domingo, 24 de março de 2013

Café com um jovem colega


Se me perguntar se eu já vi alguém enriquecer no táxi eu te respondo: nunca vi. Vi gente enlouquecer, isso sim. O cara pirou. Não conseguia atravessar uma avenida. Ia muito bem, até que tivesse que atravessar uma avenida. Não conseguia, enlouqueceu, abandonou a profissão. Eu, por exemplo, não fiquei rico, mas também não enlouqueci, entende? Paguei meu apartamento, eduquei meus filhos, quero ver se troco o táxi este ano... Quem precisa mais?


Não se pode esperar muito do dia, compreendeu? Acordar cedo, sair rodando, abrir a porta para quem faça sinal. A recompensa vem a granel, nada de grandes boladas, trata-se de acumular tempo ao volante, ir juntando o dinheiro no bolso até que tenha algum valor descente.

Em meio à rotina, umas poucas alegrias. Tipo essa padaria no meio da manhã, os colegas trocando ideias, a atendente simpática atrás do balcão com seu sorridente “O de sempre?”. O jornal do dia que a padaria deixa os taxistas espiarem de graça. No mais, é dirigir sem parar, levar gente prá lá e prá cá, gente que não se importa contigo, que só quer chegar ao seu destino, sacou?

Claro que surpresas podem acontecer, pequenas e grandes. Naufragar em um alagamento, salvar com a buzina um cego que ia ser atropelado, escapar da velhinha que tenta te acertar com a bengala porque achava que estava sendo passada para trás no valor da corrida. Esse tipo de coisa que vale a pena ser lembrada, que você conta quando chega em casa, na mesa do jantar. As mulheres querem saber como foi o dia dos maridos, sabe como é?

É verdade que pode acontecer de uma passageira inundar seu táxi com um cheiro de banho recém tomado. Uma morena esguia, com cílios mais longos que o normal, que treme levemente o lábio enquanto passa o destino da corrida. E mesmo que não haja nada entre vocês, ela te acompanha em pensamento pelo resto do dia, entende? Coisas boas também acontecem em um táxi, sabe? Eu sei que tu sabe.

Me passa o açúcar, por favor.

2 comentários:

Magui Bizzotto disse...

Toda profissão tem seus poréns.O do advogado é juiz que não trabalha e vc tem que voltar mil vezes para ver se ele despacha um simples " Vista à parte contrária" mesmo rodeado de assessores, cartório completo e pseudos atendentes. Haja!

vidacuriosa disse...

Permitas-me discordar de ti, meu caro Mauro Gastro, nas tuas duas afirmativas. Primeiro pergunto: Como não é rico alguém que tem a tua vida, que tem saúde, uma ocupação da qual gosta e que lhe permite fazer o bem espontaneamente e sem querer nada em troca? E que tem múltiplos talentos como descrever o que faz e pensa, traduzir seus snetimentos em música e arte? Como alguém que tem uma família como tu pode dizer que não é rico? Alguém que tem uma linda filha que o ama, uma esposa que luta junto contigo, é rico sim. Ao avaliar a outra afirmação, eu digo que, alguém com uma vida decente,digna, que cumpre seus compromissos não é ríco? Só louco. Um grande abraço e votos de eterna felicidade.