domingo, 19 de fevereiro de 2012

Três pingos a cada lampejo


Deixei meu parceiro Danilo pilotando o táxi e parti rumo ao litoral. Resolvi esticar o feriado de carnaval em uma prainha deserta, para desespero de minha filha adolescente. Nada de relógio, TV ou computador. Esta crônica, por exemplo, estou escrevendo à mão, sem editor de texto nem corretor ortográfico. Uma façanha!
Bem que tentei usar a única Lan House da prainha para escrever, mas a tarefa se revelou impossível. Os poucos computadores do lugar são monopolizados pelos adolescentes que, como minha filha, preferem o Facebook à areia. Sendo assim, desenvolvi uma estratégia própria para produzir esta crônica.
Vou cedo para a beira da praia, finco o guarda-sol, encho os pulmões de maresia e ponho-me a escrever na areia entre mariscos e tatuíras. Uso o celular da minha filha para fotografar cada grupo de frases, antes que alguma onda insensível leve-me as ideias. Com sorte, pela metade da manhã consigo elaborar um bom parágrafo. Feito isso, volto satisfeito à sombra do guarda-sol e ao livro que estou lendo do português António Lobo Antunes.
À tarde, chega a vez de transcrever as fotos para o papel (de pão). A tarefa precisa ser cumprida antes que anoiteça, pois a luz elétrica ainda não chegou à casa que aluguei para passar esses dias. Aqui, entre os cômoros de areia, o breu da noite só é rompido pelo brilho da lua e pelo flash do farol, que, além de orientar os navegantes, proporciona-me um lampejo de luz a cada 14 segundos.
A combinação mosquitos, pele queimada e calor não me deixa dormir. Insone, passo a madrugada ouvindo o gotejar da torneira do banheiro. Três pingos a cada lampejo do farol.
Caso você esteja lendo estas mal traçadas linhas na segunda-feira de carnaval, é porque consegui postar o papel de pão no correio a tempo de chegar ao jornal antes do fechamento da edição. Pode não ser uma obra-prima da literatura portuguesa, mas é o que consegui arranjar sem o Google por perto.
E neste carnaval, lembre-se: se beber, chame o Danilo!

13 comentários:

Edmilson disse...

Uma tapera de pau-à-pique numa prainha deserta e sem luz elétrica? Você deve é estar à procura do tesouro enterrado pelo bandido da crônica anterior.
Ser for este o caso, desejo de todo o coração, que não o encontres, pois do contrário ficaríamos sem nossa tão esperada crônica dominical. Há braços.

Anônimo disse...

Mauro, eu consegui ler. E de mal traçadas, não tem nada. O texto é ótimo. Dudu e eu rimos um pouco.
Agora vamos nos preparar para beber, afinal é carnaval.... o telefone do Danilo está na mão.

Abraços

Paula Canto

vidacuriosa disse...

Já havia ouvido falar de escritor que cria suas poesias e textos na toalha do bar ou no pedaço de papel que encontra à mão. Na areia da praia, só lembro de ter lido sobre o jesuíta José de Anchieta, que rabiscou alguns dos 5.732 poemas à Virgem Maria nas praia de Iperoig, em Ubatuba, São Paulo em 1563. O padre deveria ter uma memória fabulosa para reconstruir a obra, já que não contava com um celular para fotografar o texto, como fizeste. Mais uma vez, muito bom. Abraços

Clarice disse...

Hahaha! Imagino a fúria da Lindinha. Imagino que metade disso seja exagero, mas se sobrevivermos em 2013 prepare-se com muito selo e papel de carta pra madar as crônicas pelo correio. ou pombo-correio, quem sabe.

Para a goteira(sabe lá quando você vai ler isto) pendure um pano na torneira que a água escorre se pingar.
Abraço e bom descanso.

Mariana Vargas disse...

Adorooo seu blog!!
Só não venho mais por aqui porque não posso...
gostei muito do lugar que você descreveu...
deve ser lindo e bem tranquilo...

Abraços da Extraterrestre!

Joguete do Destino disse...

kkk, Li na terça, mas tá valendo!!
Pois é, escrever na areia, enviar pelo correio...temos que estar preparados para as adversidades da vida.

Abraço, ana karoline.

Carrla Borges disse...

Muito bom mesmo seu blog. Gostei. Vou ler sempre.

Fátima Rama disse...

hahaha fantástico!

Luis Fernando disse...

Que estratégia! Que trabalheira, filho! Mas eu entendo. Vício é assim mesmo.

Luis Fernando disse...

Que estratégia! Que trabalheira, filho! Mas eu entendo. Vício é assim mesmo.

Bah disse...

auhauahuaha muito bom!

Kisu e feliz ano novo, já que ele começa na segunda rss

Anônimo disse...

Mas meu caro, onde é que se carregava a bateria do celular da filhota, o pá? Sei, na lanhouse...
Adoro suas crônicas. Abraço!
Ludmila

Eni disse...

Estava na praia do Farol da Solidão? pela descriçao se nao for a mesma deve ser algo proximo...