domingo, 5 de fevereiro de 2012

O teste do café

Dia desses, parei em um ponto que estava vazio, no bairro Teresópolis. Eu era um "bocada", como costumamos dizer aqui em Porto Alegre. O largador do tal ponto perguntou se eu buscaria corrida solicitada pelo telefone - coisa que um bocada não é obrigado a fazer. Informei que sim.

O telefone tocou, o homem atendeu e ficou pensativo. Veio até meu táxi a passos lentos. Estávamos só eu e ele no ponto. Antes de me passar o endereço, ele confirmou se eu buscaria mesmo a corrida, pois aquela era uma passageira "difícil". Como não chegava nenhum táxi do ponto, ele mandou eu mesmo.

A passageira era uma mulher elegante. Trazia uma bolsa enorme e uma xícara na mão. Cumprimentei-a e ajudei-a a embarcar. Ela precisava ir até o bairro Santana, mas por um caminho alternativo, fugindo do movimento da terceira perimetral. Um trajeto sinuoso e acidentado, serpenteando por ruelas secundárias.

A xícara estava cheia de café, que a mulher ia bebericando pelo caminho enquanto conversava. Ela explicou que o largador do ponto estava orientado a enviar somente os taxistas que já tivessem passado no "teste do café". O teste consistia em levá-la por aquele caminho tortuoso sem que o café derramasse. Segundo ela, muitos não passaram na prova.

Outra exigência que ela fazia é que o taxista a cumprimentasse ao abrir a porta. Ela não abria mão de um cordial "bom dia". Fazia questão destas duas coisas: dizer bom dia e não virar o café. Não achava que estivesse pedindo muito. Por sorte, fui aprovado nos dois quesitos.

Ao desembarcar, a passageira se atrapalhou e deixou a xícara cair! Ela ficou paralisada observando a louça espatifar-se na calçada. Depois de soltar alguns palavrões, a mulher se recompôs. Falou que já havia mesmo cansado daquela xícara. Enquanto recolhia os cacos, disse que ia comprar um desses copos com tampa, pois já estava na hora de acabar com aquele estúpido teste do café. 

Ao despedir-se, sem a xícara e com um sorriso sincero, a passageira parecia bem mais leve e simpática.

6 comentários:

Bah disse...

Teste do café, essa é boa...

Dá cada gente bizarra assim mesmo?

Kisu!

Dalva M. Ferreira disse...

Tem cada uma...

Adriano de F. Trindade disse...

É, ela se livrou do fardo do teste do café! Acho que se ela tivesse que pensar em uma maneira de se livrar da tal xícara, iria ficar com ela eternamente, pois certas pessoas se apegam muito á carga emocional de certos objetos.

Mas que é um teste no mínimo inusitado, ô se é!

Abraços!

Débora Oliveira disse...

Aposto que ela levantada o dedinho quando levava a xícara até a boca, haha!
Olha, eu sou uma fã viciada em café,mas jamais te submeteria a tal teste, combinado? ;)

Abraços

Ju Armos disse...

Bah Mauro...próxima corrida te prepara.Levo minha taça de vinho!

Clarice disse...

Pois na metade do teste eu já chamava a dita de babaca por não usar um copo para o café. Vai ser chata assim lá na casa da sogra!

Nunca duvidei que você passasse no teste e o sorriso só poderia ser sincero. Livrar uma mala de sua propria carga tem muito mérito.
Abração.