domingo, 23 de setembro de 2012

A panfleteira e o taxista

O dia estava quente, abafado. O trânsito era um enorme caldeirão. Eu estava parado em um semáforo quando avistei uma senhora distribuindo panfletos por entre os carros. Ela já tinha uma certa idade, devia estar ali fazendo um bico para ganhar algum trocado. A mulher parecia sofrer. Seu rosto suado estava contraído.

Acontece que, devido ao calor, ninguém abria os vidros dos carros. A senhora oferecia seus panfletos aos veículos que estavam à minha frente, mas seus motoristas a ignoravam. Ninguém queria contaminar o ar refrigerado de seus carros com o calorão da rua. Decepcionada, a panfleteira passava ao carro seguinte, que também não abria o vidro.

A cena me compadeceu.

Depois de ser rejeitada pelo carro da frente, a senhora veio em direção ao meu táxi, que era o próximo da fila. Abri um tanto o vidro. O suficiente para recolher o maldito panfleto, para diminuir um que fosse o número de papéis que aquela pobre senhora precisava distribuir. Mesmo recebendo o ar quente e poluído que vinha da rua, preparei meu melhor sorriso de cumplicidade para oferecer àquela trabalhadora braçal, àquela vítima da cruel sociedade capitalista. Ao menos de mim, um humilde taxista, ela receberia alguma solidariedade.

Por um segundo, antevi a felicidade que a mulher sentiria ao ver que um trabalhador como ela compreendia sua batalha, reconhecia seu sofrimento e abria a janela, e lhe estendia a mão. Cheguei a imaginar nossos olhares se encontrando, seu semblante de agradecimento ante minha gentileza em abaixar o vidro. Seria um momento lindo.

Mas a senhora sequer olhou para meu táxi. Passou direto pela janela entreaberta do meu carro e se foi, sem me oferecer nem papel, nem olhar, nada. Provavelmente, cumpria ordens de não desperdiçar material com taxistas. Maldita!

Recolhi rapidamente a mão, fechei o vidro e verifiquei se alguém tinha notado meu papel de bobo. Acho que não. Por sorte o sinal abriu e a vida seguiu seu curso.

3 comentários:

Inaie disse...

Você me faz rir...

Eduardo P.L disse...

Solidariedade em vão. Essa senhora percebeu teu gesto, mas sua dignidade não permitiu que se deixasse contaminar pela tua piedade. Uma dura batalhadora. Uma trabalhadora brasileira. Bom domingo.

Anônimo disse...

Sérgio LB

A "panfleteira" é uma das tantas batalhadoras que vemos neste período pré-eleitoral distribuindo 'santinhos' de candidatos junto aos semáfaros das vias públicas.
O candidato ao pleito eleitoral deveria ter explicado a essa trabalhadora que os taxistas têm muito mais potencial de multiplicação de votos do que os demais motoristas. Falta de estratégia. Este não se elege.

"Há braço".