domingo, 2 de dezembro de 2018


Sentado dentro do meu táxi, bem na esquina, assisti o acidente em detalhes. Um Logan prata converteu de forma abrupta e uma moto em alta velocidade bateu no carro. O motoqueiro carregava um botijão de gás na garupa, o Logan carregava uma passageira no banco de trás.
Carro amassado, motoqueiro esfolado, recolhe o parachoque que caiu, busca o botijão que rolou, bate-boca, dor, raiva, prejuízo. Eu só observando.
Seria só mais um acidente, entre tantos que presencio diariamente, não fosse um detalhe. O momento em que o "parceiro" motorista de aplicativo cogitou procurar por uma testemunha. Ele olhou pro meu carro parado na esquina, eu sentado ao volante, a testemunha perfeita! O cara chegou a dar alguns passos em direção ao meu táxi, mas desistiu no meio do caminho. Lugar errado para buscar solidariedade, ele deve ter concluído.
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Tenho um passageiro que costuma encontrar-se com sua amante em um cemitério. É sério! Acabei de deixá-lo lá. Alertei-o quanto as previsões de mau tempo, tempestade de granizo e tudo mais. Não adiantou.
- Hoje vamos visitar o túmulo dos avós dela.

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Minha passageira planeja comemorar seus 80 anos fazendo um curso de Reiki Xamânico em uma fazenda de nudismo. Contratou-me para levá-la pela manhã e buscá-la à tarde. Como não tem companhia, minha octogenária cliente deu-me a opção de participar das atividades junto com ela, na base da parceria, tudo pago!
Alguém tem ideia de como seria esse "curso"?

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Num casal de idosos onde um enxerga pouco e o outro é quase surdo, adivinha quem liga para o ponto de táxi:
- Alô, ponto de táxi, boa tarde.
- De onde fala?
- Ponto de táxi.
- É do ponto de táxi que está falando?
- SIM, PONTO DE TÁXI (gritando)!
- Alô.
- ALÔ! PONTO DE TÁXI!
- Alô, alô, eu preciso de um táxi. Alô.
- SIM, QUAL O ENDEREÇO!?
- Alô, é do ponto? É do ponto de táxi?
Desisto.
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- Alô, oi, João, onde você está, meu amor? No Centro? Num cliente, João? Não diga!
- A senhora vai ficar aqui?
- Eu tô num táxi, João. Na Fernandes Vieira, na frente da casa da perua da Luiza. O que é que o teu carro tá fazendo estacionado na frente da casa dessa biscate, João?
- Desligo o taxímetro, ou a senhora...
- Não é o teu carro, João? É a mesma placa, João! O mesmo adesivo Deus é fiel no vidro traseiro! Tu tá de novo com essa vagabunda, João! Não tô acreditando, João!
- Não posso ficar parado aqui em fila dupla, vão multar meu táxi, senhora.
- Taxista, toca pro motel dos Alpes. João, sabe o que é que eu vou fazer? Alô, tá me escutando bem, João? Eu vou pro motel com esse taxista, vou dar pra ele, a gente vai se acabar transando, João!
- Olha só, eu estou trabalhando, não...
- Hum, ele ficou todo assanhadinho, acho que é tarado, esse taxista, João! Aposto que vai ser ótimo, seu imbecil! Ele tá me levando pro motel, João!
- Não, olha...
- Que vai matar o quê, tu não vai matar taxista nenhum, pensa que só porque tu és delegado as pessoas tem medo de ti, João? Grande coisa que tu já tem dois assassinatos nas costas!
- Minha nossa senhora.
- O taxista tá rindo da tua cara, hahahaha!
- Não faça isso, senhora.
- Olha, João, ele é escritor, o taxista! Nossa, que legal, foi o senhor que escreveu esse livro?, Taxitramas, hum.
- Não, não.
- Fica aí com a piranha da Luiza, João, eu vou pro motel com esse taxista, hoje tu vai ser corno, João! Um taxista escritor hahahaha, aposto que vai escrever a história do corno do João hahahaha!
- Me dá aqui esse telefone, alô, alô, seu João, seu João, alô, alô.
- Eu já desliguei. O senhor pode me deixar ali no shopping, por favor.
- Tô ferrado.
- Quanto custa o seu livro?

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Numa corrida em que levava seu cachorrinho para uma clínica veterinária de luxo (sessão de acupuntura) a passageira me confidenciou que está enxugando gastos: está tirando sua mãe de uma clínica geriátrica "metida a besta", colocando a velha em um lugar mais simples.
- Minha mãe está com Alzheimer, não aproveita nada mesmo

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Hoje é quinta-feira e eu vim trabalhar de tênis. Esqueci. Aposto que minha passageirinha da terceira idade vai me cobrar. Semana passada, ela deu a dica:
- Eu venho toda quinta-feira nesse bailinho. É bom, mas falta homem pra gente dançar. O senhor não quer estacionar o táxi? Dançar um pouco comigo? Pago seu ingresso e um refri!
- Mas a senhora disse que não deixam entrar de tênis...
- Vamos combinar pra semana que vem!

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Um homem embarca no táxi fazendo sinal de que não fala, é mudo. Não tenho caneta, ele tenta me explicar onde quer ir:
- As mão enlaçadas sobre o peito.
- Igreja. Não?
- Fecha os olhos. Os olhos fechados.
- Dormir. Clínica do sono? Não?
- Mãos no peito, olhos fechados, língua pra fora.
- Língua pra fora?
- Ajeita a gravata (já irritado), pés juntos, estica pra trás, mãos no peito, olhos fechados!
- Gravata, estica, testemunha, casamento, cartório!?
- Indicador esticado, arma na mão, tiro na cabeça, olhos fechados, língua pra fora?
- Necrotério municipal!
Puto da cara, o mudo desce, vai no táxi de trás pede um papel e escreve às pressas, com letra de forma, bem grande "CEMITÉRIO PORRA!!"
- Ai, nossa, não se irrite.
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O marido pega meu livro pra dar uma espiada, lê uma história, duas, cai na risada, adora. Ele vira pra mulher, que parece enfastiada no banco traseiro do táxi.
- O livro do taxista é ótimo, querida, vamos levar?
- Não.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo
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Sinal vermelho.
Av. Bento Gonçalves, sete da matina. Paro o táxi no semáforo. Na calçada, uma jovem morena, cabelo molhado, short justíssimo, blusinha mínima e botas de canos longos, acima dos joelhos, está parada com as duas mãos no rosto, secando as lágrimas, o rosto deformado pelo choro. Ela parece à beira de um ataque de nervos. Do outro lado da avenida, um bordelzinho de quinta está fechando as portas, um pequeno grupo de "clientes" está deixando o local. Um deles parece xingar a menina que chora na outra calçada. Penso em abrir o vidro do táxi e oferecer ajuda, mas, nisso, pára um ciclista, um senhor, roupas simples, mochila nas costas - típico trabalhador economizando a passagem do ônibus. Ele desce da bicicleta e acode a garota que chora, põe a mão no seu ombro, conversa com ela.
Sinal verde.
Fico curioso quanto ao desenrolar da cena, tento retardar a partida, mas as buzinas me chamam à realidade, engato a primeira marcha e sigo o fluxo. Afinal, a vida é isso mesmo: um eterno seguir o fluxo.
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Corridinha de 7 Reais
- Só tenho 50, o senhor tem troco?
- Tenho, mas essa nota é falsa, senhora.
- Mas eu peguei no banco agora mesmo!
- É beem falsa.
- Então só tenho essa de R$100.
- Também é falsa. É um xerox, senhora!
- Recebi no banco!
- Ali tem uma viatura da polícia, a senhora...
- Não, não, eu detesto polícia.
- Aposto que sim.
E se foi sem me pagar.

domingo, 18 de novembro de 2018

Tiozinho careca, gravata frouxa, parecendo aflito, embarca no táxi. Higienópolis.
- Que dia, taxista, que dia. Sabe quando não dá nada certo?
- Sei.
- Recolheram meu carro. Deixei em local proibido, pensei que não ia demorar no banco. Não vendi a soja semana passada, o dólar caiu, perdi uma grana preta, renegociando financiamento com o gerente, demorou, guincharam o carro.
- Putz.
- Logo hoje, dia fértil da minha mulher.
- Dia fértil.
- Ovulação, entende. Hoje é o dia! Estamos ‘trabalhando’ uma gravidez. Ela tá me esperando. Não dá pro senhor ir mais depressa?
- O trânsito está um horror.
- Não estou com cabeça, sabe, só problemas, mas vamos lá, hoje é o dia. A tabelinha não mente, ovulação, ciclo, hoje é o dia. Ela está me mandando zap, o quarto já está pronto, aquecido, o Jorge já preparou tudo.
- Jorge?
- É o guru da minha mulher, sabe, ela é muito espiritualizada, acredita nessas coisas, o Jorge trabalha esse lado místico da coisa, prepara o quarto, o ambiente, descarrego, abre-caminho, incenso e coisa e tal, sabe. Ele está lá com minha mulher, já preparou tudo. Taxista, a gente tem que tentar de tudo, entende, já não sou uma criança, minha mulher é bem mais nova, quer um filho.
- Sei. E esse Jorge, o guru, ele tem muita experiência, viajou pro Tibet, sei lá, é um velho sábio, por certo.
- Na verdade, não. Ele trabalha como personal trainer, massoterapeuta, mas faz filosofia à noite, ensino a distância, e estuda essas ciências ocultas todas, sabe, o cara manja.
- Personal trainer.
- Sim, minha mulher é toda geração saúde, sabe, o Jorge cuida do corpo dela, faz parte do nosso projeto ‘gravidez’. Será que subindo a Goethe não seria mais rápido? O jorge já foi embora, minha mulher tá ansiosa. O senhor sabe como são as mulheres…
- Sim, eu sei.

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Passar o dia na rua, como o taxista passa, é estar exposto ao risco, ao susto, a realidade boxeando, batendo na cara, mostrando as armas. Acabo de presenciar uma cena forte, a luta pela vida, a morte a menos de dois metros de mim, nua e crua. Eu, ao volante do táxi, trânsito parado, pista da esquerda da avenida Ipiranga, assistindo a tudo.
No gramado que margeia o Arroio Dilúvio, o quero-quero retesado, pescoço imóvel, bico apontado, foco total. Menos de um segundo, duas bicadas certeiras e a minhoca já estava catada, uma sacudida de bico e já era, a luta diária pela sobrevivência, matar ou morrer, não era o dia daquela minhoca.

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Eu vinha meio distraído pela 3° Perimetral quando um Disco Voador, sem o menor aviso, resolve pousar na frente do meu táxi. Não deu seta, pisca alerta, nada, simplesmente pousou aquela tremenda nave, trancando a pista. Placa de Marte. Só podia ser!
Tirei pro lado, saí de trás, consegui mudar de faixa. Ao passar pelo Disco Voador, adivinha: o Marciano lá, com os três olhos grudados no smartphone, a cabeça nas nuvens. Putz, que raiva!
Depois, se reclama, se buzina, é porque é taxista fiasquento, blá, blá, blá. Gente, vamo se antenar!!

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Noventa e dois anos, a neta do lado de fora, puxando pelos braços, pediu que eu ajudasse, que empurrasse de dentro do táxi. A acusação de assédio sexual não foi nada. Doeu mesmo foi a bengalada na mão.
- Pervertido!

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Largando uma corrida na porta de um grande hospital. Enquanto minha cliente desembarca, noto que um homem com camisola de paciente (aquelas abertas nas costas) vem caminhando em direção ao meu táxi. Ele está muito pálido (amarelo), segura um suporte de metal com uma bolsa de medicação pendurada, ligada ao seu braço (o que sobrou do seu braço, amputado abaixo do cotovelo). Pela janela, ele me pergunta se R$10 paga uma corrida até o prédio da Zero Hora (ele segura uma nota de 20 na mão).
- Bom, não exatamente, mas o senhor...
Nisso chegam correndo um guarda e um enfermeiro e seguram o homem pelo braço (o que restou inteiro). Forçam-no a voltar para o Interior do hospital, ele resiste, quer entrar no táxi, agarra-se à maçaneta, eles o impedem, pedem calma, o homem alega que vai apelar à imprensa, está indignado, mas acaba cedendo aos argumentos dos homens, aos poucos dá as costas para meu táxi (a bunda de fora) e começa a voltar, escoltado pelo segurança e pelo enfermeiro, que o ajudam com o suporte metálico.
O pequeno aglomerado de pessoas que assistia à cena abre passagem e eu parto rumo à próxima corrida. C' est la vie.
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Sabe você que pegou meu táxi hoje pela manhã, bem cedo, com cara amarrotada, voz gutural, dando a entender que teve uma noite péssima, em péssima companhia, bebida péssima, que perdeu seu tempo tentando fazer dar certo algo que, desde o início, estava na cara que não ia rolar? Sabe? Você que me confessou que não tem talento para escolher namorados, que investe nas pessoas erradas, que detesta amanhecer em um táxi admitindo suas cagadas, mas disse que é o que sempre acaba acontecendo? Lembra? Lembra de ter me convidado para acompanhá-lo em uma última dose, pra, quem sabe, esticar o papo em um "lugar sossegado", que, apesar de tudo, estava cheio de amor pra dar? Lembra de mim?
Pois é, sou aquele taxista. Desculpa o mau jeito, a resposta seca, a aparente falta de sensibilidade com os tetos alheios. É que eu também não tive uma noite das melhores e tudo o que eu queria àquela hora da manhã era fazer uma primeira corrida decente, receber pelo trabalho e dar continuidade ao meu dia, para que, quem sabe, as coisas também melhorassem pro meu lado.
Foi mal.
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- Eu não posso chegar atrasado! Descendo por dentro da vila não é mais rápido?
- É perigoso. O senhor quer morrer?
- Taxista, o senhor entregando meu corpo no meu trabalho antes das 9 tudo bem. Não posso é perder o emprego.
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Atendo o telefone do ponto. Do outro lado da linha, a voz de uma idosa:
- O taxista Argemiro está?
- Argemiro?
- Sim, o que trabalha em um Del Rey.
- Hã?
- Sabe o que é? Eu sofro da coluna, sabe, os táxis Fuscas são muito desconfortáveis.
- Fuscas.
- Pois é, o Del Rey do seu Argemiro é macio, não me maltrata o bico-de-papagaio.
- Entendo. É que o seu Argemiro não está trabalhando...
- Sem querer ofender. O senhor teria algum táxi para mandar que não seja Fusca? Eu preciso para domingo à tarde. Quero levar minha filhinha na matinê do Cine Baltimore.
- É que... bom... a senhora não quer ligar mais tarde? Aposto que o seu Argemiro terá prazer em atendê-la.
- Está bem. Diga a ele que a Isolda ligou.
- Pois não.
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Prazer em tempos de Facebook. Funciona assim:
Eu posto uma história aqui. Feito isso, coloco o celular (com o vibrador ligado) no bolso traseiro da minha calça. Então é só esperar os comentários.
Digamos que sou literalmente "tocado" pelo seu comentário (crítica ou elogio, tanto faz). É mais que uma massagem no ego. É físico - imagine eu, dirigindo meu táxi, sendo bolinando por sua observação!
Comenta aí. Me faz essa carícia.
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Rua Mariante, sinal fechado, chuva torrencial. Para ao lado do meu táxi um jeep do exército, pintura camuflada, machado preso à lataria, a capota de lona sendo castigada pelo aguaceiro. Um soldado levanta a sanefa de plástico do veículo militar e faz sinal para que eu abra a janela. Precisa de informação. Abro uma fresta.
- Taxista, a Liberdade, a Liberdade! - ele grita.
- A liberdade?
- A liberdade? Está próxima? - a urgência no olhar castigado pela chuva.
- A liberdade está distante, amigo!
- Não é aqui pra frente?
- Liberdade é uma utopia!
- O quê? Não entendi!
- Não existe liberdade no mundo moderno!
- A Liberdade, cara! Já passou? A rua, taxista, a rua!
- Procure dentro de você, amigo! A verdadeira liberdade está dentro de nós mesmos!
Nesse exato momento cai um raio num transformador de energia, o semáforo abre e o diálogo, que já estava difícil devido à tormenta, fica por aí. Uma pena. Gostaria de ter indicado uns livros de auto ajuda para aquele soldado. Ele parecia perdido.
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Casal de idosos saindo de uma clínica popular. O velho está mal. Muito magro, pálido, barba por fazer. Veste um sobretudo pesado que dificulta ainda mais seus movimentos já lentos. A velha o ajuda a embarcar e senta no banco de trás.
- Taxista, se o senhor puder ir rápido. Meu velho tem incontinência.
- Incontinência? Incontinência urinária?
- Sim. E a número 2 também.
- Número dois!
- Mas é só quando ele tosse.
O vovô, sentado na frente, parecia divertir-se, só admirava a paisagem.
- Ele é praticamente surdo.
- Mas ele está de fralda?
- Não admite usar fralda. É vaidoso.
- Teimoso, a senhora quer dizer.
Nunca o Jardim Humaitá foi tão longe. Meu táxi deu 140 na avenida Legalidade. Afinal, a corrida transcorreu sem tosse. Mesmo ao fazer força para desembarcar, meu bravo passageirinho segurou firme. Antes de partir amparado pela patrôa, brindou-me com um sorriso vitorioso e um aceno.
- Tenha um bom dia!
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Loira, jaqueta de couro, avenida João Pessoa, 15:00h. A passageira senta no banco traseiro e, me encarando pelo retrovisor, fala:
- Tio, seguinte: eu preciso ir até a Vila Tuca e depois voltar aqui.
- Pra...
- Eu vou buscar droga.
- Não.
Desceu sem comentários. Sincera, objetiva e sem tempo a perder. Não tivesse me chamado de tio, teria até lhe desejado sorte.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Tiozinho careca, gravata frouxa, parecendo aflito, embarca no táxi. Higienópolis.
- Que dia, taxista, que dia. Sabe quando não dá nada certo?
- Sei.
- Recolheram meu carro. Deixei em local proibido, pensei que não ia demorar no banco. Não vendi a soja semana passada, o dólar caiu, perdi uma grana preta, renegociando financiamento com o gerente, demorou, guincharam o carro.
- Putz.
- Logo hoje, dia fértil da minha mulher.
- Dia fértil.
- Ovulação, entende. Hoje é o dia! Estamos ‘trabalhando’ uma gravidez. Ela tá me esperando. Não dá pro senhor ir mais depressa?
- O trânsito está um horror.
- Não estou com cabeça, sabe, só problemas, mas vamos lá, hoje é o dia. A tabelinha não mente, ovulação, ciclo, hoje é o dia. Ela está me mandando zap, o quarto já está pronto, aquecido, o Jorge já preparou tudo.
- Jorge?
- É o guru da minha mulher, sabe, ela é muito espiritualizada, acredita nessas coisas, o Jorge trabalha esse lado místico da coisa, prepara o quarto, o ambiente, descarrego, abre-caminho, incenso e coisa e tal, sabe. Ele está lá com minha mulher, já preparou tudo. Taxista, a gente tem que tentar de tudo, entende, já não sou uma criança, minha mulher é bem mais nova, quer um filho.
- Sei. E esse Jorge, o guru, ele tem muita experiência, viajou pro Tibet, sei lá, é um velho sábio, por certo.
- Na verdade, não. Ele trabalha como personal trainer, massoterapeuta, mas faz filosofia à noite, ensino a distância, e estuda essas ciências ocultas todas, sabe, o cara manja.
- Personal trainer.
- Sim, minha mulher é toda geração saúde, sabe, o Jorge cuida do corpo dela, faz parte do nosso projeto ‘gravidez’. Será que subindo a Goethe não seria mais rápido? O jorge já foi embora, minha mulher tá ansiosa. O senhor sabe como são as mulheres…
- Sim, eu sei.


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Passar o dia na rua, como o taxista passa, é estar exposto ao risco, ao susto, a realidade boxeando, batendo na cara, mostrando as armas. Acabo de presenciar uma cena forte, a luta pela vida, a morte a menos de dois metros de mim, nua e crua. Eu, ao volante do táxi, trânsito parado, pista da esquerda da avenida Ipiranga, assistindo a tudo.
No gramado que margeia o Arroio Dilúvio, o quero-quero retesado, pescoço imóvel, bico apontado, foco total. Menos de um segundo, duas bicadas certeiras e a minhoca já estava catada, uma sacudida de bico e já era, a luta diária pela sobrevivência, matar ou morrer, não era o dia daquela minhoca.

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Nosso colega Carlinho ganhou um perfume. Malbec. Malbec pra cá, Malbec pra lá, cheira meu Malbec, botou Malbec até no estofamento do táxi. Depois de entrar por alguns segundos no táxi do Carlinho, a passageira saiu, furiosa, e embarcou no meu táxi, que era o segundo na fila. Ué!
- O que aconteceu?

- O seu colega é um louco! Surtou!, mandou eu descer, me botou a boca, só porque eu reclamei do cheiro de naftalina no táxi dele. Eu tenho rinite, moço, não posso com cheiro de naftalina!




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A experiência no meu táxi mostra que quanto mais baixo o passageiro, quanto mais curtas as pernas, mais para trás eles colocam o banco. É Freud.

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Eu vinha meio distraído pela 3° Perimetral quando um Disco Voador, sem o menor aviso, resolve pousar na frente do meu táxi. Não deu seta, pisca alerta, nada, simplesmente pousou aquela tremenda nave, trancando a pista. Placa de Marte. Só podia ser!
Tirei pro lado, saí de trás, consegui mudar de faixa. Ao passar pelo Disco Voador, adivinha: o Marciano lá, com os três olhos grudados no smartphone, a cabeça nas nuvens. Putz, que raiva!
Depois, se reclama, se buzina, é porque é taxista fiasquento, blá, blá, blá. Gente, vamo se antenar!!

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Noventa e dois anos, a neta do lado de fora, puxando pelos braços, pediu que eu ajudasse, que empurrasse de dentro do táxi. A acusação de assédio sexual não foi nada. Doeu mesmo foi a bengalada na mão.
- Pervertido!

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Gaúcho dos 4 costados, bigodão bem preto, palheiro na ponta dos dedo, chapéu quebrado na testa (de beijar santo em parede), poncho com as cores do Rio Grande, bombacha riscada, bota Garrão de Potro, e adaga cruzada nas costas. Desembarcou em frente a uma conhecida sauna gay. Segundo ele, é o proprietário do local.
- Negócio de família, tchê.

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Uma passageira comum, séria, comportamento padrão, roupa discreta, pretinho básico, cabelo preso, bibliotecária, burocrata ou coisa ainda mais sem graça, toda educação, toda timidez, embarcou silenciosa, bom dia, deu o destino em voz baixa, obrigada, sentou-se serena no canto do banco traseiro, pernas cruzadas,, pegou o smartphone, esqueci-me da moça, o trânsito fluindo, o rádio no volume mínimo, uma corrida em tudo monótona. Até que a mulher berrou a plenos pulmões, a voz aguda de navalha explodindo no interior do táxi:
- SUA VACA ARROMBADA DO CARALHO!!
Depois de um breve silêncio, um "desculpa" quase sussurrado, uma ajeitada nos óculos, no cabelo, uma longa respirada e a volta ao digitar do smartphone, no canto do banco, nem mais um pio pelo resto da corrida, toda silêncio, toda educação, postura executiva, Djavan no volume mínimo, tédio, batimentos cardíacos normais, serenidade, zen, paz, os primeiros Sabiás anunciando a primavera, pagamento em dinheiro, fique com o troco, o andar elegante, um doce balanço a caminho da repartição pública.

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Largando uma corrida na porta de um grande hospital. Enquanto minha cliente desembarca, noto que um homem com camisola de paciente (aquelas abertas nas costas) vem caminhando em direção ao meu táxi. Ele está muito pálido (amarelo), segura um suporte de metal com uma bolsa de medicação pendurada, ligada ao seu braço (o que sobrou do seu braço, amputado abaixo do cotovelo). Pela janela, ele me pergunta se R$10 paga uma corrida até o prédio da Zero Hora (ele segura uma nota de 20 na mão).
- Bom, não exatamente, mas o senhor...
Nisso chegam correndo um guarda e um enfermeiro e seguram o homem pelo braço (o que restou inteiro). Forçam-no a voltar para o Interior do hospital, ele resiste, quer entrar no táxi, agarra-se à maçaneta, eles o impedem, pedem calma, o homem alega que vai apelar à imprensa, está indignado, mas acaba cedendo aos argumentos dos homens, aos poucos dá as costas para meu táxi (a bunda de fora) e começa a voltar, escoltado pelo segurança e pelo enfermeiro, que o ajudam com o suporte metálico.
O pequeno aglomerado de pessoas que assistia à cena abre passagem e eu parto rumo à próxima corrida. C' est la vie.

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Sabe você que pegou meu táxi hoje pela manhã, bem cedo, com cara amarrotada, voz gutural, dando a entender que teve uma noite péssima, em péssima companhia, bebida péssima, que perdeu seu tempo tentando fazer dar certo algo que, desde o início, estava na cara que não ia rolar? Sabe? Você que me confessou que não tem talento para escolher namorados, que investe nas pessoas erradas, que detesta amanhecer em um táxi admitindo suas cagadas, mas disse que é o que sempre acaba acontecendo? Lembra? Lembra de ter me convidado para acompanhá-lo em uma última dose, pra, quem sabe, esticar o papo em um "lugar sossegado", que, apesar de tudo, estava cheio de amor pra dar? Lembra de mim?
Pois é, sou aquele taxista. Desculpa o mau jeito, a resposta seca, a aparente falta de sensibilidade com os tetos alheios. É que eu também não tive uma noite das melhores e tudo o que eu queria àquela hora da manhã era fazer uma primeira corrida decente, receber pelo trabalho e dar continuidade ao meu dia, para que, quem sabe, as coisas também melhorassem pro meu lado.
Foi mal.

domingo, 19 de agosto de 2018

Muito, muito magra, cabelo descolorido, usava pochete, camiseta do Grêmio, uma calça suja de barro nos joelhos e calçava chinelos de dedo. Levantou uma das mão para o meu táxi enquanto segurava um latão de Skol com a outra. A apresentação da cliente não me despertou o menor entusiasmo, mas, em tempos de vacas magras, tô abraçando o que vier.
A passageira (literalmente) não cheirava bem, embarcou gemendo, reclamando de uma dor muscular que a estava matando. Disse que tinha dormido 16 horas na mesma posição, e que o frio do Uruguai, Punta del este, de onde estava chegando, tinha piorado as coisas. Estava louca por um banho quente. Pediu que subisse uma rua do bairro Partenon famosa pelos conflitos de facções, por disputas de território - as pulgas atrás da minha orelha só aumentando.
No alto do morro, a mulher pediu que eu a deixasse na altura de um enorme carro preto estacionado. Tratava-se de um BMW Q1, caríssimo, mas todo amassado, vidros quebrados. Parecia que alguém tinha usado um taco de beisebol para descarregar sua raiva sobre o veículo. Antes que eu perguntasse sobre os estragos no carro, a mulher abriu a pochete e tirou uma máscara de dinheiro. Um monte de notas de 100 e 50 presas por um elástico! Além do monte que ela pegou, outros maços de dinheiro dentro da pochete. Calculei, por baixo, uns 50 mil.
A corrida deu R$7,50. A mulher desprendeu uma nota de cinquenta do maço e me passou, autorizando-me a cobrar R$8. Generosa. Como o latão vazio não coube na lixeirinha do táxi, ela amassou e jogou na calçada assim que desembarcou. Depois de analisar com evidente desgosto o carrão todo arrebentado, entrou em uma casa de muro altíssimo, com cacos de vidros e arame farpado no alto. Uma fortaleza em meio aos casebres humildes da quebrada.
fiquei curioso em saber mais sobre aquela passageira, mas depois de ver o estado do carro, a quantidade de dinheiro e a casa onde ela ia entrar, achei melhor não fazer muitas perguntas. Sabe cumé.
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Moro na lua
Peguei uma daquelas corridas que são bem raras hoje em dia: Praia do Lami, extremo sul da Capital! Na volta à civilização, mesmo tarde da noite, resolvi fazer um corta caminho pelo Cantagalo, cruzando Restinga, Lomba do Pinheiro, enfim, uma trilha pelos labirintos da zona rural de Porto Alegre - o que vale é economizar uns pilas. Foi numa destas estradinhas de terra, no meio do nada, em meio ao mais completo breu, que me deparei com um homem. Mesmo de longe, os faróis do táxi permitiam identificar a figura de um homem. Ele estava parado. Não caminhava. Em pé, estático, olhando para cima. Parecia vestir roupa social. Paletó.
Diminui a velocidade. Terceira marcha. Precisava de tempo para examinar a situação, certificar-me de que não se tratava de alguma armadilha. O homem não se mexia. Seria um boneco, colocado ali para assustar motoristas incautos? Puxei uma segunda, fui virando roda, dei luz alta.
Não havia casa alguma nas imediações, nem uma porteira de sítio, nem uma luz, iluminação pública nem pensar, o homem estava de paletó, numa estrada de chão batido, sem nenhum sinal de carro ou qualquer outro tipo de transporte. E estava parado, não parecia estar indo a lugar nenhum. Fui chegando perto do homem, me aproximando. Primeira marcha engatada, qualquer coisa eu acelero!
Nesse ponto, consegui identificar o sujeito:
- Senhor Sérgio? Sérgio Moro? - Perguntei, enquanto parava o táxi.
- Olá - Ele respondeu de forma casual, olhando-me por um instante e logo voltando a olhar para cima.
- Ãh, mas, Ãh, o que o senhor faz aqui, senhor Sérgio? - Eu fiquei confuso, precisava entender o que estava acontecendo, enquanto o homem parecia sereno.
- Estou olhando a lua.
- A lua? Aqui? Nesse fim de mundo? Como assim? Que lua?
- A lua de sangue! É um fenômeno que acontece quando...
- Sim, sim, eu sei, a lua na sombra da terra, mas... mas...
- Então. Estou tentando observar a coisa acontecer.
- Sim, mas esse lugar, o senhor, sei lá.
- Então, é bem chato mesmo, todo esse trabalho e as nuvens atrapalhando.
- Mas o senhor está a pé! Como o senhor veio parar aqui?
- Transporte por aplicativo. O motorista parceiro procurou no Waze: “melhor lugar para ver a lua”. A tecnologia me espanta, ela tem resposta para tudo.
- Mas seu Sérgio Moro, como o senhor pretende sair desse lugar? não tem sinal de internet aqui, posso lhe dar uma carona, se o senhor quiser.
- Obrigado, taxista, mas ainda não perdi as esperanças quanto à lua. Além disso, um amigo meu está vindo me buscar.
- Ok. Até mais, então.
Partí controlando pelo retrovisor o homem que, à medida que meu táxi se afastava, era consumido pela escuridão. Ainda me recuperava do encontro espetacular que acabara de acontecer quando deparo com outro evento quilômetros adiante. Uma moto caída e um homem se levantando do chão. Um acidente! Parei para socorrer o motoqueiro que se espanava tentando se livrar da terra na roupa. Parecia ter sido um belo tombo. Logo reconheci o motociclista:
- Neymar? Neymar Junior?
- Opa, beleza?
- Cara, tu caiu aí, está machucado?
- Não, não. É a minha moto, sabe, ela cai por qualquer coisa. Um ventinho lateral e ela saiu rolando.
- Mas o que tu fazes por aqui, no meio da noite, neste fim de mundo?
- Estou indo buscar um amigo, o Serginho, ele deve estar aí adiante.
- Sim, sim, ele está olhando a lua, Neymar.
Foi mesmo uma noite louca com essa lua de sangue me fazendo a cabeça.
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Meu coach mandou eu continuar focando em negócios com futuro garantido.
Táxi✓
Livro✓
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Peguei a ruivinha saindo de um supermercado. Cabelo de fogo, olhos cristalinos, boca bem desenhada, uma linda. Coloquei as compras no porta-malas e partimos. Ela passou a corrida toda falando de bruxaria. Rituais pagãos, empoderamento místico, alquimia, fontes de poder, alaúdes, música medieval e outras delícias. Uma bruxa moderna, minha cliente. Um amor de bruxinha.
Passado algum tempo, duas ou três corridas depois, ao fazer uma curva mais fechada, ouvi um barulho estranho. Alguma coisa solta no porta-malas do táxi. Ao descarregar as compras da ruivinha, acabou ficando para trás uma... vassoura.
Não creio em bruxas, mas, na dúvida, estou indo lá devolver o "equipamento".
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Há dez anos, ela andava no meu táxi de clínica em clínica, tentando desesperadamente uma gravidez tardia. Tentativas frustradas, tratamentos, reprodução assistida, promessa, simpatia, qualquer coisa. Obcecada. Este taxista por confidente. Resolveu tentar o milagre com um "médico famoso", no Centro do país.
Conseguiu.
Os gêmeos estão completando dez anos, lindos, mas o preço foi alto. Hoje as corridas são novamente de clínica em clínica, em busca de sanidade mental. Clínicas psiquiátricas, terapia. Minha passageira é uma das cento e tantas mulheres que denunciaram o "médico famoso" por abuso sexual.
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Depois de uma corrida sonolenta, pastosa, meu embriagado passageiro resolveu conversar. Com o táxi já parado, a porta aberta, uma perna pra fora, ele começou:
- Quanto eu devo, taxista?
- R$14.
- Eu faço manutenção predial, elétrica, hidráulica, sento azulejo, faço de tudo, trabalho mesmo, cara, não tem ruim, eu encaro, só apartamento bacana, gente do dinheiro, e quer saber, tenho raiva dessa gente, cara, tudo uns murrinha, mão de vaca, querem economizar na mão de obra, por isso que esse país tá desse jeito, taxista. Quanto eu devo?
- R$14,76
- Esse país tem tudo, cara, tu sabe disso, taxista, se furar o chão, aqui, embaixo do teu táxi, se furar sai água, no Japão não tem água, sabia que no Japão não tem água? Não tem nada lá, cara, japonês é foda, meu irmão, eles dão o jeito, mas aqui é essa roubalheira, todo mundo metendo a mão, taxista. Quanto eu te devo?
- R15,30
- O cara que inventou o carro movido a água, onde é que tá o cara que inventou o carro movido a água? é brasileiro, o cara, inventou o carro movido a água, onde ele tá agora? sumiram com o cara! tu não ouve mais falar no homem, deram um jeito, apagaram o cara, é uma vergonha, meu chapa, tinha que entrar um cara lá no congresso e matar todo mundo, acabar com essa rafoagem. Quanto deu a corrida, meu irmão?
- R$16,15
- Sabe o que é que tinha que ser? tinha que ser a monarquia, cara, um rei, pronto, um rei, entra lá e manda, resolve, um rei e o povo, esses caras estão tudo comprado, os banqueiros é que mandam, agora querem carro elétrico, carro elétrico, cara, imagina! na chuva, eletricidade e água não combinam, cara, vai ser gente morrendo eletrocutada a torto e a direitos, porque vai ter que ser 220volts, tá ligado, 110 não acende nem os faróis, eu mexo com elétrica, cara, eu sei. Quanto eu te devo?
- R$17.
- Toma aqui o dinheiro, 17, trocadinho. Sabe esse negócio de cremação, taxista? cremação, botar as cinzas numa urna.
- Não, não sei, nem quero saber de porra nenhuma de cremação. Vaza, meu, já era, cai fora.
- Isso é picaretagem, a cremação...
- Sai, sai, tchau, meu chapa (ligando o carro, engatando a primeira marcha), acabou a corrida, tenho que ir, já era.
- Mas.
- Deu, deu, deu, não tem mas, não quero saber, sai fora.
Deixei o cara agarrado em uma placa de trânsito explanando acerca da cremação. A paciência dura até desligar o taxímetro.
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Mulher grávida, a blusinha curta deixando o barrigão de fora. Ela embarca no táxi segurando uma Pizza Hut tamanho família - quentinha, o cheiro de calabresa inunda o carro. Motel Sevilha. Na portaria, ela informa seu nome é diz que o marido a espera no quarto seis. A recepcionista confirma pelo interfone. Antes de entrar em direção aos quartos, minha passageira ainda pergunta à porteira:
- Vocês tem Fanta uva no frigobar?
- Fanta uva, não.
- Tudo bem. Não se pode ter tudo.
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Corrida pra rodoviária
- Taxista, me vende as tuas meias.
- Minha meias?
- É, eu compro, quanto o senhor me faz o par?
- Sei lá, mas por que o senhor quer minhas meias?
- Eu saí com uma "percanta" ontem, o senhor sabe. Na hora de me vestir, troquei uma das meias. Só agora pela manhã, no hotel, percebi que estou com uma meia toda branca e outra branca com o símbolo da Nike rosinha.
- Putz.
- Não posso chegar em Santa Maria com essas meias, entende?
Corrida + livro + par de meias usadas. Passou no débito.