domingo, 29 de janeiro de 2012

Pesadelos em uma noite quente​


A noite se arrastava abafada e úmida. Trinta e tantos graus sob as estrelas. Nos pontos de táxis, motoristas com o motor do carro ligado, vidros fechados, esperavam a próxima corrida dormindo dentro de seus paraísos particulares. Dane-se o preço do combustível. Eu rodava com o ar condicionado no máximo, quem quiser se refrescar que me faça sinal.
A passageira que embarcou não parecia se importar com o calor. Pediu que eu tocasse para a delegacia mais próxima. Voando, de preferência. Tinham ligado para o seu serviço. A polícia havia feito uma batida no condomínio onde ela morava. Haviam prendido seu marido. Ela não estava acreditando.
Enquanto rodávamos, ela fazia ligações. Tentava entender o que estava acontecendo. Por certo havia algum engano, seu marido era um homem de bem. Pai de dois filhos, bom marido. Só porque estava desempregado, porque moravam em um condomínio pobre. Estava cansada de ver a polícia "pedalando" as portas dos apartamentos. 
As ligações davam conta que acusavam o homem de envolvimento com o tráfico de drogas. Tinha sido levado algemado. A passageira não acreditava no que estava ouvindo. A pobreza não é crime. Sempre passou bons valores a seus filhos, sempre os manteve afastados das más companhias. Viviam de forma humilde, mas com dignidade. Limpos.
Depois de bater em duas delegacias sem sucesso, fomos ao palácio da polícia. Acompanhei a mulher até a porta. Estaria ali, caso precisasse continuar a corrida. Fiquei observando a cena. O marido estava algemado a um corrimão. Ao ouvir a mulher gritar por seu nome, o homem a olhou por um segundo e baixou os olhos. Culpado.
Depois de agredir o marido, a mulher foi contida pelos policiais, informada dos horários de visita no presídio e orientada a se retirar. Levei-a para casa. Ela só pensava no que dizer aos filhos. Estava arrasada.
Depois dessa, fechei o táxi e fui tentar dormir, encarar mais uma noite abafada, povoada por mosquitos e pesadelos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O que é que o baiano tem?


    O homem estava saindo do motel a passos largos, com uma lata de cerveja na mão. Atrás dele, tentando acompanhar seu rítmo, uma mulher. Quando viu meu táxi, o sujeito estendeu a mão, derramando um tanto de bebida. Parecia aflito.
     Ele embarcou apressado. Ficou irritado quando viu que a mulher havia entrado no táxi também. Estavam discutindo. Enquanto eu tocava em frente, o homem tentava me convencer que mulher nenhuma presta. Que a "fulana" que estava no banco de trás tinha ferrado ele. Segundo meu passageiro, a mulher devia ter colocado alguma coisa na bebida que fez com que ele dormisse até aquela hora da manhã - tinham entrado no motel na tarde do dia anterior. De tanto ser espinafrada, a mulher desceu na primeira sinaleira que paramos. Bateu a porta e se foi sem falar nada. O homem sequer olhou para trás.
     A preocupação do meu passageiro era qual desculpa daria quando chegasse em casa. Confessou que era um mulherengo incurável. Não resistia a um rabo de saia. Sua mulher já o teria prevenido que a próxima que ele aprontasse seria a última. 
     Não deu outra. Enquanto pagava a corrida, o porteiro do prédio o aconselhou a não dispensar o táxi pois seus pertences tinham sido depositados na portaria. Tinha ordens de não deixá-lo subir. A mulher não queria falar com ele nem pelo interfone. Aparentando calma, meu passageiro aceitou as determinações da mulher. Vamos nessa.
     Ele não tinha muita coisa: duas mochilas, um poster do Che Guevara e um violão. O passageiro contou que sua verdadeira mulher mora na Bahia, de onde veio para trabalhar nas obras da Arena do Grêmio. A mulher que acabara de despejá-lo, tinha encontrado em um baile, estavam morando juntos havia alguns meses.
     Deixei-o em um alojamento em Canoas onde foi recebido com festa por outros trabalhadores baianos. Pelo visto, os peões o tinham como ídolo. Um baiano arretado, bom com o violão e com as mulheres, segundo garantiram. 
     Sei lá. Não o vi tocando o violão.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Terrível lembrança de um acidente

Com a violência da colisão, o taxista perdeu a consciência. Quando voltou a si, o táxi já havia parado de capotar. Tudo em volta estava quebrado, o táxi virara um monte de ferro retorcido. Vidros quebrados, teto esmagado, taxímetro pendurado. Para não dizer que a perda tinha sido total, o rádio ainda funcionava.
Em estado de choque, esmagado entre as ferragens que lhe perfuravam a carne, o taxista sequer tentou se mexer. O sangue quente lhe escorria pela face. O volante prensava seu peito, as costelas, provavelmente quebradas, impediam que seus pulmões funcionassem direito. Não sentia as pernas, a cabeça girava. Sentiu que estava morrendo.
Alguns minutos de agonia se passaram até que o socorro chegasse. Primeiro alguns pedestres, que o olhavam horrorizados, depois os paramédicos. O taxista sentiu-se o centro das atenções, coisa que nunca conseguira em toda sua vida sem graça. Quase ficou feliz. 
O socorrista fazia o que podia. Tentava acalmá-lo. Parecia experiente. Não devia ser a primeira vítima que via morrer entre as ferragens frias de um carro estúpido. Enquanto recebia medicação na veia, enquanto tentavam desentortar o aço que lhe prendia as pernas, o taxista fez apenas um pedido: que desligassem aquele maldito rádio, para que pudesse morrer em paz. E depois apagou.
Acordou 7 dias depois na UTI de um hospital. Estava todo estoporado. Cabeça enfaixada, braços engessados, tubos espetados por todo corpo. Doía-lhe tentar se mexer, mesmo assim fez alguns pequenos movimentos com pés e mãos, para certificar-se de que não lhe faltava nenhum pedaço. Estava inteiro.
O enfermeiro sorriu ao vê-lo acordado. Perguntou se lembrava o que tinha acontecido.
Do acidente, o taxista lembrava apenas uma coisa. O rádio ligado. A maldita música que estava tocando e que ficou ecoando em sua cabeça pelos 7 dias em que esteve em coma, e ainda agora o infernizava: Delicia, delicia assim você me mata/ Ai, se eu te pego, ai ai se eu te pego......

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um lindo Picasso preto!


     A mulher era uma loira turbinada, apresentadora de um programa de tevê de um desses canais comunitários que ninguém assiste. Ela recebeu uma verba do produtor do tal programa (seu marido) para comprar um carro, que serviria para as reportagens. E lá foi a loira para a região dos picaretas de automóveis.
     Ela entrou em uma loja de carros usados que fica ao lado de um motel. Depois de fechar negócio, a loira saiu da revenda exultante. Depois de caminhar um tanto pela calçada, resolveu pegar um táxi. Quando fez sinal, estava bem em frente ao motel, por isso a confusão. Tão logo embarcou no táxi, ela iniciou uma ligação para contar ao marido que tinha comprado o carro. A conversa ao telefone, da loira que pegou o táxi em frente ao motel, foi mais ou menos essa:
     - Oi, amor, nem sabe, fiquei com o Picasso preto! Aquele que estava namorando na internet... Ao vivo ele é muito mais lindo, cheiroso,  enorme, muito potente! Tu sabe como é que eu sou, né?, tu sabe que eu me apaixono mesmo... Deu vontade de não sair mais de dentro dele, amor!
     Quando o taxista perguntou se ela fazia programa, a mulher ficou admirada. Finalmente havia encontrado alguém que conhecia seu programa, naquele miserável canal de tevê que ninguém assiste. 
     Comigo aconteceu algo semelhante. Uma mulher com uma roupa justa e o rosto carregado de botox embarcou no meu táxi falando ao celular. Ela afastou por um segundo o aparelho da boca para dar o destino da corrida, que eu entendi como sendo "Motel Sharewood" - um bom motel da zona leste da capital.
     A conversa que ela continuou ao telefone, porém, acabou mudando a primeira impressão que tive da minha passageira. Ficou claro que ela não era nenhum tipo de prostituta, nem estava indo para nenhum motel. Eu tinha entendido mal. Ela era uma empresária e estava indo para o melhor hotel da cidade: Hotel Sheraton! Por sorte, desviei para o destino certo antes que ela  percebesse o mal-entendido.
     Nossa mente suja é o problema.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ela só pensa naquilo


Fazia muito tempo que eu não levava uma cantada no táxi. Com o passar dos anos, o avanço da calvície, o branquear dos cabelos que restaram, enfim, as mulheres já não me olham como antes. A postura profissional também ajuda a manter a distância. Não costumo misturar as coisas. Seja como for, a cantada me surpreendeu.
     Parei o táxi com a porta traseira exatamente onde a passageira estava parada, mas ela pediu que eu voltasse o carro, para que embarcasse na frente, ao meu lado. Ela não queria estragar as unhas, pediu que eu abrisse a porta, a ajudasse com o cinto de segurança. Tive quase que abraçá-la para pegar a fivela. Vamos lá.
     A passageira contou que detestava Porto Alegre. A cidade grande, a correria, os homens afrescalhados - foi nesse ponto que a conversa começou a ficar estranha. Enquanto reclamava dos homens que não olhavam mais para ela, pousou sutilmente a mão em minha perna. A princípio achei que fosse um gesto carinhoso. Deixa estar.
     Minha cliente contou que havia "matado" dois maridos. O primeiro teria morrido com apenas 5 meses de casamento. O segundo, teria durado 2 anos. Desde então, não teria mais arrumado um homem que prestasse. Queixou-se que, de uns anos para cá, ninguém mais queria saber dela. Nesse ponto, dei um jeito de tirar sua mão da minha perna.
     Com os olhos de malícia ampliados pelos óculos de lentes enormes, ela perguntou se eu era casado, se eu traía minha mulher, esse tipo de coisa - sempre pontuando a conversa com variados tipos de palavrões. Dei um jeito de satisfazer a curiosidade de minha passageira com o mínimo de intimidade. Ela ficou desapontada quando recusei-me a fornecer meu número de celular.
     No final da corrida, qual uma Dercy Gonçalves dos pampas, ela pediu que eu alcançasse sua bengala, que, segundo ela, era a única coisa dura que pegava havia muitos anos (!). Fiquei impressionado quando ela me revelou sua idade: 93 anos. Se tivesse perguntado, eu lhe daria, no máximo, uns 92.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Uma história sem moral

Não foi difícil calcular a idade da minha passageira: ela disse que se prostitui desde os 12 anos de idade e que trabalha nisso há 50 anos. Sessenta e dois, portanto. Ela estava indo ao médico. Disse que tem uma grave doença que a está deixando cega. Confessou, no entanto, que isso não a impede de trabalhar pois passa a maior parte do tempo de olhos fechados mesmo. Disse que não se interessa pela aparência dos seus clientes.
Depois de trabalhar nas melhores casas noturnas da cidade, onde era uma das acompanhantes mais requisitadas, ela contou que agora faz ponto na rua, à beira da Avenida Borges de Medeiros, "há 30 anos embaixo da mesma árvore". Foi mãe cedo, quando teve um caso com um jovem jogador de futebol, que mais tarde tornou-se um megaempresário do esporte. Minha passageira disse que orgulha-se de ter o nome dele na certidão do filho, mas que nunca pediu-lhe um centavo por isso.
Pode ser apenas uma prostituta decadente querendo impressionar um taxista, mas a mulher me pareceu verdadeira.
Por outro lado, temos uma passageira no nosso ponto que se relaciona com 2 homens casados, mais velhos. Há cerca de  2 anos ela engravidou provavelmente de um terceiro namorado, um jovem drogadito com quem anda sempre. Agora, a mulher explora seus amantes casados fazendo cada um deles acreditar que é o pai da criança - situação que eles aparentemente aceitam.
Dia desses, ela pegou meu táxi. Passou no emprego de um dos "pais" que lhe abasteceu de dinheiro. Depois, fomos até uma loja onde o outro "pai" a esperava com uma tevê de plasma na caixa. Sempre com o filho no colo, ela mandou que enfiassem a televisão no táxi e levou direto para o jovem delinquente, que deve trocar o aparelho por drogas.
O pior é que ela ensinou a inocente criança a chamar os 3 homens de pai, o que soa ridículo ao ouvido do taxista que a leva de um endereço ao outro.
Deve haver alguma moral nessas duas histórias, só não sei onde está.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O homem que arrastava os pés

Aconteceu que eu peguei uma corrida longa, para a zona norte. Para não voltar rodando vazio, resolvi parar em um ponto, que estava vago por lá. Abri a porta do táxi, reclinei um tantinho o banco e relaxei, apreciando a paisagem. Foi quando cruzou em frente ao meu táxi o mendigo que arrastava os pés.


Era um desses típicos moradores de rua. Roupa encardida, barba longa e um charuto apagado no canto da boca. Levava um saco nas costas e um colchonete enrolado embaixo do braço. O pobre homem tinha um companheiro, um cachorro de raça indefinida. O bicho se deixava levar atado à cintura do mendigo. 
Como já disse, o homem arrastava os pés. Ele calçava uns sapatos muito grandes. Mas muito grandes mesmo. Deve ter herdado de algum jogador de basquete. A fim de não perder os pisantes, o mendigo arrastava os pés como se estivesse patinando no gelo em câmera lenta.
Inspirado na cena, comecei a rascunhar uma crônica sobre essas figuras folclóricas que toda cidade grande tem. Pessoas que vivem em seus universos particulares. A moça que acha que é dona de Porto Alegre e anda pela rua vestida de rainha; O garoto que corria pela avenida Nonoai dirigindo um carro imaginário do qual, na verdade, só tinha o volante; A mulher que acha que é agente de trânsito e vai para os cruzamentos apitar...
Estava distraído, escrevendo essas coisas, quando bateram na janela do táxi. Era o mendigo que havia voltado. Com o charuto balançando perigosamente entre os lábios, ele perguntou se eu poderia trocar R$50. Achei engraçado e resolvi entrar na brincadeira. Disse que sim.
O homem, então, tirou do bolso um feixe de notas de R$50. Novinhas. Devia ter mais de mil reais! Ele escolheu, com cuidado, uma entre todas as notas (talvez a menos nova) e me passou. Devolvi o dinheiro trocado. Ele agradeceu, guardou o dinheiro sem conferir, resmungou alguma coisa para o cachorro e se foi - arrastando os pés para não perder os sapatos.
A cidade não cansa de me surpreender.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Homens e outros animais domésticos

A passageira me reconheceu quando entrou no táxi. Ela refrescou minha memória. Havia feito uma corrida muito tempo atrás. Tinha praticamente se jogado na frente do meu carro. Estava desesperada pois tinham ligado para o serviço dela dizendo que seu gato estava pendurado na sacada do seu apartamento, prestes a se esborrachar no chão.

Lembrei-me da corrida. Foi uma correria danada. Lembrei que ela havia dito que não era a primeira vez que o gato caía da sacada. Para evitar outro acidente, tinha colocado uma rede de contenção, mas de alguma forma o bicho tinha passado para fora e estava pendurado. Lembro que chegamos em frente ao prédio e o gato não estava mais lá. Ela, então, pagou a corrida e saiu correndo condomínio adentro.
Desta vez a mulher estava calma, descontraída. Falou que acompanhou por algum tempo minha coluna do jornal para ver se eu contaria a história da corrida para salvar um gato. Contou que o gato havia sobrevivido à queda da sacada, mas que, algum tempo depois, fora devorado por um pitbull. Ao que parece, esgotaram-se as 7 vidas do animal. 
Minha passageira contou que, depois do episódio do gato, tinha tentado ainda outro animal de estimação. Ela teria comprado um pequeno roedor, mas o bicho também tinha morrido de forma trágica. O animal teria roído o fio do ar condicionado e levado um choque de 220w. Depois do churrasquinho de Hamster, ela disse que encerrou sua relação com a bicharada.
Espirituosa, a mulher disse que, no momento, tem dedicado sua atenção a um outro tipo de gato: um certo motorista de ônibus que faz seu coração bater mais forte. Um verdadeiro gatinho, segundo ela. 
Fui obrigado a concordar com minha bem-humorada passageira. Realmente, o bicho homem, quando bem tratado, é um animal doméstico dócil, que não causa maiores problemas. Por via das dúvidas, no entanto, aconselhei minha cliente a manter a rede de contenção na sacada. A liberdade é a pior tentação.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Perfume de mulher

Minha passageira era uma morena de parar o trânsito: pernas longas como esperança de taxista, cabelos cacheados e sedosos caindo sobre os seios fartos que a blusa mal conseguia conter. E foi justamente em um destes seios que a beldade foi buscar o dinheiro para pagar a corrida.                      
Em um gesto rápido, ela soltou um botão e a blusa abriu-se aliviada, ampliando ainda mais o já generoso decote. Com habilidade cirúrgica, a morena afastou o soutien até o limite do aceitável e tirou de lá o dinheiro - todo o processo acompanhado em detalhes por meu olho vidrado.
Cheguei no ponto contando vantagem, todo prosa. Mostrei, inclusive, a cédula passada pela morena, que guardei na carteira, entre meu dólar da sorte e o trevo de quatro folhas. Meu colega Biela, no entanto, fez pouco caso. Disse que teve um caso semelhante, porém bem mais cabeludo. No caso do Biela, o furo é mais embaixo.
Meu colega contou que sua passageira também era linda como a flor que nasce entre as pedras. Igualmente morena. Mas estava sem dinheiro. Chegando ao destino da corrida, em uma vila pobre, ela chamou pela mãe, uma mulher gorda, suada, que estava sentada na calçada fumando e limpando as unhas com uma faca. Um vira-lata sarnento observava a cena. 
Ao ver a filha chegar no táxi, a mulher, sem a menor cerimônia, esticou a cintura da calça e enfiou a mão dentro da calcinha, na parte da frente, lá no fundo, e tirou de lá uma nota de R$10 para pagar a corrida. Segundo Biela, a cédula cheirava mal e tinha um aspecto "viscoso", como se estivesse guardada lá por algum tempo.
Com o estômago embrulhado, meu colega disse que foi obrigado a aceitar a nota, já que era a única de que a gorda dispunha. Pediu que a mulher jogasse o dinheiro sobre o banco do táxi e partiu. Biela contou que deixou a cédula ali por algum tempo, pegando um ar.
Biela disse que usou a tal nota para comprar um aromatizante para o carro. Já a minha carteira segue naturalmente perfumada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Você já sentiu muito medo?

Meu nome é Danilo, sou taxista da noite, bandeira dois, e a situação é a seguinte: É meia-noite e tanto, acabo de pegar uma passageira saindo de um velório. Ela queria que eu a levasse até um dos bingos clandestinos da Azenha. Como informei que polícia havia fechado todos, pediu que a levasse, então, para sua casa, na Ilha das Flores, periferia mais pobre e afastada da capital. A passageira disse que é mulher de um traficante, não quer muito papo, está encolhida no banco traseiro com a mão dentro da bolsa. Vou ser assaltado. Certo.

 Meu nome é Cleide, sou faxineira, diarista, e a situação é a seguinte: Peguei um táxi com um motorista suspeito, grandalhão, barba por fazer, fazendo muitas perguntas. Caí na asneira de dizer que ia para um bingo, portanto ele sabe que tenho dinheiro. Fiz a besteira maior ainda de pedir que me levasse até minha casa, na Ilha das Flores. Vou percorrer um caminho deserto, escuro, junto a um tipo ameaçador. Menti que meu marido trabalha com drogas, para ver se ele não me assalta. Estou morrendo de medo, agarrada à imagem de Nossa Senhora Aparecida que carrego na bolsa.

 A passageira ligou para o marido pedindo para ele esperá-la "na ponta do beco". Deve ser algum tipo de código, pensa o taxista. No rádio, a notícia de que um colega morreu esfaqueado - um taxista trabalhador de 78 anos. Danilo entra em pânico. Agarra-se à sua correntinha de Nossa Senhora Aparecida.

 O taxista está com a mão dentro da camisa. Deve ter uma arma, pensa a passageira. O rádio anunciou a morte de um colega dele, agora o miserável vai se vingar em mim. Cleide Liga para seu marido, coitado, um aposentado por invalidez, incapaz de matar uma mosca, pede que ele a espere na ponta do beco.

 Ao receber pela corrida, o taxista ficou tão feliz que a passageira até estranhou - teria sido os R$3 de gorjeta? Danilo teve vontade de abraçar Cleide, jogar-se aos seus pés. Teria feito isso, não fosse o marido inválido observando na ponta do beco.

domingo, 20 de novembro de 2011

Uma passageira cansativa

O telefone do ponto toca e eu atendo. A passageira solicita um táxi com urgência, pois está atrasada. Ela informa seu endereço e pergunta se sei onde fica. Mesmo confirmando que conheço a rua, ela faz questão de me orientar (em detalhes) como chegar até lá. Ela informa que estará esperando na porta.

Depois de esperar um bom tempo em frente ao prédio, resolvo ver por que a mulher não aparece. Pelo interfone, ela me explica que teve uma "indisposição estomacal", mas que já está descendo. Espero mais meia hora.

Quando finalmente aparece, a mulher vem caminhando calmamente. Está acompanhada do marido. O homem senta atrás e ela ao meu lado. Com a porta aberta e uma perna para fora do táxi, ela começa a discutir qual itinerário seria o mais rápido. Passamos longos minutos nessa situação até que ela, enfim, decide-se por um caminho alternativo.

Mais tarde, quando dobro para o tal caminho escolhido, ela me pergunta se não teria sido mais rápido pelo trajeto tradicional. Finjo que não ouço a pergunta. Ela, então, grita para o marido. O homem aponta para o ouvido, diz que o aparelho auditivo está ruim. Que nada, desconfio que ele está é cansado de ouvir a mulher.

Mais adiante a passageira pede que eu abra um pouco a janela. Logo diz que abri demais. Eu fecho. Ela protesta, dizendo que fechei demais...e assim vamos até achar a altura exata do vidro.

No fim da corrida, a passageira elogia minha paciência e pede o número do meu celular. Digo que não tenho telefone. Mal acabo de falar e meu celular começa a tocar (droga!). Fico impassível, olhando nos olhos da mulher. Ela fica me olhando também, olhos nos olhos, esperando que eu atenda o aparelho. O "surdo" do banco de trás avisa que está ouvindo um celular. Miserável!​

Por fim, a mulher entende que não a quero como cliente, baixa os olhos e se vai, xingando o marido que finge não escutá-la. Ando selecionando minha clientela: de chato, basta eu.

domingo, 13 de novembro de 2011

Viva la vida!

Dia de finados. Uma linda manhã de sol em Porto Alegre. Venho descendo o Morro Santa Tereza quando avisto uma senhora acenando para meu táxi. Estranhamente, ela está sentada em uma pedra na calçada. Em um dos braços, segura um punhado de flores.

Ela embarca com dificuldades. Está com muita falta de ar. Ofegante, ela pede que eu a leve até o cemitério, está indo visitar seu falecido esposo. Conta que tem graves problemas respiratórios, que está cansada da vida e que não vê a hora de juntar-se ao marido, que morreu há 5 anos.

Rodadas algumas quadras, a mulher silencia. Parecia ter dito o que havia para dizer.

Mais adiante, desconfiado, dou uma espiada de canto de olho para o banco traseiro. A passageira está com a cabeça levemente caída, uma das mãos está enfiada entre as pernas. O outro braço está distendido, parte das flores soltas sobre o banco. É quando começa minha aflição.

Quando paro em um sinal, dou uma olhada mais atenta na mulher. Ela pode ter dormido, tem a boca entreaberta, mas é difícil ter certeza, minha mente criativa diz que ela pode ter morrido. Antes que eu possa notar se seu peito está se movimentando, o sinal abre e eu tenho que seguir.

Entro em paranoia. Começo a imaginar a confusão. Eu pedindo ajuda: "ela morreu, ela morreu!". Os curiosos em volta do meu táxi, a polícia, os repórteres, o carro recolhido para perícia. Vou perder o dia dando explicações em uma delegacia.

No auge do meu desespero, um cachorro atravessa na frente do meu táxi! Com a freada a passageira desperta, dá um grito, joga as flores para cima! Está mais viva do que nunca, tanto que me xinga por tê-la assustado!

No final da corrida, despeço-me da mulher desejando uma feliz visita ao cemitério, um ótimo dia de finados, falo da beleza da vida e outras besteiras. Ela fecha a cara e me xinga outra vez. Azar, o importante é que o cachorro escapou, minha passageira "ressuscitou" e a vida segue seu curso.

Próxima corrida!

domingo, 6 de novembro de 2011

Sorte é para quem tem

A velhinha embarcou no táxi abatida. Estava saindo de uma sessão de hemodiálise. Ao longo da corrida, o taxista ouviu da idosa um relato de desesperança. Ela confessou que tinha pouco tempo de vida pela frente. Sem perspectiva de doação, devido à idade, restava-lhe apenas esperar que a morte lhe abreviasse o sofrimento.

Chegando em casa, dois jovens esperavam pela idosa em frente ao portão. Seus netos. Não deixaram que ela desembarcasse, precisavam da assinatura da avó, que ficara faltando em um empréstimo que estavam tirando em nome dela. Não adiantou a velha argumentar que estava cansada. Eles tinham pressa. O banco ia fechar.

Pediram que o taxista aguardasse em frente ao banco, seria rápido. Depois de conseguirem a assinatura, voltaram com a velhinha a tiracolo. Os netos desceram em um shopping depois de se despedirem da avó sem muita cerimônia. Nem um obrigado.

No caminho para casa o taxista perguntou à passageira se ela importava-se que ele parasse rapidamente em uma lotérica. Era o último dia para apostar na Mega-Sena. Ela concordou, inclusive pediu que ele marcasse um bilhete para ela também com números que lhe viessem à cabeça.

O taxista, que apostava toda a semana, fez o bilhete da passageira com números aleatórios, depois marcou seu próprio jogo, com os seus números de sempre, que já apostava havia anos. Pagou pelas duas apostas.

A velhinha beijou o taxista na despedida, como adivinhando que não viveria para uma próxima corrida.

Só mais tarde, o taxista notou que havia trocado os bilhetes: tinha ficado com a aposta da passageira. Ainda pensou em voltar à casa dela para desfazer o engano, mas achou melhor deixar que a idosa, por fim, descansasse. Ela não notaria a diferença mesmo.

O taxista, que trabalhava como empregado, deixou apenas um bilhete despedindo-se do patrão. Sequer levou o percentual da féria a que tinha direito. Mudou-se, desligou o celular e nunca mais foi visto por ninguém.

O dono da aposta premiada pediu à Caixa que não revelasse seu nome.

domingo, 30 de outubro de 2011

O gordinho da motocicleta

Eu estava com o táxi atravessado na calçada, pegando uma passageira. Quando ela embarcou, eu engatei a marcha à ré e iniciei a manobra para voltar à rua. Nesse exato momento, um motoqueiro parou atrás do meu táxi inadvertidamente. Por pouco eu não bato no infeliz!

Mesmo vendo que eu estava com a luz de ré ligada, que estava manobrando, o mangolão não tirava a moto de trás para que eu pudesse sair. Ficamos por alguns segundos nesse impasse, até que fui obrigado a buzinar, e pedir que ele desobstruísse o caminho.

Quando, por fim, consegui sair, o motoqueiro me chamou. Foi quando percebi que ele não estava atrapalhando por mal. Na verdade, o rapaz estava mais perdido que cachorro em dia de mudança. Era um gordinho simpático, com o capacete meio torto e um jeito de quem tinha tirado a carteira há pouco. Ele queria saber como chegar ao Banco do Brasil da Azenha.

Como eu estava indo para aquele lado, sugeri que ele me seguisse. A muito custo o gordinho conseguiu manobrar a moto e saiu, aos trancos e barrancos, atrás de mim.

Por dirigir controlando o motoqueiro no retrovisor, acabei não vendo que o sinal à minha frente estava fechando. Passei com o semáforo amarelo, já passando para o vermelho! O gordinho da moto, que vinha mais atrás, com o olho pregado no meu táxi, também não viu o sinal, que, a essa altura, já havia fechado fazia tempo.

Um carro que vinha em alta velocidade atravessando o cruzamento freou em pânico. Os quatro pneus cantando no asfalto. O gordinho, apavorado com a barulheira, também freou, deixando a moto apagar no meio do cruzamento! O carro veio derrapando e parou a centímetros da moto, com a fumaça dos pneus queimados tapando tudo! Uma cena horrorosa, assistida pelo retrovisor, que jamais vou esquecer.

A passageira, distraída, não percebeu nada, sequer notou meu olho arregalado. Pediu apenas que eu me apressasse, pois estava atrasada... Tratei de respirar fundo e acelerar.

Vamos em frente, que atrás não vem ninguém.

domingo, 23 de outubro de 2011

Crônica de um abandono

Já passava da meia-noite, o taxista descia a avenida João Pessoa quando viu o casal fazendo sinal na calçada. O homem segurava um estojo de violão, a mulher, agarrada ao seu braço, parecia estar com frio.

Ele era músico, tinha largado o bar em que estava tocando para resolver um problema com a mulher. Tentava convencê-la de que tinham feito a coisa certa. Ele era casado, ela precisava entender. Ele prometia que ia conseguir o dinheiro que ela precisava. Havia tirado um empréstimo. O dinheiro serviria para ela comprar um barraco na vila. Ele também prometia um emprego para ela na firma de um amigo. Tudo ia ficar bem.

Ela não falava nada, estava drogada, dopada. Tentava em vão secar a coriza que lhe escorria pelo nariz. Secar os olhos. Não estava resfriada, não estava com frio. Ela chorava em silêncio.

O homem passou o dinheiro para a corrida e pediu que o taxista levasse a mulher para casa, na Vila Jardim. Antes de desembarcar, abraçou-a longamente, pediu que ela tomasse o remédio e dormisse o máximo possível. Jurou que a amava.

Ela não foi para casa. Pediu que o taxista a levasse até um bordel no bairro Navegantes. Lá, as colegas já a esperavam na porta. Quando a mulher contou o que havia feito, as prostitutas enlouqueceram. Nem a deixaram descer do táxi. Embarcaram todas e mandaram tocar para a avenida João Pessoa, antes que fosse tarde demais.

As mulheres falavam todas ao mesmo tempo. Diziam que ele não conseguiria dinheiro nenhum, emprego nenhum, ele ia sumir da vida dela. Ela podia ser puta, viciada, não ter casa, mas tinha amigas. Elas dariam um jeito.

A mulher estava atordoada. Não sabia qual era o contêiner exato - os malditos contêineres de lixo eram todos iguais. Felizmente o caminhão da coleta ainda não havia passado.

Um taxista e quatro prostitutas em uma busca desesperada por vários contêineres, até que acharam a criança recém nascida, abandonada, inocente, dormindo entre os sacos plásticos como se nada tivesse acontecido.

domingo, 16 de outubro de 2011

A um passo da loucura

Tenho uma passageira que passou no vestibular este ano. Está cursando farmácia. Ela tem cerca de cinquenta anos de idade. Não pensem que ela está feliz.

Há muitos anos, a filha única desta minha passageira foi assassinada na saída da faculdade por dois bandidos que pretendiam roubar seu carro. Depois de muitos anos de análise, a mulher resolveu realizar o sonho que a filha deixou pela metade. Está estudando na mesma instituição de ensino, usando o mesmo material que a filha utilizava.

Mais de uma vez ela caiu em prantos no táxi a caminho da aula. Ocorre que, volta e meia, ela descobre alguma anotação que a filha deixou em seus livros, alguma cola perdida entre as folhas, o nome bordado no mesmo guarda-pó que ela usa. Esses pequenos detalhes reabrem a ferida que talvez nunca cicatrize.

Caso semelhante, porém um tanto mais grave, aconteceu com um passageiro, aparentemente normal, que carreguei esses dias. Ele pediu que eu entrasse com o táxi em um cemitério parque. Foi guiando-me pelas ruelas do cemitério até um local onde disse que estava a sua mãe.

O homem desceu do táxi, parou em frente a uma lápide que jazia no gramado e começou a chamar por sua mãe. Ele gritava, como se a mulher fosse ouvi-lo dentro do túmulo.

Eu tentei chamá-lo à razão, lembrei que precisava pagar a corrida, mas o passageiro ficou nervoso, pediu que eu esperasse, que sua mãe resolveria tudo, que ela sempre resolvia tudo.

Contando assim parece engraçado, mas a situação foi tensa. O homem falava sério, estava descontrolado. Ficou claro que não se tratava de uma brincadeira, de alguém que não queria pagar a conta. Tratei de fechar a porta do táxi e saí pela tangente. Pelo retrovisor ainda vi meu passageiro ajoelhando-se na grama, aos prantos, tentando comunicar-se com sua falecida mãe.

A dor de uma ausência leva a uma tristeza profunda, que fica a um passo da loucura.

domingo, 9 de outubro de 2011

Mas que barbaridade, tchê!

O gaúcho que me fazia sinal parecia estar saindo de um desfile Farroupilha: pilchado a rigor, do chapéu quebrado na testa às botas de garrão de potro. Ele entrou no táxi me cumprimentando à moda gaudéria, com um sotaque carregado, da fronteira. O xiru era mesmo mais grosso que dedo destroncado!

O passageiro disse que, com a mudança para Porto Alegre, andava mais perdido que cego em tiroteio, mas não adiantava comprar um gps, pois era capaz de pegar um touro pelas ventas, mas não tinha o menor jeito com botões. Disse que havia comprado um DVD, mas não atinava como colocar o filme a rodar:

Ao ver que eu tinha facilidade com eletrônicos, o homem propôs pagar um tanto a mais além da corrida, para que eu lhe explicasse como funcionava o tal aparelho de DVD. Vamos lá, índio velho!

O gaúcho pediu que eu entrasse com o táxi no condomínio. O porteiro, ao ver-nos entrar, lançou-me um sorriso enigmático. Achei que ele talvez tivesse me reconhecido do jornal e fiz um sinal de positivo.

Enquanto entrava pela casa, o gaúcho foi se desencilhando. Bota para um lado, lenço para outro... O DVD problemático estava no quarto. Ele pediu que eu ficasse à vontade, enquanto ele ligava os equipamentos. Perguntou se eu não queria beber alguma coisa. Agradeci, disse que estava com pressa.

O gaúcho ligou a televisão, colocou o disco no DVD e nada aconteceu, continuava passando a novela da tarde. Muito simples, expliquei que ele precisava colocar a tevê no canal de vídeo e mostrei o botão no controle. Assim que ele apertou a tecla, o filme apareceu na tela: uma cena ardente em que dois homens musculosos faziam sexo à beira de uma piscina! Mas bah, tchê!​

A sorte é que eu tinha cobrado adiantado pelo serviço. Enquanto eu saía porta afora, o gaúcho (já sem camisa) tentava convencer-me a assistir o filme com ele. Sem chance, meu velho!

Na saída, o porteiro informou que eu já era o terceiro taxista "seduzido" pelo gaúcho naquela semana.

domingo, 2 de outubro de 2011

Um passado para esquecer

O passageiro entrou no meu táxi, sorriso largo, chamando-me pelo nome, perguntando como eu andava e estendendo-me a mão. Enquanto o cumprimentava, devolvi um sorriso amarelo e um olhar apertado, como quem diz "lembro-me de ti de algum lugar...". Só reconheci o sujeito quando ele lembrou que eu levava suas filhinhas gêmeas para o balé, isso há mais de 10 anos. Tive vontade de soltar sua mão de imediato, mas deixei que o cumprimento se desfizesse naturalmente, assim como meu sorriso amarelo.

Não foi à toa que não reconheci meu antigo passageiro. Apesar de ter sido seu taxista de confiança por algum tempo, ele agora estava bastante mudado: barba por fazer, muito mais magro e usando roupas bem comuns. Eu lembrava-me dele como um homem rico, arrogante, que desfilava com carros potentes e lindas mulheres.

A mudança na aparência, na certa, era proposital. Na época que deixou de usar meu táxi, o passageiro estava sendo acusado pela morte da ex-mulher. Ela tinha sido encontrada morta em seu apartamento. Com o transcorrer das investigações, o que parecia um caso de latrocínio transformou-se em homicídio. O ex-marido como o principal suspeito.

Em um processo rumoroso, o homem foi julgado, condenado e baixou o presídio (sempre jurando inocência).

Foi uma corrida estranha, para dizer o mínimo. Ele evitou o assunto do crime, preferindo falar das filhas, com quem diz estar tentando uma reaproximação. Uma está casada, em São Paulo, e a outra morando no Canadá.

Convertido evangélico, meu passageiro agora usa a palavra "misericórdia" como pontuação, entre uma frase e outra. Disse que descobriu a Palavra do Senhor na prisão, assim como minha coluna no Diário Gaúcho - segundo ele o jornal mais popular entre os "apenados".

Deixei-o em uma revenda de carros onde trabalha atualmente. Durante a corrida, acabei lembrando que ele ficara devendo algumas corridas, dez anos atrás. Achei melhor não cobrar. Ele parece o tipo de passageiro que um taxista não deve irritar.

domingo, 25 de setembro de 2011

Surpresas de um amor ligeiro

Tudo levava a crer que aquela seria a melhor corrida do dia. Antes de embarcar no táxi, a mulher explicou que precisava ir a mais de 10 endereços, em vários pontos da cidade. Edifícios comerciais, de escritórios. Demoraria pouco tempo em cada lugar. O taxista vibrou: a corrida valeria pela féria de um dia inteiro!

Logo, porém, o taxista percebeu que aquela empreitada poderia render-lhe mais que uma boa soma em dinheiro. Já nas primeiras etapas da longa corrida, taxista e passageira passaram a conversar como se fossem velhos amigos. Houve uma identificação instantânea. Não tardou a darem as primeiras gargalhadas, trocarem as primeiras confidências. A química do amor estava acontecendo.

A cada nova parada, o taxista ficava mais excitado. Quando via a passageira voltando para o táxi, seu coração disparava. Ela mostrava-se ainda mais empolgada. Contou que fazia a corrida toda a semana, sempre com um taxista diferente, mas de agora em diante seria sempre com ele. Dizia isso olhando no fundo dos olhos do taxista, como que antevendo os momentos mágicos que passariam juntos.

Depois de visitar o último endereço de sua longa lista, a passageira voltou e sentou no banco da frente. Pousando a mão sobre a perna do taxista, pediu que ele a levasse até um determinado shopping. Queria comprar um presente para ele. Depois, queria que ele a levasse a um lugar sossegado, para que ficassem a sós.

Enquanto esperava no estacionamento do shopping, o taxista ligou para a esposa dizendo que trabalharia até mais tarde. Colocou um chiclete na boca, penteou-se, reforçou o desodorante. Por fim, reclinou o banco e relaxou.

O taxista acordou com o vigilante avisando que o estacionamento estava fechando. Era tarde, não tinha mais ninguém no shopping. Ele só se convenceu de que a passageira o havia passado para trás quando um colega confessou que tinha caído no mesmo golpe da bonitona que usa os taxistas para distribuir drogas pela cidade e some sem pagar a corrida.

domingo, 18 de setembro de 2011

Uma corrida qualquer

O taxista teria uma longa segunda-feira pela frente. Depois de despedir-se da esposa com um beijo protocolar, depois de largar os filhos no colégio, depois de abastecer o táxi, era hora de encarar um dia de muito trabalho, recheado de vários compromissos chatos. Apenas mais um dia sem promessas, como tantos.

Antes de mais nada, precisava lavar o carro, que estava imundo. Tinha uma corrida tratada para o meio da manhã, tinha que passar no sindicato para acertar as mensalidades, precisava regularizar a aferição do taxímetro, tinha que pagar as taxas para a vistoria semestral. Passaria na oficina para verificar um barulho que surgira na suspensão... Tudo isso ainda pela manhã!

À tarde mais duas corridas marcadas, precisava trabalhar, trabalhar muito. O taxista era um pai de família extremado, precisava levar dinheiro para casa, precisava arrumar o telhado com goteira, falar com um encanador para ver a infiltração no banheiro, precisava pagar o aluguel... Enquanto cuidava de tudo, precisava trabalhar. Correr atrás da máquina.

Mas naquela segunda-feira, a primeira passageira a embarcar naquele táxi fez tudo mudar.

A mulher entrou no táxi como uma brisa morna de setembro entra em uma casa depois de um longo inverno. E o taxista sentiu o coração acelerar, e a pele arrepiar, e um frio percorrer a espinha, como já não sentia há muito tempo. Enquanto redescobria o amor, o taxista já não lembrava mais da vistoria, do sindicato, do barulho na suspensão, das corridas marcadas. Antes do fim daquela corrida, ele já estava apaixonado por aquela mulher e sua vida já havia mudado de rumo.

O processo de separação, a divisão dos bens, a pensão alimentícia, a nova casa que teve que alugar (com muito mais goteiras e infiltrações), tudo ficou em segundo plano para aquele taxista que redescobriu o amor em uma segunda-feira qualquer, em uma corrida que parecia igual a qualquer outra.

domingo, 11 de setembro de 2011

Bom trabalho!

Pela segunda vez na mesma semana, eu estava levando a passageira para o mesmo motel. Depois de identificar-se na portaria e informar o quarto em que estava sendo aguardada, a mulher foi autorizada a entrar. Enquanto descia do táxi, ela despediu-se desejando-me bom trabalho, ao que eu retribui com um automático "igualmente". Ela apenas sorriu e se foi.

Dias mais tarde, a mesma passageira apareceu novamente no ponto. Desta vez, trazia uma criança de colo e estava acompanhada por um soldado. Ao ver que era eu o taxista, lançou-me um sorriso amarelo. O militar era seu marido. Levei-os até uma escolinha onde pretendiam matricular a criança. Eram moradores novos no bairro.

Logo o assunto começou a circular entre os taxistas. Outros colegas de ponto também haviam levado a mulher para o motel. Estava claro que ela tinha um amante, ou estava fazendo programas. O marido militar saía sempre muito cedo, com cara de poucos amigos, arma na cintura. Mais tarde, a mulher pegava um táxi, toda cheirosa, e ia para o motel.

Quando o casal passeava pelo bairro, mãos dadas, filho no colo, os olhares de malícia dos taxistas eram inevitáveis. Alguns chegavam a fazer perigosos comentários entre si, que felizmente não chegavam até os ouvidos do marido. Estava claro que era uma situação altamente inflamável, qualquer risadinha mais alta poderia acabar em tragédia.

Certo dia, o casal embarcou no meu táxi. Depois de deixar a criança na escolinha, o marido sentou-se no banco da frente e pediu que eu tocasse para o motel. O mesmo motel. Enquanto dirigia, eu olhava pelo canto do retrovisor a mulher que se maquiava no banco de trás. Parecia descontraída.

Antes de deixar a mulher em frente ao motel, o soldado ainda perguntou se o cliente que ela ia atender era o "gordo tarado", se ela não tinha esquecido de trazer os acessórios. Antes de descer, a mulher soltou um longo suspiro e desejou bom trabalho ao marido, ao que ele retribuiu com um "igualmente".

domingo, 4 de setembro de 2011

Até a última corrida

A passageira era conhecida de todos os taxistas do ponto por seu stress. Ela estava sempre atrasada. Exigia que o motorista andasse sempre no limite, aproveitasse sinais amarelos, fizesse conversões proibidas. Ela tinha sempre um cliente a aguardando em algum lugar, alguma reunião importantíssima, algum negócio esperando para ser fechado.

Era uma pessoa angustiada, essa passageira. Os dois celulares que carregava consigo muitas vezes tocavam ao mesmo tempo. Enquanto atendia às ligações, comia algum biscoito, bebia um achocolatado qualquer, pois não tinha tempo para tomar um café decente. As vinte e quatro horas do dia pareciam insuficientes para ela.

Certo dia, ela ligou para o ponto solicitando um táxi, como de costume. Nesse dia, porém, sua voz não parecia aflita, ela falou calmamente, não pediu urgência, como sempre pedia. Nesse dia ela veio em direção ao táxi caminhando sem pressa, sem pasta na mão, sem celular. O taxista já estava pronto para arrancar correndo, mas ela informou que não tinha pressa.

A mulher pediu que o motorista a levasse até o bar mais distante que houvesse. Queria tomar uns drinks, mas também queria rodar pela cidade. Queria apreciar as ruas que nunca tinha tempo de enxergar. Chegando ao tal bar, pediu que o taxista lhe fizesse companhia. Os dois esqueceram-se do tempo. O dia anoiteceu enquanto ela se embriagava e ele ouvia.

Daquele dia em diante, as corridas para aquela passageira transcorreram sempre muito lentas. Não havia mais pressa, ninguém mais a esperava, nada mais importava, estava afastada do trabalho. À medida que o tempo passava, o silêncio da mulher aumentava, sua pele empalidecia e seus cabelos caíam pelos estofamentos dos táxis.

Desde o dia em que a passageira descobriu sua doença, passou a ser acompanhada tanto por médicos quanto por taxistas, que a levavam para hospitais, emergências, sessões de quimioterapia...

Até o dia em que ela não chamou mais táxi algum.

domingo, 28 de agosto de 2011

O Barão dos Táxis

Nilton era filho único. Como tal, foi criado cheio de atenção. A mãe de Nilton não media esforços para oferecer ao filho todo o necessário para que ele crescesse feliz, para que não lhe faltasse nada, tudo do bom e do melhor para o pequeno Niltinho.

O pai de Niltinho era um modesto taxista.Trabalhava como um condenado, mas, mesmo assim, tinha dificuldades com o sustento do filho. Por exigência da mãe, Niltinho frequentava os melhores colégios, vestia as melhores roupas. Tinha tudo do bom e do melhor.

Do jovem Niltinho, a mãe exigia apenas uma coisa: que ele escapasse do destino do pai. Niltinho não deveria ser taxista. Não que ela se envergonhasse do marido, mas queria para seu filho apenas o melhor, queria que ele fosse alguém na vida.

O pai de Nilton morreu no mesmo ano em que ele formou-se em administração de empresas. Sem conseguir colocação no mercado de trabalho, Nilton passou a administrar o táxi que seu pai lhe deixou. Aplicou ao negócio seus conhecimentos da faculdade. Modernizou o veículo, reduziu custos, estabeleceu metas aos três empregados que colocou a tocar o carro.

A mãe de Nilton nunca soube dos negócios do filho. Depois de assinar alguns papéis em meio ao inventário, ela nunca mais ouviu falar do táxi. Sabia apenas que o filho estava vencendo na vida. Sem nunca sentar ao volante, Nilton chegou a ter mais de cem táxis sob seu comando. Um pequeno império que proporcionou um confortável fim de vida à sua mãe.

Tudo isso aconteceu há muito tempo. Niltão contou-me essa história entre um medalhão e outro de picanha em sua confortável casa nos altos do Partenon. Ele não mexe mais com táxis. Com a vida ganha, limita-se a administrar suas ações na bolsa de valores, colecionar seus selos e cultivar sua lustrosa barriga de chope.

Como escrevo histórias de taxistas, Niltão queria que eu escrevesse sua biografia. Não tenho competência para tanto. Tudo o que prometi foi contar este pequeno caso do Barão dos Táxis que, por obediência à mãe, nunca colocou o dedo em um taxímetro.

domingo, 21 de agosto de 2011

As broas de velório

Para morrer basta estar vivo. Este é o lema da Evinha, minha mais idosa passageira. Dona Eva tem aproximadamente 100 anos! Sua filha garante que a idade da mãe pode ultrapassar um século, pois, na época em que ela veio ao mundo, os pais esperavam que mais filhos nascessem para registrar todos de uma vez, o que poderia levar alguns anos.

O interessante é que dona Eva, apesar de gozar de boa saúde para sua idade, está sempre preparada para morrer. Toda vez que minha simpática cliente precisa ficar internada para algum procedimento hospitalar, prepara tudo, antes de sair de casa, para sua "última viagem".

Segundo sua filha, dona Eva pensa em todos os detalhes. Ela certifica-se que os documentos da cremação estão em ordem, inclusive com a trilha sonora escolhida a dedo: grandes sucessos de Roberto Carlos. Sua melhor roupa fica dobrada em cima da cama. Evinha não esquece sequer de preparar deliciosas broas de polvilho para os convidados do velório terem o que comer.

Sempre que dona Evinha volta do hospital, filhos, netos, bisnetos e vizinhos deliciam-se com a distribuição das tais broas. No lugar de enterro, o que sempre acontece é uma verdadeira festa com as guloseimas que seriam servidas no velório. As broas de velório da dona Eva já são famosas na vizinhança!

Quando dona Eva tinha por volta de 60 anos de idade, sua filha tentou convencê-la a trocar a prótese dentária por uma mais moderna. À época, Evinha alegou que estava à beira da morte, muito velha para mexer nos dentes. Quatro décadas depois, ela continua com a velha dentadura, e não dá sinais de que vá partir para o andar de cima.

Essa semana, levei dona Evinha para o hospital. Vai ficar internada para tratar-se de uma pneumonia. Quando perguntei-lhe pelas broas, soltou uma gargalhada de balançar a velha chapa. Disse que deixou um vidro cheio de bem fornidas broas de polvilho.

Coloquei-me à disposição para buscá-la quando der alta do hospital. Não quero perder a distribuição das famosas broas de velório da dona Eva!

domingo, 14 de agosto de 2011

A falta de bons cadáveres

Dia desses, sofri um corte no rosto. Um talho profundo, desde a base do nariz até o lábio superior. O colega que me socorreu insistia que eu precisava ir a um hospital. Achei que um esparadrapo resolveria e fui até uma farmácia. Quando tirei o pano que cobria o ferimento e a farmacêutica quase desmaiou, percebi que precisava mesmo ir a um hospital.
Cheguei à sala de sutura achando que impressionaria com meu ferimento. Entediada, a enfermeira me conduziu a uma maca e pediu que eu aguardasse - antes de mim, precisavam cuidar de um motoqueiro com a perna em frangalhos e um operário com o dedo quase decepado. Passando a língua sobre meu miserável corte e chupando o próprio sangue, quase me senti o sortudo daquela sala.
A menina escalada para me costurar a cara parecia estar em seu primeiro dia de trabalho. Aline, uma estudante de medicina transbordando insegurança em todos os movimentos. Tentei tranquilizá-la com um sorriso, mas sorrir me doía, além de abrir ainda mais o ferimento.
Depois da primeira picada da anestesia, Aline falou em voz alta o que deveria apenas ter pensado: "devia ter usado uma agulha mais fina...". Azar, seguiu picando com aquela agulha mesmo, que mais parecia um prego. Vendo que a colega tinha dificuldades, outro jovem residente veio observá-la. Quando Aline finalmente conseguiu terminar o primeiro ponto, seu colega a encorajou: "o próximo vai ficar melhor, tu consegue!". Ai, ai, ai.
No fim das contas, Aline não se saiu tão mal. Passado um mês, ninguém diz que levei quatro pontos no bigode.
O episódio lembrou-me um comentário que recebi no Taxitramas, de um estudante de medicina, a respeito de um texto que escrevi sobre a compra de dentes em cemitérios por estudantes de odontologia. O futuro médico reclamava que um dos problemas da sua universidade era justo a falta de cadáveres (em bom estado) para que os alunos pudessem praticar...
Aproveito esta crônica para doar, publicamente, meu corpo à ciência. Alunos de medicina podem usar-me para aprender a costurar... desde que eu já esteja devidamente morto, claro.

domingo, 7 de agosto de 2011

O taxista Gardel

Gardel é um dos taxistas mais conhecidos da praça de Porto Alegre. E não é para menos. No ponto onde trabalha, Gardelzinho não deixa ninguém sossegado. Além de contar impagáveis histórias de taxista, nosso folclórico colega também se presta a interpretar algumas pérolas da música gaúcha, com ênfase nas canções do mestre Gildo de Freitas.
Entre tantos causos que Gardel não se cansa de contar, está a história de um cego que ele carregou em seu táxi. Parado na calçada, o deficiente visual foi avisado que um táxi vinha pela avenida por um latido do seu cão guia. Isso mesmo, Gardel jura que viu quando o cachorro, ao avistar seu táxi, latiu para seu dono, avisando que vinha um táxi. O homem, então, imediatamente teria estendido o braço. Mas isso não foi tudo.
Sentado no banco de trás, ao lado de seu cão, o passageiro deu o destino da corrida. Vencidas algumas quadras, Gardel teria que decidir entre dois trajetos distintos: um mais curto, porém mais congestionado; e outro mais longo e rápido. Assim que enveredou pelo caminho mais longo, no entanto, o cachorro começou a latir. De imediato, o passageiro ordenou que Gardel fizesse o caminho mais curto.
Só para ver se o bicho era mesmo esperto, Gardel pensou em passar o taxímetro para a bandeira dois. Porém, tão logo ele aproximou o dedo do equipamento, o cão mostrou-lhe os dentes ameaçadores e começou a grunhir. Brincadeirinha!
Chegando ao destino, o passageiro pediu que o taxista esperasse um momento, desceu com o cachorro e entrou em casa. Minutos mais tarde, o cão veio até o táxi com uma nota de R$ 20 na boca. Com cuidado, Gardel pegou o dinheiro da boca do bicho. Como sobrava troco, meu colega disse que ofereceu o dinheiro ao animal, que gentilmente balançou a cabeça de lado, soltou um latido e voltou para casa abanando o rabo.
Gardel orgulha-se de ser, provavelmente, o único taxista do mundo que recebeu gorjeta de um cachorro.

domingo, 31 de julho de 2011

O pior de tudo

O pior não é sentir que entrou numa roubada, que vai ser assaltado por aqueles dois passageiros mal-encarados, que estão com uma conversa manjada perguntando se você tem troco para R$50 para, na verdade, saber se você tem dinheiro para eles levarem. O pior não é atravessar quase toda a cidade rumo à periferia e não encontrar pelo caminho uma mísera viatura da polícia para fazer um sinal de luz, para pedir socorro, para parar o táxi e sair correndo. O pior não é sentir que vai ser assaltado e ter que seguir em frente, por falta de opção, torcendo que sua intuição esteja errada e que no fim da corrida tudo fique bem. O pior não é nada disso.
O pior não é ser assaltado. Isso não é nada. O pior nem é ser grudado pelo pescoço pelo passageiro de trás, enquanto o outro lhe aplica um soco nas costelas. O pior não é ser xingado, chamado de vagabundo, humilhado e ter a cara cuspida. O pior não é ter que entregar seu relógio, celular, tênis e a jaqueta que ainda está pagando, nem é passar todo dinheiro que suou para ganhar até aquela hora da madrugada. O pior não é levar um soco na cara, quase ter que pedir desculpas por não ter uma quantia decente para entregar aos bandidos.
Ser abandonado no escuro, machucado, ter o carro levado, pedir ajuda aos colegas, ser levado ao hospital de Pronto Socorro para costurarem a tua cara, isso não é o pior. O pior não é encontrar teu táxi abandonado dentro de um valo, amassado, com fezes sobre o banco traseiro. Ter que passar todo o dia seguinte tentado liberar o carro, pagando taxas, pagando reboque, pagando depósito, pagando, pagando. O pior não é reconhecer o cara que te assaltou e ouvir do representante dos Direitos Humanos que o "cidadão contraventor" precisa ser tratado com respeito.
O pior é, depois de tudo isso, você chegar em casa e tentar convencer sua filha que não há com o que se preocupar. Mesmo vendo nos olhos dela a sombra do medo. Mesmo sabendo que ela é madura o suficiente para saber que seu pai pode ser o próximo taxista a não voltar para casa.

domingo, 24 de julho de 2011

Brasil para Japonês ver

Semana passada, andei envolvido com uma turma de japoneses. Executivos interessados em fazer negócios no nosso estado. Como a maioria deles não falava nada de português, foram escalados alguns taxistas com algum conhecimento de inglês para acompanhá-los.
Os caras eram organizados. Vinham com uma lista de endereços e horários, tudo muito claro. Era uma questão de levá-los, esperar que fizessem a visita e então trazê-los de volta ao hotel. Acontece que ninguém é de ferro e, entre um compromisso e outro, os rapazes dos olhos puxados queriam conhecer um pouco mais do pais com o qual estavam fazendo negócio. Quem melhor do que um taxista para apresentá-los ao verdadeiro Brasil?
Os japas que ficaram comigo mostraram-se particularmente interessados em dois assuntos: futebol e mulheres. Depois de levá-los aos estádios Olímpico e Beira-rio, acabaram optando pelo melhor time. Compraram camiseta, boné, bandeira, assistiram a um jogo e, no outro dia, já estavam cantando: "Cororado, cororado, nada vai nos separar!". Outras palavras que acabaram por aprender foram: caipirinha e perigueti.
Na volta de uma viagem ao município de Osório, meus passageiros orientais perguntaram o que significava a placa "caldo de cana", que viam anunciado ao longo da estrada. Decidi parar o táxi e apresentá-los à bebida.
No lugar onde parei funcionava um comércio variado de beira-de-estrada. Além da venda de suco, havia no local um artesanato e uma borracharia. Quando pedimos a bebida, o garoto que cuidava do negócio chamou seu pai, o borracheiro. O homem interrompeu o conserto de um pneu de moto e veio preparar o suco. Agarrou as canas sem sequer dar-se ao trabalho de limpar as mãos. Mas bah, tchê!
Achando tudo muito engraçado e balançando a cabeça positivamente, os japoneses beberam tudo com vontade. Insistiram que eu aceitasse um copo por conta deles, oferta que delicadamente recusei alegando estar de dieta.
Tomara que a imagem que os japoneses levaram do pais tenha sido tão boa quanto a gorjeta que deixaram. Arigatô!

domingo, 17 de julho de 2011

Meu amigo careca!

Eu estava parado em meio à tranqueira da praça XV, caía uma garoa fina, daquelas de molhar bobo. Meu táxi estava preso entre dois ônibus. Enquanto a coisa não desatava, eu admirava a porta de um dos inferninhos que funcionam por ali. A julgar pela barulheira lá dentro, o movimento parecia bom. Era sexta-feira, fim de tarde, os operários deviam estar gastando o dinheiro ganho na semana. Estava pensando justo nisto quando dois sujeitos respingaram lá de dentro e vieram em direção ao meu táxi. Não tinha o que fazer, o jeito foi aceitar a corrida antes que eles botassem a porta do táxi a baixo.
Os dois estavam bêbados. O homem que sentou atrás usava um moletom com um capuz enorme caído sobre os olhos. O outro vestia um casaco enfumaçado, uma calça de abrigo e umas botas embarradas até o joelho. Ambos cheiravam mal e falavam com hálito de cachaça. Não estivesse preso no trânsito, jamais teria parado para aqueles tipos.
Para piorar as coisas, o bebum sentado ao meu lado implicou que eu era um taxista amigo que ele não via havia anos. Mesmo eu insistindo que não o conhecia, ele não se dava por convencido:
- Careca! Tu és o Careca, sim. Não tá lembrando de mim, Careca? Eu sempre ligava pra ti me pegar nas boates, eu tinha até o número do teu celular, mas me roubaram o aparelho. Pô Careca, não te faz!
A sorte é que a corrida era curta - até uma boate fuleira na avenida Farrapos. Chegando lá, porém, surgiu um problema. O bêbado não achou o dinheiro. Depois de revirar todos os bolsos, chegou à triste conclusão de que a prostituta do inferninho havia roubado todo o seu salário!
O bêbado queria que eu o levasse de volta. Queria reaver seu dinheiro para pagar a corrida. Sem chance. Já estava na hora de encerrar meu dia. Acordei o outro homem, que dormia no banco de trás, dei a corrida por perdida e botei os dois pra fora do táxi. Enquanto eu partia, o bêbado, entre lágrimas, pôs-se a meu dispor caso eu precisasse de um bom azulejista. E prometeu:
- A gente se encontra por ai, Careca!

domingo, 10 de julho de 2011

Entrando numa fria

Fazia um frio danado quando uma adolescente fez sinal para meu táxi. Ela vinha pela calçada, meio correndo, meio se vestindo, segurando os calçados na mão. Logo que abri a porta do táxi ela se jogou para dentro, tiritando de frio. Pediu que eu tocasse em frente, rápido. Era evidente que estava fugindo de alguém. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas arranquei.
Liguei o ar quente no máximo e desliguei o rádio para que ela explicasse o que estava rolando. Ela contou que tinha ido com uma amiga para uma festa particular no apartamento de um jogador de futebol. O cara tinha tentado forçá-la a fazer sexo. Depois de acertar um chute no meio das pernas do rapaz, havia fugido, deixando para trás a amiga e parte das suas roupas. Com os olhos cheios de angústia, ela pediu:
- O senhor tem que me ajudar, tio!
Olhando para aquela menina, lembrei da enrascada em que me meti quando ainda era criança, lá em Viamão. Aproveitando um resto de tinta usada para pintar nossa casa, resolvi pintar os cílios da égua do meu avô. Achei que o bicho ficou lindo com o verde que usei. Na manhã seguinte, porém, com os cílios colados pela tinta, o animal não conseguia abrir os olhos! A surra que levei foi memorável. Minha carreira de maquiador acabou por ali.
Identificado como minha passageira, emprestei-lhe meu telefone para que resolvesse a situação. Ela ligou para a amiga, que havia ficado no tal apartamento com um outro jogador. Depois de algum tempo, a outra chegou ao posto de combustível onde estávamos esperando, trazendo os pertences da companheira de desventura.
O resto da corrida foi tranquila, com as duas refletindo sobre suas escolhas. Além da roupa quente, a outra menina trouxe também solidariedade à parceira. Reconheceu que a tal festinha era mesmo uma fria, e o chute no "playground" do jogador fora bem dado. Sugeriu, inclusive, que a amiga tentasse carreira no futebol feminino. Lágrimas deram lugar às gargalhadas.
Não vou revelar o nome do jogador, claro, mas posso adiantar que ele vem tratando a bola tão mal quanto as mulheres.

domingo, 3 de julho de 2011

Várias histórias curtíssimas

A freira idosa entrou no táxi com suas vestes de santa e tênis Adidas. Falante, ela contou por que entrou para a vida religiosa. Disse que ia à igreja e ficava encantada com o coro das freiras. Queria cantar como elas, juntar-se ao grupo, pois amava a música. Na sua cabeça de criança do interior, achava que para cantar daquele jeito precisava virar freira. Assim, pela música, tornou-se religiosa. Mais tarde, descobriu a verdade, mas já estava acostumada com a vida no convento e não quis mais sair.
Outra história que escutei foi a de um garoto que fazia aulas de piano. Ele odiava as tais aulas, mas o pai o obrigava a continuar, queria vê-lo músico. No auge de seus 7 anos de idade, o garoto passava os dias catando cupins em troncos de árvores velhas. Colocava os insetos dentro de uma caixinha e levava-os para a aula de música. Quando o professor se distraia, o menino jogava os bichos dentro do piano, na esperança que eles acabassem com o instrumento e, por consequência, com as aulas de música!
Outro passageiro contou que morava em um lugar que chovia cartas. Disse que passou sua infância morando em um apartamento térreo, na rua Andrade Neves. No último andar do prédio, naquela época, funcionava o Jóquei Clube, onde a alta sociedade porto-alegrense reunia-se para jogar pôquer. Quando as apostas eram altas, a tradição mandava que se usasse um baralho novo. O baralho usado, então, era jogado pela janela e caia no pátio deste meu passageiro, que se encantava com a chuva de cartas.
Enquanto eu escutava o futebol no rádio do táxi, a passageira contou que, quando criança, seu pai costumava levá-la para o estádio Olímpico. Cada vez que o Grêmio marcava um gol, seu pai a agarrava no colo, a sacudia, a jogava para cima a ponto de quase matá-la. Minha passageira disse que, em silêncio, passava o jogo inteiro torcendo para que o Grêmio não fizesse gol!
Diretores de cinema e televisão com dificuldade de encontrar bons roteiros deveriam trabalhar em um táxi.

domingo, 26 de junho de 2011

Último cigarro

Parado no ponto, o taxista olhava para a carteira de cigarro. A madrugada estava fria, o serviço parado. Aquela carteira andava rolando pelo táxi, ele jurara para si mesmo que seria a última - não compraria mais aquela imundice. O último cigarro da carteira parecia olhar para ele.
Um garoto chegou e perguntou se o taxista poderia levá-lo até o hospital Vila Nova. Não tinha mais de 10 anos. Um guri daquela idade, àquela hora na rua. O garoto jurou que tinha dinheiro, precisava ir ao hospital ver o irmão. Mesmo desconfiado, o taxista topou a corrida. Ligou o taxímetro e partiu rumo à Zona Sul. Seja o que deus quiser.
No meio do caminho o garoto começou a chorar. Disse que o hospital havia ligado para sua casa. Disseram que precisavam que um parente comparecesse urgente pois o paciente havia piorado. O garoto tinha certeza que o irmão, que estava entre a vida e a morte, havia morrido. Ele era seu único parente. Estava levando a melhor roupa do irmão, precisava vesti-lo. Precisava providenciar o enterro.
Antes que o taxista tivesse tempo de falar, o menino puxou uma arma de dentro do casaco. O revólver brilhou no escuro do táxi. Com o coração disparado, o taxista quase perdeu o controle do carro. O garoto disse que seu irmão usava aquela arma para assaltar. Era assim que levava dinheiro para casa. Mas ele não queria o mesmo destino, estava estudando, queria uma vida decente. Ofereceu a arma ao taxista para pagar a corrida. Havia mentido: não tinha dinheiro para o táxi. Muito menos para o enterro.
O taxista levou o garoto mesmo assim. O resto da corrida transcorreu sob um silêncio pesado apenas entrecortado pelo choro discreto do pequeno passageiro. Em frente ao hospital, o taxista desejou boa sorte ao menino. Estava tudo bem, não precisava pagar a corrida. Aconselhou que ele entregasse a arma para o governo, renderia algum dinheiro. Foi tudo o que conseguiu pensar naquele momento.
Enquanto o garoto entrava no hospital, o taxista acendeu o último cigarro que fumaria na vida.

domingo, 19 de junho de 2011

Guia de sobrevivência no trânsito

1 - A regra de ouro para a sobrevivência no trânsito é a seguinte: Deixe seu carro na garagem. Dirigir é uma atividade cada vez mais nociva à saúde humana. Deixe isso para profissionais. Caso você insista em desobedecer essa primeira regra, leia com atenção as seguintes.
2 - Faça sexo regularmente. Pode não parecer, mais isso é fundamental para o trânsito. Grande parte das discussões ao volante ocorre devido a motoristas tensos. Estudos comprovam que a música e a escrita também aliviam o estresse. Caso você passe muito tempo dirigindo, faça como eu: pratique muita música, literatura e sexo (não necessariamente nesta ordem).
3 - Caso possua uma arma, deixe-a em casa. Em momentos de irritação extrema (e eles acontecerão), você pode cair na asneira de puxar o gatilho. A menos que você tenha muito dinheiro e bons advogados, o melhor é andar desarmado no trânsito.
4 - Seja humilde. Talvez você ache absurdo, mas, creia, ser ultrapassado por outro motorista não é o fim do mundo.
5 - Prefira dirigir nos horários de menos movimento. Evite os turnos da manhã, da tarde e da noite. Procure sair com seu carro de madrugada.
6 - Pague estacionamento. Não retenha o fluxo tentando enfiar o carro enorme que você comprou em uma vaga minúscula. Não seja ridículo. Se você pagou uma fortuna por um carro, deve ter uns trocados para o estacionamento.
7 - Tenha sempre à mão o telefone da sua seguradora. As barbeiragens acontecerão, pode ter certeza, até o Ayrton Senna errava. Em casos extremos, reze para não ter economizado no seguro.
8 - Não buzine. Estudos (feitos por mim) comprovam que quanto mais um motorista buzina, menos sabe dirigir. Portanto, poupe os ouvidos alheios.
9 - Se nos dias secos o problema é a poluição do ar, com chuva o perigo é o risco de acidentes devido ao piso molhado. Estudos comprovam que o piso mais adequado para os dias de chuva é o piso da sua garagem, o que nos leva de volta à regra número um: deixe seu carro em casa e vá de táxi.

domingo, 12 de junho de 2011

A mulher da cara amarrada

Taxistas são terríveis: reparam em tudo. Mesmo que não fale nada, cada passageiro que senta no meu táxi deixa pistas de seu modo de vida. O tipo de roupa, o corte de cabelo, o perfume (ou a ausência dele), a pressa, o destino, enfim. Uma simples conversa ao celular pode revelar muito mais sobre um passageiro do que eu preciso para escrever sua história.
Uma certa passageira, no entanto, mesmo pegando táxi diariamente, permanecia um mistério para mim. A mulher da cara amarrada. Apesar de morar em um bom edifício e ser relativamente jovem, ela andava sempre muito desleixada, roupas largas, cabelo grisalho sem pintura e uma cara sempre muito séria. Impressionava-me umas marcas de expressão entre as sobrancelhas, típicas de quem está muito brabo.
Ao entrar no táxi, ela resumia-se a dar o endereço do trabalho (assembleia legislativa) e mais nada. Depois disso, enfiava a cara no jornal, que sempre trazia debaixo do braço, e pronto. Nem mesmo o mais lindo dos dias animava a mulher. Sequer a chuva mais pesada fazia com que olhasse pela janela. Minhas tentativas de diálogo sempre foram respondidas com um "pois é" ou coisa do tipo, que é o mesmo que encerrar o assunto.
Por tudo isso, a mulher da cara amarrada foi formando uma imagem negativa em mim. Uma funcionária pública bem remunerada - pois morava em um prédio de ótimo padrão - sem o mínimo de vaidade, sem prazer em interagir com o mundo, que não muda quando é lua cheia. O que teria deixado a mulher daquele jeito? Uma grande frustração amorosa, alguma síndrome de pânico ou simples mau humor mesmo?
Em um sábado desses, fora do horário habitual de ir para o trabalho, ela chamou o táxi. Quando cheguei em frente ao endereço, ela já esperava na calçada, segurando uma criança deficiente mental em uma pequena cadeira de rodas. Vendo que ela tinha dificuldades, desci, peguei a criança no colo e coloquei no táxi com cuidado. A mulher ficou agradecida a ponto de abrir um inédito e belo sorriso.
Desde então, passei a vê-la com outros olhos.

domingo, 5 de junho de 2011

Teoria da conspiração

Quando o passageiro embarcou no táxi, senti uma coisa estranha. Não era só o cheiro azedo de cigarro impregnado nele, as roupas pesadas escuras, nem a barba por fazer ou as olheiras. Quando sentou ao meu lado, tive a nítida impressão que o homem emanava uma energia ruim, pesada - depois de um tempo de praça, o taxista aprende a identificar até cego dormindo e rengo sentado.
Tão logo começou a corrida, o esquisitão comprovou o que eu já suspeitava desde o princípio: faltava-lhe um parafuso na cabeça. Ele desatou a me falar sobre uma conspiração mundial liderada por 13 famílias maçônicas, descendentes da antiga sociedade secreta dos Iluminatis, que pretende dominar o mundo. Com a ajuda do governo dos Estados Unidos, eles estariam implantando microchips no dedo mínimo das pessoas...
Detentores de 70% de todo o dinheiro do mundo, estas famílias teriam financiado a construção de uma base científica no interior do Canadá. De lá, estariam emitindo poderosas ondas eletromagnéticas que seriam capazes de influenciar o clima do planeta e, até mesmo, controlar a mente das pessoas que possuem, sem saber, o tal chip no dedo.
Eu quase me diverti com a história toda, não fosse uma evidente mania de perseguição que o homem começou a demonstrar. Do nada, ele pedia que eu entrasse em uma rua qualquer, mudava completamente o caminho inicial, depois voltava ao antigo itinerário. Sempre espiando para os lados, falando baixo e olhando-me bem dentro dos olhos - talvez tentando identificar em mim um possível inimigo.
A corrida foi pequena para tanta paranoia. Chegamos ao destino final quando ele me confidenciava que pessoas influentes como Obama, Bono Vox e Tiririca teriam a "marca da besta" no dedo (Lula teria extraviado o equipamento). Em uma próxima corrida, o passageiro prometeu falar sobre a evidente origem extraterrestre da cantora Lady Gaga. Combinado.
Desde que acabou aquela corrida, não consegui pensar em outra coisa, até que senti uma fisgada no mindinho e escrevi essa história.

domingo, 29 de maio de 2011

Quando as coisas não funcionam

Fui atender a uma solicitação de táxi em um motel. Parei em frente ao apartamento indicado, liguei o taxímetro e esperei. Primeiro desceu um senhor bem vestido, cerca de 50 anos. Ele embarcou na frente e, antes que fechasse a porta, pedi que apagasse o cigarro. O homem virou uma arara. Ficou do lado de fora do táxi fumando e protestando contra os chatos antitabagistas. Liguei o rádio para não ouvir os resmungos.
Em seguida, veio uma mulher, também elegante, ajeitando o cabelo e falando ao celular. Os dois embarcaram e, antes que eu arrancasse, o homem protestou quanto ao valor que constava no taxímetro. Expliquei que a corrida começava no momento que eu chegava ao endereço solicitado. A demora em embarcar no táxi fica por conta do cliente. Novo discurso do homem. Blá, blá, blá...
Logo que saímos do motel, novo problema. Para evitar fechar um cruzamento, parei o táxi no sinal verde, esperando que os carros da frente andassem. O homem pediu que eu avançasse o sinal, que trancasse tudo se fosse preciso, pois estava com pressa. Sua deselegância estava passando dos limites e minha paciência acabando. Aquilo não ia terminar bem.
No banco de trás, a mulher, com um pequeno espelho, parecia concentrada em retocar a maquiagem. A cada nova grosseria do homem, ela limitava-se a olhar para ele, revirar os olhos, suspirar e voltava ao que estava fazendo. Enquanto isso, o clima no táxi piorava.
Lá pelas tantas, o homem enfiou o dedo no rádio e desligou a música, reclamando do barulho. Eu já estava pronto para mandá-lo longe quando a mulher, enfim, abriu a boca:
- Meu bem, o mundo não tem culpa de as coisas hoje não terem funcionado como deveriam.
Juro que ela disse isso. Bem assim, como todas as letras transbordando malícia. Uma frase avassaladora, que soterrou o homem no banco do táxi, a ponto de não se ouvir dele nem mais um pio.
Deixei-os em um shopping. Por certo, vão procurar entre as prateleiras o prazer que não encontraram no motel. Isto se o cartão de crédito do homem funcionar, é claro.

domingo, 22 de maio de 2011

Um segundo na vida

O taxista pegou o táxi na sexta-feira pela manhã - ele era folguista, trabalhava aos finais de semana. Com o feriado prolongado, teria três dias inteiros para ficar com o carro, fazer o horário que bem entendesse. Como estava apertado de dinheiro, resolveu que aproveitaria ao máximo o tempo que tinha para faturar.
Como se pretendesse entrar para o livro dos recordes, o taxista trabalhou como um louco, direto, dia e noite. Fazendo refeições rápidas, tirando pequenos cochilos dentro do táxi, tomando muito café preto. Sexta o dia todo e a noite toda, sábado a mesma coisa. Quando deu por si, o domingo já estava prestes a raiar e ele ainda não tinha desligado o taxímetro.
Depois de levar uma corrida ao Partenon, o taxista vinha pela avenida Ipiranga, que estava vazia àquela hora da madrugada. Ao avistar, ao longe, o sinal aberto, na esquina da avenida Silva Só, ele pressionou levemente o acelerador do táxi. Essa foi a última coisa que fez antes de pegar no sono.
Quando acordou, depois do estrondo, viu as luminárias da avenida passando pelo para-brisa. O carro estava apontando em direção ao céu, girando no ar. Houve um segundo de silêncio que durou uma eternidade. Os olhos arregalados do taxista olhando para as luzes acesas. Ao fundo, o céu azul já quase claro do amanhecer, salpicado com as últimas estrelas da noite. O taxista sentiu, naquele único e interminável segundo, que o pior ainda estava por vir.
O cochilo ao volante durou uma quadra inteira. Quando bateu contra o meio-fio e levantou voo, o táxi já estava na esquina da avenida Ramiro Barcelos, em alta velocidade. Depois de ser projetado para cima, o carro caiu contra o asfalto e atravessou toda a pista rodopiando, só parando quando chocou-se contra um poste, o que o impediu de cair no arroio Dilúvio.
Perda total do veículo. A roda dianteira parou sob o banco do motorista, o teto torceu, as portas trancaram. O taxista, por milagre, saiu praticamente ileso por uma das janelas. Com a pane do sistema elétrico do carro, o taxímetro, enfim, desligou.

domingo, 15 de maio de 2011

A sopa da dona Dinda

Dona Dinda, passageira do nosso ponto, é uma senhora dos seus sessenta e muitos anos. Baixinha, gordinha, anda sempre com um chapéu colorido enfiado na cabeça, decotes profundos e saias muito curtas. Isso mesmo, nossa idosa passageira anda sempre com as varizes de fora. Acontece que dona Dinda é uma senhora, digamos, muito faceira. Apesar da idade avançada, ela só pensa "naquilo".
Desde que perdeu seu terceiro marido, que, segundo as más línguas, teria morrido em meio a uma orgia, dona Dinda anda impossível. Deu para sondar os taxistas do nosso ponto quanto às suas preferências sexuais. Em plena campanha para conseguir um novo parceiro, nossa maliciosa passageira aproveita as corridas para jogar seu charme pra cima dos motoristas.
Como a maioria dos meus colegas são casados e já conhecem a fama da mulher, ela resolveu apostar todas as suas fichas no Rogério, o popular Zelão, que, por coincidência, está separado da sua mulher - Zelão teria sido escorraçado de casa depois que sua patroa encontrou-o na cama com outra. Sem paradeiro, Rogério andava dormindo dentro do táxi.
Assediado por dona Dinda, Zelão acabou aceitando um convite para jantar com a passageira. Ela teria prometido preparar uma sopinha especial para o carente taxista. Depois deste primeiro encontro, porém, Zelão anda fugindo da velha como o diabo foge da cruz.
Rogério contou que, depois de tomar a tal sopa, acompanhada de algumas taças de vinho, o clima acabou esquentando. Dona Dinda teria partido para cima dele sem dó nem piedade. Enquanto tentava arrastar o atônito taxista para a cama, a fogosa senhora teria confessado que havia misturado Viagra picado à sopa, a fim de "apimentar o momento", ao que Zelão tratou de pular fora.
Agora, nosso colega anda se escondendo de dona Dinda. Ele afirma que não quer ter o mesmo fim do falecido marido da velha, que, segundo cogita Zelão, pode ter morrido por overdose da tal sopa azulada. Quem duvida?

domingo, 8 de maio de 2011

Um taxista quieto

Quando os passageiros fizeram sinal, Pedro parou o táxi automaticamente. Já não era sem tempo, afinal ele era um taxista e a vida precisava continuar. Mesmo sendo sua primeira corrida depois do assalto, ele abriu a porta como se nada tivesse acontecido. Esta era sua sina, a sina de todo motorista de praça: abrir a porta para estranhos.
Mesmo depois de oito facadas, depois de três meses em coma e outros tantos de tratamento intensivo, Pedro estava velho demais para mudar sua forma de trabalhar. O taxista abriu a porta para aquela corrida como sempre abriu: sem escolher os passageiros. Seu destino, colocava nas mãos de Deus, em quem começou a acreditar depois de ter visto a face da morte.
As cicatrizes haviam fechado. Sete perfurações. Mais tarde, descobriu-se outro furo que não haviam notado na primeira contagem. A primeira facada, desferida na garganta, não causara tanto estrago. Enquanto tentava se desvencilhar do cinto de segurança, abrir a porta do táxi, fugir do assaltante, vieram os outros golpes. No calor do momento, Pedro não sentiu nem mesmo quando a lâmina perfurou-lhe os intestinos. Caído na rua de chão batido, o taxista gritou até desmaiar. Acordou no hospital três meses depois, após vencer a infecção que quase o matou.
De volta à ativa, esta era sua primeira corrida. Dois garotões bem vestidos, gel no cabelo e celular na mão. Saiam de uma churrascaria onde pareciam ter bebido um pouco além da conta. Estavam irritados por terem custado a conseguir um táxi. Tentaram provocar Pedro perguntando por que os táxis de Porto Alegre sumiam à noite, por que não atendiam ao telefone, por que eram tão lerdos...
Pedro não respondeu. Manteve-se quieto. Aquelas facadas tinham mudado algumas coisas nele. Tinham acabado, por exemplo, com sua mania de falar demais - coisa que não haveria de lhe fazer falta. No final da corrida, apenas despediu-se dos garotos, fechou a porta e partiu para a próxima. Sequer importou-se com a falta de gorjeta, afinal estava no lucro: estava vivo.

domingo, 1 de maio de 2011

A cantada inevitável

Eu não queria passar uma cantada na passageira. Juro de pé junto! Sou um taxista profissional, não costumo misturar as coisas. Simplesmente aconteceu, foi inevitável. Como uma bola que fica quicando na marca do pênalti, é da natureza do centroavante chutar, ele não resiste à tentação. Minha mulher, ao ler isto, há de entender.
A morena fez sinal, eu parei e ela entrou distraída. Depois que ela deu o destino, arranquei o táxi e perguntei-lhe simplesmente o seguinte:
- E o banco Comind?
No assento traseiro, a mulher ficou intrigada. Pelo retrovisor, pude notar os olhos amendoados da passageira alargarem-se de curiosidade. Olhos estes, aliás, que foram os principais culpados por toda a situação. Uns olhos castanhos gateados, que homem nenhum é capaz de esquecer. Eu, pelo menos, não esqueci. Mesmo passados mais de 30 anos, lembrei claramente o tempo em que trabalhava como office-boy em uma revenda de carros e ia ao banco Comind fazer os depósitos. Aquela morena, funcionária do banco, era o sonho de consumo de todo office-boy.
Quando ela perguntou como eu me lembrava dela passado tanto tempo, a resposta foi sem maldade, quase automática. O velho clichê: "Eu jamais esqueceria um rosto destes". Não tinha como dizer outra coisa, entenda. A bola ficou picando!
Embaraçada, ela perguntou se eu lembrava dos outros funcionários que também atendiam a conta da revenda de carros e citou seus nomes. Fui sincero ao dizer que não lembrava de mais ninguém, só dela. Para ser franco, eu nem lembrava mais do nome Comind, tudo me veio à mente de repente, logo que avistei a morena, que, mesmo bem mais madura, mantinha boa parte da beleza que fazia a alegria daquele jovem office-boy.
Ela não ficou tão lisonjeada quanto eu esperava que ficasse. Acabou desconversando e mudando de assunto - deve estar acostumada com os homens babando aos seus pés. Melhor assim. Só não precisava pedir-me um desconto no preço da corrida, com a desculpa de não querer trocar uma nota de R$ 50!
Mulheres.

domingo, 24 de abril de 2011

O Taxista X

O colega sobre o qual vou escrever não quer ser identificado, razão pela qual vamos tratá-lo aqui simplesmente por "Taxista X".
Ocorre que esse meu colega não é um taxista qualquer. Formado em direito, fluente no idioma inglês, trabalhou por muitos anos em um grande banco, onde exercia cargo de chefia. Um homem de gabarito, portanto. Mesmo depois de deixar o banco e assumir o volante do táxi, ele manteve a postura de executivo, a visão empreendedora, tanto que resolveu "agregar valor" ao seu trabalho.
No começo, a coisa aconteceu meio por acaso. O taxista bem vestido, de modos refinados, com bom vocabulário agradou em cheio as passageiras. Elas faziam questão de viajar em seu táxi. Puxavam assunto, pediam dicas de investimentos. Muitas sentavam no banco da frente, ao lado do taxista, elogiavam seu perfume, insinuavam-se. Não demorou a surgirem os primeiros encontros extra profissionais.
A fama do Taxista X começou a crescer. Depois de alguns primeiros envolvimentos encarados de forma romântica, a visão do homem de negócios falou mais alto. Ele percebeu que havia um mercado a ser explorado. Um contingente de mulheres, em especial as casadas, que precisavam de atenção. Logo ele tinha uma "carteira de clientes" que o procuravam em busca de companhia. Começou assim a história do Taxista X.
Recentemente, o âncora de um programa de rádio de grande audiência revelou a existência deste taxista, que teria se especializado em dar assistência sentimental a mulheres carentes. Isso acabou despertando a curiosidade de muita gente. Todos agora querem saber quem seria o Taxista X. Mesmo entre os profissionais da praça, a especulação é grande. Virou assunto nos pontos, muitos desdenhando, outros dizendo que o conhecem.
Diante disso, acionei meus contatos e levantei os dados que coloquei aqui. Mas o homem, propriamente dito, não achei. Não posso afirmar que exista de fato. Com ou sem Taxista X, todavia, fica um conselho aos maridos: amem suas mulheres.