domingo, 31 de julho de 2011

O pior de tudo

O pior não é sentir que entrou numa roubada, que vai ser assaltado por aqueles dois passageiros mal-encarados, que estão com uma conversa manjada perguntando se você tem troco para R$50 para, na verdade, saber se você tem dinheiro para eles levarem. O pior não é atravessar quase toda a cidade rumo à periferia e não encontrar pelo caminho uma mísera viatura da polícia para fazer um sinal de luz, para pedir socorro, para parar o táxi e sair correndo. O pior não é sentir que vai ser assaltado e ter que seguir em frente, por falta de opção, torcendo que sua intuição esteja errada e que no fim da corrida tudo fique bem. O pior não é nada disso.
O pior não é ser assaltado. Isso não é nada. O pior nem é ser grudado pelo pescoço pelo passageiro de trás, enquanto o outro lhe aplica um soco nas costelas. O pior não é ser xingado, chamado de vagabundo, humilhado e ter a cara cuspida. O pior não é ter que entregar seu relógio, celular, tênis e a jaqueta que ainda está pagando, nem é passar todo dinheiro que suou para ganhar até aquela hora da madrugada. O pior não é levar um soco na cara, quase ter que pedir desculpas por não ter uma quantia decente para entregar aos bandidos.
Ser abandonado no escuro, machucado, ter o carro levado, pedir ajuda aos colegas, ser levado ao hospital de Pronto Socorro para costurarem a tua cara, isso não é o pior. O pior não é encontrar teu táxi abandonado dentro de um valo, amassado, com fezes sobre o banco traseiro. Ter que passar todo o dia seguinte tentado liberar o carro, pagando taxas, pagando reboque, pagando depósito, pagando, pagando. O pior não é reconhecer o cara que te assaltou e ouvir do representante dos Direitos Humanos que o "cidadão contraventor" precisa ser tratado com respeito.
O pior é, depois de tudo isso, você chegar em casa e tentar convencer sua filha que não há com o que se preocupar. Mesmo vendo nos olhos dela a sombra do medo. Mesmo sabendo que ela é madura o suficiente para saber que seu pai pode ser o próximo taxista a não voltar para casa.

19 comentários:

Lora-chan disse...

Nossa! Espero que vc esteja bem agora... sei que numa situação dessa é díficil se manter bem mas espero o melhor para vc e sua família!
Que Deus possa confortá-los nesse momento tão difícil!
Abraços!

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

Depois quando eu defendo a pena de morte para esses ladrões pés-de-chinelo essas cocotas dos "direitos humanos" me chamam de fascista, dizem que eu quero fazer "limpeza étnica" autorizando a Brigada a "matar preto pobre" e todo aquele discursozinho vermelhóide de sempre, mas se fosse um desses anencéfalos que estivesse no teu lugar com certeza passaria a me dar razão.

http://www.youtube.com/watch?v=7Z2ovoBfY_A

Eduardo P.L disse...

Mauro, estamos fazendo literatura ( da boa ) ou narrando um caso concreto? Espero que seja só uma crônica dominical, e não um relato de ocorrência policial.

Mariana Vargas disse...

Faço minhas as palavras do Eduardo!

abraços da extraterrestre!

Anônimo disse...

Oi, Mauro.

Cheguei aqui através desse texto, e acabei lendo alguns outros. Sou estudante de Letras.. e preciso dizer que você é incrível, fiquei emocionada.

Espero, assim como o Eduardo, que isso seja só uma crônica. E espero que você tenha todo sucesso que merece.

Abraços

Andréa Beheregaray disse...

Áh sim Mauro, o Menino Deus é cercado por Porto Alegre e bem maior que ela!

Um abraço!

Jailson Siva - Cx do Sul disse...

Conheço o Mauro e sei nas entrelinhas que o sofrimento e alegria quando escritas expressam verdade. Abraço meu irmão.

Sylvio de Alencar. disse...

Entendo o ponto: o olhar de sua filha.
Mas acho que tudo o que disse é 'ruim'.
Já fui assaltado, já tive carro guinchado; outras coisas como apanhar na cara nunca me aconteceu; daí que, lembrando-me de alguns momentos assustadores, afirmo que, cada um deles, calam em nossa alma de uma maneira extremamente desagradável.

Grande abraço.

(Levei vc, para meu mural no Face)

Adriano de F. Trindade disse...

No meu ver, a segunda pior coisa, depois da pior coisa que relataste, é o cara dos Direitos Humanos pedindo que você trate com respeito os responsáveis por tamanha barbaridade.

O nosso sistema judiciário/penal quer nos fazer acreditar que o bom é ser bandido para ter todas as regalias, e muitos acreditam nisso e realmente viram bandidos, para serem "tratados com respeito" quando são pegos.

Não duvido mesmo que seja um fato verídico, pois todos seus textos sempre tem como origem um acontecimento real, tradicionalmente. Sinto muito mesmo sobre o ocorrido, espero que tu e tua família se recuperem dele o quanto antes.

O importante é não se deixar abalar.

Um grande abraço e tudo de bom!

Clarice disse...

Mauro, segue mensagem para tirar a dúvida.

Enquanto isso vá pensando em trocar o volante pelo teclado para tocar em bailões, eventos, etc... Será que dirigir vale esse risco todo, vizinho?
Abração

Cavalcante disse...

Ola amigos

Sou taxista e acabei de fazer um blog e gostaria de divulgar para vocês http://taxidocavalcante.blogspot.com

Muito obrigado

Taxistas disse...

www.pontodetaxi0001.blogspot.com

Adriana a Faladeira disse...

Fiquei emocionada. Vc escreve muito bem. Se quiser largar o táxi pode tentar ser escritor. Parabéns.

Nana disse...

:(

Dalva Maria Ferreira disse...

Pena de morte é pouco.

CastroBruna disse...

O pior é saber que o pai pode ter desejado um ultimo bom dia e não aparecer em casa para dar mais um beijo de boa noite.

Magui disse...

Realmente, esta profissão virou coisa de camikase.

Letras Saltitando disse...

Ai que horror.... por isso tu fez o post seguinte falando do teu corte.... nossa, espero que agora tu esteja bem.