A noite se arrastava abafada e úmida. Trinta e tantos graus sob as estrelas. Nos pontos de táxis, motoristas com o motor do carro ligado, vidros fechados, esperavam a próxima corrida dormindo dentro de seus paraísos particulares. Dane-se o preço do combustível. Eu rodava com o ar condicionado no máximo, quem quiser se refrescar que me faça sinal.
A passageira que embarcou não parecia se importar com o calor. Pediu que eu tocasse para a delegacia mais próxima. Voando, de preferência. Tinham ligado para o seu serviço. A polícia havia feito uma batida no condomínio onde ela morava. Haviam prendido seu marido. Ela não estava acreditando.
Enquanto rodávamos, ela fazia ligações. Tentava entender o que estava acontecendo. Por certo havia algum engano, seu marido era um homem de bem. Pai de dois filhos, bom marido. Só porque estava desempregado, porque moravam em um condomínio pobre. Estava cansada de ver a polícia "pedalando" as portas dos apartamentos.
As ligações davam conta que acusavam o homem de envolvimento com o tráfico de drogas. Tinha sido levado algemado. A passageira não acreditava no que estava ouvindo. A pobreza não é crime. Sempre passou bons valores a seus filhos, sempre os manteve afastados das más companhias. Viviam de forma humilde, mas com dignidade. Limpos.
Depois de bater em duas delegacias sem sucesso, fomos ao palácio da polícia. Acompanhei a mulher até a porta. Estaria ali, caso precisasse continuar a corrida. Fiquei observando a cena. O marido estava algemado a um corrimão. Ao ouvir a mulher gritar por seu nome, o homem a olhou por um segundo e baixou os olhos. Culpado.
Depois de agredir o marido, a mulher foi contida pelos policiais, informada dos horários de visita no presídio e orientada a se retirar. Levei-a para casa. Ela só pensava no que dizer aos filhos. Estava arrasada.
Depois dessa, fechei o táxi e fui tentar dormir, encarar mais uma noite abafada, povoada por mosquitos e pesadelos.

