domingo, 8 de setembro de 2019


O taxista Biela pegou uma corrida para o município de Montenegro. Pé quente. Logo avisou ao passageiro que não conhecia o caminho, não tinha ideia de onde ficava tal cidade. Sem problemas, sessenta e tantos quilômetros de Porto Alegre, o passageiro foi indicando o caminho. Chegando lá, dinheiro no bolso, Biela feliz, mas perdidão, não tinha ideia de como voltar à Capital. De novo o passageiro deu a dica. Mostrou a rodoviária:
- Espera sair um ônibus e siga atrás. Eles vão todos para Porto Alegre.
O taxista ficou atento. Um ônibus grande, lotado, fechou a porta e partiu. Biela seguiu no encalço do coletivo. Deu azar, era uma linha tipo pinga-pinga, parava em tudo que era vilarejo, mas o taxista seguia firme, cada vez mais perdido, sem a menor ideia de onde estava. Para aqui, para ali, entra numa cidade, entra em outra, o dia anoitecendo e nada de chegar em Porto Alegre. Biela ficando agoniado, mas seguindo o maldito ônibus, até que não suportou a ansiedade. Aproveitou uma das tantas paradas e abordou o motorista.
- Amigo, eu sou taxista, estou seguindo o seu ônibus.
- Sim, eu percebi.
- Estamos muito longe da Capital? A que horas o senhor chega em Porto Alegre?
- Porto Alegre? Eu estou seguindo em direção a fronteira, Porto Alegre fica a 300km, no sentido contrário!
Biela foi colocado atrás de um outro ônibus, desta vez no sentido certo. Chegou a Porto Alegre no meio da madrugada, o tanque do táxi vazio, o prejuízo no bolso, mas finalmente em casa. Corrida para fora da Capital nunca mais.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sabe você que estava passando pela entrada do cemitério João XXIII por volta da meia noite? Você que me viu tirando uma morena aparentemente desacordada de dentro do meu táxi, carregando-a no colo, às pressas, seguido por dois cachorros bichon frisé, que latiam histéricos, como se perguntassem onde eu estava levando a dona deles? Sabe você? Eu reconheci você, mesmo em meio àquela loucura, eu notei você, ali, me observando, boca aberta, intrigada, assistindo aquela cena aparentemente incompreensível: o alerta do táxi ligado, as portas abertas, os faróis acesos, a morena desfalecida (aparentemente), o porteiro do cemitério aturdido, tentando evitar minha passagem, os cachorros mordendo meus calcanhares... Eu sei que você me segue aqui no Facebook, que deve estar esperando que eu conte o que estava acontecendo, você provavelmente está lendo esse post. É uma pena que você tenha ido embora. Depois que as viaturas da polícia chegaram, o pessoal da perícia, depois que as coisas se acalmaram, eu procurei por você, mas não a encontrei mais. Eu queria te explicar pessoalmente o que estava rolando alí, para que você não ficasse com uma impressão errada deste seu amigo taxista. É uma pena que você tenha sumido sem saber a verdade, uma pena que você tenha que esperar para saber em detalhes o que rolou ontem à noite. Lamento, mas essa história (entre outras tantas) está reservada para quem comprar meu próximo livro.
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Ter uma drag queen se desmontando no banco traseiro é uma experiência pela qual todo o taxista deveria passar.
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Se você está saindo do Barra shopping, iPhone na mão, sacolas da Zara penduradas no braço, óculos de grife prendendo o cabelo platinado, dando mó pinta de burguesa, se você é essa pessoa: não pergunte ao taxista se ele "faz preço de Uber". Não faça isso, madame
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Déficit de atenção
A senhorinha embarca no meu táxi tímida, sotaque do interior, dá o destino da corrida e se encolhe no canto do banco traseiro. Eu desenho o trajeto na minha cabeça e parto. É um caminho conhecido, apesar de longo, não há dúvidas quanto ao itinerário. Logo estou no piloto automático. Rádio no volume mínimo, a ideia de uma nova crônica fermentando na cabeça - a história de uma noiva que usa o taxista para fazer ciúmes no noivo, um caso real, cheio de detalhes sórdidos, contado por um colega. Resolvo parar em um posto de combustível, numa lojinha de conveniência onde a balconista é uma velha conhecida. Ela é gremista doente, de ir ao estádio, torcida organizada e tudo mais. Ela conta que está com o pai fazendo hemodiálise, não tem conseguido acompanhar o time, mas diz que tem me seguido nas redes sociais, assistiu a algumas reportagens. Resolvo contar para ela a história da noiva, pra ver se funciona com o público. Ganho um café em troca. Não lembrava como essa minha amiga era boa de papo. Não demora estamos às gargalhadas, o tempo voa, nem sei a quanto tempo estou ali jogando conversa fora. Preciso voltar a trabalhar. Vou até o banheiro, faço um xixi, pego uma água mineral e me despeço da minha amiga. Trocamos WhatsApp e prometemos manter contato. Enquanto volto ao táxi dou uma conferida no aplicativo que anda quieto demais, pouca gente precisando de transporte nessa área - imagino que vou voltar vazio até meu ponto...
Quando encosto a mão na maçaneta pra abrir a porta do táxi, noto um movimento estranho no banco traseiro...
A SENHORINHA!
Meu Deus, eu havia esquecido completamente que estava com uma cliente! Ela me olha com cara de assustada, não fala nada, parece sufocada no carro fechado, está a ponto de desmaiar! Abro os vidros do táxi, ofereço um pouco de água mineral, a garrafa toda, mas ela não aceita, pergunta apenas se eu ainda vou demorar muito, se estamos muito longe do seu destino, noto um terço entre os dedos da mulher, ela estava rezando, coitada, talvez pedindo a Deus que não a abandonasse como fez o taxista maluco com o qual estava lidando.
O resto foi silêncio e vontade de não ter nascido.
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Passageira idosa sentada no banco da frente do táxi, ao meu lado. O semáforo fechou e parei na altura de uma parada de ônibus onde dois homens se olhavam, rostos muito próximos. Eu e a passageira observando-os. Eles, então, se beijaram na boca. Sem tirar os olhos dos homens, a vozinha ao meu lado sussurrou, como se falasse para ela mesma "Os homens estão se beijando".
O sinal abriu, eu parti e a senhorinha, ainda com a cabeça virada para o lado direito, como se ainda olhasse a cena anterior, perguntou-me, agora em voz alta: "Os homens se beijando, o senhor viu?". Deixei a pergunta no ar, na esperança que ela acrescentasse alguma observação. Como não falou mais nada, como parecia estar em transe, eu respondi: "Eles se beijaram. O que a sra achou?". Ao que ela respondeu empolgada:
- LINDO!

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O telefone do ponto chama. Uma voz jovem me pergunta se eu me importo de levar uma gatinha no meu táxi. Óbvio que não. Vamos lá.
Depois de esperar por uns 15 minutos em frente a casa, a garota sai pela porta correndo atrás da gata, que se recusa a ser apanhada. O bicho sobe numa árvore como um foguete. A jovem, esbaforida, olha pra mim, me mostra a gata na árvore, encolhe os ombros. Pergunta se tenho alguma técnica para pegar uma gatinha arisca. Dou um longo suspiro... já tive lá minhas técnicas, houve um tempo em que uma gatinha não me escapava. Analiso a altura da árvore, aconselho a garota a desistir da ideia. Ela não me deve nada. Ligue para o nosso ponto quando a gatinha estiver pronta. Ofereço-lhe meu mais sincero sorriso amarelo e parto.
Pequenas derrotas cotidianas que um homem aprende a aceitar.

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NOTÍCIA: taxista descobre a cura da cegueira.
- Taxista, quanto está dando a corrida? não estou enxergando o valor.
- Dez reais.
- Quer dizer que R$9,78 agora virou dez!!

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Eu descia a avenida Oscar Pereira, tranquilo, táxi na banguela, quando um anjo me faz sinal. Parei, porque é do instinto de todo taxista parar para quem lhe solicita, mas já imaginando que aquela seria uma corrida complicada. Sabe quando tu já adivinha a encrenca antes mesmo dela acontecer? Quem é taxista sabe do que estou falando.
- O senhor pode chegar o banco bem para trás, por favor?
- Meu anjo, acho que você não vai caber. Talvez um táxi maior...
- O senhor reclina um pouco o encosto, abre bem a porta, eu me ajeito.
- O anjo não parece bem?
- Porque acha que estou pegando seu táxi? Preciso ir até uma pet shop que tem na rua Santana.
- Pet shop?
- Conheço o veterinário de lá, ele há de me ajudar.
Depois de escancarar a porta do táxi, reclinar o banco, me encolher no meu canto, o anjo deu o jeito de embarcar. Parecia estar sofrendo.
- Toca até a Santana, por favor, altura da clínica psiquiátrica Pinel.
- Algum problema?
- Minha asa direita. Acho que quebrei alguma parte dela, preciso examinar.
- Numa pet shop?
- Bom, é uma asa, o taxista notou que sou um anjo. A medicina para humanos não ensina a lidar com asas... Conheço o veterinário daquela pet, ele já me atendeu outras vezes.
- Como conseguiu quebrar a asa?
- Caí de uma goiabeira. Uma mulher lá me confundiu com outra pessoa, me atrapalhei. O senhor sabe, anjos caídos... vivemos caindo mesmo.
- Sei.
- Semana passada caí da bicicleta.
- Bicicleta?
- Eu comprei uns fones de ouvidos, desses grandes, sabe, potentes, JBL, pedalar com fones é um perigo, não percebi um carro se aproximando por trás, ele não chegou a bater em mim, só o susto mesmo, mas caí. Isso de cair parece uma sinal. Melhor seria ter ficado no céu.
- Taí a pet shop. O anjo tem grana pra pagar o táxi?
- Aceita cartão? BanriCompras?
- Banrisul?
- Tenho Visa também, mas é crédito. Dá pra dividir em três vezes?
- Certo. Tá ruim pra todo mundo.
- Ô.
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Dei uma lavada caprichada no táxi. Cera líquida, perfume, pretinho nos pneus. O carro ficou um brinco. Coisa mais linda do mundo! Estou sentado no banco do ponto, admirando a nave, quando observo uma madame conduzindo um cachorrinho chique pela guia. Um yorkshire tosado, escovado, bandana no pescoço, focinho arrebitado, a petulância sobre patas. A madame se deixa levar pelo animal, que começa a se aproxima do meu táxi. Pressinto o pior: o miserável vai mijar na minha roda.
Não dá outra. O bicho dá uma primeira cheirada no pneu, vira, dá uma segunda cheirada e vira de novo. Ele termina esse último giro já enquadrando o corpo, já preparando para levantar a perna. Meu coração dispara, uma luz vermelha se acende, soa um alarme em minha mente. Disparo em direção ao cachorro. Enquanto corro, solto um grito desesperado:
- NÃÃÃÃÃOOOOO!
A madame leva um cagaço, dá um pulo, solta um berro, num espasmo, fecha os punhos e ergue os braços com violência! A guia estica, puxa o pescoço do cachorro com tudo, uma estilingada que faz o bicho girar sobre o próprio eixo num rodopio fantástico! Eu gritando, a madame berrando, o cachorro girando, soltando um vértice de mijo no ar! Minha nossa senhora dos perpétuos bichanos!
Desnecessário dizer que fui achincalhado pela madame, que perdeu completamente a elegância e desceu o verbo sem pena sobre esse insensível taxista - a sandália Louis Vuitton girando na mão, ameaçando me acertar.
Tô nem aí. Nas rodas do meu táxi ninguém demarca território.
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Meu colega é um cara com espírito empreendedor. Resolveu vender ovos enquanto trabalha em seu táxi. Comprou meia dúzia de galinhas poedeiras, recolheu os ovos, colocou no porta-malas do táxi e saiu a trabalhar.
Verão, calor senegalês em Porto Alegre. Quando abriu o porta-malas do táxi para o primeiro cliente, os pintos saíram voando.
Fim do negócio.

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A jovem esposa de motorista de aplicativo, que busca amainar sua solidão nos braços de um taxista. Uma história carregada de ironia, paixão e verdade, mas que não convém contar.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Não queira estar no lugar de uma avó que pega um táxi em busca de sua neta, na esperança de encontrá-la, de trazê-la para casa, não queira ser esta mulher que sofre, que desabafa com o taxista, esta avó que soube que a neta está grávida, que carrega um bisneto seu no ventre, não gostaria de estar no lugar desta mulher que se culpa por ter trabalhado demais, de não ter visto a filha crescer, a filha vítima da aids, a neta cair no mundo, a roda viva que arrastou a avó até esse estado de desespero, de se lançar nessa busca louca, dentro de um táxi, pela periferia escura onde ela soube que a neta se prostitui, por bairros que ela jamais sonhara trafegar, não queira ser essa mulher que sofre, que quer recuperar o tempo perdido com a neta, com a futura bisneta, com o carinho que faltou e que agora julga ter pra dar, não queira ter que passar por isso ao lado de um desconhecido, de um taxista que você nunca viu na vida, com que você é obrigado a dividir sua angustia, sua busca desesperada, infrutífera, ter que passar pelo constrangimento de abordar outra menina, da idade da sua neta, outra garota que se vira, saber que a neta realmente vive por ali, pela mesma esquina, mas que deve estar fazendo um "programa", no momento, ou chapada, muito louca no barraco, não gostaria de estar na pele da minha passageira, ter que passar por tudo isso, ter que voltar pra casa sem a neta, sem esperança, amparo, ver-se obrigada a dividir sua história com o taxista, por falta de outro alguém com quem contar, não queira estar tão só, desarme o espírito, conecte-se, abra os braços, esteja disponível, sei lá... não espere que seja tarde demais.
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Dentre os taxistas que levam aquela passageira rabugenta até o Jardim Botânico, talvez eu seja o único que a entenda, que tolere seu mau humor, que saiba porque ela sempre vai lá. Foi o meu táxi que ela usou para levar as cinzas do seu cachorro até o JB. Esperei que ela espalhasse pelo lago o que sobrou do bicho. Segundo ela, o único ser vivo que mereceu seu respeito.
- Essa porcaria de táxi não anda mais rápido?
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- Então o senhor é escritor, um taxista escritor!
- Sim.
- Pois eu também escrevo. Escrevo mensagens, sabe, mensagens positivas, as verdades da vida, coisas lindas, pra cima.
- Humm.
- Mas esse seu livro é sobre o quê? São tipo piadas de taxistas?
- Não exatamente.
- Histórias depravadas? Os taxistas me contam cada coisa! Rola muita sacanagem, não é? Já namorei um taxista, sei como é...
- Não diga.
- Eu escrevo mensagens, lindas mensagens, mando pro amigos no Facebook. O senhor tem Facebook?
- Não senhora.
- Que pena.
- Pois é.
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O marido nunca se preocupou em disfarçar seu desconforto com a vizinhança do ponto de táxi - chegou a colocar uma placa no portão do sobrado pedindo respeito aos limites de sua entrada de garagem. Ela sempre discreta, olhos baixos, esposa submissa, nunca deu pinta se concordava ou não com a postura azeda do marido. Foi assim até o dia em que os taxistas invadiram o sobrado atendendo aos seus pedidos de socorro. O homem infartado, urinado, babando, transportado às pressas, o táxi voando para o Pronto Socorro.
Acabo de vê-la saindo (meu carro no limite da sua entrada de garagem). Simpática, brindou-me com um sorriso sincero e dirigiu-se ao táxi da ponta. Destino: Cemitério Jardim da Paz. A brisa abafada de Finados soprando o ramalhete de flores nas mãos da viúva.
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Minha passageira idosa, viúva, que habita solitária um dos últimos casarões do bairro Menino Deus. Quando pega meu táxi, não se importa de fazer o caminho mais longo (desconfio que até prefere), de parar em engarrafamentos, ela aproveita a corrida para interagir comigo, me trata por filho, pronuncia muitas vezes meu nome:
- Então, Mauro, como está, meu filho... A vida é assim mesmo, Mauro, não te preocupa, meu filho, Deus é que sabe, Mauro... Pois é, Mauro... Não tem pressa, Mauro... Aqui está bom, meu filho... Obrigado, Mauro, bom dia pra ti, meu filho... Fica com Deus Mauro...
Procuro levar a conversa com naturalidade, como se fosse só mais uma idosa que precisa exercitar a arte de conversar, de ouvir sua própria voz que já não usa tanto, sem lembrar que sei o que a leva a citar tantas vezes meu nome, a me chamar de filho. Procuro não lembrar que ela me contou do filho brutalmente assassinado, o filho único, talentoso, futuro brilhante, o filho executado na saída de uma festa. Procuro apenas ouvi-la, deixá-la lembrar de como era falar com seu filho que se chamava Mauro.
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Papelada, vistoria, taxa, taxa, imposto, tira ficha, espera, espera, espera, paga, paga, cópia, cartório, tira ficha, autentica, reconhece firma, mais papelada, outra vistoria, volta, paga a taxa da vistoria, Banrisul, espera, espera, espera, volta no Detran, tira ficha, espera, espera, mais vistoria, fila, fila, receita estadual, ficha 375, espera, espera, espera, caiu o sistema, volta no outro dia, não voltou o sistema, vai na EPTC, tira ficha 43, espera, vistoria, paga taxa vistoria, volta na receita, voltou o sistema, ficha 127, volta no Detran, ficha A250, espera, espera...
Uma semana enredado em burocracia pra colocar um táxi novo. Dias de fúria.
Alguém empresta uma arma?
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O taxista estava cansado, tinha trabalhado o dia todo. Já começava a anoitecer quando surgiram dois clientes engravatados. Dois advogados. Explicaram que precisavam estar em Uruguaiana nas primeiras horas do dia para uma audiência importantíssima. Seria a noite toda rodando, cerca de 700 km, uma corrida irrecusável! Trataram o preço e partiram rumo à fronteira oeste.
Assim que o táxi começou a rodar, os clientes dormiram. O taxista, logo que pegou a estrada, também sentiu sono, bateu o cansaço. Mal tinha passado a cidade de Guaíba, o motora resolveu dar uma paradinha em um posto de combustível para tirar uma rápida soneca.
Os 3 dormiram profundamente.
Quando o sol da manhã bateu no táxi, os advogados acordaram. Sacudiram o taxista perguntando se já estavam em Uruguaiana! Mal tinham saído de Porto Alegre. Nem 50 quilômetros rodados.
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A nova cor do táxi
Eu vinha serpenteando pelo meio da Vila dos Comerciários quando um garoto me fez sinal, avisou que uma senhora estava a umas duas esquinas adiante esperando por um táxi. Segui o caminho indicado e avistei a cliente - uma senhorinha idosa apoiada em uma bengala. Ela estava de costas para mim, olhando para o fundo da avenida. Fui chegando devagar primeira marcha, parei o táxi com a porta quase encostada na bengala. Baixei o vidro, perguntei se ela precisava de um táxi. Ela me olhou desconfiada. Deu uma boa olhada no meu carro. Branco, as faixas vermelhas. Torceu o nariz:
- Eu estou esperando um táxi.
- Pois então. Aqui estou!
- O senhor é taxista? Esse é um táxi?
- É um táxi. E novinho em folha!
- Branco? É o mesmo preço do outro?
- Mesmo preço, normal, é a nova cor.
Depois de dar uma última olhada para o fundo da avenida, depois de constatar que eu era o que mais se parecia com um táxi na redondeza, a senhorinha resolveu arriscar.
- Até a Azenha, por favor.
- Pois não.

domingo, 16 de dezembro de 2018

A mulher que faz sinal para meu táxi segura dois travesseiros. Não tem malas, não parece estar indo viajar... apenas os travesseiros. A cliente abre a porta da frente. É jovem, magra, mas parece com dificuldade para embarcar. Examina a porta, o banco, parece medir os movimentos. Ela me endereça um sorriso amarelo, pede que eu tenha um pouco de paciência.
- A pressa é sua.
Minha cliente dispõe com cuidado os dois travesseiros sobre o assento do banco e inicia o "procedimento" de embarque. Geme. Parece sentir dor. Depois de se acomodar meio esticada, elevando o quadril, ela ordena que eu toque até o Posto de Saúde da Vila Cruzeiro. Emergência. Explica que lhe eclodiu um abscesso. Um furúnculo!
- Aonde?
- Não queira saber, senhor.
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- O senhor dirigindo táxi?
- Sim, sou taxista.
- Pensei que fosse escritor, até comprei um livro seu.
- Opa! E que tal? Gostou?
- Uma porcaria. O senhor me desculpe a franqueza.
- Ora, o que é isso, não tem problema.
- Na verdade, foi minha mulher que pediu pra comprar, ela é sua fã.
- Sério?
- Sim, ela assiste o programa da Fátima Bernardes, o senhor vive lá, não é?
- Fui uma vez.
- Pois então, minha mulher pediu seu livro, comprei, dei uma lida e, desculpa, achei uma bosta. Aquela coisa de relacionamento, auto ajuda pra namorados... fútil.
- Talvez o senhor esteja me confundindo...
- O senhor não é escritor?
- De certa forma...
- Como é mesmo o nome... Carpinter... não...
- Carpinejar?
- Isso aí! Bah, deixa pra lá, toca pro Centro.

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O homem apontou a mão em direção ao meu táxi segurando um latão de cerveja. A mão que lhe restara - não tinha o braço direito. Vestia uma camiseta com propaganda de supermercado, um boné surrado e jeans sujos. Humilde e visivelmente alcoolizado. Perguntou se poderia embarcar com a cerveja. Vila Cruzeiro. Vambora.
Recusou a ajuda para puxar o cinto. Contou que perdeu o braço em um acidente de moto e que segue "sentindo" o membro amputado como se ele tivesse sendo diariamente arrancado. Disse que sobrevive à base de doses cavalares de morfina e álcool.
Enquanto descíamos em direção à vila, ele puxou o dinheiro pra pagar a corrida. Reclamou que o banco não tinha notas grandes. Quatro mil em notas de vinte. Uma mascada enorme presa por um elástico. Separou uma nota e deixou o resto espalhado no colo. Bebeu o resto da cerveja e jogou o latão pela janela.
- Me larga no QG da costela.
- QG da costela?
- Não conhece o QG da costela, taxista?
- Bah, não conheço.
- Os taxistas comem direto alí, melhor churrasco da Cruzeiro. Vou tomar mais um gelo antes de ir pra casa.
Em frente ao QG da costela, ele pegou o troco da corrida, juntou à mascada maior e tentou desembarcar. Esqueceu de desatar o cinto, se atrapalhou, deixou o dinheiro cair, metade no assoalho do táxi, metade na rua! Um pessoal que bebia do lado de fora do QG da costela, que parecia conhecer o meu cliente, veio em seu socorro. Por sorte o chão estava molhado pela chuva, o dinheiro colado no chão, o pessoal do QG ajudando a juntar a grana, todos já meio no trago, meu passageiro catando as notas de 20 com a mão esquerda, pisando nas que saíram pra rua, um sufoco!
Parece mesmo que Deus protege os loucos e os bêbados. Depois de socar a massaroca de dinheiro no bolso, meu cliente saudou seus amigos de braço aberto. Prometeu pagar a rodada. A camaradagem talvez lhe atenue a dor do membro perdido.
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- taxista, eu acabei de colar minhas unhas, o senhor pega a carteira aqui na minha bolsa?
- Meu Deus, a senhora tem um revólver!
- Não se preocupe, está travado.
- Dá licença.
- Na parte de fora da carteira, deve ter R$50 aí.
- Só tem camisinha, aqui... quantas!
- No meu trabalho preciso muitas.
- Não diga.
- Essa é sabor caipirinha, o senhor já provou?
- Não. Não tem dinheiro aqui, amiga.
- Nessa parte de dentro, ali atrás do Santo Expedito... Não? Ué, poderia jurar que estava aí, olha bem, senhor, vê aí.
- Dá licença.. não, nada por aqui.
- O senhor me faça o favor, aqui no bolso, veja aqui no bolso de trás, deixa eu virar um pouco.
- Mas, eh...
- Veja aí, não? Nenhum dos dois?
- Uma conta de luz.
- O senhor viu como subiu a energia? um horror!
- Subiu, tá subindo tudo.
- Ai, senhor, me desculpa, acho que está aqui no sutien, tô lembrando, veja pra mim aqui.
- Quem sabe a unha já secou...
- Francesinha metalizada, olha, top, não é mesmo? Se eu estrago essa unha eu me mato.
- Dá licença então... Outra camisinha.
- Haha, eu nem lembrava dessa. Aqui, taxista, veja no bojo direito, por favor.
- Aqui está! Ufa! Que calor!
- Em quanto está a corrida, bah já subiu o valor!
- Subiu, tá subindo tudo.

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Mais uma passageira generosa:
- R$9,36?, arredonda pra nove e quarenta!
Brigado.
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O Batman começou a mexer no vidro do táxi, subir, descer, subir até a metade, terminar de fechar, descer... eu já estava a ponto de dar um basta naquilo quando a Cinderela mandou o Batman parar:
- Para, o taxista vai ficar bravo!
O Batman era do tipo que não aceita ordens, irritou-se, bateu com um travesseiro na cara da Cinderela, que começou a chorar. O choro estridente acordou o gremista, que até então meio que dormia, alheio à discussão. Quando o Batman quis voltar a mexer no vidro o gremista acionou uma espécie de pistola, que encheu o táxi de bolhas de sabão. A Cinderela, ainda chorando, xingou:
- Para com essas bolhas, vai atrapalhar o taxista!
Era choro, travesseiradas, bolhas de sabão, a Cinderela xingando o Batman, mandando o gremista parar, uma bagunça dentro do táxi, fui obrigado a pedir ajuda à mãe, que digitava tranquilamente o celular como se nada estivesse acontecendo.
- Desculpa, taxista, o senhor pode parar naquela creche à direita, por favor.
- Como é que a senhora suporta essa zona?
- Trigêmeos, depois de três anos, a gente relaxa, entrega pra Deus, só interfere quando estão a ponto de se matar.
- Entendi.
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O homem esticou uma das bengalas em direção ao meu táxi. Estava encostado em um poste. Abri a porta e ele jogou as bengalas para dentro do carro. Ao desencostar-se do poste, perdeu o equilíbrio. Só então notei que o homem parecia mal. Muito pálido, magro, cabelo ralo, sujo. Desci em socorro ao meu cliente que parecia de não ter forças para embarcar no táxi. Pedi licença, agarrei-o por baixo dos braços, tentei segurá-lo. Foi quando a sua camisa levantou e notei a arma na cintura.
- O senhor está armado!
Enquanto subíamos o morro, o homem tratou de me tranquilizar. Confessou que teve problemas com a polícia, que foi "alvejado" pelas costas, perdeu um pulmão, um rim, que passou a andar armado desde então. Segundo ele, a treta seria por não aceitar o pagamento de "bola" para uma banda podre da polícia. Coisa pouca, do jogo, que não se registra B.O. Tô ligado.
Deixei meu passageiro no alto do morro, na entrada de um beco estreito onde um homem com cara de poucos amigos já o esperava. Pagou um valor bem maior e dispensou minha ajuda. O homem que o aguardava pegou-o no colo sem cerimônia, bateu a porta do táxi com o calcanhar e sumiu beco adentro - pelo volume na cintura dava pra imaginar que também estava calçado com grosso calibre.
Cena comum no meio de uma tarde ensolarada de segunda-feira. Quem se importa?
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Olhar perdido, sem foco, corpo oscilando, o bêbado se ofende quando explico que ele não pode embarcar no táxi pela porta do motorista:
- O quê mais que não pode, taxista?

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Cinderelas modernas.
Segundos antes da meia-noite, a passageira interrompeu subitamente as carícias e deixou o táxi correndo, como se algum feitiço fosse se desfazer. Na pressa da fuga, deixou para trás um crock branco encardido número 41...
O taxista tem dúvidas se quer reencontrar a dona do calçado.

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Após deixar o casal no motel, voltei à luta. Já estava longe quando tocou um celular estranho no banco de trás do táxi.
-- Alô.
-- Maciel?? Quem está falando, esse não é o número do Maciel?
-- Esse telefone foi esquecido no meu táxi...
-- Puta que o pariu, meu marido, o Maciel, preciso falar com ele! Tô com o pedreiro aqui em casa, faltou material, meu marido tem que comprar mais massa corrida...
-- Dona, tenho que desligar, tô ao volante.
Minutos depois, nova ligação:
-- Alô, é o taxista?
-- Sim.
-- Pelo amor de Deus, moço, preciso falar com meu marido, tem como o sr. voltar onde deixou ele, devolver o telefone. Foi num asilo? Ele visitaria o pai dele hoje!
-- Asilo? Hãã, não sei, é que...
-- Maldito Maciel, o pedreiro tá aqui, sem fazer nada, e agora, moço?
Deixei o celular na portaria do motel para que fosse devolvido ao cliente do quarto 22. Um certo Maciel me deve essa mão.

domingo, 2 de dezembro de 2018


Sentado dentro do meu táxi, bem na esquina, assisti o acidente em detalhes. Um Logan prata converteu de forma abrupta e uma moto em alta velocidade bateu no carro. O motoqueiro carregava um botijão de gás na garupa, o Logan carregava uma passageira no banco de trás.
Carro amassado, motoqueiro esfolado, recolhe o parachoque que caiu, busca o botijão que rolou, bate-boca, dor, raiva, prejuízo. Eu só observando.
Seria só mais um acidente, entre tantos que presencio diariamente, não fosse um detalhe. O momento em que o "parceiro" motorista de aplicativo cogitou procurar por uma testemunha. Ele olhou pro meu carro parado na esquina, eu sentado ao volante, a testemunha perfeita! O cara chegou a dar alguns passos em direção ao meu táxi, mas desistiu no meio do caminho. Lugar errado para buscar solidariedade, ele deve ter concluído.
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Tenho um passageiro que costuma encontrar-se com sua amante em um cemitério. É sério! Acabei de deixá-lo lá. Alertei-o quanto as previsões de mau tempo, tempestade de granizo e tudo mais. Não adiantou.
- Hoje vamos visitar o túmulo dos avós dela.

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Minha passageira planeja comemorar seus 80 anos fazendo um curso de Reiki Xamânico em uma fazenda de nudismo. Contratou-me para levá-la pela manhã e buscá-la à tarde. Como não tem companhia, minha octogenária cliente deu-me a opção de participar das atividades junto com ela, na base da parceria, tudo pago!
Alguém tem ideia de como seria esse "curso"?

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Num casal de idosos onde um enxerga pouco e o outro é quase surdo, adivinha quem liga para o ponto de táxi:
- Alô, ponto de táxi, boa tarde.
- De onde fala?
- Ponto de táxi.
- É do ponto de táxi que está falando?
- SIM, PONTO DE TÁXI (gritando)!
- Alô.
- ALÔ! PONTO DE TÁXI!
- Alô, alô, eu preciso de um táxi. Alô.
- SIM, QUAL O ENDEREÇO!?
- Alô, é do ponto? É do ponto de táxi?
Desisto.
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- Alô, oi, João, onde você está, meu amor? No Centro? Num cliente, João? Não diga!
- A senhora vai ficar aqui?
- Eu tô num táxi, João. Na Fernandes Vieira, na frente da casa da perua da Luiza. O que é que o teu carro tá fazendo estacionado na frente da casa dessa biscate, João?
- Desligo o taxímetro, ou a senhora...
- Não é o teu carro, João? É a mesma placa, João! O mesmo adesivo Deus é fiel no vidro traseiro! Tu tá de novo com essa vagabunda, João! Não tô acreditando, João!
- Não posso ficar parado aqui em fila dupla, vão multar meu táxi, senhora.
- Taxista, toca pro motel dos Alpes. João, sabe o que é que eu vou fazer? Alô, tá me escutando bem, João? Eu vou pro motel com esse taxista, vou dar pra ele, a gente vai se acabar transando, João!
- Olha só, eu estou trabalhando, não...
- Hum, ele ficou todo assanhadinho, acho que é tarado, esse taxista, João! Aposto que vai ser ótimo, seu imbecil! Ele tá me levando pro motel, João!
- Não, olha...
- Que vai matar o quê, tu não vai matar taxista nenhum, pensa que só porque tu és delegado as pessoas tem medo de ti, João? Grande coisa que tu já tem dois assassinatos nas costas!
- Minha nossa senhora.
- O taxista tá rindo da tua cara, hahahaha!
- Não faça isso, senhora.
- Olha, João, ele é escritor, o taxista! Nossa, que legal, foi o senhor que escreveu esse livro?, Taxitramas, hum.
- Não, não.
- Fica aí com a piranha da Luiza, João, eu vou pro motel com esse taxista, hoje tu vai ser corno, João! Um taxista escritor hahahaha, aposto que vai escrever a história do corno do João hahahaha!
- Me dá aqui esse telefone, alô, alô, seu João, seu João, alô, alô.
- Eu já desliguei. O senhor pode me deixar ali no shopping, por favor.
- Tô ferrado.
- Quanto custa o seu livro?

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Numa corrida em que levava seu cachorrinho para uma clínica veterinária de luxo (sessão de acupuntura) a passageira me confidenciou que está enxugando gastos: está tirando sua mãe de uma clínica geriátrica "metida a besta", colocando a velha em um lugar mais simples.
- Minha mãe está com Alzheimer, não aproveita nada mesmo

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Hoje é quinta-feira e eu vim trabalhar de tênis. Esqueci. Aposto que minha passageirinha da terceira idade vai me cobrar. Semana passada, ela deu a dica:
- Eu venho toda quinta-feira nesse bailinho. É bom, mas falta homem pra gente dançar. O senhor não quer estacionar o táxi? Dançar um pouco comigo? Pago seu ingresso e um refri!
- Mas a senhora disse que não deixam entrar de tênis...
- Vamos combinar pra semana que vem!

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Um homem embarca no táxi fazendo sinal de que não fala, é mudo. Não tenho caneta, ele tenta me explicar onde quer ir:
- As mão enlaçadas sobre o peito.
- Igreja. Não?
- Fecha os olhos. Os olhos fechados.
- Dormir. Clínica do sono? Não?
- Mãos no peito, olhos fechados, língua pra fora.
- Língua pra fora?
- Ajeita a gravata (já irritado), pés juntos, estica pra trás, mãos no peito, olhos fechados!
- Gravata, estica, testemunha, casamento, cartório!?
- Indicador esticado, arma na mão, tiro na cabeça, olhos fechados, língua pra fora?
- Necrotério municipal!
Puto da cara, o mudo desce, vai no táxi de trás pede um papel e escreve às pressas, com letra de forma, bem grande "CEMITÉRIO PORRA!!"
- Ai, nossa, não se irrite.
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O marido pega meu livro pra dar uma espiada, lê uma história, duas, cai na risada, adora. Ele vira pra mulher, que parece enfastiada no banco traseiro do táxi.
- O livro do taxista é ótimo, querida, vamos levar?
- Não.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo
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Sinal vermelho.
Av. Bento Gonçalves, sete da matina. Paro o táxi no semáforo. Na calçada, uma jovem morena, cabelo molhado, short justíssimo, blusinha mínima e botas de canos longos, acima dos joelhos, está parada com as duas mãos no rosto, secando as lágrimas, o rosto deformado pelo choro. Ela parece à beira de um ataque de nervos. Do outro lado da avenida, um bordelzinho de quinta está fechando as portas, um pequeno grupo de "clientes" está deixando o local. Um deles parece xingar a menina que chora na outra calçada. Penso em abrir o vidro do táxi e oferecer ajuda, mas, nisso, pára um ciclista, um senhor, roupas simples, mochila nas costas - típico trabalhador economizando a passagem do ônibus. Ele desce da bicicleta e acode a garota que chora, põe a mão no seu ombro, conversa com ela.
Sinal verde.
Fico curioso quanto ao desenrolar da cena, tento retardar a partida, mas as buzinas me chamam à realidade, engato a primeira marcha e sigo o fluxo. Afinal, a vida é isso mesmo: um eterno seguir o fluxo.
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Corridinha de 7 Reais
- Só tenho 50, o senhor tem troco?
- Tenho, mas essa nota é falsa, senhora.
- Mas eu peguei no banco agora mesmo!
- É beem falsa.
- Então só tenho essa de R$100.
- Também é falsa. É um xerox, senhora!
- Recebi no banco!
- Ali tem uma viatura da polícia, a senhora...
- Não, não, eu detesto polícia.
- Aposto que sim.
E se foi sem me pagar.