domingo, 4 de setembro de 2011

Até a última corrida

A passageira era conhecida de todos os taxistas do ponto por seu stress. Ela estava sempre atrasada. Exigia que o motorista andasse sempre no limite, aproveitasse sinais amarelos, fizesse conversões proibidas. Ela tinha sempre um cliente a aguardando em algum lugar, alguma reunião importantíssima, algum negócio esperando para ser fechado.

Era uma pessoa angustiada, essa passageira. Os dois celulares que carregava consigo muitas vezes tocavam ao mesmo tempo. Enquanto atendia às ligações, comia algum biscoito, bebia um achocolatado qualquer, pois não tinha tempo para tomar um café decente. As vinte e quatro horas do dia pareciam insuficientes para ela.

Certo dia, ela ligou para o ponto solicitando um táxi, como de costume. Nesse dia, porém, sua voz não parecia aflita, ela falou calmamente, não pediu urgência, como sempre pedia. Nesse dia ela veio em direção ao táxi caminhando sem pressa, sem pasta na mão, sem celular. O taxista já estava pronto para arrancar correndo, mas ela informou que não tinha pressa.

A mulher pediu que o motorista a levasse até o bar mais distante que houvesse. Queria tomar uns drinks, mas também queria rodar pela cidade. Queria apreciar as ruas que nunca tinha tempo de enxergar. Chegando ao tal bar, pediu que o taxista lhe fizesse companhia. Os dois esqueceram-se do tempo. O dia anoiteceu enquanto ela se embriagava e ele ouvia.

Daquele dia em diante, as corridas para aquela passageira transcorreram sempre muito lentas. Não havia mais pressa, ninguém mais a esperava, nada mais importava, estava afastada do trabalho. À medida que o tempo passava, o silêncio da mulher aumentava, sua pele empalidecia e seus cabelos caíam pelos estofamentos dos táxis.

Desde o dia em que a passageira descobriu sua doença, passou a ser acompanhada tanto por médicos quanto por taxistas, que a levavam para hospitais, emergências, sessões de quimioterapia...

Até o dia em que ela não chamou mais táxi algum.

9 comentários:

Dalva Maria Ferreira disse...

Muito boa. Triste, mas a tristeza faz parte do ofício, e da literatura.

Eduardo P.L disse...

Moral da história: a pressa é inimiga da vida!

Roberta AR disse...

É bom darmos importância ao que realmente importa, o resto a gente faz porque não tem outro jeito, mas não pode ser o centro da vida.

Clarice disse...

Pena que essas lições só cheguem quando o tempo para aproveitá-las fica curto. Algumas lições caem na nossa cabeça e nem percebemos. Como se fôssemos eternos.
Vai com calma aí, vizinho!
Abraço.

Vai de Táxi! disse...

Sensacional Mauro.
Uma pena o fim triste. =/

É sempre muito inspirador vim aqui e conferir o que tem escrito.

Abraços.

ricardo garopaba blauth disse...

alo MAURO

alem de conferir o que escreves, tomei a liberdade contar isso para os leitores do meu blog

que nunca falte VIDA no teu taxi

abraços

Ligéia disse...

Ótima história, Mauro. Realismo/naturalismo, atual; Para reavaliarmos nossos valores.

Há braços!

Ulisses Adirt disse...

Puxa, Mauro... até chorei aqui...

carolineprado disse...

Nossa, que triste! Fiquei com lágrimas nos olhos. Muito sensível - eu e a história, hehe.