domingo, 30 de maio de 2010

Jogo de sedução

A passageira embarcou no banco da frente. Ela havia saído do salão de beleza, tinha acabado de fazer as unhas, estava com o esmalte ainda fresco. Pediu que o taxista a ajudasse com o cinto de segurança. Não queria estragar o trabalho da manicure.
Seria uma operação complicada. O taxista precisava inclinar-se sobre ela, alcançar o cinto do outro lado, puxá-lo sobre o colo da mulher e travar a fivela. Ela sabia que seria assim, mesmo assim pediu que fizesse. Então, ele pediu licença e tratou de atender a solicitação.
O taxista fez tudo da forma mais cuidadosa possível, mas não houve como evitar o contato. Seu braço roçou no corpo da passageira. Ele pode sentir a pele de seda, macia, quente. O peito da mulher, mal coberto por um decote profundo, parecia saltar aos olhos. O tempo parece que parou. O clic da fivela do cinto fechando trouxe os dois novamente à realidade. Foi um momento mágico.
A pedido da passageira, o salão de beleza passou a chamar sempre aquele mesmo taxista. O ritual da colocação do cinto era sempre igual. A cada nova corrida, porém, as insinuações aumentavam. O processo ficava mais íntimo, mais próximo. O contato cada vez maior. A respiração ofegante, o sorriso malicioso, a cabeça levemente jogada para trás deixava claro que ela apreciava o momento. Talvez até esperasse por aquele instante, assim como o taxista esperava.
Durante a corrida, porém, a mulher sempre achava um jeito de falar do marido, do casamento perfeito que tinha, como se deixasse claro que aquele jogo não devia ir além daquilo.
Lá pela quarta ou quinta corrida, no entanto, o taxista não resistiu e beijou a passageira na boca. Ela não esboçou reação. Não o repeliu, mas também não retribuiu o beijo. Era quase possível ver o encanto quebrando-se em mil pedaços no interior do táxi. Foi a última vez que o taxista a viu. Fim de jogo.

14 comentários:

Clara Gurgel disse...

"Cuidado com o que vc quer,porque um dia vc pode conseguir..." o problema é que, se cria tanta expectativa ,que quando acontece,existe o risco de se decepcionar.Mas tudo bem;o processo é válido!

Caminhante disse...

Genial!

A.S.R disse...

NUM ENTENDI, QUEM ERA O DITO CUJO?!

Silvia disse...

ah! o amor platônico!! rsrsrs

Clarice disse...

O bom da festa é esperar por ela.
A eletricidade do ritual não devia virar curto circuito. O cara não entendeu.
Muito bom! Vai para o próximo livro.
Abraços.

Hidaiana Rosa disse...

Olá! Sou estudante de jornalismo e adorei o texto! Vi a sua reportagem na Revista Imprensa. Parabéns! Sucesso!

www.empautahr.blogspot.com

Hidaiana Rosa disse...

Não resisti e tive que comprar o seu livro! Agora é só esperar chegar ;*

Fabiano Goecking disse...

Sabe aquele slogan da propaganda que diz "Fotografe e vá além"? Pois é, às vezes é melhor só fotografar...

PAULO ALVES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PAULO ALVES disse...

Há certos jogos em que o desenlace é a parte menos atraente, o bom mesmo são as jogadas. Muito bom!

Dalva Maria Ferreira disse...

Quem diria!

Sylvio de Alencar. disse...

Jogo que acaba com um beijo, não é jogo.
É brincadeira...


Boa história.

Eduardo Martins disse...

Pois é! Mulher tem desses joguetes, seguir com eles é dificílimo. Provavelmente ela terminaria a corrida c/ o maridão em casa. Bom que tenha terminado.
abraço

Ligéia Alone disse...

Estou com a Clarisse, também acho que ele não entendeu. Deve estar tentando até hoje, coitado...