domingo, 8 de maio de 2011

Um taxista quieto

Quando os passageiros fizeram sinal, Pedro parou o táxi automaticamente. Já não era sem tempo, afinal ele era um taxista e a vida precisava continuar. Mesmo sendo sua primeira corrida depois do assalto, ele abriu a porta como se nada tivesse acontecido. Esta era sua sina, a sina de todo motorista de praça: abrir a porta para estranhos.
Mesmo depois de oito facadas, depois de três meses em coma e outros tantos de tratamento intensivo, Pedro estava velho demais para mudar sua forma de trabalhar. O taxista abriu a porta para aquela corrida como sempre abriu: sem escolher os passageiros. Seu destino, colocava nas mãos de Deus, em quem começou a acreditar depois de ter visto a face da morte.
As cicatrizes haviam fechado. Sete perfurações. Mais tarde, descobriu-se outro furo que não haviam notado na primeira contagem. A primeira facada, desferida na garganta, não causara tanto estrago. Enquanto tentava se desvencilhar do cinto de segurança, abrir a porta do táxi, fugir do assaltante, vieram os outros golpes. No calor do momento, Pedro não sentiu nem mesmo quando a lâmina perfurou-lhe os intestinos. Caído na rua de chão batido, o taxista gritou até desmaiar. Acordou no hospital três meses depois, após vencer a infecção que quase o matou.
De volta à ativa, esta era sua primeira corrida. Dois garotões bem vestidos, gel no cabelo e celular na mão. Saiam de uma churrascaria onde pareciam ter bebido um pouco além da conta. Estavam irritados por terem custado a conseguir um táxi. Tentaram provocar Pedro perguntando por que os táxis de Porto Alegre sumiam à noite, por que não atendiam ao telefone, por que eram tão lerdos...
Pedro não respondeu. Manteve-se quieto. Aquelas facadas tinham mudado algumas coisas nele. Tinham acabado, por exemplo, com sua mania de falar demais - coisa que não haveria de lhe fazer falta. No final da corrida, apenas despediu-se dos garotos, fechou a porta e partiu para a próxima. Sequer importou-se com a falta de gorjeta, afinal estava no lucro: estava vivo.

8 comentários:

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

Gorjeta é algo que eu acredito não ser tão habitual por aqui...

João Gilberto disse...

Realmente ele está no lucro. Otimo texto doutor.

Até mais.

Ligéia disse...

Ah se houvesse táxi nos tempos de Poe...

Gostei muito. Parabéns, Mauro!

Eduardo P.L disse...

Um comentário e uma pergunta:
1º Grande narrativa! No tamanho justo, no ritmo justo, com palavras justas!
2º É normal darem gorjeta em Porto Alegre? Em São Paulo, não sei se é por conta da tarifa, ninguém da nada! E ainda reclama do preço. E os taxistas não reclamam. É o costume??

Mauro Castro disse...

Eduardo, meu querido, as gorjetas em Porto Alegre (e no Brasil) são raríssimas, infelizmente.
Há braços!!

Clarice disse...

Não sei se o texto foi a propósito do assassinato do taxista no Rio. Tão jovem trabalhando à noite há apenas 1 mês, pra garantir sustento, com todos os riscos.
Mesmo que não tenha sido, retrata essa realidade presente em muitas profissões, mas que coloca a preocupação no pensamento dos profissionais e seus amigos, pode acreditar.
Sobre gorjeta, sou contra para qualquer profissional. Deveria cada um receber o suficiente para não depender de prêmios. Mesmo assim, de vez em quando escorrego alguma.
Abraço e boa semana.

Mariá Chick disse...

Bacanissimo o texto :D

carolineprado disse...

Quando você fala que a sina de todo taxista é abrir a porta para estranhos, descreve perfeitamente a impressão que tenho quando preciso de um taxi em lugar e\ou local dos mais absurdos. Acima de tudo vocês precisam de coragem e de acreditar na proteção divina. Senão acho que já seria uma profissão extinta.
Hã plexos (tá, essa tentativa de piada foi infame - hehehe)