domingo, 21 de outubro de 2012

As flores da minha passageira

Uma idosa me fez sinal e eu parei. Ela fez questão de sentar na frente - gosta de conversar com taxistas. Pediu que eu a levasse a um certo endereço onde encontraria uma amiga. De lá, as duas iriam até um hospital visitar uma colega delas de 100 anos, que está internada.

Minha passageira estava torcendo que sua amiga concordasse em ir até o hospital de táxi, que desistisse da ideia de ir dirigindo seu próprio carro. Segundo minha cliente, sua amiga dirige muito mal, e ela morre de medo.

Chegando no endereço indicado, a outra idosa já estava postada na frente da casa. Segurava um ramalhete de flores. Minha passageira baixou o vidro e pediu que a amiga entrasse no táxi. A outra ficou contrariada, mostrou o portão aberto, disse que seu carro já estava pronto. Mas minha passageira insistiu muito que fossem de táxi. Quando a outra concordou, a idosa ao meu lado ergueu as mãos para o céu.

Enquanto seguíamos para o hospital, a velhinha do banco da frente quis saber sobre as flores que a outra trazia. Esta disse que havia colhido em seu próprio quintal a fim de levar para sua amiga enferma. A idosa ao meu lado protestou. Disse que não se leva flores para hospital.

Em tom sério, ela contou o que havia acontecido quando estava com sua mãe hospitalizada. Um padre havia passado no quarto para visitar os pacientes, o que já tinha deixado sua mãe desconfiada. Logo em seguida, chegou um parente trazendo um buquê de flores. A paciente, então, achou que estavam preparando sua morte. No dia seguinte, sua mãe teria morrido!

Apavorada com a história, a idosa que levava as flores resolveu que não entraria no hospital com aquele ramalhete. Nem os argumentos da amiga de que o caso da sua mãe tinha sido apenas uma coincidência, de que era uma história boba, fizeram a outra mudar de ideia.

No fim do dia, minha mulher quase foi às lágrimas quando lhe presenteei com um lindo ramalhete de flores. O amor é lindo.

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Realmente hospital não é lugar de flores. Geralmente é um hiato entre a vida saudável, e o velório.

Ricardo garopaba Blauth disse...

flores colhidas
é natureza morta
flores presenteadas
a quem se ama
é natureza viva


HAJA BRAÇOS......

ricardo blauth

Clarice disse...

Ah! Tá bom! Até parece. Esse negócio de chegar com flor em casa, assim, fora de hora é bom pra gali...na cabeça!
Beijos

Gostei do novo visual do blog.

Telma disse...

Oi Mauro, já vi muita gente levar flores à hospital, para oferecer à alguém que está de baixa, mas nunca ouvi que dá mau augurio. Mas sei que não se leva flores à mães que deram a luz recentemente, por causa do próprio cheiro das flores que pode incomodar aos pequenos bebés. Mas foi óptimo a senhora idosa ter desistido de levar as flores, a tua esposa ganhou um lindo buquê. Um óptimo dia para ti.

vidacuriosa disse...

Grande Mauro! No final, um exemplo de reaproveitamento da matéria, além de transferência de carinho e afeto, misturado com economia. Mas o amigo poderia ter comprado, pelo menos um novo cartão. Bem, aí teria de gastar, né?

Dalva M. Ferreira disse...

Ai se a esposa ler essa crônica!