domingo, 22 de julho de 2012

Sepultando o passado

O passageiro embarcou no meu táxi, deu o destino da corrida (cemitério São Miguel e Almas) e, sem que eu puxasse assunto, começou a contar uma história incrível. Uma história que começou há 12 anos, quando ele ainda era taxista.

Meu ex-colega disse que já ia recolhendo seu táxi quando uma moça lhe fez sinal. Era uma jovem linda. Ela pediu que ele tocasse até um clube no Bairro Floresta. Disse que ia até lá pegar sua mãe e voltariam para o mesmo local. Perfeito.

Chegando lá, a moça entrou no tal clube e, minutos depois, saiu com a mãe pelo braço. A mulher estava completamente bêbada, mal podia caminhar.

No final da corrida, a mulher informou à filha que não tinha dinheiro para pagar o táxi. Tinha perdido todo o salário no jogo. A jovem não acreditava no que estava acontecendo. Segundo ela, a mãe tinha recebido naquele mesmo dia.

A mulher, então, desceu do táxi e fez uma proposta ao taxista. Sugeriu que ele desse uma “voltinha” com a filha dela em troca da corrida. O bairro tinha algumas ruas bem escuras, boas para namorar no carro. Informou que ela mesma já tinha feito alguns programas por ali. Dito isso, deu as costas e se foi, deixando a filha em prantos, morta de vergonha.

Meu ex-colega disse que tratou de acalmar a jovem. Combinou de voltar no dia seguinte para cobrar a corrida. No outro dia, ele reencontrou a jovem e nunca mais a perdeu de vista. Estão casados desde então. Uma união feliz, que gerou dois filhos.

Segundo meu passageiro, doze anos se passaram desde aquela corrida. Ele contou que sua mulher, aos poucos, foi deixando de ver a mãe. Chegando ao ponto de sequer permitir que seus filhos visitassem a avó. Ele era o único que mantinha algum contato.

Deixei o homem no cemitério. Haviam ligado, informando que sua sogra estava sendo velada. Mesmo contra a vontade da esposa, por algum motivo ele achou que devia comparecer àquele enterro. Talvez para tentar sepultar de vez seu próprio passado.

4 comentários:

ricardo garopaba blauth disse...

SEPULTAR PASSADOS

Blogueiro semanal, posta aos domingos o que escreve e na segunda um jornal muito popular da capital dos gaúchos publica com destaque o mesmo texto.
“Taxitramas” o nome do blog e Mauro de Castro o blogueiro que escolheu este nome para o blog por ser taxista desde muito e é esta atividade que lhe garante o “ganha pão” além de material para seus textos.
Figura humana fantástica, mora numa rua tranqüila de Porto Alegre onde tomei um chimarrão, movido a conversas, junto com sua esposa num fim de tarde de sábado.
O titulo deste acima surgiu no final da leitura do texto do Mauro “Taxitamas.blogspot.com” de 21 de julho.
Quem não souber resolver passados, sepultando-os, corre o risco de nunca poder usufruir presentes com a alegria e sabedoria que bons sensos recomendam.
Sepultar passados é uma coisa totalmente pessoal e cada um que estiver atento vai saber o que deve ser definitivamente removido da sua existência. Naturalmente o nosso cérebro já apaga cosas que automaticamente são descartáveis ou as coloca num lugar afastado se julgar que poderão ser úteis algum dia.
O que estamos falando aqui é diferente. É remover total e absolutamente e de forma totalmente consciente e não automática, coisas, fatos, situações que não devem nunca mais fazer parte da nossa existência.
O texto do Mauro de que falo no início sugere isto muito bem resolvido por um dos seus passageiros.
Saber usar o que se lê para crescer e melhorar a nossa qualidade de vida é sempre bem-vindo.
Parabéns Mauro e obrigado leitores de minhas “catarses de palavras”, por compartirem comigo o caminho que pretendo seja sempre repleto de novas oportunidades de crescimento.

RICARDO garopaba BLAUTH

Silvana Santos disse...

Sessão "remember"!

Ricardo Mainieri disse...

Uma crônica meio sinistra, mas com a boa qualidade de sempre.

Abraço.

Ricardo Mainieri

Sérgio LB disse...

Texto muito bem construído, com um final supreendente. Sombrio e sinistro. À filha que desistiu da megera mãe, vale uma máxima de Nelson Rodrigues:

"Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.".

Eu complementaria assim: "...mas, uma dia, perdoa...".

Um 'há braço", Mauro.