domingo, 31 de janeiro de 2010

Um ouvido amigo

O passageiro embarcou com dificuldade. Dispensou a ajuda do taxista - ele mesmo dobrou o andador e acomodou entre as pernas. Talvez por estar envolvido na penosa tarefa de ajeitar-se no carro, não retribuiu a saudação do motorista que lhe desejou bom dia, apenas puxou o cinto e indicou o destino da corrida.
Era um homem dos seus 70 anos. Rosto marcado, coluna envergada pelo tempo. Esfregava a perna como se sovasse massa para fazer pão. Sem sequer olhar para o taxista, sem que o outro lhe perguntasse nada, começou a contar sua história.
Falou sobre uma infância difícil na roça, no interior do estado. Teria vindo ainda jovem para a capital para tratar uma ferida que surgiu dentro do nariz e nunca mais voltou para casa. Rolou pela cidade até a idade de servir ao exército, onde "virou gente".
Ao sair do quartel, arrumou emprego, terminou os estudos e formou-se médico. Comprou uma casa na Glória e casou-se com a mulher do verdureiro do bairro. Com a voz carregada de nostalgia, recordou o período que teria sido o melhor de sua vida. A chegada dos dois filhos, o trabalho puxado, mas recompensador...
Quando por fim poderia começar a aproveitar a vida, descobriu-se um câncer em sua mulher. Depois de acompanhá-la por três anos em um hospital, viu-se sozinho com os filhos e soterrado em dívidas.
Sem nunca olhar para o taxista, pois na verdade estava falando para si próprio, encerrou sua história em tom cada vez mais melancólico. Um dos filhos teria idos para São Paulo e o outro caído no álcool. Por fim, ele teria sofrido uma queda e fraturado a perna em dois lugares. A fisioterapia não lhe estava ajudando muito.
Ao chegar em frente à casa mal-tratada do bairro Glória, tudo o que o taxista lhe disse foi o preço da corrida. Melhor assim. Ele dispensava a compaixão alheia. Foi-se arrastando sua perna, seu andador e uma tristeza sem fim.

11 comentários:

Caminhante disse...

Saber o momento de calar também é uma arte. Talvez mais difícil do que o de falar.

Anunciação disse...

Existem esses momentos;não dá pra falar;não deve.

Clarice disse...

O que faltava a ele era alguém para ouvir, como acontece com a maioria dos que passam dos 65, 70. Ninguém tem mais tempo nem paciência com eles.
Por via das dúvidas, eu treino com meus bichos. Vai que essa lei dos direitos humanos cace minha internet, né?

Adro disse...

bah Castro, quero chegar aos 70 com meus amigos ao redor... o resto é historia de vida... pra alguns mais feliz... pra outros mais triste... o importante é viver...
abraço e boa semana mano...

Dona Baratinha disse...

Acho que todos nós quando chegarmos aos 70 estaremos nostálgicos, uns por motivos felizes outros não.

Beijos

*LIS disse...

Emocionante...

crocodilo disse...

Mauro,

por este textos e outros que não tem como não vir visita-lo frequentemente. Muito bom, gostei.

Abraço,

Paulo

karin disse...

Pois é...mas falar o que nessa hora.Me emocionou.Beijo.

Alê Crol disse...

Oie, que bacana!
O seu espaço é 10!
Quanta criatividade, virei sua fã!
Beijos e até!

Alexandre RJ disse...

Mas ele perdeu uma ótima oportunidade de acabar com sua tristeza sem fim, afinal é notório que os taxistas tem a solução para tudo! Ainda mais um taxista "metido" a escritor! E dos bons!!!

Telma disse...

Oi Mauro, fiquei triste com a história do velhinho! Chegar a essa idade nessas condições, ninguém deseja. Um óptimo dia para ti. Beijinhos