domingo, 18 de setembro de 2011

Uma corrida qualquer

O taxista teria uma longa segunda-feira pela frente. Depois de despedir-se da esposa com um beijo protocolar, depois de largar os filhos no colégio, depois de abastecer o táxi, era hora de encarar um dia de muito trabalho, recheado de vários compromissos chatos. Apenas mais um dia sem promessas, como tantos.

Antes de mais nada, precisava lavar o carro, que estava imundo. Tinha uma corrida tratada para o meio da manhã, tinha que passar no sindicato para acertar as mensalidades, precisava regularizar a aferição do taxímetro, tinha que pagar as taxas para a vistoria semestral. Passaria na oficina para verificar um barulho que surgira na suspensão... Tudo isso ainda pela manhã!

À tarde mais duas corridas marcadas, precisava trabalhar, trabalhar muito. O taxista era um pai de família extremado, precisava levar dinheiro para casa, precisava arrumar o telhado com goteira, falar com um encanador para ver a infiltração no banheiro, precisava pagar o aluguel... Enquanto cuidava de tudo, precisava trabalhar. Correr atrás da máquina.

Mas naquela segunda-feira, a primeira passageira a embarcar naquele táxi fez tudo mudar.

A mulher entrou no táxi como uma brisa morna de setembro entra em uma casa depois de um longo inverno. E o taxista sentiu o coração acelerar, e a pele arrepiar, e um frio percorrer a espinha, como já não sentia há muito tempo. Enquanto redescobria o amor, o taxista já não lembrava mais da vistoria, do sindicato, do barulho na suspensão, das corridas marcadas. Antes do fim daquela corrida, ele já estava apaixonado por aquela mulher e sua vida já havia mudado de rumo.

O processo de separação, a divisão dos bens, a pensão alimentícia, a nova casa que teve que alugar (com muito mais goteiras e infiltrações), tudo ficou em segundo plano para aquele taxista que redescobriu o amor em uma segunda-feira qualquer, em uma corrida que parecia igual a qualquer outra.

5 comentários:

Eduardo P.L disse...

O amor é lindo!

Dona Sra. Urtigão disse...

???

Clarice disse...

Fácil assim? Que pelo menos escolha ser feliz sem tirar a felicidade de ninguém. Sei lá! Complicado isso, viu?
Abração.

Adriano de F. Trindade disse...

Que massa. Quando a parada dá certo assim, de primeira, é sinal de compatibilidade imediata. O tal do "amor á primeira vista".

Dalva Maria Ferreira disse...

Bueno... quem disse que o taxista é um cara frio e sem coração? O amor não avisa, chega e fim. Há que pensar que a madame também já devia estar cheia de vasamentos.