domingo, 28 de abril de 2013

Procura-se uma Santa


Meu colega Diogo é um taxista divertido. Quando chega ao ponto, monopoliza as atenções. É um cara de bem com a vida, desses que fazem nossos dias mais leves. Diogo costuma se apresentar com um texto decorado, que ele declama como se fosse um verso. Eu até anotei para não esquecer:


- Bonitão e dançador, tremendamente sedutor, carinhoso, educado, perfumado, o cabelo ajuda. Melhor beijo de Ipanema. Diogo, ao seu dispor.

Das tantas histórias que Diogo conta, minha preferida é o caso que se passou em uma boate onde os taxistas costumavam se reunir para dançar. Os colegas sacanas teriam desregulado seu isqueiro, deixando-o com a chama enorme. Ao tentar acender o cigarro de sua companheira de salão, Diogo teria colocado fogo na peruca enorme que a mulher usava, transformando sua parceira em uma verdadeira tocha humana!

Dia desses, apenas eu e Diogo no ponto, conheci outro lado do meu colega. Vi seus pequenos olhos verdes ficarem marejados.

Ele contou que sua mãe, vindo de Florianópolis, sem condições de criá-lo, deixou-o em uma fazenda. Ainda criança, sem conhecer nada, ele resolveu sair de onde estava para procurar pela mãe. Perdeu-se e passou a viver na rua. Teriam sido 3 longos anos lutando pela sobrevivência, até que um casal se compadeceu com o menino maltrapilho. Resgataram Diogo, deram-lhe um lar e dignidade.

Depois de 43 anos de praça, sentado no banco do nosso ponto, Diogo me afirmou que tem orgulho de sua trajetória de vida. Considera-se um vencedor: “Casado, dois filhos, sete netos, três bisnetos, dois cachorros e um celular de 3 chips”. Nada mal.

Na conversa que tivemos, acabei descobrindo que dentro daquele senhor de cabelos brancos ainda existe um menino que gostaria de encontrar sua mãe... Ela se chama Maria Santilina da Silva, e talvez tenha retornado para Florianópolis onde era conhecida como “Santa”.

Caso dona Santa leia esta história, saiba que tem um filho incrível, que ainda sonha encontrá-la.

5 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Lindo texto, Mauro. De hoje em diante vou respeitar ainda mais o escritor que é. Ter recebido influência do CaioF. é uma grande e importante referência. Forte abraço.

ricardo garopaba blauth disse...

fico feliz Mauro em saber que o mundo tem mais um sonhador.....
restam pucos atualmente e os que sonham os tem mais interesseiros que o do Diogo que é encontrar a MÃE......

ha braços Mauro
dê outro pra ele em meu nome

Anônimo disse...

Lamento por ele ainda querer encontrar essa coisa que colocou ele no mundo e abandonou!! Não suporto tipos assim chamados de MãE, nada justifica abondonar um filho.

Sérgio L Buchmann disse...

É ... 'Anônimo' das 8.44 AM...
O teu lamento, ou a tua incormidade pode ter razão de ser sob a tua ótica... respeito!

Mas um órfão que venceu na vida sem odiar o destino que a vida involuntariamente lhe impôs, NÃO TEM PREÇO mesmo!!!

E o Mauro Castro soube bem compreender a angústia e o sonho maior do seu colega de profissão Diogo...

Que a 'dona Santa' esteja ainda viva e que contribua para a realização de vida do amigo do meu amigo...

Dalva M. Ferreira disse...

Bonito. E sempre há braços.