domingo, 12 de junho de 2011

A mulher da cara amarrada

Taxistas são terríveis: reparam em tudo. Mesmo que não fale nada, cada passageiro que senta no meu táxi deixa pistas de seu modo de vida. O tipo de roupa, o corte de cabelo, o perfume (ou a ausência dele), a pressa, o destino, enfim. Uma simples conversa ao celular pode revelar muito mais sobre um passageiro do que eu preciso para escrever sua história.
Uma certa passageira, no entanto, mesmo pegando táxi diariamente, permanecia um mistério para mim. A mulher da cara amarrada. Apesar de morar em um bom edifício e ser relativamente jovem, ela andava sempre muito desleixada, roupas largas, cabelo grisalho sem pintura e uma cara sempre muito séria. Impressionava-me umas marcas de expressão entre as sobrancelhas, típicas de quem está muito brabo.
Ao entrar no táxi, ela resumia-se a dar o endereço do trabalho (assembleia legislativa) e mais nada. Depois disso, enfiava a cara no jornal, que sempre trazia debaixo do braço, e pronto. Nem mesmo o mais lindo dos dias animava a mulher. Sequer a chuva mais pesada fazia com que olhasse pela janela. Minhas tentativas de diálogo sempre foram respondidas com um "pois é" ou coisa do tipo, que é o mesmo que encerrar o assunto.
Por tudo isso, a mulher da cara amarrada foi formando uma imagem negativa em mim. Uma funcionária pública bem remunerada - pois morava em um prédio de ótimo padrão - sem o mínimo de vaidade, sem prazer em interagir com o mundo, que não muda quando é lua cheia. O que teria deixado a mulher daquele jeito? Uma grande frustração amorosa, alguma síndrome de pânico ou simples mau humor mesmo?
Em um sábado desses, fora do horário habitual de ir para o trabalho, ela chamou o táxi. Quando cheguei em frente ao endereço, ela já esperava na calçada, segurando uma criança deficiente mental em uma pequena cadeira de rodas. Vendo que ela tinha dificuldades, desci, peguei a criança no colo e coloquei no táxi com cuidado. A mulher ficou agradecida a ponto de abrir um inédito e belo sorriso.
Desde então, passei a vê-la com outros olhos.

15 comentários:

Eliana disse...

É aquela velha história de que "as aparências enganam"...

Abraços!

Eduardo P.L disse...

Taxistas ou psicólogos? Ou nada disso, só um bom escritor! Bom Domingo!

Thaisa disse...

Uma cara amarrada não necessariamente significa uma pessoa amargurada. Muitas vezes é apenas uma carapuça, um disfarce que a pessoa veste para não se exibir tanto ao mundo.

(palavra de quem amarra a cara de vez em quando!)

Gostei de sua ousadia ao compartilhar seus causos em um blog. Meu pai também é taxista mas discreto (até) demais. rsrsrs

vidacuriosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
vidacuriosa disse...

Acredito que, depois desse dia, ela passou a te ver com outros olhos, mesmo que não tenha voltado a sorrir como todo taxista gostaria de ver em seu passageiros. Quem não tem filhos 'especiais" não consegue entender que o mundo não é igual para todos. Falo com conhecimento de causa, ainda que viva quase sempre de bom humor. Mas, nesta vida curiosa, cada vida é um filme com roteiro e personagens próprios, que não trailer para indicar do que se trata e que muitas vezes não passa no cinema mais perto da sua casa.

Clarice disse...

É assunto para uma biblioteca inteira, mas posso garantir que essa minha cara séria engana barbaridade!
Num táxi eu geralmente aguardo a iniciativa do motorista para conversa. A não ser que apareça algo inusitado, aproveito o tempo para observar o que não consigo se estiver dirigindo.
Abração e boa semana.

KEILONDIAS_TAXI_DF disse...

So pra constar, me divirto muito com seus causos viu! Sou taxista aki em Brasilia e acho enriquecedor esse contato diario com pessoas de raca, cor, classe social e temperamentos diferentes. Grande abraco e boa semana a todos!

Adriano de F. Trindade disse...

Há pessoas de cara amarrada que não são más, e há pessoas sempre sorridentes que não valem um tostão. A musa linda que aparece no outdoor pode ser insuportável pessoalmente.

Imagem não é tudo. Somente a imagem não basta para formarmos uma opinião. Uma cara fechada pode ser apenas uma pessoa com uma casca mais grossa. Nem todos procuram ativamente a integração social, muitos preferem ficar "na sua".

Ótimo texto!

Débora Oliveira disse...

Poxa, ela tá numa fase danada de grande do luto pelo qual passam os pais e mães de filhos deficientes...

Dalva Maria Ferreira disse...

Coitada. E você, além da cara, vê o coração. Bonito, mestre.

Parole disse...

As vezes a pessoa nem é má, mas concordo, a cara amarrada assusta mesmo!!! Conheço pessoas assim e as vezes fico com medo de chegar perto.

Sempre muito bom te ler.

Bjs

Nana disse...

Frustração amorosa seria tão clichê. :P

Humberto Firmo disse...

Niestzsche tem uma frase que diz assim:
"Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante.".

aos poucos vamos aprendendo...

Parabéns pelo texto!

Letícia Motta disse...

Parabéns pelo seu blog. Não consigo ler 1 post só. Acho genial sua forma de comunicar as experiências. Continue compartilhando com a gente!

Abraços,
Letícia Motta.
Editora do blog Cutedrop.
http://www.cutedrop.com.br

rodrigo disse...

cara, que história bonita. difícil ficar emocionado com um texto tão curto. mas aconteceu. você escreve com muita sensibilidade.