domingo, 18 de novembro de 2018

Tiozinho careca, gravata frouxa, parecendo aflito, embarca no táxi. Higienópolis.
- Que dia, taxista, que dia. Sabe quando não dá nada certo?
- Sei.
- Recolheram meu carro. Deixei em local proibido, pensei que não ia demorar no banco. Não vendi a soja semana passada, o dólar caiu, perdi uma grana preta, renegociando financiamento com o gerente, demorou, guincharam o carro.
- Putz.
- Logo hoje, dia fértil da minha mulher.
- Dia fértil.
- Ovulação, entende. Hoje é o dia! Estamos ‘trabalhando’ uma gravidez. Ela tá me esperando. Não dá pro senhor ir mais depressa?
- O trânsito está um horror.
- Não estou com cabeça, sabe, só problemas, mas vamos lá, hoje é o dia. A tabelinha não mente, ovulação, ciclo, hoje é o dia. Ela está me mandando zap, o quarto já está pronto, aquecido, o Jorge já preparou tudo.
- Jorge?
- É o guru da minha mulher, sabe, ela é muito espiritualizada, acredita nessas coisas, o Jorge trabalha esse lado místico da coisa, prepara o quarto, o ambiente, descarrego, abre-caminho, incenso e coisa e tal, sabe. Ele está lá com minha mulher, já preparou tudo. Taxista, a gente tem que tentar de tudo, entende, já não sou uma criança, minha mulher é bem mais nova, quer um filho.
- Sei. E esse Jorge, o guru, ele tem muita experiência, viajou pro Tibet, sei lá, é um velho sábio, por certo.
- Na verdade, não. Ele trabalha como personal trainer, massoterapeuta, mas faz filosofia à noite, ensino a distância, e estuda essas ciências ocultas todas, sabe, o cara manja.
- Personal trainer.
- Sim, minha mulher é toda geração saúde, sabe, o Jorge cuida do corpo dela, faz parte do nosso projeto ‘gravidez’. Será que subindo a Goethe não seria mais rápido? O jorge já foi embora, minha mulher tá ansiosa. O senhor sabe como são as mulheres…
- Sim, eu sei.

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Passar o dia na rua, como o taxista passa, é estar exposto ao risco, ao susto, a realidade boxeando, batendo na cara, mostrando as armas. Acabo de presenciar uma cena forte, a luta pela vida, a morte a menos de dois metros de mim, nua e crua. Eu, ao volante do táxi, trânsito parado, pista da esquerda da avenida Ipiranga, assistindo a tudo.
No gramado que margeia o Arroio Dilúvio, o quero-quero retesado, pescoço imóvel, bico apontado, foco total. Menos de um segundo, duas bicadas certeiras e a minhoca já estava catada, uma sacudida de bico e já era, a luta diária pela sobrevivência, matar ou morrer, não era o dia daquela minhoca.

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Eu vinha meio distraído pela 3° Perimetral quando um Disco Voador, sem o menor aviso, resolve pousar na frente do meu táxi. Não deu seta, pisca alerta, nada, simplesmente pousou aquela tremenda nave, trancando a pista. Placa de Marte. Só podia ser!
Tirei pro lado, saí de trás, consegui mudar de faixa. Ao passar pelo Disco Voador, adivinha: o Marciano lá, com os três olhos grudados no smartphone, a cabeça nas nuvens. Putz, que raiva!
Depois, se reclama, se buzina, é porque é taxista fiasquento, blá, blá, blá. Gente, vamo se antenar!!

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Noventa e dois anos, a neta do lado de fora, puxando pelos braços, pediu que eu ajudasse, que empurrasse de dentro do táxi. A acusação de assédio sexual não foi nada. Doeu mesmo foi a bengalada na mão.
- Pervertido!

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Largando uma corrida na porta de um grande hospital. Enquanto minha cliente desembarca, noto que um homem com camisola de paciente (aquelas abertas nas costas) vem caminhando em direção ao meu táxi. Ele está muito pálido (amarelo), segura um suporte de metal com uma bolsa de medicação pendurada, ligada ao seu braço (o que sobrou do seu braço, amputado abaixo do cotovelo). Pela janela, ele me pergunta se R$10 paga uma corrida até o prédio da Zero Hora (ele segura uma nota de 20 na mão).
- Bom, não exatamente, mas o senhor...
Nisso chegam correndo um guarda e um enfermeiro e seguram o homem pelo braço (o que restou inteiro). Forçam-no a voltar para o Interior do hospital, ele resiste, quer entrar no táxi, agarra-se à maçaneta, eles o impedem, pedem calma, o homem alega que vai apelar à imprensa, está indignado, mas acaba cedendo aos argumentos dos homens, aos poucos dá as costas para meu táxi (a bunda de fora) e começa a voltar, escoltado pelo segurança e pelo enfermeiro, que o ajudam com o suporte metálico.
O pequeno aglomerado de pessoas que assistia à cena abre passagem e eu parto rumo à próxima corrida. C' est la vie.
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Sabe você que pegou meu táxi hoje pela manhã, bem cedo, com cara amarrotada, voz gutural, dando a entender que teve uma noite péssima, em péssima companhia, bebida péssima, que perdeu seu tempo tentando fazer dar certo algo que, desde o início, estava na cara que não ia rolar? Sabe? Você que me confessou que não tem talento para escolher namorados, que investe nas pessoas erradas, que detesta amanhecer em um táxi admitindo suas cagadas, mas disse que é o que sempre acaba acontecendo? Lembra? Lembra de ter me convidado para acompanhá-lo em uma última dose, pra, quem sabe, esticar o papo em um "lugar sossegado", que, apesar de tudo, estava cheio de amor pra dar? Lembra de mim?
Pois é, sou aquele taxista. Desculpa o mau jeito, a resposta seca, a aparente falta de sensibilidade com os tetos alheios. É que eu também não tive uma noite das melhores e tudo o que eu queria àquela hora da manhã era fazer uma primeira corrida decente, receber pelo trabalho e dar continuidade ao meu dia, para que, quem sabe, as coisas também melhorassem pro meu lado.
Foi mal.
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- Eu não posso chegar atrasado! Descendo por dentro da vila não é mais rápido?
- É perigoso. O senhor quer morrer?
- Taxista, o senhor entregando meu corpo no meu trabalho antes das 9 tudo bem. Não posso é perder o emprego.
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Atendo o telefone do ponto. Do outro lado da linha, a voz de uma idosa:
- O taxista Argemiro está?
- Argemiro?
- Sim, o que trabalha em um Del Rey.
- Hã?
- Sabe o que é? Eu sofro da coluna, sabe, os táxis Fuscas são muito desconfortáveis.
- Fuscas.
- Pois é, o Del Rey do seu Argemiro é macio, não me maltrata o bico-de-papagaio.
- Entendo. É que o seu Argemiro não está trabalhando...
- Sem querer ofender. O senhor teria algum táxi para mandar que não seja Fusca? Eu preciso para domingo à tarde. Quero levar minha filhinha na matinê do Cine Baltimore.
- É que... bom... a senhora não quer ligar mais tarde? Aposto que o seu Argemiro terá prazer em atendê-la.
- Está bem. Diga a ele que a Isolda ligou.
- Pois não.
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Prazer em tempos de Facebook. Funciona assim:
Eu posto uma história aqui. Feito isso, coloco o celular (com o vibrador ligado) no bolso traseiro da minha calça. Então é só esperar os comentários.
Digamos que sou literalmente "tocado" pelo seu comentário (crítica ou elogio, tanto faz). É mais que uma massagem no ego. É físico - imagine eu, dirigindo meu táxi, sendo bolinando por sua observação!
Comenta aí. Me faz essa carícia.
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Rua Mariante, sinal fechado, chuva torrencial. Para ao lado do meu táxi um jeep do exército, pintura camuflada, machado preso à lataria, a capota de lona sendo castigada pelo aguaceiro. Um soldado levanta a sanefa de plástico do veículo militar e faz sinal para que eu abra a janela. Precisa de informação. Abro uma fresta.
- Taxista, a Liberdade, a Liberdade! - ele grita.
- A liberdade?
- A liberdade? Está próxima? - a urgência no olhar castigado pela chuva.
- A liberdade está distante, amigo!
- Não é aqui pra frente?
- Liberdade é uma utopia!
- O quê? Não entendi!
- Não existe liberdade no mundo moderno!
- A Liberdade, cara! Já passou? A rua, taxista, a rua!
- Procure dentro de você, amigo! A verdadeira liberdade está dentro de nós mesmos!
Nesse exato momento cai um raio num transformador de energia, o semáforo abre e o diálogo, que já estava difícil devido à tormenta, fica por aí. Uma pena. Gostaria de ter indicado uns livros de auto ajuda para aquele soldado. Ele parecia perdido.
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Casal de idosos saindo de uma clínica popular. O velho está mal. Muito magro, pálido, barba por fazer. Veste um sobretudo pesado que dificulta ainda mais seus movimentos já lentos. A velha o ajuda a embarcar e senta no banco de trás.
- Taxista, se o senhor puder ir rápido. Meu velho tem incontinência.
- Incontinência? Incontinência urinária?
- Sim. E a número 2 também.
- Número dois!
- Mas é só quando ele tosse.
O vovô, sentado na frente, parecia divertir-se, só admirava a paisagem.
- Ele é praticamente surdo.
- Mas ele está de fralda?
- Não admite usar fralda. É vaidoso.
- Teimoso, a senhora quer dizer.
Nunca o Jardim Humaitá foi tão longe. Meu táxi deu 140 na avenida Legalidade. Afinal, a corrida transcorreu sem tosse. Mesmo ao fazer força para desembarcar, meu bravo passageirinho segurou firme. Antes de partir amparado pela patrôa, brindou-me com um sorriso vitorioso e um aceno.
- Tenha um bom dia!
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Loira, jaqueta de couro, avenida João Pessoa, 15:00h. A passageira senta no banco traseiro e, me encarando pelo retrovisor, fala:
- Tio, seguinte: eu preciso ir até a Vila Tuca e depois voltar aqui.
- Pra...
- Eu vou buscar droga.
- Não.
Desceu sem comentários. Sincera, objetiva e sem tempo a perder. Não tivesse me chamado de tio, teria até lhe desejado sorte.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Tiozinho careca, gravata frouxa, parecendo aflito, embarca no táxi. Higienópolis.
- Que dia, taxista, que dia. Sabe quando não dá nada certo?
- Sei.
- Recolheram meu carro. Deixei em local proibido, pensei que não ia demorar no banco. Não vendi a soja semana passada, o dólar caiu, perdi uma grana preta, renegociando financiamento com o gerente, demorou, guincharam o carro.
- Putz.
- Logo hoje, dia fértil da minha mulher.
- Dia fértil.
- Ovulação, entende. Hoje é o dia! Estamos ‘trabalhando’ uma gravidez. Ela tá me esperando. Não dá pro senhor ir mais depressa?
- O trânsito está um horror.
- Não estou com cabeça, sabe, só problemas, mas vamos lá, hoje é o dia. A tabelinha não mente, ovulação, ciclo, hoje é o dia. Ela está me mandando zap, o quarto já está pronto, aquecido, o Jorge já preparou tudo.
- Jorge?
- É o guru da minha mulher, sabe, ela é muito espiritualizada, acredita nessas coisas, o Jorge trabalha esse lado místico da coisa, prepara o quarto, o ambiente, descarrego, abre-caminho, incenso e coisa e tal, sabe. Ele está lá com minha mulher, já preparou tudo. Taxista, a gente tem que tentar de tudo, entende, já não sou uma criança, minha mulher é bem mais nova, quer um filho.
- Sei. E esse Jorge, o guru, ele tem muita experiência, viajou pro Tibet, sei lá, é um velho sábio, por certo.
- Na verdade, não. Ele trabalha como personal trainer, massoterapeuta, mas faz filosofia à noite, ensino a distância, e estuda essas ciências ocultas todas, sabe, o cara manja.
- Personal trainer.
- Sim, minha mulher é toda geração saúde, sabe, o Jorge cuida do corpo dela, faz parte do nosso projeto ‘gravidez’. Será que subindo a Goethe não seria mais rápido? O jorge já foi embora, minha mulher tá ansiosa. O senhor sabe como são as mulheres…
- Sim, eu sei.


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Passar o dia na rua, como o taxista passa, é estar exposto ao risco, ao susto, a realidade boxeando, batendo na cara, mostrando as armas. Acabo de presenciar uma cena forte, a luta pela vida, a morte a menos de dois metros de mim, nua e crua. Eu, ao volante do táxi, trânsito parado, pista da esquerda da avenida Ipiranga, assistindo a tudo.
No gramado que margeia o Arroio Dilúvio, o quero-quero retesado, pescoço imóvel, bico apontado, foco total. Menos de um segundo, duas bicadas certeiras e a minhoca já estava catada, uma sacudida de bico e já era, a luta diária pela sobrevivência, matar ou morrer, não era o dia daquela minhoca.

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Nosso colega Carlinho ganhou um perfume. Malbec. Malbec pra cá, Malbec pra lá, cheira meu Malbec, botou Malbec até no estofamento do táxi. Depois de entrar por alguns segundos no táxi do Carlinho, a passageira saiu, furiosa, e embarcou no meu táxi, que era o segundo na fila. Ué!
- O que aconteceu?

- O seu colega é um louco! Surtou!, mandou eu descer, me botou a boca, só porque eu reclamei do cheiro de naftalina no táxi dele. Eu tenho rinite, moço, não posso com cheiro de naftalina!




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A experiência no meu táxi mostra que quanto mais baixo o passageiro, quanto mais curtas as pernas, mais para trás eles colocam o banco. É Freud.

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Eu vinha meio distraído pela 3° Perimetral quando um Disco Voador, sem o menor aviso, resolve pousar na frente do meu táxi. Não deu seta, pisca alerta, nada, simplesmente pousou aquela tremenda nave, trancando a pista. Placa de Marte. Só podia ser!
Tirei pro lado, saí de trás, consegui mudar de faixa. Ao passar pelo Disco Voador, adivinha: o Marciano lá, com os três olhos grudados no smartphone, a cabeça nas nuvens. Putz, que raiva!
Depois, se reclama, se buzina, é porque é taxista fiasquento, blá, blá, blá. Gente, vamo se antenar!!

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Noventa e dois anos, a neta do lado de fora, puxando pelos braços, pediu que eu ajudasse, que empurrasse de dentro do táxi. A acusação de assédio sexual não foi nada. Doeu mesmo foi a bengalada na mão.
- Pervertido!

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Gaúcho dos 4 costados, bigodão bem preto, palheiro na ponta dos dedo, chapéu quebrado na testa (de beijar santo em parede), poncho com as cores do Rio Grande, bombacha riscada, bota Garrão de Potro, e adaga cruzada nas costas. Desembarcou em frente a uma conhecida sauna gay. Segundo ele, é o proprietário do local.
- Negócio de família, tchê.

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Uma passageira comum, séria, comportamento padrão, roupa discreta, pretinho básico, cabelo preso, bibliotecária, burocrata ou coisa ainda mais sem graça, toda educação, toda timidez, embarcou silenciosa, bom dia, deu o destino em voz baixa, obrigada, sentou-se serena no canto do banco traseiro, pernas cruzadas,, pegou o smartphone, esqueci-me da moça, o trânsito fluindo, o rádio no volume mínimo, uma corrida em tudo monótona. Até que a mulher berrou a plenos pulmões, a voz aguda de navalha explodindo no interior do táxi:
- SUA VACA ARROMBADA DO CARALHO!!
Depois de um breve silêncio, um "desculpa" quase sussurrado, uma ajeitada nos óculos, no cabelo, uma longa respirada e a volta ao digitar do smartphone, no canto do banco, nem mais um pio pelo resto da corrida, toda silêncio, toda educação, postura executiva, Djavan no volume mínimo, tédio, batimentos cardíacos normais, serenidade, zen, paz, os primeiros Sabiás anunciando a primavera, pagamento em dinheiro, fique com o troco, o andar elegante, um doce balanço a caminho da repartição pública.

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Largando uma corrida na porta de um grande hospital. Enquanto minha cliente desembarca, noto que um homem com camisola de paciente (aquelas abertas nas costas) vem caminhando em direção ao meu táxi. Ele está muito pálido (amarelo), segura um suporte de metal com uma bolsa de medicação pendurada, ligada ao seu braço (o que sobrou do seu braço, amputado abaixo do cotovelo). Pela janela, ele me pergunta se R$10 paga uma corrida até o prédio da Zero Hora (ele segura uma nota de 20 na mão).
- Bom, não exatamente, mas o senhor...
Nisso chegam correndo um guarda e um enfermeiro e seguram o homem pelo braço (o que restou inteiro). Forçam-no a voltar para o Interior do hospital, ele resiste, quer entrar no táxi, agarra-se à maçaneta, eles o impedem, pedem calma, o homem alega que vai apelar à imprensa, está indignado, mas acaba cedendo aos argumentos dos homens, aos poucos dá as costas para meu táxi (a bunda de fora) e começa a voltar, escoltado pelo segurança e pelo enfermeiro, que o ajudam com o suporte metálico.
O pequeno aglomerado de pessoas que assistia à cena abre passagem e eu parto rumo à próxima corrida. C' est la vie.

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Sabe você que pegou meu táxi hoje pela manhã, bem cedo, com cara amarrotada, voz gutural, dando a entender que teve uma noite péssima, em péssima companhia, bebida péssima, que perdeu seu tempo tentando fazer dar certo algo que, desde o início, estava na cara que não ia rolar? Sabe? Você que me confessou que não tem talento para escolher namorados, que investe nas pessoas erradas, que detesta amanhecer em um táxi admitindo suas cagadas, mas disse que é o que sempre acaba acontecendo? Lembra? Lembra de ter me convidado para acompanhá-lo em uma última dose, pra, quem sabe, esticar o papo em um "lugar sossegado", que, apesar de tudo, estava cheio de amor pra dar? Lembra de mim?
Pois é, sou aquele taxista. Desculpa o mau jeito, a resposta seca, a aparente falta de sensibilidade com os tetos alheios. É que eu também não tive uma noite das melhores e tudo o que eu queria àquela hora da manhã era fazer uma primeira corrida decente, receber pelo trabalho e dar continuidade ao meu dia, para que, quem sabe, as coisas também melhorassem pro meu lado.
Foi mal.

domingo, 19 de agosto de 2018

Muito, muito magra, cabelo descolorido, usava pochete, camiseta do Grêmio, uma calça suja de barro nos joelhos e calçava chinelos de dedo. Levantou uma das mão para o meu táxi enquanto segurava um latão de Skol com a outra. A apresentação da cliente não me despertou o menor entusiasmo, mas, em tempos de vacas magras, tô abraçando o que vier.
A passageira (literalmente) não cheirava bem, embarcou gemendo, reclamando de uma dor muscular que a estava matando. Disse que tinha dormido 16 horas na mesma posição, e que o frio do Uruguai, Punta del este, de onde estava chegando, tinha piorado as coisas. Estava louca por um banho quente. Pediu que subisse uma rua do bairro Partenon famosa pelos conflitos de facções, por disputas de território - as pulgas atrás da minha orelha só aumentando.
No alto do morro, a mulher pediu que eu a deixasse na altura de um enorme carro preto estacionado. Tratava-se de um BMW Q1, caríssimo, mas todo amassado, vidros quebrados. Parecia que alguém tinha usado um taco de beisebol para descarregar sua raiva sobre o veículo. Antes que eu perguntasse sobre os estragos no carro, a mulher abriu a pochete e tirou uma máscara de dinheiro. Um monte de notas de 100 e 50 presas por um elástico! Além do monte que ela pegou, outros maços de dinheiro dentro da pochete. Calculei, por baixo, uns 50 mil.
A corrida deu R$7,50. A mulher desprendeu uma nota de cinquenta do maço e me passou, autorizando-me a cobrar R$8. Generosa. Como o latão vazio não coube na lixeirinha do táxi, ela amassou e jogou na calçada assim que desembarcou. Depois de analisar com evidente desgosto o carrão todo arrebentado, entrou em uma casa de muro altíssimo, com cacos de vidros e arame farpado no alto. Uma fortaleza em meio aos casebres humildes da quebrada.
fiquei curioso em saber mais sobre aquela passageira, mas depois de ver o estado do carro, a quantidade de dinheiro e a casa onde ela ia entrar, achei melhor não fazer muitas perguntas. Sabe cumé.
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Moro na lua
Peguei uma daquelas corridas que são bem raras hoje em dia: Praia do Lami, extremo sul da Capital! Na volta à civilização, mesmo tarde da noite, resolvi fazer um corta caminho pelo Cantagalo, cruzando Restinga, Lomba do Pinheiro, enfim, uma trilha pelos labirintos da zona rural de Porto Alegre - o que vale é economizar uns pilas. Foi numa destas estradinhas de terra, no meio do nada, em meio ao mais completo breu, que me deparei com um homem. Mesmo de longe, os faróis do táxi permitiam identificar a figura de um homem. Ele estava parado. Não caminhava. Em pé, estático, olhando para cima. Parecia vestir roupa social. Paletó.
Diminui a velocidade. Terceira marcha. Precisava de tempo para examinar a situação, certificar-me de que não se tratava de alguma armadilha. O homem não se mexia. Seria um boneco, colocado ali para assustar motoristas incautos? Puxei uma segunda, fui virando roda, dei luz alta.
Não havia casa alguma nas imediações, nem uma porteira de sítio, nem uma luz, iluminação pública nem pensar, o homem estava de paletó, numa estrada de chão batido, sem nenhum sinal de carro ou qualquer outro tipo de transporte. E estava parado, não parecia estar indo a lugar nenhum. Fui chegando perto do homem, me aproximando. Primeira marcha engatada, qualquer coisa eu acelero!
Nesse ponto, consegui identificar o sujeito:
- Senhor Sérgio? Sérgio Moro? - Perguntei, enquanto parava o táxi.
- Olá - Ele respondeu de forma casual, olhando-me por um instante e logo voltando a olhar para cima.
- Ãh, mas, Ãh, o que o senhor faz aqui, senhor Sérgio? - Eu fiquei confuso, precisava entender o que estava acontecendo, enquanto o homem parecia sereno.
- Estou olhando a lua.
- A lua? Aqui? Nesse fim de mundo? Como assim? Que lua?
- A lua de sangue! É um fenômeno que acontece quando...
- Sim, sim, eu sei, a lua na sombra da terra, mas... mas...
- Então. Estou tentando observar a coisa acontecer.
- Sim, mas esse lugar, o senhor, sei lá.
- Então, é bem chato mesmo, todo esse trabalho e as nuvens atrapalhando.
- Mas o senhor está a pé! Como o senhor veio parar aqui?
- Transporte por aplicativo. O motorista parceiro procurou no Waze: “melhor lugar para ver a lua”. A tecnologia me espanta, ela tem resposta para tudo.
- Mas seu Sérgio Moro, como o senhor pretende sair desse lugar? não tem sinal de internet aqui, posso lhe dar uma carona, se o senhor quiser.
- Obrigado, taxista, mas ainda não perdi as esperanças quanto à lua. Além disso, um amigo meu está vindo me buscar.
- Ok. Até mais, então.
Partí controlando pelo retrovisor o homem que, à medida que meu táxi se afastava, era consumido pela escuridão. Ainda me recuperava do encontro espetacular que acabara de acontecer quando deparo com outro evento quilômetros adiante. Uma moto caída e um homem se levantando do chão. Um acidente! Parei para socorrer o motoqueiro que se espanava tentando se livrar da terra na roupa. Parecia ter sido um belo tombo. Logo reconheci o motociclista:
- Neymar? Neymar Junior?
- Opa, beleza?
- Cara, tu caiu aí, está machucado?
- Não, não. É a minha moto, sabe, ela cai por qualquer coisa. Um ventinho lateral e ela saiu rolando.
- Mas o que tu fazes por aqui, no meio da noite, neste fim de mundo?
- Estou indo buscar um amigo, o Serginho, ele deve estar aí adiante.
- Sim, sim, ele está olhando a lua, Neymar.
Foi mesmo uma noite louca com essa lua de sangue me fazendo a cabeça.
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Meu coach mandou eu continuar focando em negócios com futuro garantido.
Táxi✓
Livro✓
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Peguei a ruivinha saindo de um supermercado. Cabelo de fogo, olhos cristalinos, boca bem desenhada, uma linda. Coloquei as compras no porta-malas e partimos. Ela passou a corrida toda falando de bruxaria. Rituais pagãos, empoderamento místico, alquimia, fontes de poder, alaúdes, música medieval e outras delícias. Uma bruxa moderna, minha cliente. Um amor de bruxinha.
Passado algum tempo, duas ou três corridas depois, ao fazer uma curva mais fechada, ouvi um barulho estranho. Alguma coisa solta no porta-malas do táxi. Ao descarregar as compras da ruivinha, acabou ficando para trás uma... vassoura.
Não creio em bruxas, mas, na dúvida, estou indo lá devolver o "equipamento".
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Há dez anos, ela andava no meu táxi de clínica em clínica, tentando desesperadamente uma gravidez tardia. Tentativas frustradas, tratamentos, reprodução assistida, promessa, simpatia, qualquer coisa. Obcecada. Este taxista por confidente. Resolveu tentar o milagre com um "médico famoso", no Centro do país.
Conseguiu.
Os gêmeos estão completando dez anos, lindos, mas o preço foi alto. Hoje as corridas são novamente de clínica em clínica, em busca de sanidade mental. Clínicas psiquiátricas, terapia. Minha passageira é uma das cento e tantas mulheres que denunciaram o "médico famoso" por abuso sexual.
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Depois de uma corrida sonolenta, pastosa, meu embriagado passageiro resolveu conversar. Com o táxi já parado, a porta aberta, uma perna pra fora, ele começou:
- Quanto eu devo, taxista?
- R$14.
- Eu faço manutenção predial, elétrica, hidráulica, sento azulejo, faço de tudo, trabalho mesmo, cara, não tem ruim, eu encaro, só apartamento bacana, gente do dinheiro, e quer saber, tenho raiva dessa gente, cara, tudo uns murrinha, mão de vaca, querem economizar na mão de obra, por isso que esse país tá desse jeito, taxista. Quanto eu devo?
- R$14,76
- Esse país tem tudo, cara, tu sabe disso, taxista, se furar o chão, aqui, embaixo do teu táxi, se furar sai água, no Japão não tem água, sabia que no Japão não tem água? Não tem nada lá, cara, japonês é foda, meu irmão, eles dão o jeito, mas aqui é essa roubalheira, todo mundo metendo a mão, taxista. Quanto eu te devo?
- R15,30
- O cara que inventou o carro movido a água, onde é que tá o cara que inventou o carro movido a água? é brasileiro, o cara, inventou o carro movido a água, onde ele tá agora? sumiram com o cara! tu não ouve mais falar no homem, deram um jeito, apagaram o cara, é uma vergonha, meu chapa, tinha que entrar um cara lá no congresso e matar todo mundo, acabar com essa rafoagem. Quanto deu a corrida, meu irmão?
- R$16,15
- Sabe o que é que tinha que ser? tinha que ser a monarquia, cara, um rei, pronto, um rei, entra lá e manda, resolve, um rei e o povo, esses caras estão tudo comprado, os banqueiros é que mandam, agora querem carro elétrico, carro elétrico, cara, imagina! na chuva, eletricidade e água não combinam, cara, vai ser gente morrendo eletrocutada a torto e a direitos, porque vai ter que ser 220volts, tá ligado, 110 não acende nem os faróis, eu mexo com elétrica, cara, eu sei. Quanto eu te devo?
- R$17.
- Toma aqui o dinheiro, 17, trocadinho. Sabe esse negócio de cremação, taxista? cremação, botar as cinzas numa urna.
- Não, não sei, nem quero saber de porra nenhuma de cremação. Vaza, meu, já era, cai fora.
- Isso é picaretagem, a cremação...
- Sai, sai, tchau, meu chapa (ligando o carro, engatando a primeira marcha), acabou a corrida, tenho que ir, já era.
- Mas.
- Deu, deu, deu, não tem mas, não quero saber, sai fora.
Deixei o cara agarrado em uma placa de trânsito explanando acerca da cremação. A paciência dura até desligar o taxímetro.
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Mulher grávida, a blusinha curta deixando o barrigão de fora. Ela embarca no táxi segurando uma Pizza Hut tamanho família - quentinha, o cheiro de calabresa inunda o carro. Motel Sevilha. Na portaria, ela informa seu nome é diz que o marido a espera no quarto seis. A recepcionista confirma pelo interfone. Antes de entrar em direção aos quartos, minha passageira ainda pergunta à porteira:
- Vocês tem Fanta uva no frigobar?
- Fanta uva, não.
- Tudo bem. Não se pode ter tudo.
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Corrida pra rodoviária
- Taxista, me vende as tuas meias.
- Minha meias?
- É, eu compro, quanto o senhor me faz o par?
- Sei lá, mas por que o senhor quer minhas meias?
- Eu saí com uma "percanta" ontem, o senhor sabe. Na hora de me vestir, troquei uma das meias. Só agora pela manhã, no hotel, percebi que estou com uma meia toda branca e outra branca com o símbolo da Nike rosinha.
- Putz.
- Não posso chegar em Santa Maria com essas meias, entende?
Corrida + livro + par de meias usadas. Passou no débito.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Nosso colega Tijolo, além de solitário, está em sérias dificuldades financeiras. Na falta de coisa melhor para fazer, elaboramos uma pequena lista de viúvas, clientes do nosso ponto de táxi, que poderiam resolver a situação do pobre Tijolo.
Dna Maria A. - viúva, apesar de nunca ter casado para não perder a pensão do pai militar. Ferrenha combatente anti petista. Para ter alguma chance com ela, nosso colega Tijolo teria que ir para o Parcão fazer campanha para o Bolsonaro, enrolado em uma bandeira do Brasil.
Dna Maria B. - viúva de idade avançada com boa situação financeira. Para ter alguma chance com ela, nosso colega Tijolo teria que dividir o apartamento com 17 gatos, mais dois filhos (um lutador de MMA e uma atriz de teatro) que ainda vivem às custas da velha.
Dna Maria C. - viúva 3 vezes, viciada em bingos clandestinos, academias de ginástica e cirurgias plásticas. Para ter alguma chance com ela, Tijolo teria que correr o risco de ser o quarto marido a ser mandado para o outro lado pela fogosa viúva negra.
O Tijolo aceita conselhos.
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Pontinho de táxi, esquina Vigário com Salgado filho, embarca uma mulher dos seus 50 anos.
- Salgado à direita, senhor. À direita de novo, ah, ah, à direita, na próxima, ah, à direita na Vigário.
- Mas voltamos ao ponto de partida, senhora!
- Pois é, ah, o senhor me desculpe, ficou no fim da fila, me desculpe. Vou ficar aqui mesmo. Quanto eu lhe devo?
- A senhora está se sentindo bem?
- Eu vi aqui a propaganda do seu livro, o senhor é escritor, é?
- Sim.
- Que bom, vejo que é um taxista educado, um homem das letras, acho que o senhor não me levaria a mal se eu lhe pedisse um grande favor.
- Em que posso lhe ajudar.
- É a minha amiga, sabe, ela que me deu essa ideia. Meu marido está de aniversário e essa minha amiga sugeriu que eu comprasse um presentinho, pra apimentar a relação com meu marido, tanto tempo de casado, o senhor sabe...
- Eu sei, eu sei.
- Pois então. Eu peguei o táxi pra ir pra casa, tinha desistido da ideia, mas resolvi tentar, mas não consigo, morro de vergonha, é muita gente passando nessa rua, Centro da cidade, muita gente, esse ponto de táxi bem aqui...
- Senhora. No que eu poderia lhe ajudar?
- O senhor está vendo essa Sex Shop aqui ao lado? Pois então. Minha amiga sugeriu que eu comprasse um 'acessório', eu dei uma olhada, pela internet, acabei comprando, já está pago, mas tem que retirar, o senhor sabe, aqui nessa loja, eu já tinha desistido da ideia, mas, quem sabe, o senhor poderia me ajudar, retirar o 'produto' pra mim, ah, ah, eu lhe daria uma gorjeta...
Era um embrulho cilíndrico, do tamanho de um pequeno extintor de incêndio. Pela cara da vendedora ao me entregar a mercadoria, minha passageira viajou legal na fantasia.
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Descendo um beco estreito, uma dessa vielas em que o táxi quase esfrega os retrovisores nos barracos de madeirite, esgoto a céu aberto, invasão, pobreza extrema, sem onde manobrar, sem saída, em meio à desesperança, minha passageira aleijada, desce mais um pouco, moço, volta de ré, "não posso caminhar", a cachorrada, fios emaranhados, postes caindo, gatos de energia, e os gatos, propriamente ditos, crianças descalças, um valão no fim do beco, um arroio, cuidado, está desbarrancando pr'aquele lado, o esqueleto de um carro enferrujado dentro do valo, um cenário de guerra, gueto de Varsóvia, penúria, indigência, o fundo da comunidade mais pobre de Porto Alegre, foi nesse fim da picada, lá no fundo, que ouvi o solo de violino.
Segundo minha passageira, é um menino, funcionário do mercadinho da vila. Ele estuda música, à noite, em um projeto social, o instrumento de segunda mão, comprado em uma rifa. A esperança é que o violino seja forte o bastante para resgatá-lo daquele buraco.
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CRUZES!
Tem um homem barbudo, cabelo comprido, sandália de couro, caminhando pela avenida Assis Brasil, carregando uma enorme cruz de madeira nas costas. Ele está parando os táxis, procurando um veículo que possa levar aquela tremenda cruz. Deus me livre! e olha que o porta-malas do Etios é profundo!
O homem me explicou que doou a cruz para uma igreja, mas acabou se desentendendo com o padre, foi excomungado, abandonou a paróquia, mas não deixou a cruz, já que, segundo ele, o artefato lhe custou os olhos da cara.
Depois de trocar essa ideia comigo, de ver que eu não poderia mesmo levar a cruz no meu táxi, o homem, apesar de já estar "pregado" seguiu o seu calvário pelo bairro Cristo Redentor.
Cada um com seus problemas.
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Vozinha, chapéu de tricô, travesseiro embaixo do braço, uma mala enorme, atrapalhada com a chuva, as poças d'água, a sombrinha que não fecha... indo pegar um ônibus em um terminal de excursão:
- Indo viajar (eu tentando ser simpático).
- O que é que o senhor acha?
- fim de papo -
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Dia do motorista
25 de julho✓
Dia do escritor
25 de julho✓
*obrigado*

domingo, 29 de julho de 2018

Nenhum texto alternativo automático disponível.
TAXISTA
tu te tornas eternamente responsável pelo passageiro que adicionas no Whats°
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A quem interessar possa
- Meu marido eu conheço bem. Sempre foi namorador, não vai mudar depois de velho. Sei direitinho quando tá saindo com alguma sirigaita.
- Como a senhora sabe?
- Ele começa a ouvir boleros e corta as unhas dos pés. Ligou o toca-disco e cortou os cascos, eu já sei: tá saindo com alguma puta. Hora de eu me divertir também.
A passageira acaba de desembarcar no Baile da terceira idade, Clube dos Namorados, fundos do antigo estádio Olímpico. Amantes da dança de salão é só chegar.
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Japonês usando um sobretudo pesado, cachecol enrolado até o nariz, luvas, gorro de lã e segurando um celular faz sinal para o meu táxi. Ele embarca morrendo de frio e (para não tirar as luvas) me passa o smartphone para que eu cancele o Uber perdidão que não consegue localizá-lo em plena avenida Oswaldo Aranha.
- Com todo prazer.
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Senhorzinho de bengala, chapéu de feltro, vestindo paletó, calça de pijamas e pantufas faz sinal para meu táxi.
- Avenida Sete, por obséquio, altura do Cine Presidente.
- Cine Presidente? não conheço.
- Um chofeur de praça que não conhece o Presidente, faça-me o favor!
- O senhor está se sentindo bem?
- Toque para o Centro, Baixada Bageense, eu lhe mostro onde fica o Cine Presidente.
- Baixada Bageense...
- O senhor não conhece nossa cidade? Não é de Bagé? Cine Presidente, estão exibindo o novo filme do Mazzaropi.
- Bagé??
Nisso, aparecem dois homens correndo, vestidos de branco dos pés à cabeça. Enfermeiros. Eles abrem a porta do táxi, abordam o idoso com cuidado. Pedem desculpa, conduzem "seu Juvenal" de volta à clínica geriátrica. Alzheimer.
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Você que estava, agora pela manhã, na Siqueira Campos e viu uma mulher nua sair correndo de dentro do meu táxi, deixe eu explicar o que aconteceu.
Caía uma chuva de proporções diluvianas no bairro Menino Deus quando uma mulher veio correndo em direção ao meu táxi. Sem guarda-chuvas, toda molhada, pingando horrores. Ela não embarcou, pediu que eu baixasse o vidro. Explicou que fora acometida de forte e repentina diarréia, que o pior havia acontecido, que estava toda suja, tinha feito cocô nas calças - mesmo pela pequena fresta da janela, era possível sentir o cheiro nauseabundo. Ela precisava ir para casa, não tinha como embarcar em um ônibus fedendo daquele jeito. Era uma situação delicada, além de completamente ensopada, suja de merda!
- Mas como é que vai ficar o meu táxi? - Ponderei.
A mulher, então, jogou sua bolsa dentro do meu carro e foi em direção à esquina da Getúlio Vargas onde uma calha despejava uma quantidade enorme de água da chuva. Enquanto caminhava, ela ia tirando a roupa. Peça por peça, uma a uma, de modo que já chegou embaixo da calha completamente nua. Peladona total!
Lavou-se toda na forte torrente que caía da calha. Depois de absolutamente limpa, retornou ao meu táxi torcendo o cabelo, serena, absoluta, como quem caminha pelo corredor de sua casa. Sequer perguntou se podia embarcar. Ignorando minha cara de assustado, minha boca aberta, acomodou-se no banco traseiro e ordenou que eu tocasse para o Centro.
- Siqueira Campos, por favor.
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ACHADOS E PERDIDOS
atenção você, loira de cabelos curtos, que pegou meu táxi por volta de 17h, saindo de uma creche da rua Botafogo com uma criança pela mão, você que deu um tablet para a criança parar de "incomodar" e, quando ela pegou no sono, colocou o tablet sobre o banco, em segurança, pois o tablet é "caríssimo" e é o segundo que sua filha quebra. Você não deu falta de nada ao chegar em casa??
Você esqueceu sua filha no meu táxi. Ela acaba de acordar e está chorando, sentindo falta... Do tablet.
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Saindo de um bar da Salgado Filho, uma mulher com uma perna engessada e um travesseiro embaixo do braço faz sinal para meu táxi. Paro. Quando percebo que está bêbada, já é tarde, ela já está com os cotovelos apoiados na lataria do carro, tenho tempo apenas para trancar as portas. Ela pede que eu abaixe o vidro. Abro uma fresta. Ela pede que eu a leve até a Andradas, diz que, chegando lá, o "cachorro" do marido dela pagará a corrida. Nego-me a abrir a porta. Ela explica que o marido é um ordinário, traiu-a com a advogada que está cuidando do inventário dela... uma conversa fiada. Enquanto fala, finge secar as lágrimas enfiando a cara no travesseiro. Eu apenas digo não, não, não. Ela insiste, enfia o braço pela fresta da janela, quer me mostrar o WhatsApp, a conversa do marido com a advogada, diz que é herdeira de uns terrenos na praia do Pinhal... O que eu quero saber de terreno no Pinhal?! Digo que ela está bêbada.
A mulher, então, fica séria.
Agora está ofendida. Ela me olha nos olhos, cerra os dentes, sou só mais um cachorro como todos os homens. Propoe-se a provar que não está bêbada:
- Vou fazer um "quatro".
- Um quatro?
- Vou te mostrar se estou bêbada, taxista de merda.
- Tu não consegues fazer um quatro - incito.
- Vou te mostrar. Vou fazer um quatro.
Ela foi tirando o braço de dentro do táxi, se ajeitando, respirando fundo, juntando seu ódio, se alinhando, jogou o travesseiro longe. Aquele "quatro" agora parecia ser uma questão de honra. Quando ela finalmente se desencostou do táxi, engatei a primeira marcha e parti.
Game over.

domingo, 22 de julho de 2018

Saindo do dentista onde fui que consertar às pressas um dente quebrado. Embarco no táxi me perguntando quando vai acabar essa tremenda maré de azar que venho atravessando. Rodados poucos metros, uma passageira. Uma morena voluptuosa estilo Angelina Jolie. Opa! Parece que a sorte voltou a sorrir pra mim.
Pois a morena estava justamente acabando com o namorado, por ele acusá-la de beijar mal. Imagina! Aquela boca bem desenhada, aqueles lábios carnudos implorando que eu lhe provasse o contrário, e meus beiços anestesiados! dormentes! tortos! sensibilidade zero!
Mas eu não dou mesmo sorte.
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Sete da manhã, ainda escuro, Azenha, imediações do Condomínio Carandiru, um cara me faz sinal e eu paro por instinto. Moletom, capuz enfiado na cabeça, meio encolhido, ele entra pela porta da frente reclamando do frio. Já estou quase me arrependo de ter parado quando a porta de trás se abre e outro sujeito se joga no banco de trás do táxi. É quando eu tenho certeza de que serei assaltado. Já conheço esse modo de agir, separados para não assustar o taxista, foi assim nas outras vezes, agora já era. Meu coração dispara. Só rezar para encontrar uma viatura da polícia pelo caminho. Só que não.
O cara da frente dá o destino. Viaduto da João Pessoa. Ele conversa com o cara de trás, que está jogado no canto, boné enfiado na cara. O outro apenas resmunga, parece com sono. Do pouco que falam, entendo que o da frente tem uma dívida com o de trás, está indo pegar um dinheiro que com os moradores de rua que costumam dormir embaixo do viaduto para pagá-lo. É um péssimo plano e eu estou no meio dele. Meu coração aos poucos vai desacelerando, repasso o que devo fazer quando for anunciado o assaltado: desligar o táxi engrenado, puxar a chave da ignição, soltar o cinto, abrir a porta e correr. Lamento não ter ensaiado mais vezes esse procedimento de emergência.
Chegando no viaduto, o cara da frente diz que vai descer, pede que eu cruze a Perimetral e espere do outro lado com o parceiro do banco de trás. Antes de desembarcar ele avisa o outro que vai deixar o "berro", e joga um revólver sobre o painel do táxi. O estardalhaço da arma batendo contra o plástico acorda definitivamente o outro sujeito que parecia dormir. Aos olhos dos vagabundos, eu devo parecer um tiozinho inofensivo, cagado de medo, a ponto de tornar-me parte do plano. O pânico volta a incendiar meu peito!
Enquanto procuro um lugar para largar o táxi e sair correndo, um tiroteio começa embaixo do viaduto, gritaria, cachorro latindo, deu ruim! O sujeito do banco traseiro voa até o painel, pega a arma e sai em disparada em socorro ao companheiro, eu também disparo, cantando pneu, acelero, meio abaixado ao volante, não olho pra trás, coração na boca, puta que pariu!
O dia lentamente vai clareando, rodo até meu ponto enquanto a adrenalina dilui pelo corpo. Não espero encontrar nenhum passageiro. Aumento o ar quente e aproveito o momento de alívio. O taximetro ainda ligado marca mais de vinte Reais. Desligo. Que se dane. Hoje estou no lucro.
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Saindo pelo portão dos fundos do cemitério São Miguel e Almas, o homem ergue o braço em direção ao meu táxi. Toca pro Centro. Ele fica surpreso quando lhe apresento meu livro. Diz que também gostava de escrever, que publicou livros, inclusive. Opa! Grisalho, sobrancelhas grossas, o homem me lembrava mesmo alguém. Seu personagem mais conhecido teria sido um certo gaúcho metido a valente, a saga de uma família em meio a revoluções, coisa e tal. Achei interessante, mas para este taxista interessava outro tipo de informação.
- O senhor prefere ir pela Azenha ou Erico Verissimo?
- Vai por mim que é melhor.
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Chegando em frente ao cemitério da Vila Nova, a passageira me pede um favor:
- Eu volto para o Menino Deus no mesmo táxi se o senhor me fizer uma gentileza.
- Pois não.
- O senhor vá até a capela do cemitério, devem estar velando uma Vera.
- E?
- Eu detesto velórios, o senhor sabe?, não consigo, vim a corrida toda reunindo forças, Deus é testemunha, mas não dá.
- E a senhora quer o quê de mim?
- Que o senhor vá ali, é Vera o nome da falecida, assine o livro de presença em meu nome, Sílvia, ponha entre parenteses "vendedora Avon", eles vão saber que sou eu.
- Sílvia (vendedora Avon).
- Exato. Pode deixar o taximetro rodando, o senhor é muito gentil.
- Mais alguma coisa?
- O senhor se incomodaria de por a mão sobre a falecida e rezar um Pai Nosso?
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- Taxista, quanto o senhor faz até a entrada da avenida tal, quem sobe pela Oscar Pereira, ali naquele prédio novo.
- Deve dar uns R$20.
- Tenho 17 aqui, pode ser?
- Bora.
- Vou fazer uma faxina lá, um bico, sou cabeleireira/manicure/maquiadora, mas arrombaram o salão onde eu trabalho, a dona tá arrumando a porta, não vai abrir hoje.
- Bah. Essa maquiagem que tu usa, tu mesmo faz? Diferente, e o cabelão também, uau!
- É Amy Winehouse, o cabelo eu comprei, acabei de colocar, gostou, tio?
- legal.
- Eu trabalho na noite também, sabe? Acompanhante, me viro, correria. Mas a noite tá horrível, as meninas queimando o preço, fazendo programa por crack, muita droga. Prefiro bota um búzio, lê uma mão.
- Tu lê mão?
- Tarô, carta, arte cigana. Quer ler a mão, tio? Troco pela corrida.
- Não, não. Vou ficar com os 17 mesmo.
- Tudo bem.
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Agora, os rádios dos carros permitem que você conecte seu telefone a eles. A voz da pessoa que está falando com você sai pelos alto-falantes do carro. Genial! O problema é que alguns motoristas ainda não lidam bem com essa nova tecnologia. Atendem a ligação em um volume muito alto. Parei ao lado de um desses motoristas, agora há pouco. Mesmo com os vidros do táxi fechados, era possível ouvir perfeitamente o que a pessoa falava do outro lado da linha:
A GENTE PRECISA CONVERSAR, SÉRGIO, TUDO QUE ACONTECEU ENTRE NÓS NÃO PODE ACABAR ASSIM, SÉRGIO, FOI FORTE, ENTENDEU, FOI LINDO, SÉRGIO, A GENTE PRECISA CONVERSAR, QUERO QUE TU ME DIGA OLHANDO NOS MEUS OLHOS QUE TU NÃO ME AMA, SÉRGIO, O TUA FILHA PRECISA DE UMA MÃE, EU QUERO SER A PRESENÇA FEMININA NA VIDA DA TUA FILHA, ENTENDEU, QUERO SER A MÃE QUE ELA NÃO TEM, SÉRGIO, ENTENDEU, TU NÃO PODE SIMPLESMENTE ESQUECER TUDO QUE A GENTE VIVEU, ESQUECER DE MIM, DA TUA FILHA, ELA ME AMA, SÉRGIO, A GENTE PRECISA CONVERSAR.
O volume absurdo. Minha passageira, no banco de trás, também ouvindo, arriscou até um "pobre Sérgio". Curioso, cheguei o táxi uns centímetros mais pra frente, pois o Sérgio estava encoberto pela coluna do veículo. Juro: o Sérgio chorava.
TOMAR UM CAFÉ, SÉRGIO, SÓ UM CAFÉ, ENTENDE, VAMOS CONVERSAR, ENTENDEU, SÓ CONVERSAR, SÓ TOMAR UM CAFÉ, EU NÃO VOU NEM TOCAR EM TI, EU SÓ QUERO QUE TU ME DIGA OLHANDO PRA MIM, SABE, OLHANDO NOS MEUS OLHOS...
Nesse ponto, o sinal abriu e a vida seguiu o fluxo do trânsito. Acompanhei o carro do Sérgio por mais algumas quadras até que o perdi definitivamente de vista. Sérgio e sua encruzilhada amorosa. Sérgio e seu indiscreto rádio com Bluetooth.
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Senhora idosa segurando bolsa, sacola e bengala. Paro o táxi com a porta traseira bem na sua frente, mas ela insiste em sentar no banco da frente.
- Até o shopping, bah, que umidade bárbara, Deus que me perdoe, haja saúde pra aguentar essa molhaçada, as roupas úmidas, os meus pés estão gelados...
- Bom dia, a senhora tem que pôr o cinto.
- As coisas não secam, esse tempo miserável, a gente fica pestiada, tô com uma tosse, cof, cof, cof..
- O cinto, senhora.
- Minha cabeça parece que vai estourar, com essa umidade, ainda não consegui dormir direito, pois tenho um rapaz do apartamento ao lado do meu, vizinho de porta, que bota a tv a todo volume, passa a noite toda vendo tv, não sei, acho que dorme durante o dia.
- O cinto, o cinto.
- Eu já reclamei pra síndica do prédio...
- O CINTO!
A velhinha, então, começa a tentar passar o cinto em meio a bolsa, sacola, bengala, casaco e continua falando:
- A miserável da síndica só pensa em folhagem, em arrumar os canteiros do edifício, esse mês veio uma chamada extra, serviços de jardinagem, onde já se viu...
- Deixe eu lhe ajudar com o cinto, me alcance a fivela, por favor.
- Eu já disse que não vou pagar, é só pagar, pagar, pagar, apareceu uma conta de telefone esse mês, tô indo na loja da Vivo, no shopping, não vou pagar, um absurdo...
- A senhora tem que passar o cinto, senhora, o cinto, levante a bengala, passe o cinto, tem que afivelar senão fica apitando, o cinto.
- Meu filho é advogado, ele disse pra ir na Vivo, tentar um acordo, meu filho entra com processo...
- Levante a sua bolsa, senhora, passe o cinto.
- Essa gente dessas empresas pensam que a gente é boba, mandam a conta, se colar colou...
- O cinto, aqui, passe por aqui, o cinto trancou na bengala, senhora.
- Meu vizinho de porta, não sei como assiste tanta tv, eu não suporto televisão, Faustão, novela, não assisto, não quero saber de folhagem, queria só que minha roupa secasse no varal, essa umidade terrível...
Nesse ponto eu desisto de pôr o maldito cinto e sigo até o shopping ouvindo o falatório da velha e o sinal sonoro do cinto de segurança pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi...