segunda-feira, 4 de maio de 2009

A fada dos dentes

A Manuela é uma das passageiras mais queridas do nosso ponto. Uma jovem estudante de Odontologia. Quando a vi chegando com seu jeitinho de fada, suspirei aliviado: entre tantos passageiros malucos, eu mereço, de vez em quando, uma corrida tranquila e agradável como a da Manu.
Antes de embarcar, ela perguntou se eu não me importaria de levá-la até um lugar onde compraria um material antes de ir para a faculdade. Abri meu sorriso mais largo e fiz com que ela entrasse no táxi. O que eu não faria por minha inocente passageira!
– Então – disse ela – toca para o cemitério.
No caminho, Manuela me explicou que muitos estudantes de Odontologia compram dentes em cemitérios. É uma prática ilegal, mas muito comum. Disse que a universidade tem um convênio com hospitais, que doam corpos de indigentes para o estudo científico, mas não é o suficiente. Virgem Maria!
Chegando ao cemitério, Manu perguntou seu eu não me importava de entrar com ela. Falou que, na última vez que estivera ali, o zelador de túmulos, que vende os dentes, havia lhe passado uma cantada. Disse que se sentiria mais segura comigo junto. Vamos lá!
O porteiro lhe deixou passar sem problemas. Conforme Manu, quem trabalha em cemitério sabe que garotos de branco trazem lucro e garotos de preto trazem confusão. Os de branco são estudantes em busca de dentes e os de preto são os góticos.
No subsolo fedido do cemitério, o zelador nos recebeu com frieza. Estava de mau humor. Depois de uma rápida negociação, Manu acabou arrematando uma arcada inferior completa por R$ 30. Uma verdadeira pechincha, segundo ela.
Deixei minha passageira na entrada da faculdade. Flanando delicada por entre outros estudantes, ninguém imaginaria que, há pouco, ela garimpava dentes humanos no subsolo macabro de um cemitério.

26 comentários:

Anderson disse...

É verdade... A gente sequer é capaz de imaginar o que uma pessoa fez antes de estar ali com a gente.
Mesmo que tenha sido coisas boas ou coisas comuns.
Excelente semana a você!

Adro disse...

Bah mano Castro... Sinistro esse tipo de comercio... Mas nada comparado com o governo Chinês que vende os órgãos dos prisioneiros executados a preço de ouro...
Ta bom ou quer mais?!?!
Abraços e uma ótima semana (Valeu pela visita sábado, show de bola tomar um café com a aventureira família Castro... hehe)

Lelê Maria disse...

Credo, que horror.
Por isso quero ser cremada!

Abraços.

Lidiane disse...

Será que garotos de branco sempre significam lucro e garotos de preto confusão?

Eu queria que no meu ponto de táxi houvesse um taxista escritor, que nem você.

:)

(required field must not be blank) disse...

Não precisa nem ir tão longe: você não sabe se o cozinheiro que preparou seu prato lavou as mãos depois de sair do WC.

Dona Baratinha disse...

Pior é que tem tanta gente nesse mundo que não parece fazer o que faz, eu mesma, tenho alunos que tem a cara ótima, mas em sala de aula são os que menos respeitam os professores. Infelizmente aquele ditado é certo: quem vê cara, não vê coração.

Beijos

Giane disse...

Oi, Mauro!

Menino...Até os mais "normais" no teu táxi viram histórias...ahauahahahauah!!!

Beijos mil, Amigão de Boas Palavras e Òtimas Histórias!!!

Mari Lopes disse...

São espertos esses dentitas. Nunca tinha me passado pela cabeça que existia esse mercado negro aqui em Porto Alegre...

Silvia disse...

Oi, Mauro!! Ficou bacana a entrevista no outro blog! Só agora deu tempo de ver. A história da Manu é meio macabra, né?

Bru disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bru disse...

uau! que medo...
ainda bem que a minha faculdade nunca vai me levar a isso.

No maximo eu levo um choque! ahaha

Eliana disse...

Muito sinistro esse mercado negro... [rs]
Outro dia, um aluninho da minha turma de Educação Infantil, me perguntou se a fada do dente existia mesmo. Pois ele havia arrancado um dentinho, colocado embaixo do travesseiro e o mesmo havia desaparecido pela manhã... Na próxima vez que essa pergunta surgir, vou informar que a Fada do Dente existe e que conheço uma pessoa que a conhece... [rs]

=====

Ps: Ao mestre com carinho é um excelente filme!!!
Abraços!

Anunciação disse...

Lembrei do meu tempo de acadêmica de medicina;pessoalmente nunca comprei mas ganhei dente de uma colega,para fazer trabalho de histologia;e tinha uma colega que tinha quase um esqueleto inteiro e me convidava pra estudarmos as madrugadas nas vésperas de provas.

Gorby disse...

Sempre um prazer passar por aqui e ler posts óptimos!

Abraço a partir de Portugal!

karin disse...

Nooossa...interessante essa história.Abraços.

Carlinha disse...

É amigão, ainda bem que fiz biologia e nunca precisei comprar pedaço de ninguém....rsrsrs...
Parabéns pelo bom humor de sempre. Beijos!

Dalva M. Ferreira disse...

Esse é um daqueles... Parabéns!

luka disse...

Dizem que estudantes de medicina tem esqueletos inteiros em casa, será verdade?? Precisamos descobrir.... Mutio bom!!!!

Renato Moura disse...

Já ouvi casos de pessoas que têm esqueletos em casa, mas acho bastante improvável. Primeiramente, ossos são a parte mais fácil do estudo da anatomia. Mesmo que tenham muitos acidentes com seus nomes a serem decorados, nada se compara a ter que aprender vasos e nervos e associar espacialmente. Quem é o estudante de medicina que nunca precisou de uma mão - mão, no sentido literal - nos estudos e pensou em levar uma para casa?

Mas...Pergunte aos estudantes como estão os cadáveres para estudo. Em sua maioria, em condições precárias, estruturas arrebentadas, ressecados ou velhos demais. Por que é que não temos uma boa disponibilidade de cadáveres?

Clarice disse...

Melhor treinar em dente de defunto que na minha boca.

Lendo o comentário do Renato Moura parece que a responsabilidade por tantos erros médicos é dos coitados dos defuntos em más condições.
Acredito que a carência de cadáveres para treinamento deva-se à cultura de alguns povos e costume de enterrá-los, mas com tanta tecnologia disponível no mundo, cortar a perna errada ou extrair um baço saudável não deveria ser debitado ao defunto ressecado.
Abraços, Mauro e pergunte ao teu dentista se aquele dente que ele colocou em tua boca é artificial ou de um "morrido". hahaha!

Renato Moura disse...

Não diria que erros médicos são causados unicamente por falta de cadáveres. É claro que auxiliaria muito o estudo se os estudantes tivessem cadáveres para própria dissecação, o que é sugerido por autores de anatomia.

Mas o problema quanto a conseguir cadáveres ultrapassa a questão meramente ideológica e pode ir para o ponto burocrático da coisa. O quão difícil é conseguir um cadáver? O que já ouvi é sobre a falta de carros na Universidade Pública para buscar cadáveres nos hospitais.

Renato Moura disse...

CLASSIFICADOS:
Preciso de um fêmur em boas condições. 555-1423 Tratar com Renato

Risos.

Alaor Ignácio disse...

Grande, Mauro,
e pensar que aqui no interior de São Paulo ainda estão levando vazinhos de flores dos cemitérios.
Parabéns pela sua crônica. Show!
Abraços,
Alaor Ignácio

Tiago Medina disse...

bã, que história hein?!
Dessas que a gente só tem oportunidade de ler aqui...

abraço

Manu disse...

Mauro querido,
Em primeiro lugar,obrigada por me considerar uma passageira especial e tranquila.
Aos amigos leitores,por favor,esta crônica é parte ficção,parte realidade.Mauro nunca me levou até o cemitério mas já ouviu boas histórias minhas desse tipo.Realmente nos primeiros anos de faculdade fazíamos uma vaquinha e alguém buscava os dentes conforme esta história.Hoje contamos com o banco de dentes.Legal e mais seguro doq ue o cemitério!
Bom,a realidade melhora e ficam as histórias...contarei para os meus netos esta!
Grande abraço Mauro!
Nos vemos em breve para colocar o papo em dia!
Com carinho,

Manu.

Marcus disse...

Pois é, dizem os estudantes de medicina que as melhores faculdades tem mais cadáveres para os alunos estudarem! Obrigado pelo excelente almoço,Mauro. Há Braços.