domingo, 27 de maio de 2012

A cobra vai fumar!

Caía uma chuva fina sobre o bairro Azenha. O passageiro que me fazia sinal era um senhor de idade bem avançada, que não deveria estar na rua com um tempo daqueles. Parei bem junto à calçada. Ele fechou o guarda-chuva e embarcou desajeitado.

Meu idoso cliente pediu que eu tocasse até a delegacia mais próxima. Estava furioso. Tinha resolvido ir à polícia registrar queixa contra uns garotos que estavam “infernizando” sua vida. Segundo ele, o problema era a barulheira que a turma fazia com seus skates, bem em frente à sua casa.

Meu passageiro contou que tinha reclamado para os garotos, mas que haviam feito pouco caso, que continuavam com a baderna. Do alto dos seus oitenta e tantos anos, disse que teria saído de bengala em punho atrás dos desaforados, disposto a passar-lhes um corretivo. Depois disso, teria virado alvo de chacota da meninada, o que o estava levando à loucura.

Em tom de desabafo, o velhinho contou que esteve a ponto de cometer um desatino. Integrante da Força Expedicionária Brasileira, que combateu na segunda guerra, disse que chegou a engatilhar sua arma para atirar nos meninos. A imagem de sua falecida mulher, no porta-retratos, o teria feito desistir. Resolveu procurar a polícia.

Quando chegamos à delegacia, o idoso estava mais calmo. Já não falava mais nos skatistas. Passou a me relatar suas aventuras na guerra, na campanha da FEB na Itália. O velho abatido do começo da corrida agora parecia um menino, o olho brilhando, o peito inflado. Contou que mantinha sua farda guardada, impecável.

Quando desceu do táxi, ele já havia desistido de dar queixa. Não tomaria o tempo de um policial com seus aborrecimentos. Disse que voltaria para casa caminhando, pois caminhar lhe ajudava a organizar as ideias. A chuva tinha parado e o sol espiava entre as nuvens.

Apoiado em seu guarda-chuva, o ex-combatente despediu-se com um aceno e partiu rumo a, talvez, sua última batalha: a luta por respeito.

12 comentários:

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

tem hora que é melhor manter a calma e usar o bom senso... é melhor uma gurizada andando de skate na frente de casa do que um nóia fumando crack e depois "pedindo" dinheiro em tom de ameaça...

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

tem hora que é melhor manter a calma e usar o bom senso... é melhor uma gurizada andando de skate na frente de casa do que um nóia fumando crack e depois "pedindo" dinheiro em tom de ameaça...

Dona Sra. Urtigão disse...

Pobre senhor, preso a um passado, iludido pensando ser de glorias, mas nada alem de subserviencia a violencia , que reflete ainda em sua intolerancia. Pobres jovens, que nunca sabem os limites entre o seu e o outro.

vidacuriosa disse...

Dona Sra Urtigão resumiu tudo o que eu pensava sobre esse belo post, que contém imagens do passado e do presente emoldurada
s no mesmo retrato.

Rafael Perfeito disse...

Ele deveria ter entrado na delegacia e entregado sua arma. Vai acabar passando os últimos dias às voltas com a justiça, que tantos militares pensam poder fazer com as próprias mãos.

Eduardo P.L disse...

Essa guerra, nos dias de hoje, talvez ele perca!

Clarice disse...

Nooossa! Eu me coloquei no lugar dese senhor. Chega o verão e por aqui não há mais regras. Não sei se deveríamos nos acostumar ou batalhar contra. Talvez seja essa dúvida que tenha começado a bandalheira que está esse mundão.
Beijo.

Fernando Pinheiro disse...

Os anos passam, eu me faço velho, vou ficando debilitado, e você sempre jovem, sempre risonho, sempre alegre, sempre simples, sem querer muito e conseguindo tudo... Estou contente por hoje ter atingido a idade de 90 anos e por, em mais um regresso do outro lado da Lua, ver você pedalando sem esforço na sua bicicleta das descobertas e atirando flores às pessoas por que passa. Aquela da influência da fotografia da mulher no pobrezinho é das suas melhores flores.
Fernando Pinheiro

Inaie disse...

Morri de pena do velhinho, que se incomoda com a alegria dos moleques que brincam na frente da sua casa.
Se os skatistas nao fazem barulho madrugada afora, não há nada que se possa fazer.
Meu medo é que num momento de fúria, ele acabe fazendo uma besteira, atire em uma dessas crianças e acabe com a vida de uma familia vizinha.

Tomara que ele tenha uma pontaria de merda!

RICARDO garopaba BLAUTH disse...

alo Mauro
lendo o que aqui descreveste surgiu uma idéia que vou explorar num texto que vou chamar "O VALOR DE UMA BENGALA"......com tua autorização claro.......abrs ricardo

Mauro Castro disse...

Autorizado.

Mauro Castro disse...

Comentário mais lindo:)