozinha indo para o cemitério.

Pausa para o café.

Um cadeirante tarado mexendo com as mulheres, um oficial de justiça contando os dias para as férias, uma mulher que não dormiu cuidando do pai doente, um militar falando mal do governo, uma morena cheirosa mexendo no smartphone, um mineiro voltando para casa depois de trazer um ônibus cheio de trabalhadores para a obra do estádio Beira-Rio.

Almoço.

Uma mulher indo para a Índia casar com um cara que conheceu pela internet, um velho sábio: “quer mentir, fale do tempo”, um jogador de futebol ligeiramente alcoolizado, um garçom que está sendo assediado sexualmente por seu chefe, uma mulher endividada com as compras de natal, um casal saindo do hospital com o filho recém-nascido, uma idosa falando mal das novelas, um executivo com dor de cabeça.

Parada para um xixi e cafezinho.

Uma mulher irritada levando o filho skatista a uma traumatologia, um casal cheio de sacolas, um homem dizendo estar “atacado do ciático“, duas diaristas falando mal dos patrões, um cara tentando pagar a corrida com uma nota falsa! Confusão... Deixa prá lá. Um gordo reclamando do trajeto que eu escolhi...nova confusão. Melhor desligar o taxímetro. Conta a féria, passa a régua.

Caso o mundo não tenha mesmo acabado, feliz natal a todos.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Gatos, unhas e um velho piano

A mulher que solicitava meu táxi era uma figura estranha, para dizer o mínimo. Magérrima, encurvada, com um chapéu de abas enormes e uma calça larga que não lhe cobria as pernas por inteiro, deixando um tanto de canela para fora. Parei desconfiado.

Em frente a uma pet shop, com o dedo indicador esticado, pele, osso e unha enorme, a mulher perguntou se eu faria, além da corrida, um favor a ela, que o outro taxista que parou recusou-se a fazer (ai, ai, ai). Carregar um saco de ração de 25 kg. Eu precisava descarregá-lo, ao final da corrida. Vamos lá.

A passageira sentou-se ao meu lado. Perguntei se os cachorros dela eram muito grandes para tanta ração. Ela respondeu que detestava cães. Enquanto conversava, reparei melhor na mulher. Idade seguramente acima dos 80 anos, óculos pesados, olheiras escuras e maquiagem excessiva. A dentadura de porcelana deixando escapar um sotaque castelhano. Explicou que aquela ração era para seus gatos. Vinte e cinco quilos!

Ela afirmou que não sabia quantos gatos tinha. Não se preocupava em contá-los. Todos os dias aparecia um novo animal. Não se dava ao trabalho sequer de batizá-los. Enquanto falava, remexia uma sacola em busca da carteira para pagar a corrida. Suas unhas enormes dificultavam a tarefa.

A mulher abriu o portão para que eu entrasse com a ração. Os gatos dominavam o local, desde a calçada, por cima do muro, no pátio. O terreno era um campo minado de fezes. Ela abriu a porta da casa e indicou o lugar onde eu poderia deixar o saco. O assoalho de madeira rangia sob meus pés.

A sala escura estava envolta em uma fumaça azulada. Afundada em um sofá puído, uma velha centenária controlava a movimentação. Devia ser a mãe da minha passageira. Segurava entre os dedos um toco de charuto. Não fosse pelo insuportável cheiro de urina de gato, eu teria pedido para fazer um som em um piano de teclas amareladas que repousava em um canto da sala.

Voltando a trabalhar, meu táxi pareceu o paraíso.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Táxi não é para fracos

O passageiro embarcou no táxi com um cacho de uvas na mão. Bem vestido, aparentando uns 40 anos. Destino: Palácio Piratini.

A primeira uva destacada do cacho, o passageiro ofereceu a mim. Agradeci, mas recusei a oferta - não ia pegar uma uva da mão do cara.

O homem explicou que aquele cacho de uvas era o seu café da manhã. O problema é que, enquanto falava, ele chupava as uvas e jogava as cascas pela janela. Mostrei a sacolinha de lixo do táxi, bem ao lado da sua perna, mas ele ignorou solenemente minha observação. Jogou as cascas, uma a uma, pela janela. Naturalmente, jogou também o cacho na rua.

Terminada a refeição, o passageiro limpou as mãos na calça - melhor do que limpar no estofamento, pensei. Feito isso, iniciou um processo de limpeza da garganta. Começou a cuspir para a rua. Ele explicou que fuma demais. O cigarro lhe provoca um catarro danado. Tem que expelir. E dê-lhe cuspir.

Depois de roncar como um porco, reunindo a maior quantidade de muco possível na boca, o homem aproximava o rosto da janela e soltava o catarro em alta velocidade, não importando-se com o destino do projetil.

(Abro um  parêntese para pedir desculpas aos leitores pelo tema de mau gosto, e aconselhar aos mais sensíveis que abandonem a leitura nesse ponto pois o pior ainda está por vir. Fecha parêntese).

Dando continuidade ao seu método de desobstrução das vias aéreas, com o táxi em movimento, o passageiro colocou metade do corpo para fora da janela e assoou o nariz. Sem lenço, óbvio, apenas tapando uma das narinas com o dedo. Feito isso, voltou a sentar-se com ar aliviado. Sobras de fluído nasal foram recolhidas com a manga da camisa.

O homem disse que dormira na casa da amante, onde não tinha escova de dentes. Confidenciou-me esse pequeno pecado talvez para justificar o fato de estar limpando os dentes com o dedo indicador...

A idade anda me amolecendo o estômago: só de lembrar dessa corrida, volto a ficar enjoado.

domingo, 25 de novembro de 2012

Cena no sinal fechado (o mendigo)

O homem entrou no meu táxi falando ao celular. Fez sinal com a mão para que eu seguisse em frente. Tive que pedir que colocasse o cinto de segurança. Ele abriu o vidro e colocou o cotovelo na janela. Falava tão alto que o telefone era quase desnecessário. Discutia com alguém sobre um cheque devolvido.

Quando parei no semáforo, meu passageiro já havia encerrado sua ligação. Um mendigo aproximou-se da sua janela. Era tarde para fechar o vidro. O indigente segurava uma pequena moeda na ponta dos dedos. Com um sorriso de tártaros, mostrou a moeda ao meu cliente, dando a entender que esperava por uma esmola, uma outra moeda daquelas que fosse.

Visivelmente irritado, meu passageiro começou a passar um sermão no mendigo. Perguntou se o homem não tinha vergonha de estar ali pedindo esmola, quando podia muito bem trabalhar, visto que tinha saúde. Disse que tinha dinheiro, mas era dele, que trabalhava para ganhar, que não desperdiçaria com desocupados que se fazem de coitadinhos.

Era um discurso grosseiro, agressivo. O homem ao meu lado estava claramente descontando sua irritação no pedinte. Falava do governo paternalista que incentiva a vagabundagem, que distribui esmola com dinheiro público, que não valoriza o trabalho...

Mas o estranho naquela situação constrangedora era a postura do mendigo. Ele continuava imóvel, com o sorriso inalterado nos lábios, segurando sua moeda do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. Praticamente uma estátua. Seria surdo?

Quando o sinal abriu, antes que eu arrancasse, aconteceu algo inusitado: o mendigo desfez o sorriso e jogou a moeda no colo de meu passageiro! Feito isso, girou sobre os calcanhares e, mudo, partiu em direção à calçada.

Arranquei o táxi sob protesto do meu cliente, que queria tirar satisfação com o pedinte. O movimento da avenida, porém, nos levou adiante. Impossível voltar.

Fiquei com a moedinha. Quando reencontrar aquele mendigo, devolvo uma maior.

domingo, 18 de novembro de 2012

Sono

Almoço em um boteco amigo, no Menino Deus. Basicão: arroz, feijão e carne. Baixa gastronomia. De estômago cheio, rodo até meu ponto. Torço para que haja uma fila, para que eu possa tirar um soninho dentro do táxi. Mas, nesses tempos de economia aquecida, chego e já estou na ponta.

O problema começa quando vem uma passageira que vai até o alto da Lomba do Pinheiro. Uma corrida longa. Muito longa. Uma passageira quieta, muito discreta, não conversa. Senta lá no cantinho do banco traseiro e é como se não estivesse ali. E acontece que ela vem sempre depois do meio-dia, quando eu estou de barriga cheia. Quando bate aquele sono.

Quando se está naquela bobeira pós-almoço, uma corrida do bairro Menino Deus à Lomba do Pinheiro dura uma eternidade. Pega-se a Avenida Bento Gonçalves e nunca mais se para de andar. Logo os olhos começam a pesar. As pálpebras doem, o sono ataca.

As quadras passam, os sinais todos abertos, a longa avenida à frente não acaba mais. A passageira, lá no seu cantinho, não desconfia que o taxista está em apuros. O barulho dos pneus no asfalto é como uma canção de ninar. Ligo o rádio. Piora: só música lenta. Mesmo aquela estação Rock’roll está no horário “baladas”. Esfrego os olhos. Abro o vidro, tento pegar um ar. Não adianta.

Subindo a Lomba do Pinheiro, estou à beira do desastre. Já cochilei umas duas vezes. A passageira, por sorte, não notou, absorta em seus próprios pensamentos. Vou lutando para erguer as pálpebras, que pesam uma tonelada cada uma. Felizmente, a corrida vai chegando ao fim. Juro para mim mesmo que, assim que a passageira desembarcar, estaciono o táxi e tiro um sono. Uns 15 minutos já servem. Preciso desesperadamente dormir.

A corrida acaba!

Sem desconfiar o perigo que passou, a passageira sorri enquanto me paga. Elogia minha forma suave de dirigir. Confessa que chegou a sentir sono. Veja só. Desejo-lhe uma boa tarde. A mulher fecha a porta e se vai.

E com ela, vai-se também o meu sono.