domingo, 23 de outubro de 2011

Crônica de um abandono

Já passava da meia-noite, o taxista descia a avenida João Pessoa quando viu o casal fazendo sinal na calçada. O homem segurava um estojo de violão, a mulher, agarrada ao seu braço, parecia estar com frio.

Ele era músico, tinha largado o bar em que estava tocando para resolver um problema com a mulher. Tentava convencê-la de que tinham feito a coisa certa. Ele era casado, ela precisava entender. Ele prometia que ia conseguir o dinheiro que ela precisava. Havia tirado um empréstimo. O dinheiro serviria para ela comprar um barraco na vila. Ele também prometia um emprego para ela na firma de um amigo. Tudo ia ficar bem.

Ela não falava nada, estava drogada, dopada. Tentava em vão secar a coriza que lhe escorria pelo nariz. Secar os olhos. Não estava resfriada, não estava com frio. Ela chorava em silêncio.

O homem passou o dinheiro para a corrida e pediu que o taxista levasse a mulher para casa, na Vila Jardim. Antes de desembarcar, abraçou-a longamente, pediu que ela tomasse o remédio e dormisse o máximo possível. Jurou que a amava.

Ela não foi para casa. Pediu que o taxista a levasse até um bordel no bairro Navegantes. Lá, as colegas já a esperavam na porta. Quando a mulher contou o que havia feito, as prostitutas enlouqueceram. Nem a deixaram descer do táxi. Embarcaram todas e mandaram tocar para a avenida João Pessoa, antes que fosse tarde demais.

As mulheres falavam todas ao mesmo tempo. Diziam que ele não conseguiria dinheiro nenhum, emprego nenhum, ele ia sumir da vida dela. Ela podia ser puta, viciada, não ter casa, mas tinha amigas. Elas dariam um jeito.

A mulher estava atordoada. Não sabia qual era o contêiner exato - os malditos contêineres de lixo eram todos iguais. Felizmente o caminhão da coleta ainda não havia passado.

Um taxista e quatro prostitutas em uma busca desesperada por vários contêineres, até que acharam a criança recém nascida, abandonada, inocente, dormindo entre os sacos plásticos como se nada tivesse acontecido.

10 comentários:

Eduardo P.L disse...

Linda crônica!

Caminhante disse...

UAU!

ofazedordeauroras disse...

Li este texto e achei excelente. Uma história e tanto, com o apuro de quem sabe contá-la.

Um há-braço.

Jorge Finatto

Ricardo Mainieri disse...

Tristeza, Mauro, é o que esta crõnica me traz. No mundo dos deserdados, a coisa pode ser pior ainda.
Não bastasse a precariedade dos personagens um inocente abandonado para morrer.
Como um Rubem Fonseca porto-alegrense vc. fala das coisas que doem. Desta vez, nenhum riso para ti

**** disse...

Putz que pariu, choveu nos meus olhos.

vidacuriosa disse...

Mais uma grande história que poderia ser transformada em um curtametragem emocionante e verdadeiro. Valeu Mauro pelo recado bem-humorado lá no Vidacuriosa. Abrs

Clarice disse...

Tanta dor causa o preconceito e a irresponsabilidade! Pra que leis e tabus que causam tanto desacerto.
Você captou a crônica da vida moderna muito bem.
Beijos.

John disse...

Saudações, essa história foi muito triste. Eu tenho um link do meu blog para o seu.dublintaxi.blogspot.com

Infelizmente não pude lê-lo até que eu encontrei Google traduzir. Eu re impressos em Inglês para os meus leitores para que as pessoas aqui ver a dura realidade da vida para algumas pessoas. Obrigado por sua visão.

Dalva Maria Ferreira disse...

Muito triste. Que coisa linda a solidariedade.

Luizfst disse...

Belíssimo texto. Parabéns!