domingo, 3 de maio de 2015

Sexo na cabeça

Foi tudo muito rápido. Escrevendo, agora, parece que durou uma eternidade. Quando vi, meu passageiro já estava no ar, seguro pelo colarinho, a ponto de ser demolido.

Meu passageiro era um homem comum. Um funcionário público normal, que pegava táxi eventualmente, quando estava atrasado. Pagava a corrida e ia embora. Nada que chamasse a atenção. Tudo mudou quando foi diagnosticado com câncer no cérebro.

Ele foi submetido a uma cirurgia para retirada do tumor. Ficou entre a vida e a morte. Depois de uma penosa recuperação, os médicos deram-no como curado. Ficaram, no entanto, severas sequelas. A mais aparente, a coordenação motora, a necessidade de uso de cadeira de rodas.

Uma outra consequência da doença, para qual os médicos ainda não acharam explicação, é um aumento extraordinário da libido, do desejo sexual. O homem tornou-se um tarado incontrolável, a ponto de praticamente impedir seu convívio social. Ele simplesmente não pode ver uma mulher. As corridas com ele são um inferno.

Estávamos parado no sinal, o passageiro ao meu lado, a cadeira de rodas no porta-malas do táxi, quando uma linda mulher cruzou pela faixa de segurança. Colocando a cabeça para fora da janela, batendo com a mão na lataria do carro, meu passageiro começou a babar e dizer obscenidades para a moça. Tudo não passaria de uma cena constrangedora não fosse o fato de a mulher estar acompanhada por um brutamontes lutador de vale-tudo.

Mesmo enquanto estava sendo arrancado do táxi pela garganta, meu passageiro não parava de olhar para a moça, babar e dizer asneiras. Depois de mantê-lo no ar por alguns instantes, o grandalhão resolveu largá-lo, para que apanhasse em pé. Foi quando viu que se tratava de um deficiente físico. A cena congestionou o trânsito da Oswaldo Aranha. Maior confusão!

Sei que o caso desse passageiro é um mistério para a ciência, mas, dane-se: eu é que não transporto mais em meu táxi o tarado da cadeira de rodas.

Um comentário:

Ricardo Mainieri disse...

Implantaram um chip na cabeça do veinho, com liberação de viagra de forma gradual.
Só pode ser essa a explicação.
Bela e bem-humorada crõnica, como sempre.

Abraço.