segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Nosso colega Tijolo, além de solitário, está em sérias dificuldades financeiras. Na falta de coisa melhor para fazer, elaboramos uma pequena lista de viúvas, clientes do nosso ponto de táxi, que poderiam resolver a situação do pobre Tijolo.
Dna Maria A. - viúva, apesar de nunca ter casado para não perder a pensão do pai militar. Ferrenha combatente anti petista. Para ter alguma chance com ela, nosso colega Tijolo teria que ir para o Parcão fazer campanha para o Bolsonaro, enrolado em uma bandeira do Brasil.
Dna Maria B. - viúva de idade avançada com boa situação financeira. Para ter alguma chance com ela, nosso colega Tijolo teria que dividir o apartamento com 17 gatos, mais dois filhos (um lutador de MMA e uma atriz de teatro) que ainda vivem às custas da velha.
Dna Maria C. - viúva 3 vezes, viciada em bingos clandestinos, academias de ginástica e cirurgias plásticas. Para ter alguma chance com ela, Tijolo teria que correr o risco de ser o quarto marido a ser mandado para o outro lado pela fogosa viúva negra.
O Tijolo aceita conselhos.
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Pontinho de táxi, esquina Vigário com Salgado filho, embarca uma mulher dos seus 50 anos.
- Salgado à direita, senhor. À direita de novo, ah, ah, à direita, na próxima, ah, à direita na Vigário.
- Mas voltamos ao ponto de partida, senhora!
- Pois é, ah, o senhor me desculpe, ficou no fim da fila, me desculpe. Vou ficar aqui mesmo. Quanto eu lhe devo?
- A senhora está se sentindo bem?
- Eu vi aqui a propaganda do seu livro, o senhor é escritor, é?
- Sim.
- Que bom, vejo que é um taxista educado, um homem das letras, acho que o senhor não me levaria a mal se eu lhe pedisse um grande favor.
- Em que posso lhe ajudar.
- É a minha amiga, sabe, ela que me deu essa ideia. Meu marido está de aniversário e essa minha amiga sugeriu que eu comprasse um presentinho, pra apimentar a relação com meu marido, tanto tempo de casado, o senhor sabe...
- Eu sei, eu sei.
- Pois então. Eu peguei o táxi pra ir pra casa, tinha desistido da ideia, mas resolvi tentar, mas não consigo, morro de vergonha, é muita gente passando nessa rua, Centro da cidade, muita gente, esse ponto de táxi bem aqui...
- Senhora. No que eu poderia lhe ajudar?
- O senhor está vendo essa Sex Shop aqui ao lado? Pois então. Minha amiga sugeriu que eu comprasse um 'acessório', eu dei uma olhada, pela internet, acabei comprando, já está pago, mas tem que retirar, o senhor sabe, aqui nessa loja, eu já tinha desistido da ideia, mas, quem sabe, o senhor poderia me ajudar, retirar o 'produto' pra mim, ah, ah, eu lhe daria uma gorjeta...
Era um embrulho cilíndrico, do tamanho de um pequeno extintor de incêndio. Pela cara da vendedora ao me entregar a mercadoria, minha passageira viajou legal na fantasia.
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Descendo um beco estreito, uma dessa vielas em que o táxi quase esfrega os retrovisores nos barracos de madeirite, esgoto a céu aberto, invasão, pobreza extrema, sem onde manobrar, sem saída, em meio à desesperança, minha passageira aleijada, desce mais um pouco, moço, volta de ré, "não posso caminhar", a cachorrada, fios emaranhados, postes caindo, gatos de energia, e os gatos, propriamente ditos, crianças descalças, um valão no fim do beco, um arroio, cuidado, está desbarrancando pr'aquele lado, o esqueleto de um carro enferrujado dentro do valo, um cenário de guerra, gueto de Varsóvia, penúria, indigência, o fundo da comunidade mais pobre de Porto Alegre, foi nesse fim da picada, lá no fundo, que ouvi o solo de violino.
Segundo minha passageira, é um menino, funcionário do mercadinho da vila. Ele estuda música, à noite, em um projeto social, o instrumento de segunda mão, comprado em uma rifa. A esperança é que o violino seja forte o bastante para resgatá-lo daquele buraco.
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CRUZES!
Tem um homem barbudo, cabelo comprido, sandália de couro, caminhando pela avenida Assis Brasil, carregando uma enorme cruz de madeira nas costas. Ele está parando os táxis, procurando um veículo que possa levar aquela tremenda cruz. Deus me livre! e olha que o porta-malas do Etios é profundo!
O homem me explicou que doou a cruz para uma igreja, mas acabou se desentendendo com o padre, foi excomungado, abandonou a paróquia, mas não deixou a cruz, já que, segundo ele, o artefato lhe custou os olhos da cara.
Depois de trocar essa ideia comigo, de ver que eu não poderia mesmo levar a cruz no meu táxi, o homem, apesar de já estar "pregado" seguiu o seu calvário pelo bairro Cristo Redentor.
Cada um com seus problemas.
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Vozinha, chapéu de tricô, travesseiro embaixo do braço, uma mala enorme, atrapalhada com a chuva, as poças d'água, a sombrinha que não fecha... indo pegar um ônibus em um terminal de excursão:
- Indo viajar (eu tentando ser simpático).
- O que é que o senhor acha?
- fim de papo -
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Dia do motorista
25 de julho✓
Dia do escritor
25 de julho✓
*obrigado*

domingo, 29 de julho de 2018

Nenhum texto alternativo automático disponível.
TAXISTA
tu te tornas eternamente responsável pelo passageiro que adicionas no Whats°
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A quem interessar possa
- Meu marido eu conheço bem. Sempre foi namorador, não vai mudar depois de velho. Sei direitinho quando tá saindo com alguma sirigaita.
- Como a senhora sabe?
- Ele começa a ouvir boleros e corta as unhas dos pés. Ligou o toca-disco e cortou os cascos, eu já sei: tá saindo com alguma puta. Hora de eu me divertir também.
A passageira acaba de desembarcar no Baile da terceira idade, Clube dos Namorados, fundos do antigo estádio Olímpico. Amantes da dança de salão é só chegar.
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Japonês usando um sobretudo pesado, cachecol enrolado até o nariz, luvas, gorro de lã e segurando um celular faz sinal para o meu táxi. Ele embarca morrendo de frio e (para não tirar as luvas) me passa o smartphone para que eu cancele o Uber perdidão que não consegue localizá-lo em plena avenida Oswaldo Aranha.
- Com todo prazer.
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Senhorzinho de bengala, chapéu de feltro, vestindo paletó, calça de pijamas e pantufas faz sinal para meu táxi.
- Avenida Sete, por obséquio, altura do Cine Presidente.
- Cine Presidente? não conheço.
- Um chofeur de praça que não conhece o Presidente, faça-me o favor!
- O senhor está se sentindo bem?
- Toque para o Centro, Baixada Bageense, eu lhe mostro onde fica o Cine Presidente.
- Baixada Bageense...
- O senhor não conhece nossa cidade? Não é de Bagé? Cine Presidente, estão exibindo o novo filme do Mazzaropi.
- Bagé??
Nisso, aparecem dois homens correndo, vestidos de branco dos pés à cabeça. Enfermeiros. Eles abrem a porta do táxi, abordam o idoso com cuidado. Pedem desculpa, conduzem "seu Juvenal" de volta à clínica geriátrica. Alzheimer.
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Você que estava, agora pela manhã, na Siqueira Campos e viu uma mulher nua sair correndo de dentro do meu táxi, deixe eu explicar o que aconteceu.
Caía uma chuva de proporções diluvianas no bairro Menino Deus quando uma mulher veio correndo em direção ao meu táxi. Sem guarda-chuvas, toda molhada, pingando horrores. Ela não embarcou, pediu que eu baixasse o vidro. Explicou que fora acometida de forte e repentina diarréia, que o pior havia acontecido, que estava toda suja, tinha feito cocô nas calças - mesmo pela pequena fresta da janela, era possível sentir o cheiro nauseabundo. Ela precisava ir para casa, não tinha como embarcar em um ônibus fedendo daquele jeito. Era uma situação delicada, além de completamente ensopada, suja de merda!
- Mas como é que vai ficar o meu táxi? - Ponderei.
A mulher, então, jogou sua bolsa dentro do meu carro e foi em direção à esquina da Getúlio Vargas onde uma calha despejava uma quantidade enorme de água da chuva. Enquanto caminhava, ela ia tirando a roupa. Peça por peça, uma a uma, de modo que já chegou embaixo da calha completamente nua. Peladona total!
Lavou-se toda na forte torrente que caía da calha. Depois de absolutamente limpa, retornou ao meu táxi torcendo o cabelo, serena, absoluta, como quem caminha pelo corredor de sua casa. Sequer perguntou se podia embarcar. Ignorando minha cara de assustado, minha boca aberta, acomodou-se no banco traseiro e ordenou que eu tocasse para o Centro.
- Siqueira Campos, por favor.
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ACHADOS E PERDIDOS
atenção você, loira de cabelos curtos, que pegou meu táxi por volta de 17h, saindo de uma creche da rua Botafogo com uma criança pela mão, você que deu um tablet para a criança parar de "incomodar" e, quando ela pegou no sono, colocou o tablet sobre o banco, em segurança, pois o tablet é "caríssimo" e é o segundo que sua filha quebra. Você não deu falta de nada ao chegar em casa??
Você esqueceu sua filha no meu táxi. Ela acaba de acordar e está chorando, sentindo falta... Do tablet.
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Saindo de um bar da Salgado Filho, uma mulher com uma perna engessada e um travesseiro embaixo do braço faz sinal para meu táxi. Paro. Quando percebo que está bêbada, já é tarde, ela já está com os cotovelos apoiados na lataria do carro, tenho tempo apenas para trancar as portas. Ela pede que eu abaixe o vidro. Abro uma fresta. Ela pede que eu a leve até a Andradas, diz que, chegando lá, o "cachorro" do marido dela pagará a corrida. Nego-me a abrir a porta. Ela explica que o marido é um ordinário, traiu-a com a advogada que está cuidando do inventário dela... uma conversa fiada. Enquanto fala, finge secar as lágrimas enfiando a cara no travesseiro. Eu apenas digo não, não, não. Ela insiste, enfia o braço pela fresta da janela, quer me mostrar o WhatsApp, a conversa do marido com a advogada, diz que é herdeira de uns terrenos na praia do Pinhal... O que eu quero saber de terreno no Pinhal?! Digo que ela está bêbada.
A mulher, então, fica séria.
Agora está ofendida. Ela me olha nos olhos, cerra os dentes, sou só mais um cachorro como todos os homens. Propoe-se a provar que não está bêbada:
- Vou fazer um "quatro".
- Um quatro?
- Vou te mostrar se estou bêbada, taxista de merda.
- Tu não consegues fazer um quatro - incito.
- Vou te mostrar. Vou fazer um quatro.
Ela foi tirando o braço de dentro do táxi, se ajeitando, respirando fundo, juntando seu ódio, se alinhando, jogou o travesseiro longe. Aquele "quatro" agora parecia ser uma questão de honra. Quando ela finalmente se desencostou do táxi, engatei a primeira marcha e parti.
Game over.

domingo, 22 de julho de 2018

Saindo do dentista onde fui que consertar às pressas um dente quebrado. Embarco no táxi me perguntando quando vai acabar essa tremenda maré de azar que venho atravessando. Rodados poucos metros, uma passageira. Uma morena voluptuosa estilo Angelina Jolie. Opa! Parece que a sorte voltou a sorrir pra mim.
Pois a morena estava justamente acabando com o namorado, por ele acusá-la de beijar mal. Imagina! Aquela boca bem desenhada, aqueles lábios carnudos implorando que eu lhe provasse o contrário, e meus beiços anestesiados! dormentes! tortos! sensibilidade zero!
Mas eu não dou mesmo sorte.
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Sete da manhã, ainda escuro, Azenha, imediações do Condomínio Carandiru, um cara me faz sinal e eu paro por instinto. Moletom, capuz enfiado na cabeça, meio encolhido, ele entra pela porta da frente reclamando do frio. Já estou quase me arrependo de ter parado quando a porta de trás se abre e outro sujeito se joga no banco de trás do táxi. É quando eu tenho certeza de que serei assaltado. Já conheço esse modo de agir, separados para não assustar o taxista, foi assim nas outras vezes, agora já era. Meu coração dispara. Só rezar para encontrar uma viatura da polícia pelo caminho. Só que não.
O cara da frente dá o destino. Viaduto da João Pessoa. Ele conversa com o cara de trás, que está jogado no canto, boné enfiado na cara. O outro apenas resmunga, parece com sono. Do pouco que falam, entendo que o da frente tem uma dívida com o de trás, está indo pegar um dinheiro que com os moradores de rua que costumam dormir embaixo do viaduto para pagá-lo. É um péssimo plano e eu estou no meio dele. Meu coração aos poucos vai desacelerando, repasso o que devo fazer quando for anunciado o assaltado: desligar o táxi engrenado, puxar a chave da ignição, soltar o cinto, abrir a porta e correr. Lamento não ter ensaiado mais vezes esse procedimento de emergência.
Chegando no viaduto, o cara da frente diz que vai descer, pede que eu cruze a Perimetral e espere do outro lado com o parceiro do banco de trás. Antes de desembarcar ele avisa o outro que vai deixar o "berro", e joga um revólver sobre o painel do táxi. O estardalhaço da arma batendo contra o plástico acorda definitivamente o outro sujeito que parecia dormir. Aos olhos dos vagabundos, eu devo parecer um tiozinho inofensivo, cagado de medo, a ponto de tornar-me parte do plano. O pânico volta a incendiar meu peito!
Enquanto procuro um lugar para largar o táxi e sair correndo, um tiroteio começa embaixo do viaduto, gritaria, cachorro latindo, deu ruim! O sujeito do banco traseiro voa até o painel, pega a arma e sai em disparada em socorro ao companheiro, eu também disparo, cantando pneu, acelero, meio abaixado ao volante, não olho pra trás, coração na boca, puta que pariu!
O dia lentamente vai clareando, rodo até meu ponto enquanto a adrenalina dilui pelo corpo. Não espero encontrar nenhum passageiro. Aumento o ar quente e aproveito o momento de alívio. O taximetro ainda ligado marca mais de vinte Reais. Desligo. Que se dane. Hoje estou no lucro.
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Saindo pelo portão dos fundos do cemitério São Miguel e Almas, o homem ergue o braço em direção ao meu táxi. Toca pro Centro. Ele fica surpreso quando lhe apresento meu livro. Diz que também gostava de escrever, que publicou livros, inclusive. Opa! Grisalho, sobrancelhas grossas, o homem me lembrava mesmo alguém. Seu personagem mais conhecido teria sido um certo gaúcho metido a valente, a saga de uma família em meio a revoluções, coisa e tal. Achei interessante, mas para este taxista interessava outro tipo de informação.
- O senhor prefere ir pela Azenha ou Erico Verissimo?
- Vai por mim que é melhor.
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Chegando em frente ao cemitério da Vila Nova, a passageira me pede um favor:
- Eu volto para o Menino Deus no mesmo táxi se o senhor me fizer uma gentileza.
- Pois não.
- O senhor vá até a capela do cemitério, devem estar velando uma Vera.
- E?
- Eu detesto velórios, o senhor sabe?, não consigo, vim a corrida toda reunindo forças, Deus é testemunha, mas não dá.
- E a senhora quer o quê de mim?
- Que o senhor vá ali, é Vera o nome da falecida, assine o livro de presença em meu nome, Sílvia, ponha entre parenteses "vendedora Avon", eles vão saber que sou eu.
- Sílvia (vendedora Avon).
- Exato. Pode deixar o taximetro rodando, o senhor é muito gentil.
- Mais alguma coisa?
- O senhor se incomodaria de por a mão sobre a falecida e rezar um Pai Nosso?
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- Taxista, quanto o senhor faz até a entrada da avenida tal, quem sobe pela Oscar Pereira, ali naquele prédio novo.
- Deve dar uns R$20.
- Tenho 17 aqui, pode ser?
- Bora.
- Vou fazer uma faxina lá, um bico, sou cabeleireira/manicure/maquiadora, mas arrombaram o salão onde eu trabalho, a dona tá arrumando a porta, não vai abrir hoje.
- Bah. Essa maquiagem que tu usa, tu mesmo faz? Diferente, e o cabelão também, uau!
- É Amy Winehouse, o cabelo eu comprei, acabei de colocar, gostou, tio?
- legal.
- Eu trabalho na noite também, sabe? Acompanhante, me viro, correria. Mas a noite tá horrível, as meninas queimando o preço, fazendo programa por crack, muita droga. Prefiro bota um búzio, lê uma mão.
- Tu lê mão?
- Tarô, carta, arte cigana. Quer ler a mão, tio? Troco pela corrida.
- Não, não. Vou ficar com os 17 mesmo.
- Tudo bem.
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Agora, os rádios dos carros permitem que você conecte seu telefone a eles. A voz da pessoa que está falando com você sai pelos alto-falantes do carro. Genial! O problema é que alguns motoristas ainda não lidam bem com essa nova tecnologia. Atendem a ligação em um volume muito alto. Parei ao lado de um desses motoristas, agora há pouco. Mesmo com os vidros do táxi fechados, era possível ouvir perfeitamente o que a pessoa falava do outro lado da linha:
A GENTE PRECISA CONVERSAR, SÉRGIO, TUDO QUE ACONTECEU ENTRE NÓS NÃO PODE ACABAR ASSIM, SÉRGIO, FOI FORTE, ENTENDEU, FOI LINDO, SÉRGIO, A GENTE PRECISA CONVERSAR, QUERO QUE TU ME DIGA OLHANDO NOS MEUS OLHOS QUE TU NÃO ME AMA, SÉRGIO, O TUA FILHA PRECISA DE UMA MÃE, EU QUERO SER A PRESENÇA FEMININA NA VIDA DA TUA FILHA, ENTENDEU, QUERO SER A MÃE QUE ELA NÃO TEM, SÉRGIO, ENTENDEU, TU NÃO PODE SIMPLESMENTE ESQUECER TUDO QUE A GENTE VIVEU, ESQUECER DE MIM, DA TUA FILHA, ELA ME AMA, SÉRGIO, A GENTE PRECISA CONVERSAR.
O volume absurdo. Minha passageira, no banco de trás, também ouvindo, arriscou até um "pobre Sérgio". Curioso, cheguei o táxi uns centímetros mais pra frente, pois o Sérgio estava encoberto pela coluna do veículo. Juro: o Sérgio chorava.
TOMAR UM CAFÉ, SÉRGIO, SÓ UM CAFÉ, ENTENDE, VAMOS CONVERSAR, ENTENDEU, SÓ CONVERSAR, SÓ TOMAR UM CAFÉ, EU NÃO VOU NEM TOCAR EM TI, EU SÓ QUERO QUE TU ME DIGA OLHANDO PRA MIM, SABE, OLHANDO NOS MEUS OLHOS...
Nesse ponto, o sinal abriu e a vida seguiu o fluxo do trânsito. Acompanhei o carro do Sérgio por mais algumas quadras até que o perdi definitivamente de vista. Sérgio e sua encruzilhada amorosa. Sérgio e seu indiscreto rádio com Bluetooth.
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Senhora idosa segurando bolsa, sacola e bengala. Paro o táxi com a porta traseira bem na sua frente, mas ela insiste em sentar no banco da frente.
- Até o shopping, bah, que umidade bárbara, Deus que me perdoe, haja saúde pra aguentar essa molhaçada, as roupas úmidas, os meus pés estão gelados...
- Bom dia, a senhora tem que pôr o cinto.
- As coisas não secam, esse tempo miserável, a gente fica pestiada, tô com uma tosse, cof, cof, cof..
- O cinto, senhora.
- Minha cabeça parece que vai estourar, com essa umidade, ainda não consegui dormir direito, pois tenho um rapaz do apartamento ao lado do meu, vizinho de porta, que bota a tv a todo volume, passa a noite toda vendo tv, não sei, acho que dorme durante o dia.
- O cinto, o cinto.
- Eu já reclamei pra síndica do prédio...
- O CINTO!
A velhinha, então, começa a tentar passar o cinto em meio a bolsa, sacola, bengala, casaco e continua falando:
- A miserável da síndica só pensa em folhagem, em arrumar os canteiros do edifício, esse mês veio uma chamada extra, serviços de jardinagem, onde já se viu...
- Deixe eu lhe ajudar com o cinto, me alcance a fivela, por favor.
- Eu já disse que não vou pagar, é só pagar, pagar, pagar, apareceu uma conta de telefone esse mês, tô indo na loja da Vivo, no shopping, não vou pagar, um absurdo...
- A senhora tem que passar o cinto, senhora, o cinto, levante a bengala, passe o cinto, tem que afivelar senão fica apitando, o cinto.
- Meu filho é advogado, ele disse pra ir na Vivo, tentar um acordo, meu filho entra com processo...
- Levante a sua bolsa, senhora, passe o cinto.
- Essa gente dessas empresas pensam que a gente é boba, mandam a conta, se colar colou...
- O cinto, aqui, passe por aqui, o cinto trancou na bengala, senhora.
- Meu vizinho de porta, não sei como assiste tanta tv, eu não suporto televisão, Faustão, novela, não assisto, não quero saber de folhagem, queria só que minha roupa secasse no varal, essa umidade terrível...
Nesse ponto eu desisto de pôr o maldito cinto e sigo até o shopping ouvindo o falatório da velha e o sinal sonoro do cinto de segurança pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Preocupado
Saindo do banco, caminhando pela calçada em direção ao táxi, saquei o telefone do bolso e comecei a conversar com minha mulher. Já chegando próximo ao carro, com a mão que restava livre, comecei a apalpar os bolsos. Minha mulher contando as novidades e eu apalpando os bolsos da calça, da jaqueta. Já ao lado do táxi, olhei pra dentro do carro, examinei o painel. Nada.
- Gigi, não tô achando o meu celular.
- O quê?
- Meu celular, acho que deixei lá no banco.
- Que celular, Mauro.
- Não tá aqui no táxi, nem no bolso, não sei...
- Mauro, tu tá com o celular no ouvido.
Preocupante.
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Apertado pra fazer xixi, chego em frente às duas portas masculino e feminino. O banheiro dos homens ocupado, o das mulheres com a porta entreaberta. Resisto. Um maldito homem entra no feminino. Eu apertado. O homem do banheiro feminino desocupa, entra outro homem no banheiro feminino. Eu apertado, nada do banheiro masculino desocupar. Um terceiro homem entra pela porta do banheiro feminino, parece que alguém morreu no banheiro dos homens. Diabos! Minha bexiga estourando.
Quando a fechadura da porta do banheiro masculino começa a se movimentar eu sorrio, afinal, fiz a coisa certa, esperei, estou orgulhoso de minha tenacidade, esvaziarei a bexiga com o queixo erguido, grávido de razão.
Enfim sai do banheiro masculino uma... Mulher.
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A primeira coisa estranha era o fato de haver uma fila de uma meia dúzia de passageiros esperando por um táxi no ponto da José do Patrocínio com a Republica. Beleza. Parei. Na ponta da fila, agarrada à placa de embarque, uma mulher sorrindo. Ela não fazia menção de embarcar, apenas sorria. A próxima da fila, então, adiantou-se, parou junto à porta traseira do meu táxi, mas não a abria. Estiquei-me e puxei a maçaneta. A porta abriu-se até encostar na mulher, que, só então, como se despertasse de um transe, embarcou. Ela sentou-se, mas não fechou a porta. Era uma jovem, segurava uma bolsa contra o abdômen, o corpo um tanto encurvado para a frente, e mexia os lábios, como se estivesse falando consigo mesma. Perguntei onde ela ia, ela respondeu apenas "Clínica Pinel", sem me dirigir a visão, os olhos baixos. Eita. Desconfiado, perguntei se ela tinha dinheiro. A moça, então, ainda com a cabeça baixa, desembarcou pela porta aberta e voltou para o segundo lugar na fila, os lábios mexendo, atrás da mulher que apenas sorria agarrada à placa. Caramba. Próximo!
Os seguintes na fila eram dois. Um casal de meia-idade, óculos escuros, ele segurando uma bengala de alumínio, ela agarrada ao seu braço. Embarcaram tateando a lataria do táxi. Cegos. Ela acomodou-se primeiro, ele em seguida bateu a porta com força, estabanado.
- Boa tarde. Pra onde?
- Até um motel, por favor.
- Qual motel?
- Qualquer motel, o mais próximo, o mais rápido possível.
- É uma emergência?
Ele sorriu constrangido, quase por obrigação ante a piadinha do taxista, a mulher agarrou-se ao braço do companheiro ainda com mais força, não parecia nada à vontade. Decidi desistir de fazer graça, apenas segui em frente.
Na portaria do motel, eles solicitaram uma suite master com hidro, a opção mais cara. Estavam evidentemente ansiosos, a ocasião perecia especial. Em frente ao apartamento, ele me entregou uma nota de 50, deixando o troco como gorjeta, apenas pediu que eu os conduzisse até a porta do quarto. Claro. O homem agarrado ao meu braço, a mulher ao braço dele. Deixei-os segurando o corrimão da escada que os levaria até o ninho de amor. Perguntei se precisavam que eu os ajudasse em mais alguma coisa. Novo sorriso forçado. Óbvio que não. Apenas um confiante "daqui eu assumo", como uma senha para que eu saísse de cena.
Suspiro.
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Você percebe que está velho quando embarca em seu táxi uma morena escultural, vestindo calça legging cor de rosa pink, carregada no perfume, pedindo que a leve até uma certa "Delirio's", na Cidade Baixa. Além de não saber onde fica o estabelecimento, você pergunta:
- Seria uma casa de entretenimento adulto?
- É de putaria mesmo, tio.
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Você, que atalhou com seu carrão por dentro do posto de combustível da esquina enquanto todos esperávamos nossa vez de ingressar na avenida. Você mesmo, que colocou no vidro traseiro do seu carrão o adesivo "foi Deus que me deu". Saiba você que Ele está vendo tudo.
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Preenchendo ficha em um hospital.
- Nome?
- Mauro Castro.
- Idade?
- 55.
- Religião?
- Religião? (cara de confuso) Por que?
- Algumas religiões não permitem certos procedimento, então a regra é...
- Tudo bem, tudo bem, sem religião.
- Profissão?
- Taxista.
- Hum, não... hum, autônomo?
- Taxista.
- Deixa ver aqui... Profissional liberal?
- Taxista, amiga.
- Não tem a opção taxista...
- Taxista.
- Motorista! Achei, motorista!
- Tudo bem, tudo bem, motorista, que seja.
- Qual o plano?
- Me curar, amiga, esse é o meu plano.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Dia dos namorados
Meu passageiro postando foto aqui no Face ao lado da mulher, caixa de bombom nas mãos, enquanto eu largo a amante dele (25 anos mais jovem) no shopping com um cheque presente de mil reais na bolsa.
Coisa linda.
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Passageira aqui do nosso ponto, mãe de quatro filhas mulheres, todo o ano pega táxi no dia de Santo Antônio, leva as meninas na igreja. Cada ano uma filha a menos. Ano passado, apenas ela e a última solteira.
Até agora, metade da manhã, a mulher ainda não apareceu. Desconfio que o santo casamenteiro emplacou mais uma.
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Ontem. Saída da igreja Santo Antônio. Uma mulher vinha amparando uma outra mais idosa, que tinha dificuldade de caminhar. Parei o táxi com a porta traseira bem à mão. Aberta a porta, antes ajudar a mais velha a embarcar, a outra espichou o braço sobre o banco, como se fosse limpar o estofamento, ajeitar o cinto, sei lá. Quando ela recolheu o braço, vi que segurava uma bolsinha azul, uma espécie de niqueleira. Pareceu-me que ela havia achado aquilo sobre o banco, mas não tinha certeza, fiquei olhando para ela, esperando que me avisasse, mas ela ocupou-se ajudando a idosa a embarcar. Por um instante, a mulher chegou a me olhar, viu que eu esperava que ela dissesse algo, mas desviou o olhar, ficou na dela. Despediu-se da idosa, fechou a porta do táxi e deu as costas. Antes de partir com a corrida, ainda acompanhei a mulher que sumia no meio da multidão que saía da igreja. Enquanto caminhava, procedia a abertura da bolsinha, num gesto evidente de curiosidade. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas preferi acreditar que ela já estava com a bolsinha na mão, que a maldade estivesse na minha cabeça.
Acaba de ligar para nosso ponto uma passageira perguntando se não perdeu uma niqueleira azul no meu táxi...
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Notícia
Quem desce a Caldre fião, sentido bairro, passando a Maria Degolada, na segunda esquina tem um despacho de macumba pesado. Papel celofane, velas, cachaça, coisa e tal. Bem no centro da oferenda, cercada de guloseimas, uma camiseta oficial do Internacional. Agora vai!
Saravá.
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Mulher negra, vestida de forma humilde, saindo de uma creche chique, alto padrão, com uma criança loirinha no colo. Destino: condomínio de luxo no Bairro Cristal. O bebê agitado, choramingando, nem o embalo do táxi o acalma. A babá não tem dúvida. Tira o seio farto pra fora, oferece à criança que põe-se a mamar, estala os beiços, sacia a fome com gosto. A mulher diverte-se com a cara de espanto do taxista.
- Leite é leite, senhor, não importa a cor da teta.

domingo, 24 de junho de 2018

Dona Mariazinha, minha idosa passageira, contou que entrou ontem em um táxi que estava na fila para abastecer.
- Como assim, dona Mariazinha?
- A fila ia para o lado da minha casa, eu não estava com pressa. Foi ótimo, eu e o taxista conversamos bastante, adorei. Ele descia de vez em quando, empurrava o táxi, voltava e continuávamos papeando. Gente gritando, buzina, confusão... bem emocionante, me senti viva, sabe? Fazendo parte da história! Muito melhor do que ficar assistindo pela televisão. Eu contei pra Elza, minha vizinha, ela morreu de inveja.
- imagino.
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É incrível como, depois de um tempo transportando a mesma pessoa, o taxista passa a conhecer as manias do seu passageiro. O Sr C. é um cliente tranquilo: corridas longas, gorjetas eventuais. O problema dele é quando o taxista deixa a conversa escorregar para a política. Ferrou. Quando fala de política, Sr C. costuma cavocar o nariz. É batata. Mania. Como se a política lhe provocasse a secreção nasal, sei lá.
E depois não adianta o taxista desconversar, perguntar sobre a dupla Grenal, previsão do tempo... Quando começa a falar de política, Senhor C. enlouquece e perde o sentido da realidade, só fala e cavoca as narinas. Um horror!
O pior é quando, no final da corrida, ele que apertar a mão do taxista. Sem chance!
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Gasolina no posto em frente ao Hospital Psiquiátrico São Pedro, gente!!
Aproveitem e se internem.
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Minha passageira toda inspirada:
- O sol iluminando a 'cópula' das árvores, coisa linda.
- Não é?
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Na menopausa, a passageira comprou meu livro pra se abanar. 
Seja como for, obrigado.
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Táxi parado no semáforo, chamei a atenção do meu passageiro para um homem que vinha pela calçada rindo sozinho. Ninguém com ele, nem fone de ouvido, nem celular, o homem simplesmente caminhava sorrindo. Meu passageiro, talvez incomodado por ter que tirar os olhos da tela do seu smartphone, foi curto e grosso:
- Doente mental. Só pode ser.
Não me parecia o caso. O homem na calçada parecia normal (apesar de estar sorrindo), talvez estivesse apenas feliz, alguma lembrança que lhe ocorreu em meio à caminhada, um encantamento íntimo qualquer, sei lá, um simples sorriso não pode ser sintoma de loucura. Pensei em argumentar com meu passageiro, mas ele voltara a grudar os olhos no seu smartphone, hipnotizado, não parecia interessado em sorrisos alheios.
Vivemos tempos bicudos. Mostrar os dentes em público talvez seja mesmo uma temeridade.
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- E agora, mãe, sem internet, como vamos conseguir transporte?
- Usando o dedo.
- Dedo? É tipo um app?
- Veja, meu filho, a gente levanta o dedo assim e um táxi pára.
- Táxi??
- Olha aí, parou, isto é um táxi.
- Uau! Como é que isso funciona?
- O dedo levantado aciona uma espécie de rede, gera um algoritmo, digamos assim, e a cidade passa a lhe enviar táxis.
- Táxi! Maneiro! O que é aquilo em cima do painel?
- É um taxímetro, meu filho, um taxímetro.
- E onde a gente digita o destino?
- Basta falar para o taxista, ele conhece a cidade.
- Ele tem tipo um Google Maps na cabeça!
- Taxista, nos leve até a biblioteca pública.
- Biblioteca, mãe? O que é biblioteca?
- Um lugar onde você vai fazer o seu trabalho escolar sem internet.
- Jura?? Que dahora!!
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ACIDENTE
Acaba de acontecer. Meu táxi acaba de ser abalroado por uma louca sem noção que vinha em sentido contrário. Não tive o que fazer, vi que ela ia bater, apenas freei e esperei parado pelo choque. A mulher vinha, óbvio, mexendo no celular, tinha que ser! A tela iluminada brilhando nas lentes dos óculos escuros da louca. Ela sequer fez sinal de parar, assim como vinha bateu. Primeiro com os joelhos, depois falseou os saltos, desequilibrou-se, caiu contra o capô, os óculos entortaram, o cabelo desarmou, a bolsa caiu, mas o celular firme na mão - como um bêbado que se esborracha no chão mas não larga a garrafa de cachaça. Que coisa, que cena mais patética! Aonde vamos parar com isso? Não duvido que ela tenha postado foto do joelho roxo no Instagram #aloka #ridicula
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Parado no sinal, tamborilando as mãos no volante do táxi, volume máximo, eu acompanhando o Tim Maia, cantando e chacoalhando a cabeça: a semana inteeeira/fiquei te esperaaando... Parei quando percebi que, no veículo ao lado, uma senhora muito alinhada, muito sóbria, mãos grudadas na direção do seu Corola, me observava com evidente desprezo no olhar.
Eu e a madame nos fitamos por um breve segundo. Depois ela voltou a mirar o sinal vermelho com um um sutil movimento de desaprovação da cabeça, queixo espichado, as sobrancelhas erguidas, por certo reprovando a postura inadequada deste taxista cinquentão.
Imagina se ela me pega interpretando Fred Mercury!

domingo, 10 de junho de 2018

Orgulhava-se de ter sido considerada a vedete com as pernas mais bem torneadas do teatro de revista. Casou-se com um rico empresário gaúcho e veio morar em Porto Alegre. Quando pegou meu táxi, já vivia de lembranças, esquecida em um asilo de luxo da Zona Sul. Inspirada pela claridade azulada do outono gaúcho, acabou desviando a corrida, que inicialmente a levaria para uma consulta médica. Acabamos às margens do oceano Atlântico, praia de Torres, onde minha passageira caminhou por um bom tempo pelas franjas salgadas do mar. A corrida dos sonhos de qualquer taxista, que acabou se repetindo por mais duas vezes. O longo caminho rumo ao litoral, recheado de lembranças teatrais, a esperança na capacidade de cura da água salgada, mas os problemas de circulação piorando, a dificuldade cada vez maior de caminhar.
Hoje, chamaram um táxi no asilo, perguntei à recepcionista pela minha antiga passageira. Soube que morreu há alguns anos, vítima de trombose, as duas pernas amputadas - as pernas que ajudaram a fazer sua fama.
A manhã, que começou límpida, foi aos poucos se acinzentado... É o outono gaúcho, é a vida.
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Eu andava com umas dores de cabeça sérias, bastava virar o pescoço para falar com algum passageiro no banco de trás e pronto: uma cefaléia brava me invadia, as têmporas latejando por dias a fio, não tinha remédio que desse jeito, tentei de tudo - algo a ver com cervical, sei lá. Até que meu pai falou das tais freiras milagrosas. Oi?
Em desespero de causa, resolvi arriscar. Botei meu pai no táxi e partimos em busca do milagre. Trata-se de duas religiosas de origem asiática (Nepal, segundo informaram a meu pai), que teriam chegado ao Brasil no início do século passado, fugindo de alguma guerra em seu país de origem. Depois de uma vida enclausuradas em um convento, as religiosas teriam sido excomungadas da congregação sob acusação de bruxaria - história narrada em tom de mistério por meu pai (de quem devo ter herdado o "dom de iludir") enquanto procurávamos pelo endereço das milagreiras - um casebre isolado onde Judas perdeu as botas, pra lá do Passo Dorneles, num ponto inexato, entre o nada e lugar nenhum. A noite de chuva, gps sem sinal... a busca pela cura não é para fracos.
Pra encurtar a história, que isso aqui é Facebook e estou escrevendo no celular, achamos a tal casa. Paredes encarvoadas, as freiras centenárias, apoiadas em bengalas tortas, fumando grossos charutos e cercadas de gatos. Elas processam uma espécie de caldo de ervas em panelas velhas, aquecidas sobre um fogão à lenha. Deram-me um vidrinho desse caldo, com uma tampa em forma de conta-gotas. A maneira como deve ser administrado o remédio é uma espécie de ritual, que deve ser seguido à risca. Funciona assim, preste atenção:
Antes que o sol nasça (isso é importante), você reza um Ave Maria, um Pai Nosso, faz o sinal da cruz 3 vezes, mentaliza a imagem do Deus de sua preferência (no meu caso o Bob Dylan), pinga uma gota do Caldinho das Freiras sobre um comprimido de Ibuprofeno 600mg e engole.
É tiro e queda.
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Voltando de Ipanema pela beira da praia (menos chance de pegar corrida, mas o visual compensa), na altura do antigo Timbuca, vejo algo que me captura a atenção. Alguém está nadando no Guaíba! Com esse frio! Oito da manhã, marcando dez graus no painel do táxi. Parei pra entender o que estava rolando.
Era um homem, um oriental, japonês, sei lá, ele foi saíndo da água e estava pelado. Pelado!, o homem estava completamente pelado! Ao ver meu táxi, ele me fez sinal, me chamou, como se precisasse de algo. Eu baixei o vidro, ajeitei os óculos: o homem estava tremendo de frio, começou a correr em minha direção, uma cena bizarra (imagina um japonês arrepiado de frio, pelado, correndo em sua direção). Devia ser alguma pegadinha, procurei por câmeras escondidas, mas a praia estava deserta, ninguém além do japonês peladão e meu táxi. Minha deusa!
Ele aproximou-se da janela, todo molhado, pingando, arrepiado, os lábios roxos, tremendo de frio, deu pena do homem. Batendo queixo, o maluco me perguntou quanto daria uma corrida até Higienópolis, na altura do Zaffari. Depende, se formos pela Perimetral... enfim, chutei um valor aproximado. Ele então me perguntou se meu táxi aceitava cartão. Todos menos Banrisul. Foi quando o homem emputeceu, começou a me xingar, o miserável! Indignado por eu não aceitar o maldito cartão Banrisul. Ele batendo boca (é o banco do povo, blá, blá, blá), eu quieto, que se dane.
Depois de me mandar para o quinto dos infernos, a porcaria do japonês girou o corpo e voltou correndo em direção à praia (a bunda branca, nem um pêlo no corpo, imagina). O homem se jogou novamente nas águas geladas do Guaíba e se foi, nadando firme rumo ao horizonte. Acompanhei-o até que a vista não mais identificasse suas braçadas.
PS: sim, o cartão, já ia me esquecendo. Depois de me esfregar o cartão na cara, depois de dar seu patético discurso em defesa do banco público, o japonês voltou a enfiar o cartão (de débito/banricompras) na bunda, entre as nádegas, os glúteos retezados para não perder a tarjeta. Affmaria.
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Desabastecimento
Envolta em seu casaco de pele, minha passageira me alerta que já falta camarão nas prateleiras do Zaffari.
- Gente, que país é esse!?
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AJUDA
Tenho um passageiro chato, que apaixonou-se por uma prostituta de luxo. Acontece que, depois emprestar uma pequena fortuna para a moça fazer uma Lipo, a profissional do sexo passou a fugir do cliente (com razão, o cara é um mala). Tudo o que ele sabe é que ela mora lá para os lados do Sarandi, em uma casa que tem um muro com a pixação "povo com Lula". Ele está gastando uma bela grana no meu táxi, fazendo corridas diárias em busca do tal muro.
Caso alguém identifique essa residência, por favor, peça para que pintem o muro, urgente.
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O homem entrou no meu táxi fedendo a gasolina. Tem gente que gosta mesmo de aparecer.

domingo, 27 de maio de 2018

Meu passageiro era uma metralhadora giratória:
- Tem troco pra 50, taxista? A gente troca, o dinheiro evapora, mas vai ter que durar até o fim do mês, meu cunhado quer me dar aumento pelo índice não sei qual, disse que é a lei, pensa que eu sou burro, o supermercado ninguém controla, aumenta tudo, meu cunhado sabe, ele vai no Zaffari toda hora, não faz rancho, diz que estraga as coisas, não estraga nada, bota na gaveta e dura o mês todo, o super ninguém controla, mas o meu aumento é uma merreca, é o que dá trabalhar com parente, meu cunhado trata melhor os cachorros dele do que os empregados, meu cachorro não tem mais ração faz uma semana, tá catando nos lixos dos vizinhos, sorte que o mês tá acabando, sobrou esse cinquentão e olhe lá, cartão não uso mais, só da farmácia e da Riachuelo, se precisar comprar um calçado, sei lá, mas acabei com os cartões, tu não paga o boleto, não tem perdão, paguei 40 de juro mês passado, minha filha que me ajudou, ela trabalha como uma condenada pra fazer as vontades do filho, maconheiro sem vergonha, disse que quer ser skatista, vive no Parque Harmonia, fumando maconha, pensa que eu não sei, roubou o carro da minha filha, sem carteira, prenderam o carro, eu não tenho mais carro, não quero, só pra pagar IPVA, aquela merda, pifou o arranque, eu vivia empurrando, não quero mais carro, vou de ônibus pra praia, sento lá, banco reclinável, acordo na praia, tenho uma casinha no Quintão, duas quadras da rodoviária, mês passado me arrombaram a porta, roubaram o botijão de gás, os safados, pra trocar por droga, minha mulher, quer que eu venda a casa, ela é costureira, faz reforma, bainha a 5 Reais, ninguém quer pagar, o conserto da máquina custa os olhos da cara, mas a bainha os bacanas acham caro, ela só trabalha pra burguês, burguês é tudo mão de vaca, uma bainha tinha que cobrar uns 30, quer, quer, azar, meu cunhado não quer dar aumento, o índice, o índice, que se dane o índice, tô fazendo uns bicos, cortando grama, tenho uma máquina, corto uma graminha, varro tudo, deixo bonito...
- R$10.
- O senhor me dê duas de vinte, não troque muito, a gente troca, evapora.
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Orgulhava-se de ter sido considerada a vedete com as pernas mais bem torneadas do teatro de revista. Casou-se com um rico empresário gaúcho e veio morar em Porto Alegre. Quando pegou meu táxi, já vivia de lembranças, esquecida em um asilo de luxo da Zona Sul. Inspirada pela claridade azulada do outono gaúcho, acabou desviando a corrida, que inicialmente a levaria para uma consulta médica. Acabamos às margens do oceano Atlântico, praia de Torres, onde minha passageira caminhou por um bom tempo pelas franjas salgadas do mar. A corrida dos sonhos de qualquer taxista, que acabou se repetindo por mais duas vezes. O longo caminho rumo ao litoral, recheado de lembranças teatrais, a esperança na capacidade de cura da água salgada, mas os problemas de circulação piorando, a dificuldade cada vez maior de caminhar.
Hoje, chamaram um táxi no asilo, perguntei à recepcionista pela minha antiga passageira. Soube que morreu há alguns anos, vítima de trombose, as duas pernas amputadas - as pernas que ajudaram a fazer sua fama.
A manhã, que começou límpida, foi aos poucos se acinzentado... É o outono gaúcho, é a vida.
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Sabe aquela bêbada que não interage? As pálpebras pela metade, parada ao lado do táxi, me olhando, eu ao volante, esperando que ela entrasse ou desocupasse a porta. Quando finalmente embarcou, apenas deu o destino com voz pastosa e se calou. Tentei puxar assunto, mas não, uma lápide, só o olhar de peixe morto mirando o infinito e uma leve oscilação de pescoço. Deixa quieto.
Fim da corrida, subida da Luiz de Camões. Depois de puxar a grana de uma maçaroca de notas, minha cliente enfiou o troco amassado no bolso e iniciou o procedimento de saída. A inclinação da rua foi um problema. Logo que soltou a mão do táxi, a mulher parece que perdeu o chão. Foi trocando pernas ladeira abaixo, lutando contra a gravidade, manejando os braços o equilíbrio faltando, ganhando velocidade. Ainda cogitei pular do táxi, ampará-la, mas ela já ia em desabalada carreira lomba abaixo, restou-me ficar na torcida.
Dizem que Deus protege bêbados, loucos e crianças. No caso, Deus materializou-se naquela calçada na forma de um brigadiano, desse que patrulham a cidade de bicicleta. O policial militar aparou a mulher! Cena de futebol americano, os corpos se chocando, a bicicleta, a ladeira, embolaram-se, pernas, braços, a velocidade diminuindo, upa, upa, arrasta, a luta contra o tombo iminente e, por fim, o abraço firme. Haaaa!
Vida que segue.
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Depois de metade da corrida em silêncio, o passageiro, do nada, me sai com essa:
- Meu órgão tá em festa!
Depois ele me explicou que o "órgão", no caso, tratava-se da repartição pública onde ele trabalha, que está completando 50 anos... Pô, baita susto!
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- É só um baseadinho, taxista, não dá nada.
- Tô ligado, mas não dá pra fumar no táxi.
- Podicrê.
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Já contei aqui a história da minha passageira idosa que se reaproximou do neto desde que o rapaz plantou um pé de maconha no quintal da casa dela - as visitas do garoto passaram a ser frequentes, ela fingindo que não conhece maconha, ele fingindo que ama a avó. Depois de muito tempo, ela voltou a pegar meu táxi. Perguntei como está a situação.
- As visitas continuam. Entre uma xícara e outra de chá, ele disfarça e vai lá colher a erva, mas sinto que estou perdendo meu neto.
- Para a droga?
- Para o smartphone. As visitas eram como uma rajada de ar fresco, tanta conversa, tantas novidades. Agora a tela do celular captura a atenção dele, é como um muro entre nós, restou quase um monólogo. Que vício desgracado!
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Atenção você que apanhou (muito) da sua mulher dentro do meu táxi, agora pela manhã. Tenho duas coisas para lhe dizer:
1 - você mereceu cada tapa, cada bordoada, cada cusparada que levou dela.
2 - Ficou caído no assoalho do táxi a lente que deve estar faltando no seu óculos. Procure-me (ou não).

domingo, 20 de maio de 2018

Difícil o taxista achar o que dizer a um homem de 73 anos que chora compulsivamente ao seu lado. Corrida para a rodoviária. O passageiro está levando sua mulher, com quem esteve casado por 45 anos, de volta à sua terra natal, Passo Fundo. Vítima de um câncer fulminante, transformada em cinzas, ela jaz em uma pequena urna, dentro da mochila que o homem abraça com força enquanto chora. Tem que tocar o barco, é a vida, precisa seguir em frente... Difícil achar o que dizer.
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Depois de me passar pela segunda vez o papel para que eu conferisse o endereço onde precisava ir, eu percebi o "problema". Meu passageiro, jovem, 23 anos, gessista por profissão, recém chegado do Interior, era analfabeto.
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Uma mulher bastante obesa embarca no banco da frente. A filha dela, no banco traseiro, explica que é uma corrida curta, que sua mãe não consegue mais caminhar. Entramos em uma vila muito pobre, o táxi se esgueirando por becos minúsculo. A moça faz uma ligação, explica ao marido que está chegando de táxi, pede que ele veja dinheiro para pagar a corrida. Confirma que está próxima, já está descendo o beco.
A moça aponta o casebre onde mora. Quando estamos nos aproximando, sai voando pela porta do tal barraco uma mulher, molhada, enrolada em uma toalha bem curta, passadas largas, em pânico, carregando as roupas em um dos braços. Minha passageira do banco de trás explode em indignação.
- Olha, mãe, a Salete, aquela piranha, Salete ordinária!
Daí em diante é um festival de baixarias: a moça traída rodando a baiana, o marido adúltero pedindo calma, a mãe com cara de quem já viu o filme antes, vizinhos chegando, cachorro acuando, eu só querendo receber minha corrida e a Salete sumida, nem cheiro. Da Salete, ficou só a imagem extraordinária daquelas pernas luzidias em fuga (suspiro).
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Meu colega Biela fechou o porta-malas do táxi com a chave dentro. Não é a primeira vez, maior bocaberta! Dessa vez não deu pra ligar pra esposa socorrê-lo como a chave reserva - o jeito foi chamar tele-chaveiro, gastar uma grana, quase destruir a fechadura, perder um tempão, maior função. A outra opção seria explicar pra patrôa como o táxi foi se trancar dentro de um motel

terça-feira, 8 de maio de 2018

Duas jovens adolescentes fazem sinal pro meu táxi em frente a um galinheiro. Elas sentam no banco de trás, fecham a porta, mas pedem que eu espere por sua avó que já está vindo. A mulher vem em seguida, segurando um galo pelas patas, pendurado de cabeça pra baixo, as asas sacodindo em protesto, o animal se debatendo enquanto a mulher caminha impassível e abre a porta da frente.
- A senhora não vai embarcar no meu táxi com esse bicho, assim, desse jeito.
- Qual o "pobrema"? Os táxis sempre me levam.
- Olha aí, tá voando pena pra todo lado!
Contrariada, a mulher maneja o galo prendendo-o embaixo do braço, as asas pressionadas pelo sovaco. Não me dou por satisfeito, o galinheiro que dê um jeito, que embrulhe o galo, sei lá. No banco de trás, as meninas protestam. Elas parecem não compactuar com as práticas religiosas da avó.
- É pra fazer um "cardo". As meninas bem que gostam da minha galinhada.
- Caldo nada, taxista, é pra batuque mesmo. Ela vai degolar o pobre do galo.
Caldo, saravá, não importa, ante minhas exigências, a mulher volta ao galinheiro onde o animal é colocado numa sacola. A corrida finalmente segue com a mulher emburrada, as adolescentes com cara de nojo e o galo aparentemente resignado com seu destino, seja a panela, seja o despacho.
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Minha passageira aliviada com o fim do calorão:
- Aquilo parecia o inferno de 'Gandhi'!
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Passageira do nosso ponto pega táxi todo dia levando comida para seu filho. Um aroma de delícias inunda o carro. A brincadeira é que o taxista adivinhe o cardápio pelo cheiro. Meu nariz hoje está afiado:
Guizadinho de abóbora.
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Por favor
Caso você pegue um táxi, caso esteja indo para um laboratório de análises, caso você decida sentar no banco da frente, caso tenha dificuldade com o cinto de segurança, NÃO peça para o taxista segurar, por um instante, seu potinho cheio de fezes. NÃO seja essa pessoa. Evite este constrangimento.
Bom dia, obrigado.
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Quem vê minha passageira, na casa dos 70 anos, frágil, recatada, voluntária numa ong de animais de rua, não imagina que por trás daqueles óculos de grau existe um passado. Um passado que ela adora recordar, provocada por este taxista bisbilhoteiro.
Minha cliente conta que, quadro jovem, idos dos anos setenta, auge do regime militar, fez concurso para trabalhar no DOPS, o temível departamento de repressão política. Única mulher entre 30 candidatos, foi aconselhada a desistir das provas. Não desistiu. No teste de tiro, dos 5 disparos exigidos, acertou cinco. Primeiro lugar no concurso.
Ao falar do se antigo trabalho, a vozinha se empolga "chamei muito vagabundo pra conversar", vibra no banco do táxi como se ganhasse vida nova, até que se dá conta que está dando bandeira e volta a se alinhar.
No fim da corrida, penso em dar um desconto, cantar o hino, jurar a bandeira, mas minha passageira já voltou a ser a cliente afável de sempre. Abre um sorriso, deixa uma gorjeta e pergunta se não quero adotar um vira-latas. Agradeço. Já tenho minha guaipeca.
- a origem
Meados de 2003, uma manhã qualquer, dentro do meu táxi, transportando um passageiro até o prédio do Jornal Diário Gaúcho. Meu cliente é o editor do jornal. De tanto ouvir minhas histórias mirabolantes de taxista, ele sugere que eu as escreva. Ótima idéia!
- série de tv
Abril de 2018, manhã de sol, rua Mansão, Bairro Azenha, ponto de táxi cenográfico, mais de 50 pessoas se movimentam em ritmo frenético envolvidas em equipamentos, maquiagem, figurinos, produção, diretor, roteiristas, áudio, luz, câmera, ação, muita ação! É o set de filmagem. TAXITRAMAS!

Bom dia pra você que pegou meu táxi muito cedo da manhã, com uma bebê no colo, enroladinha, encolhida, fustigada pela chuva gelada tocada com vento, indo até o Presídio Central levar uma medicação para seu pai que está cumprindo pena, desanimada com a fila no portão da cadeia, que ainda tem que levar a filha pra creche e deve escutar bronca do patrão por chegar atrasada, que pagou a corrida com o dinheiro contado e ainda me brindou com um sorriso luminoso e me desejou bom dia
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Senhora de uns sessenta e tantos anos saindo de um baile de terceira idade, finamente vestida, cabelo armado com fixador, maquiagem, mas alguma coisa está errada com ela: caminha com dificuldade, dura como uma múmia. É trazida ao meu táxi amparada por dois grandalhões, seguranças do baile. A mulher embarca de peixinho, como se mergulhasse para dentro do carro, não dobra as costas, não encolhe as pernas, sua situação parece crítica. Enquanto é depositada no banco traseiro, gemendo, respiração de cachorrinho, explica aos seguranças algo sobre um certo "oitavo parafuso". Vambora.
- Toca pra Petrópolis, taxista. Evite os buracos, por favor.
- A senhora precisa de um médico.
- Em Petrópolis, meu quiropraxista, já liguei pra ele, está me esperando.
- O que aconteceu com a senhora?
- Travou a coluna dançando um tango figurado. Conhece tango figurado? Tipo dança do Faustão.
- Minha nossa!
- Tenho 10 parafusos na coluna, todos calcificados, menos o número oito, o 8 tá solto, deve ter saído do lugar, o miserável (buraco!) Aaaiiii, respiração de cachorrinho!
- Desculpe, a cidade está que é só buracos.
Em Petrópolis, o médico já esperava a paciente com uma cadeira de rodas. Sai de costas, engatinhando no banco, ajuda, puxa, aaaiiii, cachorrinho, o oitavo parafuso, miserável, o cabelo já desarmado, o vestido longo dificulta, a bolsa engancha, tango figurado, paga a corrida, fica com o troco, dez parafusos, o número 8, doutor, o maldito oitavo parafuso de novo...
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- Bom dia.
- Bah, o Lula vai se entregar mesmo, vai pra cadeia, o Lula vai
- Vamos pra onde?
- O Lula vai... Oi? Ah, sim, Centro, toca pro centro, taxista. O senhor tá acompanhando?, aí, o Lula, o Lula, taxista, vai se preso mesmo.
- Não estou acompanh
- Tá aqui, tá no Twitter, no Facebook, tô vendo no Instagram, no YouTube, live, CNN, o Lula, cara, o Lula, o PT tá reunido, recurso, segunda instância, Rosa Webber, TRF4, supremo, recursos, justiça, manifestação, o Lula, algemas, cela de tantos metros quadrados
- Vamos pelo túnel?
- Barroso, instância, supremo, pt, eleições, Lula, o Lula, a cela, o Moro, a instância, ideologia, PT, PSDB, justiça no Brasil, o Moro, a Carmem Lúcia, preso, vai prender, algema, vai se entregar, o Lula, o Lula, sentença, o Lula, facistas, coxinhas, justiça, condenação, prisão.
- Deu doze.
- Doze anos de prisão?
- A corrida, R$12.
Mesmo que Mude
Os táxis de Porto Alegre são a cara da cidade. Assim como os táxis amarelos de Nova Yorque, os Black Cabs londrinos, nossos laranjinhas são um patrimônio afetivo, uma marca, uma lembrança que o turista leva na mente, nas fotos que identificam a Capital gaúcha de forma indelével.
Mas isso vai acabar.
Em nome da mudernidade, do pragmatismo, dos custos, em nome desta onda de mediocridade que assola a cidade e o país, vão acabar com o charme dos táxis porto-alegrenses. Que pena. Um dia vamos olhar velhas fotos coloridas e vamos lembrar de como tivemos uma cidade legal, de como nos orgulhávamos de sermos diferentes, do sotaque, do velho rock gaúcho e suas longas introduções, dessa pegada cultural que a cidade teve, desse colorido bacana que foi sendo perdido junto com o laranja dos táxis.
ao som de Bide ou Balde - Mesmo que Mude
- Tenho um sobrinho trabalhando em táxi...
- Olha!
- É um rapaz bom, estudou, tirou curso, informática, tem diploma, mas não sei, não deu pra nada o coitado.
- Pena.
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Dois homens miseravelmente bêbados chegam no meu ponto. Querem saber se os levo até a Azenha por R$10 (pelo taxímetro custaria uns oito). Negócio fechado. Eles embarcam animados, o mais jovem, mais tonto dos dois, tem dificuldade até mesmo em fechar a porta do táxi.
Durante a corrida, o mais tonto tenta convencer o outro a lhe emprestar seu cartão TRI, alega que está sem dinheiro para o ônibus, para comparecer a uma entrevista de emprego. O outro nega o empréstimo, diz que o cartão dele é de idoso, não vai passar. O clima azeda entre os dois. O mais tonto ameaça vomitar, o mais velho resmunga, mas a corrida é curta como coice de porco: eles se coçam, descolam dez pilas amarrotados e partem cambaleando Azenha afora.
Segue o baile.