domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sabe você que estava passando pela entrada do cemitério João XXIII por volta da meia noite? Você que me viu tirando uma morena aparentemente desacordada de dentro do meu táxi, carregando-a no colo, às pressas, seguido por dois cachorros bichon frisé, que latiam histéricos, como se perguntassem onde eu estava levando a dona deles? Sabe você? Eu reconheci você, mesmo em meio àquela loucura, eu notei você, ali, me observando, boca aberta, intrigada, assistindo aquela cena aparentemente incompreensível: o alerta do táxi ligado, as portas abertas, os faróis acesos, a morena desfalecida (aparentemente), o porteiro do cemitério aturdido, tentando evitar minha passagem, os cachorros mordendo meus calcanhares... Eu sei que você me segue aqui no Facebook, que deve estar esperando que eu conte o que estava acontecendo, você provavelmente está lendo esse post. É uma pena que você tenha ido embora. Depois que as viaturas da polícia chegaram, o pessoal da perícia, depois que as coisas se acalmaram, eu procurei por você, mas não a encontrei mais. Eu queria te explicar pessoalmente o que estava rolando alí, para que você não ficasse com uma impressão errada deste seu amigo taxista. É uma pena que você tenha sumido sem saber a verdade, uma pena que você tenha que esperar para saber em detalhes o que rolou ontem à noite. Lamento, mas essa história (entre outras tantas) está reservada para quem comprar meu próximo livro.
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Ter uma drag queen se desmontando no banco traseiro é uma experiência pela qual todo o taxista deveria passar.
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Se você está saindo do Barra shopping, iPhone na mão, sacolas da Zara penduradas no braço, óculos de grife prendendo o cabelo platinado, dando mó pinta de burguesa, se você é essa pessoa: não pergunte ao taxista se ele "faz preço de Uber". Não faça isso, madame
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Déficit de atenção
A senhorinha embarca no meu táxi tímida, sotaque do interior, dá o destino da corrida e se encolhe no canto do banco traseiro. Eu desenho o trajeto na minha cabeça e parto. É um caminho conhecido, apesar de longo, não há dúvidas quanto ao itinerário. Logo estou no piloto automático. Rádio no volume mínimo, a ideia de uma nova crônica fermentando na cabeça - a história de uma noiva que usa o taxista para fazer ciúmes no noivo, um caso real, cheio de detalhes sórdidos, contado por um colega. Resolvo parar em um posto de combustível, numa lojinha de conveniência onde a balconista é uma velha conhecida. Ela é gremista doente, de ir ao estádio, torcida organizada e tudo mais. Ela conta que está com o pai fazendo hemodiálise, não tem conseguido acompanhar o time, mas diz que tem me seguido nas redes sociais, assistiu a algumas reportagens. Resolvo contar para ela a história da noiva, pra ver se funciona com o público. Ganho um café em troca. Não lembrava como essa minha amiga era boa de papo. Não demora estamos às gargalhadas, o tempo voa, nem sei a quanto tempo estou ali jogando conversa fora. Preciso voltar a trabalhar. Vou até o banheiro, faço um xixi, pego uma água mineral e me despeço da minha amiga. Trocamos WhatsApp e prometemos manter contato. Enquanto volto ao táxi dou uma conferida no aplicativo que anda quieto demais, pouca gente precisando de transporte nessa área - imagino que vou voltar vazio até meu ponto...
Quando encosto a mão na maçaneta pra abrir a porta do táxi, noto um movimento estranho no banco traseiro...
A SENHORINHA!
Meu Deus, eu havia esquecido completamente que estava com uma cliente! Ela me olha com cara de assustada, não fala nada, parece sufocada no carro fechado, está a ponto de desmaiar! Abro os vidros do táxi, ofereço um pouco de água mineral, a garrafa toda, mas ela não aceita, pergunta apenas se eu ainda vou demorar muito, se estamos muito longe do seu destino, noto um terço entre os dedos da mulher, ela estava rezando, coitada, talvez pedindo a Deus que não a abandonasse como fez o taxista maluco com o qual estava lidando.
O resto foi silêncio e vontade de não ter nascido.
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Passageira idosa sentada no banco da frente do táxi, ao meu lado. O semáforo fechou e parei na altura de uma parada de ônibus onde dois homens se olhavam, rostos muito próximos. Eu e a passageira observando-os. Eles, então, se beijaram na boca. Sem tirar os olhos dos homens, a vozinha ao meu lado sussurrou, como se falasse para ela mesma "Os homens estão se beijando".
O sinal abriu, eu parti e a senhorinha, ainda com a cabeça virada para o lado direito, como se ainda olhasse a cena anterior, perguntou-me, agora em voz alta: "Os homens se beijando, o senhor viu?". Deixei a pergunta no ar, na esperança que ela acrescentasse alguma observação. Como não falou mais nada, como parecia estar em transe, eu respondi: "Eles se beijaram. O que a sra achou?". Ao que ela respondeu empolgada:
- LINDO!

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O telefone do ponto chama. Uma voz jovem me pergunta se eu me importo de levar uma gatinha no meu táxi. Óbvio que não. Vamos lá.
Depois de esperar por uns 15 minutos em frente a casa, a garota sai pela porta correndo atrás da gata, que se recusa a ser apanhada. O bicho sobe numa árvore como um foguete. A jovem, esbaforida, olha pra mim, me mostra a gata na árvore, encolhe os ombros. Pergunta se tenho alguma técnica para pegar uma gatinha arisca. Dou um longo suspiro... já tive lá minhas técnicas, houve um tempo em que uma gatinha não me escapava. Analiso a altura da árvore, aconselho a garota a desistir da ideia. Ela não me deve nada. Ligue para o nosso ponto quando a gatinha estiver pronta. Ofereço-lhe meu mais sincero sorriso amarelo e parto.
Pequenas derrotas cotidianas que um homem aprende a aceitar.

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NOTÍCIA: taxista descobre a cura da cegueira.
- Taxista, quanto está dando a corrida? não estou enxergando o valor.
- Dez reais.
- Quer dizer que R$9,78 agora virou dez!!

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Eu descia a avenida Oscar Pereira, tranquilo, táxi na banguela, quando um anjo me faz sinal. Parei, porque é do instinto de todo taxista parar para quem lhe solicita, mas já imaginando que aquela seria uma corrida complicada. Sabe quando tu já adivinha a encrenca antes mesmo dela acontecer? Quem é taxista sabe do que estou falando.
- O senhor pode chegar o banco bem para trás, por favor?
- Meu anjo, acho que você não vai caber. Talvez um táxi maior...
- O senhor reclina um pouco o encosto, abre bem a porta, eu me ajeito.
- O anjo não parece bem?
- Porque acha que estou pegando seu táxi? Preciso ir até uma pet shop que tem na rua Santana.
- Pet shop?
- Conheço o veterinário de lá, ele há de me ajudar.
Depois de escancarar a porta do táxi, reclinar o banco, me encolher no meu canto, o anjo deu o jeito de embarcar. Parecia estar sofrendo.
- Toca até a Santana, por favor, altura da clínica psiquiátrica Pinel.
- Algum problema?
- Minha asa direita. Acho que quebrei alguma parte dela, preciso examinar.
- Numa pet shop?
- Bom, é uma asa, o taxista notou que sou um anjo. A medicina para humanos não ensina a lidar com asas... Conheço o veterinário daquela pet, ele já me atendeu outras vezes.
- Como conseguiu quebrar a asa?
- Caí de uma goiabeira. Uma mulher lá me confundiu com outra pessoa, me atrapalhei. O senhor sabe, anjos caídos... vivemos caindo mesmo.
- Sei.
- Semana passada caí da bicicleta.
- Bicicleta?
- Eu comprei uns fones de ouvidos, desses grandes, sabe, potentes, JBL, pedalar com fones é um perigo, não percebi um carro se aproximando por trás, ele não chegou a bater em mim, só o susto mesmo, mas caí. Isso de cair parece uma sinal. Melhor seria ter ficado no céu.
- Taí a pet shop. O anjo tem grana pra pagar o táxi?
- Aceita cartão? BanriCompras?
- Banrisul?
- Tenho Visa também, mas é crédito. Dá pra dividir em três vezes?
- Certo. Tá ruim pra todo mundo.
- Ô.
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Dei uma lavada caprichada no táxi. Cera líquida, perfume, pretinho nos pneus. O carro ficou um brinco. Coisa mais linda do mundo! Estou sentado no banco do ponto, admirando a nave, quando observo uma madame conduzindo um cachorrinho chique pela guia. Um yorkshire tosado, escovado, bandana no pescoço, focinho arrebitado, a petulância sobre patas. A madame se deixa levar pelo animal, que começa a se aproxima do meu táxi. Pressinto o pior: o miserável vai mijar na minha roda.
Não dá outra. O bicho dá uma primeira cheirada no pneu, vira, dá uma segunda cheirada e vira de novo. Ele termina esse último giro já enquadrando o corpo, já preparando para levantar a perna. Meu coração dispara, uma luz vermelha se acende, soa um alarme em minha mente. Disparo em direção ao cachorro. Enquanto corro, solto um grito desesperado:
- NÃÃÃÃÃOOOOO!
A madame leva um cagaço, dá um pulo, solta um berro, num espasmo, fecha os punhos e ergue os braços com violência! A guia estica, puxa o pescoço do cachorro com tudo, uma estilingada que faz o bicho girar sobre o próprio eixo num rodopio fantástico! Eu gritando, a madame berrando, o cachorro girando, soltando um vértice de mijo no ar! Minha nossa senhora dos perpétuos bichanos!
Desnecessário dizer que fui achincalhado pela madame, que perdeu completamente a elegância e desceu o verbo sem pena sobre esse insensível taxista - a sandália Louis Vuitton girando na mão, ameaçando me acertar.
Tô nem aí. Nas rodas do meu táxi ninguém demarca território.
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Meu colega é um cara com espírito empreendedor. Resolveu vender ovos enquanto trabalha em seu táxi. Comprou meia dúzia de galinhas poedeiras, recolheu os ovos, colocou no porta-malas do táxi e saiu a trabalhar.
Verão, calor senegalês em Porto Alegre. Quando abriu o porta-malas do táxi para o primeiro cliente, os pintos saíram voando.
Fim do negócio.

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A jovem esposa de motorista de aplicativo, que busca amainar sua solidão nos braços de um taxista. Uma história carregada de ironia, paixão e verdade, mas que não convém contar.

4 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Há braços?

Mauro Castro disse...

Dalva, querida. Há braços!!

Dalva M. Ferreira disse...

Ainda há braços. Para não dizer que não falei dos braços.

Dalva M. Ferreira disse...

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...