domingo, 16 de dezembro de 2018

A mulher que faz sinal para meu táxi segura dois travesseiros. Não tem malas, não parece estar indo viajar... apenas os travesseiros. A cliente abre a porta da frente. É jovem, magra, mas parece com dificuldade para embarcar. Examina a porta, o banco, parece medir os movimentos. Ela me endereça um sorriso amarelo, pede que eu tenha um pouco de paciência.
- A pressa é sua.
Minha cliente dispõe com cuidado os dois travesseiros sobre o assento do banco e inicia o "procedimento" de embarque. Geme. Parece sentir dor. Depois de se acomodar meio esticada, elevando o quadril, ela ordena que eu toque até o Posto de Saúde da Vila Cruzeiro. Emergência. Explica que lhe eclodiu um abscesso. Um furúnculo!
- Aonde?
- Não queira saber, senhor.
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- O senhor dirigindo táxi?
- Sim, sou taxista.
- Pensei que fosse escritor, até comprei um livro seu.
- Opa! E que tal? Gostou?
- Uma porcaria. O senhor me desculpe a franqueza.
- Ora, o que é isso, não tem problema.
- Na verdade, foi minha mulher que pediu pra comprar, ela é sua fã.
- Sério?
- Sim, ela assiste o programa da Fátima Bernardes, o senhor vive lá, não é?
- Fui uma vez.
- Pois então, minha mulher pediu seu livro, comprei, dei uma lida e, desculpa, achei uma bosta. Aquela coisa de relacionamento, auto ajuda pra namorados... fútil.
- Talvez o senhor esteja me confundindo...
- O senhor não é escritor?
- De certa forma...
- Como é mesmo o nome... Carpinter... não...
- Carpinejar?
- Isso aí! Bah, deixa pra lá, toca pro Centro.

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O homem apontou a mão em direção ao meu táxi segurando um latão de cerveja. A mão que lhe restara - não tinha o braço direito. Vestia uma camiseta com propaganda de supermercado, um boné surrado e jeans sujos. Humilde e visivelmente alcoolizado. Perguntou se poderia embarcar com a cerveja. Vila Cruzeiro. Vambora.
Recusou a ajuda para puxar o cinto. Contou que perdeu o braço em um acidente de moto e que segue "sentindo" o membro amputado como se ele tivesse sendo diariamente arrancado. Disse que sobrevive à base de doses cavalares de morfina e álcool.
Enquanto descíamos em direção à vila, ele puxou o dinheiro pra pagar a corrida. Reclamou que o banco não tinha notas grandes. Quatro mil em notas de vinte. Uma mascada enorme presa por um elástico. Separou uma nota e deixou o resto espalhado no colo. Bebeu o resto da cerveja e jogou o latão pela janela.
- Me larga no QG da costela.
- QG da costela?
- Não conhece o QG da costela, taxista?
- Bah, não conheço.
- Os taxistas comem direto alí, melhor churrasco da Cruzeiro. Vou tomar mais um gelo antes de ir pra casa.
Em frente ao QG da costela, ele pegou o troco da corrida, juntou à mascada maior e tentou desembarcar. Esqueceu de desatar o cinto, se atrapalhou, deixou o dinheiro cair, metade no assoalho do táxi, metade na rua! Um pessoal que bebia do lado de fora do QG da costela, que parecia conhecer o meu cliente, veio em seu socorro. Por sorte o chão estava molhado pela chuva, o dinheiro colado no chão, o pessoal do QG ajudando a juntar a grana, todos já meio no trago, meu passageiro catando as notas de 20 com a mão esquerda, pisando nas que saíram pra rua, um sufoco!
Parece mesmo que Deus protege os loucos e os bêbados. Depois de socar a massaroca de dinheiro no bolso, meu cliente saudou seus amigos de braço aberto. Prometeu pagar a rodada. A camaradagem talvez lhe atenue a dor do membro perdido.
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- taxista, eu acabei de colar minhas unhas, o senhor pega a carteira aqui na minha bolsa?
- Meu Deus, a senhora tem um revólver!
- Não se preocupe, está travado.
- Dá licença.
- Na parte de fora da carteira, deve ter R$50 aí.
- Só tem camisinha, aqui... quantas!
- No meu trabalho preciso muitas.
- Não diga.
- Essa é sabor caipirinha, o senhor já provou?
- Não. Não tem dinheiro aqui, amiga.
- Nessa parte de dentro, ali atrás do Santo Expedito... Não? Ué, poderia jurar que estava aí, olha bem, senhor, vê aí.
- Dá licença.. não, nada por aqui.
- O senhor me faça o favor, aqui no bolso, veja aqui no bolso de trás, deixa eu virar um pouco.
- Mas, eh...
- Veja aí, não? Nenhum dos dois?
- Uma conta de luz.
- O senhor viu como subiu a energia? um horror!
- Subiu, tá subindo tudo.
- Ai, senhor, me desculpa, acho que está aqui no sutien, tô lembrando, veja pra mim aqui.
- Quem sabe a unha já secou...
- Francesinha metalizada, olha, top, não é mesmo? Se eu estrago essa unha eu me mato.
- Dá licença então... Outra camisinha.
- Haha, eu nem lembrava dessa. Aqui, taxista, veja no bojo direito, por favor.
- Aqui está! Ufa! Que calor!
- Em quanto está a corrida, bah já subiu o valor!
- Subiu, tá subindo tudo.

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Mais uma passageira generosa:
- R$9,36?, arredonda pra nove e quarenta!
Brigado.
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O Batman começou a mexer no vidro do táxi, subir, descer, subir até a metade, terminar de fechar, descer... eu já estava a ponto de dar um basta naquilo quando a Cinderela mandou o Batman parar:
- Para, o taxista vai ficar bravo!
O Batman era do tipo que não aceita ordens, irritou-se, bateu com um travesseiro na cara da Cinderela, que começou a chorar. O choro estridente acordou o gremista, que até então meio que dormia, alheio à discussão. Quando o Batman quis voltar a mexer no vidro o gremista acionou uma espécie de pistola, que encheu o táxi de bolhas de sabão. A Cinderela, ainda chorando, xingou:
- Para com essas bolhas, vai atrapalhar o taxista!
Era choro, travesseiradas, bolhas de sabão, a Cinderela xingando o Batman, mandando o gremista parar, uma bagunça dentro do táxi, fui obrigado a pedir ajuda à mãe, que digitava tranquilamente o celular como se nada estivesse acontecendo.
- Desculpa, taxista, o senhor pode parar naquela creche à direita, por favor.
- Como é que a senhora suporta essa zona?
- Trigêmeos, depois de três anos, a gente relaxa, entrega pra Deus, só interfere quando estão a ponto de se matar.
- Entendi.
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O homem esticou uma das bengalas em direção ao meu táxi. Estava encostado em um poste. Abri a porta e ele jogou as bengalas para dentro do carro. Ao desencostar-se do poste, perdeu o equilíbrio. Só então notei que o homem parecia mal. Muito pálido, magro, cabelo ralo, sujo. Desci em socorro ao meu cliente que parecia de não ter forças para embarcar no táxi. Pedi licença, agarrei-o por baixo dos braços, tentei segurá-lo. Foi quando a sua camisa levantou e notei a arma na cintura.
- O senhor está armado!
Enquanto subíamos o morro, o homem tratou de me tranquilizar. Confessou que teve problemas com a polícia, que foi "alvejado" pelas costas, perdeu um pulmão, um rim, que passou a andar armado desde então. Segundo ele, a treta seria por não aceitar o pagamento de "bola" para uma banda podre da polícia. Coisa pouca, do jogo, que não se registra B.O. Tô ligado.
Deixei meu passageiro no alto do morro, na entrada de um beco estreito onde um homem com cara de poucos amigos já o esperava. Pagou um valor bem maior e dispensou minha ajuda. O homem que o aguardava pegou-o no colo sem cerimônia, bateu a porta do táxi com o calcanhar e sumiu beco adentro - pelo volume na cintura dava pra imaginar que também estava calçado com grosso calibre.
Cena comum no meio de uma tarde ensolarada de segunda-feira. Quem se importa?
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Olhar perdido, sem foco, corpo oscilando, o bêbado se ofende quando explico que ele não pode embarcar no táxi pela porta do motorista:
- O quê mais que não pode, taxista?

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Cinderelas modernas.
Segundos antes da meia-noite, a passageira interrompeu subitamente as carícias e deixou o táxi correndo, como se algum feitiço fosse se desfazer. Na pressa da fuga, deixou para trás um crock branco encardido número 41...
O taxista tem dúvidas se quer reencontrar a dona do calçado.

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Após deixar o casal no motel, voltei à luta. Já estava longe quando tocou um celular estranho no banco de trás do táxi.
-- Alô.
-- Maciel?? Quem está falando, esse não é o número do Maciel?
-- Esse telefone foi esquecido no meu táxi...
-- Puta que o pariu, meu marido, o Maciel, preciso falar com ele! Tô com o pedreiro aqui em casa, faltou material, meu marido tem que comprar mais massa corrida...
-- Dona, tenho que desligar, tô ao volante.
Minutos depois, nova ligação:
-- Alô, é o taxista?
-- Sim.
-- Pelo amor de Deus, moço, preciso falar com meu marido, tem como o sr. voltar onde deixou ele, devolver o telefone. Foi num asilo? Ele visitaria o pai dele hoje!
-- Asilo? Hãã, não sei, é que...
-- Maldito Maciel, o pedreiro tá aqui, sem fazer nada, e agora, moço?
Deixei o celular na portaria do motel para que fosse devolvido ao cliente do quarto 22. Um certo Maciel me deve essa mão.

domingo, 2 de dezembro de 2018


Sentado dentro do meu táxi, bem na esquina, assisti o acidente em detalhes. Um Logan prata converteu de forma abrupta e uma moto em alta velocidade bateu no carro. O motoqueiro carregava um botijão de gás na garupa, o Logan carregava uma passageira no banco de trás.
Carro amassado, motoqueiro esfolado, recolhe o parachoque que caiu, busca o botijão que rolou, bate-boca, dor, raiva, prejuízo. Eu só observando.
Seria só mais um acidente, entre tantos que presencio diariamente, não fosse um detalhe. O momento em que o "parceiro" motorista de aplicativo cogitou procurar por uma testemunha. Ele olhou pro meu carro parado na esquina, eu sentado ao volante, a testemunha perfeita! O cara chegou a dar alguns passos em direção ao meu táxi, mas desistiu no meio do caminho. Lugar errado para buscar solidariedade, ele deve ter concluído.
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Tenho um passageiro que costuma encontrar-se com sua amante em um cemitério. É sério! Acabei de deixá-lo lá. Alertei-o quanto as previsões de mau tempo, tempestade de granizo e tudo mais. Não adiantou.
- Hoje vamos visitar o túmulo dos avós dela.

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Minha passageira planeja comemorar seus 80 anos fazendo um curso de Reiki Xamânico em uma fazenda de nudismo. Contratou-me para levá-la pela manhã e buscá-la à tarde. Como não tem companhia, minha octogenária cliente deu-me a opção de participar das atividades junto com ela, na base da parceria, tudo pago!
Alguém tem ideia de como seria esse "curso"?

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Num casal de idosos onde um enxerga pouco e o outro é quase surdo, adivinha quem liga para o ponto de táxi:
- Alô, ponto de táxi, boa tarde.
- De onde fala?
- Ponto de táxi.
- É do ponto de táxi que está falando?
- SIM, PONTO DE TÁXI (gritando)!
- Alô.
- ALÔ! PONTO DE TÁXI!
- Alô, alô, eu preciso de um táxi. Alô.
- SIM, QUAL O ENDEREÇO!?
- Alô, é do ponto? É do ponto de táxi?
Desisto.
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- Alô, oi, João, onde você está, meu amor? No Centro? Num cliente, João? Não diga!
- A senhora vai ficar aqui?
- Eu tô num táxi, João. Na Fernandes Vieira, na frente da casa da perua da Luiza. O que é que o teu carro tá fazendo estacionado na frente da casa dessa biscate, João?
- Desligo o taxímetro, ou a senhora...
- Não é o teu carro, João? É a mesma placa, João! O mesmo adesivo Deus é fiel no vidro traseiro! Tu tá de novo com essa vagabunda, João! Não tô acreditando, João!
- Não posso ficar parado aqui em fila dupla, vão multar meu táxi, senhora.
- Taxista, toca pro motel dos Alpes. João, sabe o que é que eu vou fazer? Alô, tá me escutando bem, João? Eu vou pro motel com esse taxista, vou dar pra ele, a gente vai se acabar transando, João!
- Olha só, eu estou trabalhando, não...
- Hum, ele ficou todo assanhadinho, acho que é tarado, esse taxista, João! Aposto que vai ser ótimo, seu imbecil! Ele tá me levando pro motel, João!
- Não, olha...
- Que vai matar o quê, tu não vai matar taxista nenhum, pensa que só porque tu és delegado as pessoas tem medo de ti, João? Grande coisa que tu já tem dois assassinatos nas costas!
- Minha nossa senhora.
- O taxista tá rindo da tua cara, hahahaha!
- Não faça isso, senhora.
- Olha, João, ele é escritor, o taxista! Nossa, que legal, foi o senhor que escreveu esse livro?, Taxitramas, hum.
- Não, não.
- Fica aí com a piranha da Luiza, João, eu vou pro motel com esse taxista, hoje tu vai ser corno, João! Um taxista escritor hahahaha, aposto que vai escrever a história do corno do João hahahaha!
- Me dá aqui esse telefone, alô, alô, seu João, seu João, alô, alô.
- Eu já desliguei. O senhor pode me deixar ali no shopping, por favor.
- Tô ferrado.
- Quanto custa o seu livro?

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Numa corrida em que levava seu cachorrinho para uma clínica veterinária de luxo (sessão de acupuntura) a passageira me confidenciou que está enxugando gastos: está tirando sua mãe de uma clínica geriátrica "metida a besta", colocando a velha em um lugar mais simples.
- Minha mãe está com Alzheimer, não aproveita nada mesmo

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Hoje é quinta-feira e eu vim trabalhar de tênis. Esqueci. Aposto que minha passageirinha da terceira idade vai me cobrar. Semana passada, ela deu a dica:
- Eu venho toda quinta-feira nesse bailinho. É bom, mas falta homem pra gente dançar. O senhor não quer estacionar o táxi? Dançar um pouco comigo? Pago seu ingresso e um refri!
- Mas a senhora disse que não deixam entrar de tênis...
- Vamos combinar pra semana que vem!

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Um homem embarca no táxi fazendo sinal de que não fala, é mudo. Não tenho caneta, ele tenta me explicar onde quer ir:
- As mão enlaçadas sobre o peito.
- Igreja. Não?
- Fecha os olhos. Os olhos fechados.
- Dormir. Clínica do sono? Não?
- Mãos no peito, olhos fechados, língua pra fora.
- Língua pra fora?
- Ajeita a gravata (já irritado), pés juntos, estica pra trás, mãos no peito, olhos fechados!
- Gravata, estica, testemunha, casamento, cartório!?
- Indicador esticado, arma na mão, tiro na cabeça, olhos fechados, língua pra fora?
- Necrotério municipal!
Puto da cara, o mudo desce, vai no táxi de trás pede um papel e escreve às pressas, com letra de forma, bem grande "CEMITÉRIO PORRA!!"
- Ai, nossa, não se irrite.
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O marido pega meu livro pra dar uma espiada, lê uma história, duas, cai na risada, adora. Ele vira pra mulher, que parece enfastiada no banco traseiro do táxi.
- O livro do taxista é ótimo, querida, vamos levar?
- Não.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo
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Sinal vermelho.
Av. Bento Gonçalves, sete da matina. Paro o táxi no semáforo. Na calçada, uma jovem morena, cabelo molhado, short justíssimo, blusinha mínima e botas de canos longos, acima dos joelhos, está parada com as duas mãos no rosto, secando as lágrimas, o rosto deformado pelo choro. Ela parece à beira de um ataque de nervos. Do outro lado da avenida, um bordelzinho de quinta está fechando as portas, um pequeno grupo de "clientes" está deixando o local. Um deles parece xingar a menina que chora na outra calçada. Penso em abrir o vidro do táxi e oferecer ajuda, mas, nisso, pára um ciclista, um senhor, roupas simples, mochila nas costas - típico trabalhador economizando a passagem do ônibus. Ele desce da bicicleta e acode a garota que chora, põe a mão no seu ombro, conversa com ela.
Sinal verde.
Fico curioso quanto ao desenrolar da cena, tento retardar a partida, mas as buzinas me chamam à realidade, engato a primeira marcha e sigo o fluxo. Afinal, a vida é isso mesmo: um eterno seguir o fluxo.
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Corridinha de 7 Reais
- Só tenho 50, o senhor tem troco?
- Tenho, mas essa nota é falsa, senhora.
- Mas eu peguei no banco agora mesmo!
- É beem falsa.
- Então só tenho essa de R$100.
- Também é falsa. É um xerox, senhora!
- Recebi no banco!
- Ali tem uma viatura da polícia, a senhora...
- Não, não, eu detesto polícia.
- Aposto que sim.
E se foi sem me pagar.

domingo, 18 de novembro de 2018

Tiozinho careca, gravata frouxa, parecendo aflito, embarca no táxi. Higienópolis.
- Que dia, taxista, que dia. Sabe quando não dá nada certo?
- Sei.
- Recolheram meu carro. Deixei em local proibido, pensei que não ia demorar no banco. Não vendi a soja semana passada, o dólar caiu, perdi uma grana preta, renegociando financiamento com o gerente, demorou, guincharam o carro.
- Putz.
- Logo hoje, dia fértil da minha mulher.
- Dia fértil.
- Ovulação, entende. Hoje é o dia! Estamos ‘trabalhando’ uma gravidez. Ela tá me esperando. Não dá pro senhor ir mais depressa?
- O trânsito está um horror.
- Não estou com cabeça, sabe, só problemas, mas vamos lá, hoje é o dia. A tabelinha não mente, ovulação, ciclo, hoje é o dia. Ela está me mandando zap, o quarto já está pronto, aquecido, o Jorge já preparou tudo.
- Jorge?
- É o guru da minha mulher, sabe, ela é muito espiritualizada, acredita nessas coisas, o Jorge trabalha esse lado místico da coisa, prepara o quarto, o ambiente, descarrego, abre-caminho, incenso e coisa e tal, sabe. Ele está lá com minha mulher, já preparou tudo. Taxista, a gente tem que tentar de tudo, entende, já não sou uma criança, minha mulher é bem mais nova, quer um filho.
- Sei. E esse Jorge, o guru, ele tem muita experiência, viajou pro Tibet, sei lá, é um velho sábio, por certo.
- Na verdade, não. Ele trabalha como personal trainer, massoterapeuta, mas faz filosofia à noite, ensino a distância, e estuda essas ciências ocultas todas, sabe, o cara manja.
- Personal trainer.
- Sim, minha mulher é toda geração saúde, sabe, o Jorge cuida do corpo dela, faz parte do nosso projeto ‘gravidez’. Será que subindo a Goethe não seria mais rápido? O jorge já foi embora, minha mulher tá ansiosa. O senhor sabe como são as mulheres…
- Sim, eu sei.

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Passar o dia na rua, como o taxista passa, é estar exposto ao risco, ao susto, a realidade boxeando, batendo na cara, mostrando as armas. Acabo de presenciar uma cena forte, a luta pela vida, a morte a menos de dois metros de mim, nua e crua. Eu, ao volante do táxi, trânsito parado, pista da esquerda da avenida Ipiranga, assistindo a tudo.
No gramado que margeia o Arroio Dilúvio, o quero-quero retesado, pescoço imóvel, bico apontado, foco total. Menos de um segundo, duas bicadas certeiras e a minhoca já estava catada, uma sacudida de bico e já era, a luta diária pela sobrevivência, matar ou morrer, não era o dia daquela minhoca.

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Eu vinha meio distraído pela 3° Perimetral quando um Disco Voador, sem o menor aviso, resolve pousar na frente do meu táxi. Não deu seta, pisca alerta, nada, simplesmente pousou aquela tremenda nave, trancando a pista. Placa de Marte. Só podia ser!
Tirei pro lado, saí de trás, consegui mudar de faixa. Ao passar pelo Disco Voador, adivinha: o Marciano lá, com os três olhos grudados no smartphone, a cabeça nas nuvens. Putz, que raiva!
Depois, se reclama, se buzina, é porque é taxista fiasquento, blá, blá, blá. Gente, vamo se antenar!!

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Noventa e dois anos, a neta do lado de fora, puxando pelos braços, pediu que eu ajudasse, que empurrasse de dentro do táxi. A acusação de assédio sexual não foi nada. Doeu mesmo foi a bengalada na mão.
- Pervertido!

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Largando uma corrida na porta de um grande hospital. Enquanto minha cliente desembarca, noto que um homem com camisola de paciente (aquelas abertas nas costas) vem caminhando em direção ao meu táxi. Ele está muito pálido (amarelo), segura um suporte de metal com uma bolsa de medicação pendurada, ligada ao seu braço (o que sobrou do seu braço, amputado abaixo do cotovelo). Pela janela, ele me pergunta se R$10 paga uma corrida até o prédio da Zero Hora (ele segura uma nota de 20 na mão).
- Bom, não exatamente, mas o senhor...
Nisso chegam correndo um guarda e um enfermeiro e seguram o homem pelo braço (o que restou inteiro). Forçam-no a voltar para o Interior do hospital, ele resiste, quer entrar no táxi, agarra-se à maçaneta, eles o impedem, pedem calma, o homem alega que vai apelar à imprensa, está indignado, mas acaba cedendo aos argumentos dos homens, aos poucos dá as costas para meu táxi (a bunda de fora) e começa a voltar, escoltado pelo segurança e pelo enfermeiro, que o ajudam com o suporte metálico.
O pequeno aglomerado de pessoas que assistia à cena abre passagem e eu parto rumo à próxima corrida. C' est la vie.
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Sabe você que pegou meu táxi hoje pela manhã, bem cedo, com cara amarrotada, voz gutural, dando a entender que teve uma noite péssima, em péssima companhia, bebida péssima, que perdeu seu tempo tentando fazer dar certo algo que, desde o início, estava na cara que não ia rolar? Sabe? Você que me confessou que não tem talento para escolher namorados, que investe nas pessoas erradas, que detesta amanhecer em um táxi admitindo suas cagadas, mas disse que é o que sempre acaba acontecendo? Lembra? Lembra de ter me convidado para acompanhá-lo em uma última dose, pra, quem sabe, esticar o papo em um "lugar sossegado", que, apesar de tudo, estava cheio de amor pra dar? Lembra de mim?
Pois é, sou aquele taxista. Desculpa o mau jeito, a resposta seca, a aparente falta de sensibilidade com os tetos alheios. É que eu também não tive uma noite das melhores e tudo o que eu queria àquela hora da manhã era fazer uma primeira corrida decente, receber pelo trabalho e dar continuidade ao meu dia, para que, quem sabe, as coisas também melhorassem pro meu lado.
Foi mal.
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- Eu não posso chegar atrasado! Descendo por dentro da vila não é mais rápido?
- É perigoso. O senhor quer morrer?
- Taxista, o senhor entregando meu corpo no meu trabalho antes das 9 tudo bem. Não posso é perder o emprego.
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Atendo o telefone do ponto. Do outro lado da linha, a voz de uma idosa:
- O taxista Argemiro está?
- Argemiro?
- Sim, o que trabalha em um Del Rey.
- Hã?
- Sabe o que é? Eu sofro da coluna, sabe, os táxis Fuscas são muito desconfortáveis.
- Fuscas.
- Pois é, o Del Rey do seu Argemiro é macio, não me maltrata o bico-de-papagaio.
- Entendo. É que o seu Argemiro não está trabalhando...
- Sem querer ofender. O senhor teria algum táxi para mandar que não seja Fusca? Eu preciso para domingo à tarde. Quero levar minha filhinha na matinê do Cine Baltimore.
- É que... bom... a senhora não quer ligar mais tarde? Aposto que o seu Argemiro terá prazer em atendê-la.
- Está bem. Diga a ele que a Isolda ligou.
- Pois não.
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Prazer em tempos de Facebook. Funciona assim:
Eu posto uma história aqui. Feito isso, coloco o celular (com o vibrador ligado) no bolso traseiro da minha calça. Então é só esperar os comentários.
Digamos que sou literalmente "tocado" pelo seu comentário (crítica ou elogio, tanto faz). É mais que uma massagem no ego. É físico - imagine eu, dirigindo meu táxi, sendo bolinando por sua observação!
Comenta aí. Me faz essa carícia.
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Rua Mariante, sinal fechado, chuva torrencial. Para ao lado do meu táxi um jeep do exército, pintura camuflada, machado preso à lataria, a capota de lona sendo castigada pelo aguaceiro. Um soldado levanta a sanefa de plástico do veículo militar e faz sinal para que eu abra a janela. Precisa de informação. Abro uma fresta.
- Taxista, a Liberdade, a Liberdade! - ele grita.
- A liberdade?
- A liberdade? Está próxima? - a urgência no olhar castigado pela chuva.
- A liberdade está distante, amigo!
- Não é aqui pra frente?
- Liberdade é uma utopia!
- O quê? Não entendi!
- Não existe liberdade no mundo moderno!
- A Liberdade, cara! Já passou? A rua, taxista, a rua!
- Procure dentro de você, amigo! A verdadeira liberdade está dentro de nós mesmos!
Nesse exato momento cai um raio num transformador de energia, o semáforo abre e o diálogo, que já estava difícil devido à tormenta, fica por aí. Uma pena. Gostaria de ter indicado uns livros de auto ajuda para aquele soldado. Ele parecia perdido.
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Casal de idosos saindo de uma clínica popular. O velho está mal. Muito magro, pálido, barba por fazer. Veste um sobretudo pesado que dificulta ainda mais seus movimentos já lentos. A velha o ajuda a embarcar e senta no banco de trás.
- Taxista, se o senhor puder ir rápido. Meu velho tem incontinência.
- Incontinência? Incontinência urinária?
- Sim. E a número 2 também.
- Número dois!
- Mas é só quando ele tosse.
O vovô, sentado na frente, parecia divertir-se, só admirava a paisagem.
- Ele é praticamente surdo.
- Mas ele está de fralda?
- Não admite usar fralda. É vaidoso.
- Teimoso, a senhora quer dizer.
Nunca o Jardim Humaitá foi tão longe. Meu táxi deu 140 na avenida Legalidade. Afinal, a corrida transcorreu sem tosse. Mesmo ao fazer força para desembarcar, meu bravo passageirinho segurou firme. Antes de partir amparado pela patrôa, brindou-me com um sorriso vitorioso e um aceno.
- Tenha um bom dia!
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Loira, jaqueta de couro, avenida João Pessoa, 15:00h. A passageira senta no banco traseiro e, me encarando pelo retrovisor, fala:
- Tio, seguinte: eu preciso ir até a Vila Tuca e depois voltar aqui.
- Pra...
- Eu vou buscar droga.
- Não.
Desceu sem comentários. Sincera, objetiva e sem tempo a perder. Não tivesse me chamado de tio, teria até lhe desejado sorte.