domingo, 28 de julho de 2013

Fé, tatoo e outras paixões

O passageiro entra em meu táxi com seu tradicional boné afro, seus óculos escuros e sua cara de poucos amigos. Avisa-me, logo de cara, que não quer falar de futebol - o Grêmio havia perdido no dia anterior. Ele é um cliente antigo, eu o conheço bem o suficiente para não brincar com seu mau humor.

Quando conheci este passageiro, muitos anos atrás, ele era um sujeito muito diferente. Ao longo desses vinte e tantos anos em que o transporto em meu táxi, fui testemunha de sua louca trajetória de vida. Uma biografia que valeria a pena ser escrita.

Meu passageiro foi um homem poderoso. Temido. Militar de alta patente, exercia seu comando com punho de ferro, pelo que sei. Não foram poucas as vezes que ele se divertiu contando a este amigo taxista as humilhações que impingia a seus subordinados. Fez poucos amigos e uma legião de desafetos no exército.

Até que descobriu seu câncer.

Enfrentou a doença com resignação e disciplina militar. Na reserva, mesmo os poucos amigos o abandonaram. Este taxista foi seu confidente ao longo do tratamento, nas incontáveis corridas para muitos hospitais. Viúvo, sem filhos, fisicamente aniquilado, contou apenas com ele mesmo. E venceu a batalha contra o câncer.

Depois disso, transformou-se em outro homem. Relaxou. Descobriu, entre outras coisas, a paixão pela tatuagem. Está gravando nas costas a imagem de uma enorme Fênix, a ave mitológica que ressurge das cinzas. A antiga rigidez militar deu lugar à descontração. O mau humor, apenas quando o Grêmio perde.

Mas hoje a corrida não é para o estúdio de tatuagem nem para nenhuma casa de garotas de vida fácil que meu passageiro costuma frequentar. Depois da doença, meu cliente também acabou descobrindo e apaixonando-se pela religião afro-brasileira. A ponto de fundar seu próprio terreiro de umbanda.

O coronel que ressurgiu das cinzas, hoje, é um pai de santo generoso. Sei que a gorjeta é certa. Desde que eu não fale em futebol.

3 comentários:

Dona Sra. Urtigão disse...

E eu que custo a acreditar que homens mudam, tenho então que me render. é real ? Ou ficção?

Magui disse...

O capeta, depois de velho, tornou-se ermitão.

Eduardo P.L. disse...

Vida louca, louca vida. Que mais posso dizer?