sábado, 29 de junho de 2024

 Sexta-feira, à tardinha, trabalhei bem, estou no Menino Deus sem saco para esperar uma última corrida no meu ponto. Resolvo dar o dia por encerrado. Pego o rumo de casa. Na esquina da Botafogo com a Azenha, o ponto de táxi está vazio. Não resisto a tentação de uma última corrida. Paro. Não demora, vem pela calçada um magrão, calça rasgada nos joelhos, boné e celular na mão. Vem olhando pro meu táxi. Pergunta se estou livre. Se pode sentar na frente, comigo. Me arrependo de ter parado ali. Não fui com a cara do sujeito. Tive um pressentimento ruim. Vou ser assaltado. Meio que instintivamente, resolvo jogar com o cara. Olho bem pra ele (um assaltante detesta ser mirado). Ele nota minha encarada. Pergunto se não nos conhecemos. Se ele não toca guitarra. Ele vacila. Toco um pouco de violão. Acho que a gente tocou junto, não? Continuo olhando-o fixamente, como se tentasse lembrar de onde nos connhecíamos. Ele tem uma tatuagem no pescoço, orelhas com um furo flácido deixado por alargador, os olhos vermelhos. Está trincado na droga!

— Tu não tocava numa banda ali do Partenon?
— Não, não, nunca toquei em banda. Só violão mesmo...
Depois dessa breve filmada nos olhos do cara, dei-me por satisfeito. Caso ele realmente me assalte, vou reconhecê-lo até no inferno.
Ele então começa a falar do celular, passa o dedo na tela travada, disse que os caras de uma loja o sacanearam, que não querem trocar o aparelho... Eu interrompo a resenha. Preciso saber onde ele quer ir. Ele, então, dá o destino que eu já temia: Vila Cruzeiro. Pergunta se eu posso esperá-lo e trazer de volta prum motel pulguento que tem ali na Azenha. Não. Sem chance. Ele diz que não dá nada. Não. O sinal abre e eu parto com meu passageiro me tirando pra camarada. Forçando a amizade. É o programa clássico de um maluco indo buscar drogas pra se chapar num motel barato. Com a negativa de esperá-lo, sinto que o clima começa a pesar, desconfio que ele sequer tenha dinheiro pra me pagar a corrida, que o plano seja mesmo me assaltar. Pego a avenida Cruzeiro e pergunto onde ele quer descer. O cara tá muito loco. Ele mesmo admite que tá passado, não reconhece os becos, tem dúvidas, acha que passamos, não, é mais adiante...
— Não dá mesmo pra esperar, é um minutinho.
— Tudo bem, vamos fazer assim. Te deixo aqui, desse lado da avenida. Tu pagas a corrida. Vou fazer a volta na rótula, lá adiante, bem adiante, bem devagar, vou te dar um tempo. Volto pelo outro lado. Se tu estiver lá na calçada, eu te pego, nova corrida, não quero saber o que tu carrega contigo. Não te conheço. Fechou?
Fechou. Ele pediu que eu fosse bem devagar, que lhe desse um tempinho. Puxou umas notas de dentro de uma carteira de cigarro. Deixou cair um naco de Bombril, um isqueiro. Uma nota de cem. Perguntou se eu tinha troco. Deixa quieto. Me paga tudo depois, caso eu te encontre do outro lado. Beleza.
Tenho uma grande amiga que não sabe se ainda é mãe ou não. Ela perdeu seu filho pras drogas. Depois de muitos Beós e internações, o rapaz sumiu, não se sabe se vivo ou morto. Eu o conheci. Era um jovem talentoso, tocava guitarra em uma banda do bairro Partenon, muito parecido com o rapaz que acabara de desembarcar do meu táxi.
Não fui assaltado. Dei a volta na rótula devagar, voltei pelo outro lado torcendo que não encontrasse o cara. Ele não estava na calçada. Melhor assim. Minha sexta-feira, enfim, estava acabada. Desliguei o taxímetro e segui com o pôr-do-sol no retrovisor. Destino: minha casa.

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