sábado, 7 de maio de 2016

Tivemos aqui em nosso ponto de táxi, há muitos anos, um passageiro que cometeu um crime. Matou um homem. Um caso passional, rumoroso à época. Ele foi a julgamento, condenado, tentou fugir para o exterior, foi pego, baixou o presídio.
Pois bem, esse homem embarcou no meu táxi hoje. Foi uma corrida em clima estranho, pra dizer o mínimo. Não falamos no crime. Cumprida a pena (sobre a qual também não falamos), ele está tentando retomar sua vida, da forma que pode, como um anônimo vendedor de pneus.
Desejei-lhe sorte.

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A garota embarca no banco traseiro, dá de cara com o expositor do meu livro, pensa um pouco e exclama:
-- Bah, tu és o TAXITRAMAS, o cara das fotos de retrovisor! Te conheci na Austrália! Eu tava lá, com o Ciência sem Fronteiras, e o pessoal da UFRGS começou a comentar tuas fotos de Porto Alegre... Prazer!
Desculpem se fico me exibindo, mas precisava compartilhar esse momento.

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A passageira com uma bolsa cheia de medicamentos, uma farmácia ambulante. Explicou que seu marido morreu recentemente, sobrou uma quantidade enorme de medicação. Propôs pagar a corrida com remédios. Tinha de tudo: desde analgésicos, ansiolíticos, até supositório siliconado e um tubo semi novo de pomada pra hemorróida...
Preferi receber em dinheiro.

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Magrão num Palio branco é o primeiro no sinal fechado, eu atrás com meu táxi. Percebo que ele está com a cabeça baixa, postura típica de quem está mexendo no celular. Pensei: o sinal vai abrir e ele não vai arrancar. Dito e feito.
Dei um bipe bem curto na buzina, ele se antenou e foi.
Mais adiante, novo sinal e a história se repete. Novo bipe na buzina. Desta vez, porém, o Magrão levantou a cabeça, viu o sinal verde, mas voltou a mexer no celular - uma última curtida, sei lá.... Foi quando eu emputeci e enfiei a mão na buzina de vez. Quem nunca?
"Nosso lado animal, vez em quando, precisa tomar sol."

domingo, 17 de abril de 2016

Você precisa ingressar em uma avenida movimentada na hora do rush, está com o carro apontado, pisca ligado, esperando a gentileza de um outro motorista. O tempo que você vai levar para conseguir sua chance depende, basicamente, do seu carro.
Sim, a gentileza é seletiva.
Caso esteja "pilotando" um Mercedes, a generosidade não tardará. Sinais de luz, dedinhos de positivo, sorrisos cúmplices. Se o seu carro for um Chevette velho, tenha paciência, olhares esquivos não perceberão seus apelos.
Agora, se você estiver dirigindo um táxi. Esqueça, meu filho. Nem a figa pendurada em seu retrovisor vai lhe ajudar nessa.

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Saindo da padaria sou abordado por uma moradora de rua. Ela pede umas moedas, alega ter cuidado do táxi, me chama de amigo, diz que está de aniversário hoje. Desvio dela e entro em um pequeno corredor que leva ao banheiro da padaria.
Quando volto à calçada, a mulher ainda me espera. Quer dinheiro prum café. Decido premiar sua perseverança. Enquanto recolho um punhado de moedas menores, ela faz o sinal da cruz e aponta para o céu. Antes de lhe passar os ferrinhos, pergunto qual o seu signo. Pega de surpresa, ela engasga, desconversa, diz que cuidou bem do meu táxi, estica a mão em direção às moedas. Percebendo que ela havia esquecido a história do aniversário, insisto no signo. A pedinte se irrita, finge estar magoada com minha desconfiança, pergunta se vou lhe dar o dinheiro.
Ela parte sem me agradecer. A soma que arrecadou comigo não valeu o sacrifício. Não pagará nem uma pedra. Dureza.

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Sei que homens são inseguros (eu que o diga), entendo que a primeira visita ao apartamento de uma namorada é difícil, um momento decisivo, acho até válida a visita ao terreiro de umbanda na noite anterior. Tudo ajuda, eu sei. 
Agora, meu amigo, perguntar ao taxista que está lhe transportando para o tal encontro se ele tem um Viagra para lhe vender... Tenha a santa paciência.

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O cara jura que foi o primeiro punk de Porto Alegre. Tocou terror nas madrugadas do Bom Fim com sua namorada, a Cicuta, cabelo moicano, espetado de piercings e bebendo vinho no bico... 
Perguntou se poderia pagar o táxi com Banricompras. É azulejista de mão cheia, mas, no momento, faz bico de vigia noturno - o dindin só sai na sexta. Nem sinal da rebeldia setentista. Tudo que ele queria era chegar em casa a tempo de ver a novela.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Gang das gordas

Em meio ao burburinho da Praça XV, três mulheres embarcam no táxi. Uma gorda, branca, senta na frente comigo, outras duas mais jovens, negras, no banco de trás. As três carregam bolsas volumosas. Logo que arranco, a mulher da frente diz que gostaria de comprar um churrasquinho de gato, fica braba quando eu passo pela carrocinha e não paro - imagina a sujeira de farinha. O destino é a Vila Conceição Degolada.
À medida que a corrida se desenrola, percebo, pela conversa das passageiras, que elas são o trio de assaltantes que assombra há algum tempo o Centro da Capital. A Gang das Gordas. Enquanto revisavam suas bolsas, fazendo um tipo de inventário do que conseguiram no dia de “trabalho”, uma das mulheres do banco de trás, que parecia ser nova no “negócio”, deixa escapar:
-- Teu marido sabe que tu sai pra roubar?
A gorda da frente chama sua atenção: “Te liga, meu!”. Como se precisassem esconder aquilo que o taxista já havia percebido. Daqui em diante, passo a reproduzir simplesmente algumas frases soltas que ouvi pelo resto da corrida.
-- Tu precisa parar de apanhar do teu homem.
-- Aquelas coronhadas eu levei por causa daquela piranha da mulher dele.
-- Então tu és filha do fulano da Tuca? Mas tu disse que não tinha pai!
-- É, sou filha dele, mas tu sabe né, ele tá preso.
-- Tu tá fumando demais, quando tiver a minha idade vai estar toda enrugada.
-- Mas eu nem tô mais fumando muito, só maconha.
-- A fulana ameaçou me dar uma facada, eu mandei ela se botar, acha que tenho medo?
-- Mas ela briga bem, já apanhei dela, tu tens que chegar chutando a cara.
-- Amanhã a gente vai pra Viamão, lá não nos conhecem ainda.
-- Ontem só faturei R$300. Tá fraco esse fim de ano.
A corrida acaba bem em frente a uma delegacia, nos altos da Barão do Amazonas. Elas não parecem temer a polícia. O taxímetro marca R$21. Cada uma delas já tinha os seus sete reais na mão. Estão acostumadas, pelo jeito voltam de táxi todos os dias depois do “trabalho”. Ao se despedir, a gorda tenta ser simpática: “Valeu, tio, te cuida, ai”.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Corridinhas curtas

Nada irrita mais um passageiro atrasado que um taxista de bem com a vida. O tipo de taxista que fica tamborilando com os dedos no volante enquanto o sinal está vermelho, o tipo que canta baixinho e balança a cabeça ao som de Nana Caymmi, esse tipo irritante de taxista que não entra no clima de ansiedade do seu passageiro atrasado.
Respondo que ele (o tempo) adormece as paixões, eu desperto, confirma a Nana, bem a propósito, composição do Blanc.

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A mulher aproveita a corrida para trocar a fralda do bebê. OK, faz parte, abro uma fresta na janela.
Agora adivinhe o que a passageira da corrida seguinte encontra, descartada no cantinho do banco traseiro do meu táxi....
Acertou quem pensou em uma fralda cagada.

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Rosa Inglesa
Primeira passageira da semana é a Cheirosa - nunca perguntei seu nome. Costuma passar a corrida elaborando complexos coques com os quais reprime seus bastos cabelos negros. A morena selvagem desembarca do táxi com elegância executiva. Mas de todas as características dessa passageira (e são muitas, garanto) a que mais me chama a atenção são os aromas que exala. Perfumes tão sofisticados quanto seus penteados. A fragrância de hoje: English Rose.

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Peguei o passageiro em uma revenda Mercedes. Acredito que o próprio gerente da loja veio abrir a porta do táxi tal a importância que parecia ter o homem. Ele estava com pressa. Muita pressa. E irritado, discutia ao celular - problemas com a fazenda de gado.
Entre uma ligação irada e outra, oferecí-lhe meu livro. Vinte pilas. "Se me sobrar um troco..." e voltou a salivar xingamentos ao telefone.
Só o que o homem carregava em seu braço esquerdo (aliança, pulseiras, Rolex e Ihone) dava pra comprar meu táxi e sobrava dinheiro. No final da corrida, ainda destilava palavrões ao celular. Achei mais prudente não lembrá-lo do livro. Ao desembarcar, deixou cair uma embalagem de comprimido sobre o banco. Como estava vazia, sequer o alertei. Rivotril.

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Minha passageira era uma baixinha simpática e falante. Usava um vestidinho daqueles com uma cinta fina logo abaixo dos seios (não entendo lhufas de moda, mas essa sofrível descrição é importante aqui), o que deixava a "bata" (?) mais curta na parte da frente, salientando o abdômen dilatado da mulher. Pediu que eu a levasse até o Hospital Fêmina (referência no atendimento à gestantes).
Enquanto procurava o dinheiro para pagar a corrida, perguntei se já sabia o sexo do futuro filho. Distraída ela fez cara de desentendida. Imbecil, ainda insisti na pergunta, agora apontando o queixo para a barriga da coitada.
Não, ela não estava grávida. Era médica naquele hospital...
Difícil conviver com a culpa de ter, provavelmente, arruinado o dia de uma mulher.

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Toda garbosa no banco traseiro do meu táxi, a idosa explica porque não pode comprar meu livro (R$20): vai gastar R$80 mil no conserto do telhado da sua casa em Punta.
Informo que a corrida custou R$12,50. Ela me passa duas notas: uma de dez e outra de cem!! Eu tento avisá-la do engano, mas ela está ocupada procurando as moedas. A muito custo, consigo fazê-la trocar a nota de cem por uma de dois. Ela me agradece sem muito entusiasmo e segue procurando as moedinhas. Consegue reunir apenas R$0,45. Pergunta se pode ser assim....
Fechado.

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Fim de expediente, a mulher embarca no meu táxi digitando ao smartphone. Sequer me olha. Informa o destino da corrida sem tirar os olhos da sua tela superamoled. É uma passageira típica desses tempos. Digita compulsivamente, não pisca. Blz.
Toc, toc, toc, toc, plim, toc, toc, plim, plim, toc, toc, toc, toc, toc, plim, plim, plim, toc, plim, kkkkkk, plim, toc, toc, toc, toc.
...
Ao final da corrida, por fim, levanta os olhos. Enquanto procuro o troco, ela procura as chaves da casa. Lembra que estão no carro. Lembra que foi de carro para o trabalho! Religa o taxímetro. Volta ao ponto de partida.
Toc, toc, plim, toc, toc, toc, kkk, curti.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Carta aos (colegas) taxistas

Eu fui um dos primeiros taxistas a comprar um celular quando essa “novidade” apareceu por essas bandas. Quando meus passageiros começaram a ligar diretamente para mim, eu apanhei dos meus colegas de ponto. Literalmente. Briga de rolar pela calçada. Tentaram me expulsar do ponto, mas não rolou: a EPTC entendeu que o passageiro tem direito de escolher o taxista que vai lhe atender, seja pelo telefone fixo, seja escolhendo no ponto, seja por celular… enfim. De lá para cá, muita coisa mudou. O próprio celular ficou mais inteligente, tornou-se smartphone.

Quando surgiram os aplicativos para chamada de táxi, o representante da Easy Táxi veio a Porto Alegre conversar comigo. Ele mesmo instalou o app no meu aparelho. Feito isso, pediu que uma funcionária da Easy, desde São Paulo, mandasse uma corrida para mim como forma de me convencer que a coisa funcionava. Saí daquela conversa como o primeiro taxista gaúcho parceiro do aplicativo. Meus colegas, desconfiados, apenas coçavam a cabeça. De lá para cá, muita coisa mudou. Apesar da gritaria dos contrariados, os aplicativos se estabeleceram.

No momento em que digito este texto, fevereiro de 2016, os taxistas de Porto Alegre estão preocupados com a concorrência do Uber, o aplicativo de “carona” colaborativa. Acontece que neste mesmo momento, a empresa Uber, nos Estados Unidos, está preocupada com o app concorrente Lift e seu bigode rosa, que por sua vez está de olho no SideCar, que oferece “caronas” mais descoladas, e isso é só o começo - a Capital gaúcha já estuda um sistema de aluguel de veículos elétricos aos moldes do BikePoa. O mundo está mudando numa velocidade espantosa (desculpem o clichê), o taxista que não perceber isso corre o risco de ficar à margem do mercado.

Os “colegas” taxistas que agridem motoristas do Uber prestam um grande favor à empresa americana - é a mídia mais eficiente e barata para divulgá-los. Além de colocá-los como os pobres injustiçados defensores da mobilidade urbana, detona uma verdadeira caça às bruxas entre os taxistas, que, aos olhos da população, posam como broncos selvagens e antiquados. Quando o motorista do Uber foi agredido naquele episódio lamentável em que todo mundo acabou no Palácio da Polícia, pouca gente perguntou por que o representante da empresa Uber em Porto Alegre chegou ao distrito em um… táxi. Deixa pra lá.

Não acredito que o táxi vá acabar - em plena Nova York, ainda é possível alugar uma carruagem -, mas estou atento às mudanças. Mesmo depois de 30 anos manuseando um taxímetro, não me sinto velho demais para novos desafios. Pretendo acompanhar as tendências. Meus clientes, por exemplo, não me verão mais dirigindo de bermudas, nem com os vidros abertos para amenizar o calor. Meus clientes podem pagar a corrida (mais livro autografado) com cartão de crédito/débito, desfrutam de um carro espaçoso, contam com gps, acesso à internet e a um papo amigo. Tudo sem acrescentar um centavo ao valor que consta no taxímetro. Gorjetas são bem vindas.

Acho que este é o futuro do táxi. Tornar-se um negócio mais moderno, proporcionar uma experiência agradável ao usuário a ponto de fazê-lo esquecer as outras opções - Uber, Lift, SideCar, elétricos de aluguel, carros autônomos, o que seja. O taxista precisa se puxar, não porque a prefeitura está cobrando, mas por uma questão de sobrevivência, porque o MUNDO está cobrando. É hora de deixar de mimimi, de olhar para a frente, pois é lá que o melhor está nos esperando. E é pra lá que eu vou.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Distantes epifanias

Duvido que algum taxista lembre de uma corrida que fez há vinte anos. Poucas lembranças sobrevivem a tanto tempo - quanto mais nesse opaco amontoado de recordações no qual se transformou minha memória. Não vou dizer que lembro em detalhes daquela corrida, mas recordo bem do clima, de uma certa atmosfera, digamos, pesada, contemplativa - talvez inevitável quando se está na presença de alguém que vê a sombra da morte aproximando-se. Tanto eu, taxista, quanto meu passageiro sabíamos que aquela poderia ser a última corrida de táxi de tantas que tínhamos feito naqueles meses. Muitas idas para o hospital. Ele soropositivo, eu seu fã.

Portadores do vírus HIV tinham um fim de vida difícil nos idos de 1996. O coquetel ainda estava por vir, o tratamento ainda incluía nefastas sessões de quimioterapia, pacientes adquiriam pouco a pouco um emagrecimento excessivo, uma palidez cadavérica. Impossível não notá-los circulando (quando tinham coragem de sair à rua). Meu passageiro parecia não se incomodar - pelo menos, tentava não demonstrar-se incomodado com as inevitáveis avaliações de canto-de-olho. Lembro perfeitamente de vê-lo atravessando a Getúlio Vargas, altivo, esguio, a bandana na cabeça, quase flanando em direção ao ponto de táxi. Aos olhos dos meus colegas, o homem era um condenado; de minha parte, torcia para que escolhesse meu táxi (que estava no meio da fila) como fazia desde que descobriu o improvável gosto pela literatura deste taxista.

Esta última corrida que fez comigo foi diferente. Não fomos direto para o hospital, como de costume. Avisado por mim que alguns outdoors divulgavam pela cidade o lançamento do seu livro, mostrou-se curioso, pediu que eu o levasse até um desses anúncios. Lembro que estacionei o táxi na Felipe de Oliveira, ao lado do ginásio da brigada. Ele ainda não era meu escritor preferido (eu costumava ler best-sellers americanos), talvez tenha se tornado naquele momento. Lembro bem que não sentiu-se lisonjeado com o anúncio, que lamentou a estratégia oportunista de divulgar um autor à beira da morte. Só faltou colocarem ao lado do seu nome, entre parênteses (aquele que está morrendo de aids). Ou talvez não fosse nada disso, talvez fosse uma avaliação um tanto severa de quem não se importava com mais nada - e ele não parecia se importar. Das poucas coisas que lembro daquela corrida, ficou a sensação de uma certa acidez nos comentários, uma revolta por trás da generosidade. Meu ilustre passageiro estava ainda mais diferente do que sempre fora.

Vinte anos depois daquela corrida, estou relendo Pequenas Epifanias, livro que contém uma carinhosa dedicatória assinada por Márcia Abreu, de quem ganhei o livro, na qual me agradece por ter “compartilhado um pouco daqueles tempos difíceis” com seu irmão Caio Fernando Abreu. O inesquecível Caio F.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Cá entre nós

Recado aos meus colegas taxistas, que estão trabalhando em Porto Alegre neste momento com o ar condicionado desligado:
Não reclamem do Uber.

Recado aos meus colegas taxistas que estão trabalhando nesse momento em Porto Alegre e que ainda não aceitam pagamento com cartão porque vão perder zero-vírgula-não-sei-quanto por cento por corrida:
Não reclamem do Uber.

Recado aos meus colegas taxistas que estão trabalhando nesse momento em Porto Alegre, vestindo aquela bermuda velha e encardida, que suas mulheres já tentaram colocar para doação, mas que vocês teimam em continuar usando:
Não reclamem do Uber.

Você, colega taxista, que está trabalhando nesse momento em Porto Alegre, ruminando ofensas à prefeitura por ter que instalar um taxímetro que lhe obrigará a pagar imposto sobre sua renda real:
Não reclame de políticos corruptos.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Sigam-me os bons!!

Matéria na ZH sobre meu projeto no Instagram. Fotos da cidade de Porto Alegre feitas pelo retrovisor do táxi. Transformar o cotidiano em arte.
CLIQUE AQUI
Sigam-me no Insta!
https://www.instagram.com/taxitramas/

terça-feira, 20 de outubro de 2015

TAXITRAMAS VOL3

Lançamento 22 de outubro
entre 18:00 e 20:00HS
CarHouse-Toyota Zona Sul

Este livro contém cenas impróprias para todas as cidades. Histórias baseadas em corridas reais, que revelam tudo o que rola entre as quatro portas de um táxi: casais discutindo, bêbados discursando, travestis se montando, freiras aborrecidas, vidas em jogo, paixões eclodindo, perseguições desastradas, amantes patéticos, mulheres parindo, jovens conectados, idosos esquecidos... Fragmentos da vida alheia, rápidos, ilustrativos, capturados na velocidade de uma corrida de táxi.

domingo, 28 de junho de 2015

A mais longa das corridas

Em meados de 2003, um passageiro embarcou em meu táxi e, sem que eu me desse conta, mudou minha vida. Cyro Martins Filho era o então editor do jornal Diário Gaúcho. Ele sabia que eu lia muito, que gostava de literatura. Pois nessa corrida, há 12 anos atrás, ele me sugeriu que eu escrevesse as histórias que rolavam no meu táxi. Nascia ali o TAXITRAMAS. Passei a assinar uma coluna semanal no DG, o jornal da maioria.

Desde então, por 12 anos a fio, o Diário Gaúcho trouxe em sua última página da segunda-feira uma história envolvendo o cotidiano dos taxistas. Foram centenas de textos onde eu procurei relatar as agruras, as alegrias, a paixão, a força desta categoria que carrega o mundo em seus carros de praça.

Mas, para mim, esta longa corrida literária termina aqui. Creio que honrei o espaço privilegiado que o DG me reservou esse tempo todo. Só tenho a agradecer. Como disse no começo, esta coluna de jornal acabou mudando minha vida. Mudando para melhor. Vou me dedicar agora ao próximo livro, à série de TV que finalmente vai sair do papel... novos projetos.

É hora de dar lugar ao novo, de ouvir o que outros têm a dizer. Outro taxista, quem sabe? Quem sabe as histórias que contei aqui não inspirem outro colega a escrever as suas. Assunto é o que não falta:

Nesse momento, em um táxi, um casal está discutindo, um idoso está ruminando, uma criança está sendo consolada, um coração está se partindo, um torcedor está roendo as unhas, um namoro está começando. Em um táxi, nesse momento, uma mulher pode estar parindo, um cachorro vomitando no estofamento, um batuqueiro levando o despacho. Jovens bêbados, soldados fardados, mulheres fatigadas, travestis produzidos.

Nesse momento, em algum táxi, um político está discursando, um doente desabafando, uma amante recebendo flores, um casamento acabando, um crente pregando, um assaltante está puxando sua arma…

Deus há de estar em todos os táxis, nesse momento.

domingo, 24 de maio de 2015

A última corrida

           O taxista tinha trabalhado bem. Era tarde da noite, o movimento havia caído e ele decidiu  que era hora de recolher. Ia rodando pela avenida, luminoso desligado, em direção à sua casa quando uma mulher lhe fez sinal. Ele, então, resolveu fazer uma corrida a mais. Um erro. Uma corrida além da última sempre vem acompanhada de problemas.
            A passageira acabou levando o taxista para uma parte pouco habitada de uma vila pobre da periferia. Encerrada a corrida, quando já manobrava para voltar para o asfalto, surgiu um garoto correndo sabe-se lá de onde. Ele chorava muito. Agarrado à porta do táxi, o menino implorou que o taxista acudisse sua mãe, que estava ferida. Mesmo contrafeito, o taxista não teve como negar o socorro.
            Em seguida, surgiu da escuridão o pai do menino trazendo a mulher no colo. Segundo o homem, ela tinha sido vítima de uma bala perdida. Estava baleada no peito e precisava ser levada com urgência a um hospital. O taxista, então, empreendeu uma desesperada corrida rumo ao Pronto-socorro.
            Alta velocidade, alerta ligado, mão na buzina. O menino chorava, no banco da frente, enquanto o homem, atrás, tentava estancar o sangue que brotava no peito da mulher. A vítima, que no começo urrava de dor, aos poucos foi silenciando. Logo, ouvia-se só um gemido e depois nem isso. Um péssimo sinal.  
            Em uma rápida parada para cruzar um corredor de Ônibus, o homem abriu a porta de trás do táxi e saiu correndo, deixando o taxista com um menino assustado e uma mulher inconsciente dentro do carro. Seguindo aos apelos do garoto, o taxista acabou tocando, assim mesmo, para o hospital.
            A mulher chegou morta ao Pronto-socorro. Mais tarde, na delegacia, o menino confessou que tinha sido o próprio pai o autor do disparo, por isso havia fugido. Depois de prestar os devidos esclarecimentos, o taxista foi liberado. Chegou em casa arrasado, com o dia já amanhecendo.
            Ficou a lição: jamais fazer uma corrida além da última.

domingo, 17 de maio de 2015

O brinco perdido

Mesmo em silêncio, no banco traseiro do táxi, a passageira dava pinta de que precisava falar - o esfregar das mãos, o olhar perdido. Bastou em perguntar se estava tudo bem e a moça desatou a falar.

Ela tinha participado de uma balada dois dias atrás. Bebidas, som alto e alguma droga. Em meio à loucura, tinha conhecido um rapaz. Nada de mais, apenas mais um entre os tantos caras que lhe xavecaram. Mas eles acabaram em um “canto mais escuro da casa” e o clima esquentou.

Beijos pra cá e pra lá, puxa daqui, esfrega dali, braços, pernas, o cara acabou engolindo o brinco da moça!

Segundo minha passageira, era um brinco de ouro, caro. Depois de passar o resto da festa enfiando o dedo na boca do cara para que ele vomitasse a joia, ela acabou desistindo. Antes de partir, o rapaz pediu o contato dela, caso recuperasse o brinco. Ela relutou, mas acabou ditando o numero do celular, mesmo porque ele não tinha caneta para anotar.

Passado dois dias ele havia ligado. Agora ela estava no meu táxi, aproveitando o horário de almoço, para ir até o endereço que o rapaz tinha lhe passado. Estava apreensiva, nem sabia se queria o brinco de volta, tinha nojo só de pensar por onde ele tinha passado.

O endereço era um café. A moça pediu que eu aguardasse. Ela voltou em seguida com um ramalhete de flores e uma pequena caixinha nas mãos. Parecia confusa. Enquanto voltávamos, ela confessou que o rapaz parecia interessante. Era o dono do tal café. Depois de se desmanchar em desculpas, tinha lhe entregado as flores e a caixinha, que ela apenas pegou e saiu correndo, encabulada.

Confessou que estava encantada com a delicadeza do rapaz, feliz pelas flores, mas não sabia se abria a caixinha. Tinha nojo. Estacionei o táxi e abri para ela. Continha dois lindos brincos de ouro, brilhantes, novinhos em folha.

Ela pediu que eu manobrasse o táxi e retornasse ao café. Algo me diz que aquele será o começo de uma história de amor.

domingo, 10 de maio de 2015

O taxista perfeito

Existe uma fábula sobre um homem que passou a vida à procura da mulher perfeita para casar. Como já estava muito idoso e estava ainda solteiro, um amigo perguntou se ele não tinha achado a mulher perfeita. O velho respondeu que sim, havia encontrado a mulher perfeita, mas não casou-se porque ela procurava pelo homem perfeito.

Meu colega Portugal é um taxista exemplar. Seu táxi é o mais bem cuidado do ponto, vive batendo os tapetes, passando uma flanela na lataria, gasolina só aditivada, oficina só autorizada, tudo no lugar certo. Veste-se de forma impecável, roupa alinhada, perfume, gel no cabelo. Portugal é pura educação, não comete infrações de trânsito, não palita os dentes, não arrota em público, não fala palavrão. O taxista perfeito.

Acontece que Portugal está passando por um momento difícil. Seu casamento, depois de muitos anos, chegou ao fim. Inconformado, o velho taxista busca conforto no convívio com os colegas. Procura por ombros amigos, ouvidos que ouçam as explicações que ele tem para o seu revés matrimonial.

E as explicações são muitas, pois Portugal não merecia ter sido abandonado. Ele foi um marido atento, trabalhador, romântico, Portugal foi o marido perfeito. Segundo nos conta entre uma corrida e outra, Portugal foi atencioso, bom pai, bom amante, pagava as contas. Ele vem nos contando tudo em detalhes, todos os fatos... A sua versão dos fatos, claro.

O problema é que nosso colega começa a falar mal da ex-mulher e não para mais. Ele começa a falar bem dele mesmo e não para mais. Você faz uma corrida, duas, três, volta ao ponto e lá está o Portugal falando de como foi injustiçado pela ingrata. Aos poucos, o taxista perfeito vai se revelando um perfeito chato. Ao que parece, a mulher teve seus motivos para cair fora.

Portugal já é madurão, terceira idade, mas estamos torcendo que arranje logo uma nova mulher, e que ela seja perfeita. Para o bem de nossos ouvidos cansados.

domingo, 3 de maio de 2015

Sexo na cabeça

Foi tudo muito rápido. Escrevendo, agora, parece que durou uma eternidade. Quando vi, meu passageiro já estava no ar, seguro pelo colarinho, a ponto de ser demolido.

Meu passageiro era um homem comum. Um funcionário público normal, que pegava táxi eventualmente, quando estava atrasado. Pagava a corrida e ia embora. Nada que chamasse a atenção. Tudo mudou quando foi diagnosticado com câncer no cérebro.

Ele foi submetido a uma cirurgia para retirada do tumor. Ficou entre a vida e a morte. Depois de uma penosa recuperação, os médicos deram-no como curado. Ficaram, no entanto, severas sequelas. A mais aparente, a coordenação motora, a necessidade de uso de cadeira de rodas.

Uma outra consequência da doença, para qual os médicos ainda não acharam explicação, é um aumento extraordinário da libido, do desejo sexual. O homem tornou-se um tarado incontrolável, a ponto de praticamente impedir seu convívio social. Ele simplesmente não pode ver uma mulher. As corridas com ele são um inferno.

Estávamos parado no sinal, o passageiro ao meu lado, a cadeira de rodas no porta-malas do táxi, quando uma linda mulher cruzou pela faixa de segurança. Colocando a cabeça para fora da janela, batendo com a mão na lataria do carro, meu passageiro começou a babar e dizer obscenidades para a moça. Tudo não passaria de uma cena constrangedora não fosse o fato de a mulher estar acompanhada por um brutamontes lutador de vale-tudo.

Mesmo enquanto estava sendo arrancado do táxi pela garganta, meu passageiro não parava de olhar para a moça, babar e dizer asneiras. Depois de mantê-lo no ar por alguns instantes, o grandalhão resolveu largá-lo, para que apanhasse em pé. Foi quando viu que se tratava de um deficiente físico. A cena congestionou o trânsito da Oswaldo Aranha. Maior confusão!

Sei que o caso desse passageiro é um mistério para a ciência, mas, dane-se: eu é que não transporto mais em meu táxi o tarado da cadeira de rodas.

domingo, 26 de abril de 2015

O velhinho falante

O velhinho embarcou falando mal de outros taxista que não queriam levá-lo. Também estava atrapalhado com o guarda-chuva, que teimava em não parar fechado. Parecia uma metralhadora de tanto que falava, mandou ir tocando em frente enquanto espinafrava os taxistas e o maldito guarda-chuva. A primeira impressão do meu passageiro foi péssima, mas isso logo mudou.

Já com o guarda-chuva domado, o vovô revelou sua idade: 94 anos. Puxou sua carteira da marinha e mostrou-me orgulhoso a data de nascimento. Disse que viajou o mundo, morou na “Urópa” por longos anos. Não soube dizer o país: “lá… na capital”. Meu falante cliente contou que é capaz de entrar com um navio em qualquer porto do mundo. Conhece todos. Mostrei-me interessado e ele não parou mais de falar.

Teve dois filhos na “Urópa”. Costumava mandar dinheiro para os “garotos”, até que eles informaram ao pai que não precisava mais. Só então, teria se dado conta que seus filhos já eram pais, avós, que estavam velhos. Desde então, não tinha muito o que fazer com sua aposentadoria de 48 mil por mês! O velhinho parecia misturar ficção e realidade. Tudo bem, adoro isso.

Mostrou o relógio de ouro no pulso, pelo qual teria pago “uma banana”. Contou que tem 14 pares de sapatos comprados ao redor do mundo. Garantiu que, quando coloca seu terno branco com sapatos vermelhos, chegam a pará-lo na rua para bater foto. Disse que deu um carro para sua namorada, mas ela, analfabeta, não estava conseguindo tirar a carteira. E dê-lhe falar!

No final da corrida, tirou um maço enorme de notas de R$50 do bolso. Não economizou na gorjeta. Com a ingenuidade típica do século passado, meu idoso passageiro me passou seu endereço completo e convidou-me a visitá-lo para continuarmos o papo. Perguntou onde eu morava: Partenon. como não lhe dei o endereço, despediu-se avisando apenas que me fará uma visita quando for para os lados do Partenon. Combinado.

Desceu do táxi e partiu brigando com o guarda-chuva.

domingo, 19 de abril de 2015

Paraíba

Parei no meio da manhã para esticar as pernas e forrar o estômago. Um boteco no Bairro Azenha, fácil de estacionar, lugar frequentado por taxistas como eu. O atendente, com um guardanapo no ombro, me espicha o queixo. Uma empada e uma taça com leite, por favor.

Sentei na mesa com o Paraíba, um taxista manjado, sessentão, conhecido na praça. Da antiga, dirige com o braço esquerdo pendendo para o lado de fora do táxi. Ele quis puxar a conversa de sempre, do trânsito, do preço do combustível e tal, mas alguma coisa me dizia que ele tinha uma história para contar - afinal, como um paraíba acaba virando taxista em Porto Alegre?

-- Aqui nesse boteco servem o melhor pastel do mundo, não se encontra nada parecido na minha terra - argumenta meu colega.

Depois que o atendente trouxe meu pedido, Paraíba começou a contar sua saga. Na verdade, uma fuga. Foi enxotado a bala do nordeste. Ele era um garoto que trabalhava em uma fazenda, um simples peão. Por mais improvável que fosse, a filha (única) do fazendeiro acabou se engraçando com ele. Namoraram escondido. Ela engravidou.

O pai da moça jurou-o de morte. A bala comeu, ele conseguiu escapar, mesmo com um tiro no quadril. Embrenhou-se no mato, correu o quanto pode, sem nunca olhar para trás. Acabou sendo ajudado por um caminhoneiro que vinha para o Sul. Parou em Porto Alegre onde, por algum tempo, comeu o pão que o diabo amassou. Até virar taxista.

Quase me arrependi de ter pedido a empada, o pastel daquele boteco da Azenha parece mesmo ser o do mundo: recheado com metade de um ovo e muito guisado.

Paraíba contou que nunca pensou em sequer passear pelo nordeste. Porto Alegre lhe acolheu como a um filho. Venceu um câncer, duas pontes de safena e um pino no joelho. E diz que ainda carrega no corpo a bala que o fazendeiro lhe enfiou no couro.

-- Se o chumbo caminha mesmo pelo corpo, já deve estar lá pelo garrão.

Terminado o papo, cada um em seu táxi, cada um por si. Na próxima, vou de pastel.

domingo, 12 de abril de 2015

Destino

Já contei várias histórias envolvendo corridas para aeroportos. Lembro da corrida que o Suquinho fez para um estrangeiro, ele largou o homem na porta do terminal e esqueceu de retirar as bagagens. Foi-se com as malas do gringo. O mesmo Suquinho, que é uma lesma no trânsito, acabou fazendo uma passageira perder o voo. Ela ligou para o ponto reclamando do taxista. Pouco depois, chegava a notícia da queda do avião em Congonhas, o voo que a passageira do Suquinho perdeu.

Teve também o caso do meu colega Carneirinho, que entrou dentro do pátio do aeroporto, para largar um piloto na área dos hangares. Ao tentar achar a saída, acabou parando na pista principal, quase atropelado por um Boeing. Ou, ainda, o episódio de um aviador que tinha uma amante em Caxias. Ao chegar à cidade, pegou um táxi para levá-lo à casa da namorada. O que ele não contava era com a coincidência de o taxista ser justo o marido traído.

Tem também o caso de um paulista que estava preso em meu táxi em um congestionamento monstro, prestes a perder o voo, e pediu meu telefone. Ele queria fazer uma ligação para o aeroporto alertando que havia uma bomba a bordo, para que adiassem a partida. Com o número do meu celular!

Depois do caso do copiloto que trancou-se na cabine  e jogou o avião contra o solo, muitos andam com o pé atrás. Mas um passageiro que eu levava hoje para o aeroporto me contou uma história que prova que do destino ninguém foge.

O homem contou que estava indo para Colatina, no Espírito Santo. Pegou o trem no Centro de Porto Alegre, o aeromóvel até o aeroporto Salgado Filho, embarcou no avião que o levou até o Rio de Janeiro, pegou outro voo até Vitória no Espírito Santo. De lá, pegou um ônibus até a rodoviária de Vitória e outro ônibus até Colatina. Depois de toda essa epopéia, resolveu pegar um táxi, mesmo morando a poucas quadras. Na primeira esquina o táxi foi abalroado por um caminhão que o deixou em coma por três dias.

Do destino, ninguém foge.

domingo, 5 de abril de 2015

Mãe

Uma garota me fez sinal e eu parei. Ela chamava atenção pela quantidade de tatuagens. Apesar de trazer uma criança no colo, estava fumando. Ao embarcar no táxi, perguntou se poderia continuar com o cigarro. Óbvio que não.

Destino: um shopping center. Rodadas algumas quadras, a garota pegou o smartphone. Como a criança estava agitada em seu colo, ela largou-a no banco. Solta. Era um bebê, não devia ter nem um ano de idade. Eu pedi que ela segurasse o bebê no colo. Ela obedeceu a contragosto.

Mais a adiante, a garota pediu que eu ligasse o rádio. Queria uma estação especifica, meteu-se entre os bancos para sintonizar. Só então notei que tinha largado o bebê novamente. Pedi que segurasse a criança, ela pediu que aumentasse o volume. Funk.

Chegando ao shopping, ela ligou para alguém, que viria pagar a corrida. Enquanto esperava, desceu do carro para fumar, deixando o bebê no táxi. Como a pessoa estava demorando, ela me informou rapidamente que ia buscar o dinheiro. Apenas deu o nome da loja onde trabalhava seu pai e partiu em disparada, deixando o bebê aos meus cuidados.

A situação era a seguinte: eu estava estacionado em um local proibido, alerta ligado, com um bebê esperneando no banco traseiro, esperando por uma louca sem noção que talvez nem lembrasse onde tinha deixado o táxi com seu filho. Por sorte apareceram dois policiais a cavalo. Pedi socorro.

Por algum motivo, a criança se acalmou no meu colo. Enquanto eu relatava a situação aos policiais, o bebê brincava com meus óculos. Antes que partissem à sua procura, a garota apareceu acompanhada de um homem mais velho. Vinham discutindo.

Resumo da ópera: o homem, pai da garota, acusava a filha de ser desequilibrada, de ter roubado a criança da avó, que tinha a guarda da neta. A garota, à beira de um surto, acusava o pai de tê-la estuprada, de ser o pai da própria neta. Uma loucura!

Todos para a delegacia, perdi a tarde, a corrida, e o que me restava de fé no ser humano.

domingo, 29 de março de 2015

O pênis

A passageira embarcou em meu táxi distraída, falando ao celular. Deu o destino da corrida e continuou ao telefone. Mais adiante, encerrada a ligação, ela bateu de leve no meu ombro e perguntou se era meu aquilo que estava sobre o banco traseiro. Eu estava dirigindo, não tinha como olhar, perguntei o que havia sobre o banco. Ela respondeu embaraçada:

-- Um… Hã… Pênis.

-- Um tênis?

-- Não, senhor, um pênis cor-de-rosa!

Tratava-se de um pênis de silicone, desses que se compra em sex shop. Eu não tinha a menor ideia de como aquilo tinha parado no banco do meu táxi, mas foi impossível evitar o embaraço. A passageira pagou a corrida com cara de nojo, como seu eu fosse um depravado, e se foi, não ousou tocar no pênis.

Peguei o objeto com o pano do carro para análise. Parecia limpo, pelo menos. Na verdade, tinha até uma etiqueta com o preço, parecia sem uso. Admirei por um momento a peça: a forma, o tamanho, o acabamento realístico. Não havia como negar a qualidade da obra. Passado esse instante de contemplação artística, joguei o negócio no porta-luvas e segui com a vida.

Mais tarde, uma mulher me ligou dizendo que tinha perdido um objeto seu, achava que tinha ficado no meu táxi. Ela tinha requisitado a corrida pelo aplicativo, tinha o número do meu telefone registrado no histórico. Ficou aliviada quando falei que tinha encontrado o “produto”. Anotei seu endereço, liguei o taxímetro e fui até lá.

Era um sobrado antigo na Cidade Baixa, desci do táxi e toquei a campainha. Foram momentos de apreensão: não tinha com o que enrolar o objeto, fiquei ali, na calçada com o pênis rosa na mão, torcendo para que ninguém passasse. A mulher  abriu a porta. Uma morena alta, lembrei da corrida dela assim que a vi.

Ela me tratou com a naturalidade de quem recebe uma pizza. Pegou seu pênis e pagou a corrida com uma boa gorjeta. Nada mais. Brindou-me com um sorriso sincero e fechou a porta.

Restou minha boca aberta na calçada vazia da Cidade Baixa.

domingo, 22 de março de 2015

Cega e surda

Uma velhinha fez sinal para meu táxi e eu parei. Ela estava acompanhada de outra senhora, tão velha quanto ela. Beiravam, sei lá, uma centena de anos. Cada uma!

Uma das idosas pediu para embarcar na frente. Enquanto esta embarcava, a outra lhe orientava, ajudava a encontrar o banco. A ajuda não era bem-vinda, minha colega de banco dianteiro reclamava que a outra lhe tratava como uma inútil. Mas a outra não lhe dava ouvidos: “cuidado com a cabeça”.

Depois da dificuldade em colocar o cinto, entendi que a velhinha da frente não enxergava quase nada, mas tinha dificuldade em admitir esta limitação, por isso não aceitava muito bem que a ajudassem a fazer as coisas. Tudo bem. Vencido o transtorno com o cinto, partimos.

Quando entrei na rua Santana, a velhinha do banco de trás protestou. Eu expliquei que estava seguindo a orientação da senhora da frente, que tinha mandado entrar ali. A outra, aos berros, como se o banco traseiro ficasse muito distante, explicou que tínhamos que seguir reto. Criou-se a confusão:

-- Cremilda, por que mandaste entrar na Santana? Temos que ir no INSS primeiro, pegar as receitas! Os teus remédios pras juntas, Cremilda!

Parei o táxi enquanto as duas discutiam. Uma queria ir pra casa, a outra insistia em ir pegar as tais receitas. Quando finalmente a das receitas ganhou, perguntei onde ficava o INSS. Minha colega quase cega mandou perguntar para a idosa de trás. Mas a passageira do banco traseiro seguia discutindo, não ligava para minha pergunta. Foi quando a outra me avisou.

-- Tem que gritar. Ela é surda.

O resto da corrida foi aos berros com a idosa do banco traseiro, que era quem tinha o endereço do posto do INSS, e que tinha dificuldade em aceitar a deficiência auditiva - ficava braba quando via que eu estava gritando. A colega da frente, que era quase cega mas bem-humorada, apenas achava graça.

No final, quando agradeci a gorjeta, a passageira tascou:

-- Não precisa gritar, a surda é a outra.

domingo, 15 de março de 2015

Falta de ar!

O homem estava em meio a uma crise violenta de asma. Em uma rua de pouco movimento, tentava em vão conseguir um táxi. Sentiu suas forças acabando, as pernas amolecendo. Acabou sentado no cordão da calçada. Agora mesmo é que nenhum táxi vai parar para mim, pensou. Mas, como por milagre, um taxista atendeu aos seus sinais.

Com o que lhe restava de forças, o homem se arrastou para dentro do táxi. Tentou falar que precisava ir para o Pronto-socorro, mas nem as palavras conseguia pronunciar. O taxista, por sorte, entendeu. Pronto-socorro. Finalmente, a caminho do hospital.

Foi quando o taxista resolveu “ajudar”.

O taxista perguntou ao passageiro se ele queria ficar bom daquela asma horrorosa. Se queria se curar definitivamente. Disse que tinha a solução para aquilo, disse que conhecia um lugar onde acabariam com o seu problema de saúde. O homem não conseguia falar, não conseguia mais nem pensar direito, sinalizou que o taxista o levasse logo aonde quer que fosse.

Quando o taxista estacionou em frente ao prédio enorme, com uma enorme cruz na fachada, o passageiro não entendeu direito. Uma igreja! O taxista explicou que era hora do culto dos enfermos - de dentro do prédio ouvia-se os gritos dos fieis. O homem, ateu, achou que aquilo  podia ser um sinal divino, talvez fosse hora de acreditar em Deus. Pagou a corrida e desceu.

Depois de ficar uns vinte minutos sentado no último banco do templo, tendo espasmos, as vias aéreas fechando, as extremidades ficando roxas sem que ninguém desse bola para ele, o homem resolveu voltar para a rua. Voltou a procurar um táxi.

O outro taxista, vendo que o passageiro estava morrendo, levou-o voando para o Hospital de Pronto Socorro, sequer cobrou a corrida, mais alguns minutos e não daria mais tempo.

Agora, toda vez que embarca em um táxi, o homem confere se o taxista ao volante não é o crente que tentou matá-lo e ainda cobrou por isso. Ele acredita que um dia encontrará o excomungado.

domingo, 8 de março de 2015

Donos da rua

Existe uma pequena rua no coração do bairro Bela Vista (um dos metros quadrados mais caros de Porto Alegre), uma rua sem saída, bem pequena, não mais de 50 metros, apenas dois prédios, um de cada lado desta pequena rua. Prédios de altíssimo padrão. Fui atender a uma solicitação de táxi pelo aplicativo para uma moradora desta pequena rua.

Chegando ao endereço, informei pelo celular minha chegada e tratei de estacionar o táxi em frente ao edifício. Minha passageira devolveu a mensagem “estou a caminho”. Tudo certo. Puxei o jornal e relaxei.

Enquanto conferia as notícias, notei um movimento em volta do táxi. Um homem com cara de curioso chegou perto da janela. Levantei os olhos, olhei pra ele como quem pergunta pois não? Ele levantou o queixo, franziu o cenho, como quem quer saber o que eu estava fazendo estacionado ali. Eu estava com o ar condicionado ligado, vidros fechados, apenas fiz um sinalzinho de positivo para o homem, achei que fosse o suficiente para que me deixasse em paz.

Não era.

O homem começou a bater boca, a cuspir umas ordens e abanar os braços. Não abaixei o som do rádio nem abri a janela do táxi. Não precisava ouvir o que ele dizia, saquei logo do que se tratava. Ele era porteiro do prédio, queria que eu lhe explicasse o que estava fazendo estacionado ali. Aquela era uma rua de apenas dois prédios, quase particular, quase exclusiva dos moradores.

Então saquei que o homem era o porteiro do prédio do outro lado da rua. Como viu que eu não lhe dava bola, ele foi até a portaria do edifício onde eu estava estacionado e chamou o outro porteiro. Mostrou meu táxi ao outro, explicou-lhe minha insubordinação, convocou o colega a vir tirar satisfações. Nesse exato momento minha passageira surgiu na porta do edifício.

Ao contrário dos dois porteiros, a moradora do prédio era pura simpatia. Brindou-me com um bom-dia tão doce e sincero que me fez esquecer de imediato os pobres que se acham donos da rua.

domingo, 1 de março de 2015

Pais e filhos

Em certas corridas, os papos simplesmente rolam. Pinta uma sintonia, sei lá, o táxi vira um confessionário. Eu que não sou muito de me abrir, quando vejo estou falando pelos cotovelos. Foi assim que me vi explicando para uma passageira meu lance com o feijão e arroz.
Meu pai, antes de começar a comer, mistura o arroz com o feijão. Cresci vendo-o fazer isso. Por consequência, eu fazia o mesmo: só dava a primeira garfada depois de tudo misturado. Até um dia em que, mais maduro, visitando a casa de um amigo, percebi que eles não misturavam os alimentos no prato, comiam tudo separado. E naquele dia, lembro bem daquele dia, percebi que meu pai poderia não ser um super-herói infalível. Foi a perda da inocência, uma ruptura, uma libertação. Eu percebi que poderia fazer diferente, seguir outros caminhos…
Depois de escutar esse monte de asneiras, essa teoria idiota do arroz e feijão, minha passageira resolveu contar sua história com seu pai.
Ela morava em uma cidade pequena do interior do estado. Todos se conheciam, o pai dela era o farmacêutico da cidade. Uma pessoa bastante respeitada. A mãe não trabalhava, cuidava da casa e dela, da filha pequena. Foi quando passou o circo pela cidade.
Minha passageira confessou que não tinha idade suficiente para compreender o que aconteceu exatamente, mas o fato é que a mãe dela, depois de levá-la várias vezes ao espetáculo, acabou abandonando a cidade com o circo. Apaixonou-se pelo palhaço, mais exatamente. E foi embora com ele.
O pai dela teria virado motivo de chacota. Todos apontavam para ele, riam do pobre farmacêutico. O homem que perdeu a mulher para um palhaço.
Assim como na minha história do arroz e feijão, minha passageira disse que lembra bem do dia em que seu pai a levou para dormir na casa da sua avó. Despediu-se dela com um beijo na testa e deu as costas. Foi encontrado no outro dia, enforcado em uma figueira. Segundo minha passageira, ele será sempre seu super-herói.