domingo, 9 de janeiro de 2011

Os problemas de cada um

O passageiro que me fazia sinal era um homem de idade avançada. Estava na calçada, agarrado a uma placa de trânsito sem a qual percebia-se que não conseguiria se equilibrar de pé. Quando aproximei o táxi, notei que o braço levantado em minha direção tremia. Todo o homem tremia, na verdade. A princípio, achei que estivesse bêbado. Antes fosse.
O passageiro apoiou-se no táxi e perguntou se eu poderia ajudá-lo. Precisava encontrar uma tal superintendência fiscal sei lá do quê, um órgão qualquer que nem ele mesmo sabia direito o nome. Enquanto eu procurava entender seu problema, perguntou se poderia entrar no meu táxi. Depois de embarcar com dificuldade, respirou aliviado, como se encontrasse um oásis em pleno deserto.
Ficou claro que não estava bêbado. Estava perturbado, respirava com a dificuldade de um peixe fora da água. Depois de recuperar o fôlego, explicou que procurava a superintendência fiscal do banco onde recebia sua aposentadoria. Perguntei porque, então, não ia até a agência em que tinha conta, ao que ele disse que era para ser naquele prédio onde eu o tinha apanhado - um museu onde nunca houve nenhum banco.
Enquanto eu o levava até uma agência do banco, ele explicou que precisava cancelar uma procuração que dera à sua companheira, pois ela estava pegando o bom salário a que ele tinha direito e o estava tratando como mendigo. Vendo as condições precárias do velhinho, não duvidei que fosse verdade.
Quando informei o preço da corrida, ele tirou algumas notas do bolso, misturadas com outros papéis. Pediu que eu pegasse o dinheiro, pois não enxergava direito - um taxista mal-intencionado teria feito um estrago. Depois que desceu, continuou agarrado ao táxi. Percebendo que não conseguiria caminhar, liguei o alerta e ajudei-o a entrar no banco. Foi o que eu pude fazer por ele.
Como disse o poeta Mário Quintana: "A pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada a ver com eles".

11 comentários:

Eduardo P.L disse...

Maravilha de atitude e de crônica!
Lamentável que haja mulheres que tratam seres humanos assim! É caso de polícia.

zerodrop disse...

Lamentável que haja mulheres assim? Eu até não diria mulheres, mas sim pessoas que se aproveitam descaradamente de outra pessoa, mulheres e homens. Tem um montão mesmo, nem me surpreendo mais!
E você estás correto, Mauro: não podes resover os problemas de todo mundo, nem sequer viver em função só dos problemas dos outros. Mas cada pequena ajuda pode ser uma ajuda de grande valor.
Abraços!

Anunciação disse...

Coitado,que coisa triste.Ainda bem que encontrou você.

Eliana disse...

Cada um sabe o fardo que carrega... E se podemos contribuir, ajudando a aliviar um pouco da carga alheia, porque não? Julgar é o que não dá... Sei que colhemos o que plantamos, certo?

Abraços!

Ps: A viagem foi muito rápida mesmo. Mas com certeza eu voltarei, pois não deu pra fazer tudo o que eu queria... rs Mais uma vez agradeço a atenção. Numa próxima a gente combina a janta e a música, um som com você e meu marido. Hahaha

Felicidades!

Plínio Nunes disse...

Com certeza, essa é uma situação corriqueira. O que tem de gente que aproveita o cartão do idoso para resolver suas próprias incompetências, é brincadeira. Houvesse essa índole entre todos os taxistas, jornalistas, advogados, médicos, garis, enfermeiros, músicos, etc, o mundo seria uma maravilha.
Abrs.

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Eita que gostei muito da ideia de viajar num taxi com o blog.

Sigo!

Clarice disse...

Mais um crédito procê, vizinho!
A partir de uma certa quilometragem, melhor ficar bem longe de aventuras pra não virar vítima.
Uma delegacia pra essa companheira do velhinho iria bem, não?
Abraço.

Bugra disse...

Mauro!! saudades de vcs...
Ainda bem que ele te encontrou pelo caminho...
um super e bem farto 2011 para ti e tua familia! das Bandas da Lagoa Vermelha um beijo na palma da mão pra vcs!

Delafonte disse...

Homem de sorte. Você já tem lugarzinho reservado no céu.

Rud Almeida disse...

Por essas e outras que você é o que é e chegou onde chegou. E entre os colegas você acaba sendo o otário bonzinho que quer salvar o mundo, quando na verdade não há preço que pague a maravilhosa sensação de dever comprido, não é mesmo?
É isso aí, não esperaria outra atitude de alguém como vc... parabéns!!!

Rud Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.