sexta-feira, 27 de maio de 2022

 Palestra na escola Emílio Meyer

 Temos um dependente químico que pega táxi aqui no nosso Ponto. Mora em situação de rua, abaixo da linha da pobreza. Ele vem sempre com o cachorrinho no colo e uma nota de dez na mão. Fui o primeiro a aceitar a corrida – poucas quadras, o dinheiro dá e sobra. Ficou conhecido do Ponto. Apenas um dos colegas não aceita levá-lo. Não aceita por causa do cachorro. Enfim.

Hoje, esse nosso cliente chegou mais alterado que o normal. Gesticulando, falando sozinho, sem o cachorro. Eu era o ponta. Ele avisou que a corrida seria um tanto mais longa, até a Azenha. Perguntou se eu poderia fazer pelos mesmos dez. Bora. Perguntei o que estava rolando.
– Tô devendo na boca. Duzentos conto. Querem a minha cabeça. Pegaram o meu cachorro. Tô indo lá pagar os caras.
Ao longo do caminho, meu passageiro foi tirando dinheiro dos bolsos, da cueca, do boné, sacando notas amarrotadas, dobradas, enroladas. Ele dava uma espichada na cédula, contava, mais cinco, trinta e cinco, e jogava no assoalho do táxi. Mais dez, quarenta e cinco, mais vinte, sessenta e cinco, espicha e joga no chão. Foi aumentado o bolo de notas no tapete do carro até que chegou a 196 Reais. Então, começou a jogar as moedas. E pá! Duzentão! Recolheu tudo de forma um pouco mais organizada, socou no bolso e passou a arrecadar moedas pra pagar a corrida, pois já estávamos chegando. Sete reais em moedas de cinquenta centavos, foi o que sobrou.
– Deixa assim, tá suave. Vai buscar teu cachorro.
Meu cliente agradeceu e se foi, alterado, gesticulando, falando sozinho. Com sorte, há de ficar tudo bem.

domingo, 27 de março de 2022

 Carnaval de 1986. Eu estreando na praça. Meu táxi era uma fusqueta toda baleada. Uma fila enorme de táxis na Avenida Borges de Medeiros esperando o estouro do desfile das escolas de samba, que acontecia ali atrás do Centro Administrativo. Eu finalmente chegando na ponta. Aquela multidão de foliões dispersando, cansados, arrastando suas fantasias, os táxis saindo um a u   m, até que cheguei na ponta. Sou o carro da vez.

Um cara com uma fantasia de romano passa na frente do meu táxi e, ao tentar cruzar a Borges, é atropelado! Um carro o acerta em cheio! O cara gira no ar e se estatela no chão, bem ao meu lado! Correria, gente acudindo, o Romano ferrado, a perna quebrada! Fratura exposta! Caramba! O povo começa a gritar pra colocar no táxi, Pronto Socorro, Pronto Socorro, bota no táxi! Advinha qual táxi? O meu...
Jogaram o Romano no banco traseiro do Fusca (não usávamos o banco dianteiro). A perna em frangalhos, a pele rasgada pelo osso, o sangue pingando, um horror! Acelera! Peguei o pano que eu usava para lavar o táxi e dei para o cara cobrir o ferimento, estancar o sangue, sei lá, era o que a casa tinha para oferecer. E pé na tábua!
Entrei no Pronto Socorro, farol aceso, a mil por hora. Abri a porta do táxi e chamei por ajuda. Apareceu uma baixinha de jaleco branco, uma enfermeira caminhando devagar. Puxei a mulher pela gola, mostrei o Romano, pelo amor de Deus, eu aos berros com a baixinha. Ela na maior calma, acostumada com coisas muito piores. Quando a mulher olhou para o pano podre que eu dei para o cara colocar sobre a ferida, ela enlouqueceu. Começou a me putear, me soltou os cachorros! Como é que eu uso um pano sujo daqueles sobre uma ferida aberta! E bla, bla, bla... porque os micróbios, a infeção, a esterilização... O Romano esquecido dentro do táxi e a baixinha me esculhambando, e eu revidando, batendo boca com aquele um metro e meio de enfermeira. Mó baixaria!
Passados mais de 30 carnavais, eu e a baixinha dos micróbios continuamos batendo boca. Só que, no lugar do Romano, agora é o nosso gato que assiste à discussão.

O mapa no retrovisor

A dor infinita do Quintana de não ter passado por tantas ruas de Porto Alegre, tanta gente que não conhece além do seu bairro, do seu apartamento, a imaginação entre quatro paredes. A cidade é tão diversa, tão cheia de reentrâncias, qual o mapa do poeta. Muito além dos pontos turísticos, o alto dos morros, a zona rural, a orla pra lá de Ipanema, a cidade invisível (que nem em sonhos sonhei), as quebradas da periferia. O táxi tem trânsito livre pela cidade de fato, a cidade real, crua e encantadora. A ideia de fotografar pelo retrovisor é mostrar o que passou, o que o táxi deixa para trás (poeira ou folha levada), enquanto o taxista procura ganhar a vida. A imagem refletida no espelho e além dele, o que está por vir, neste Porto quase sempre Alegre.
Cidade do meu andar
(Deste já tão longo andar)

E talvez de meu repouso

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

 Temos uma farmácia ao lado do nosso Ponto de Táxi. Fila o dia inteiro pra fazer teste COVID. Uma loucura. Há pouco, chego no ponto e tem um magrão fazendo uma transmissão, gravando um vídeo, sei lá. Ele segurava o celular na altura do rosto e falava com o aparelho. No exato momento que eu parei ele dizia todo animado:

– Acabo de sair da farmácia. Advinhem: PO-SI-TI-VO!
Assim, todo feliz, sem máscara, sentado no banco do nosso Ponto. Sentado ao lado dele, nem dois metros distante, meu colega Dedão, um senhor dos seus oitenta e tantos anos. Desci do táxi e fui no magrão.
– Caramba, meu! Vaza, vaza e bota essa máscara!
Ele ficou todo afetadinho, ui, ui, segurando o celular, gravando, tem um taxista aqui me hostilizando, não sei o que, eu mandando sair fora, já meio empurrando o magrão, mandando se isolar, mostrando o meu colega idoso ao lado dele. Foi quando ele explicou que era "influenciador digi". Nessa exata sílaba, ele levou o primeiro tapa na orelha: PLAFT!
O magrão virou a câmera do celular, avisou que estava gravando, que era discurso de ódio, intolerância, instafobia, não sei o que mais, eu mandando à merda, chutando as canelas, mandando vazar, o loko gravando, vou postar, no insta, no YouTube, sou influencer, não sei o que, meus seguidores... e toma sopapo no pé do ouvido, vai, vai, vai, meu chapa, cai fora daqui!
O vídeo deve estar bombando nas redes. Procurem por taxista malucão agredindo influenciador. Deve aparecer.
Me mandem o link.
Pensa numa travesti pobre. Paupérrima, nível moradora de rua. Alta, cabelão postiço bem comprido, meio desgrudando da cabeça, todo embaraçado, uma calça legging frouxa, suja, caindo pelas pernas, por baixo uma calcinha de couro preta toda torta, barba de três dias e maquiagem borrada. O quadro da dor. Ela trazia um fardo de cerveja Budweiser embaixo de um braço, uma bolsa a tiracolo e umas sacolas de supermercado penduradas na mão. Caminhava torta, meio de lado, um dos saltos quebrados. Essa foi a figura que chegou na Janela do meu táxi. Queria ir até o colégio Julinho. Não recuso corrida. Bora.
O primeiro empecilho foi a máscara. Ela não tinha. Por sorte, carrego algumas descartáveis. Coloca duas, pra garantir. Perguntou se eu aceitava cartão. Aceito. Liguei a maquininha, ela com um cartão super Gold Master, coisa fina. Queria passar por aproximação. Não rola, a máquina é antiga. Ela tentando igual, esfregando o cartão. Não passa, não adianta. Pedi pra inserir o cartão na máquina. Ela não quis. Não, não, não. Preferiu me pagar em dinheiro. Enfiou a mão na bunda e puxou um calhamaço de notas amarrotadas. Separou 20 pila e me deu. Toca, motora, que hoje eu tô grandona! Partiu.
Logo que saímos ela pediu que eu parasse numa farmácia. Queria comprar uns cremes, maquiagem, lubrificante anal. Sem chance. Sem paradas. Direto no colégio. Foi o combinado. Ai, taxista, para na farmácia, compro umas coisas pra ti, um desodorante, quer um desodorante? Passamos todas as farmácias direto. Era o colégio ou nada. Ela só jogando o cabelo, a guruvinha despregando da cabeça. Disse que já encomendou um cabelo novo, platinado, longo "tipo evangélica", que estava com mais de 400 Reais na bunda, que hoje era tudo com ela.
Já que não aceitei parar nas farmácias, ela me propôs que a levasse para um motel. Tô loko então! Nada de motel, sem parada nenhuma. Já a meio caminho do colégio Julinho ela me propôs encher o tanque do meu táxi, tinha gostado de mim, aceitei fazer a corrida, o que nenhum outro colega estava aceitando. NÃO. Insistiu no motel, queria virar aquelas Buds todas, encher a cara, pra não enlouquecer. E começou a gritar pela janela:
– Eu não quero enlouquecer! Eu não quero enlouquecer, não queeero enlouqueceeeer!
Já chegando no colégio, minha perturbada cliente contou porque só passava o cartão na "aproximação": Não sabia a senha. ROUBADO.
– Já passei no mercadinho, um fardo de Bud, uns bifes, dois maços de cigarro, vou baixar as prateleiras, tô patroa na aproximação, meu bem! Me deixa no Shopping João Pessoa. Vou na Renner comprar um Nike Air. Será que tem Nike Air na Renner, motora? NÃO QUERO ENLOUQUECER! PELO AMOR DE DEUS!!
Aproveitei que ela trocou o destino para o shopping e parei ao lado do ponto de táxi onde haviam três colegas estacionados. Poderiam me ajudar em caso de estresse. Nada. Minha passageira ainda jogou mais uma nota de 5 que estava caindo do soutien. Tava super minha amiga. Pegou o fardo de Bud, as sacolas, os bifes caindo no asfalto. Abaixou-se para juntar, deixando à mostra a calcinha de couro com um feicho enterrado na bunda cabeluda. Senhor, tende piedade. Se equilibrando em apenas um salto, começou a gritar para um morador de rua sentado na calçada oposta, fulano, fulano, nada do outro vir ajudar. Os colegas taxistas me olhando, fazendo sinal, perguntando se estava tudo bem. Tudo bem. Era cedo ainda, nem 8 da manhã de uma sexta-feira que promete ser longa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Tô com dor de garganta, sintomas gripais. Fui no Postinho. Resultado do exame COVID sai em 3 dias. Fico em casa, por enquanto. Pra aliviar o coração, fiz um teste rápido de antígeno. Não reagente. Deve ser mesmo só a garganta. Mas o que eu quero contar é outra coisa.

No posto de Saúde, esperando minha vez, a atendente chama uma certa "Rosicler". Opa!
Eu tinha meus 14 anos, estudava no colégio Polivalente, em Viamão. Lembro que, no meio do ano, do nada, apareceu uma aluna nova! Rosicler. Olha! Era uma moreninha linda demais, olhos verdes, bem verdes, foi uma sensação, a tal Rosicler. Além de linda, ela usava um abrigo da Adidas. Três listras. Em Viamão, século passado, aquele abrigo era o sonho de consumo de todo estudante! Além do mais, o agasalho não era o tradicional azul (o que já seria o máximo), mas um verde musgo, que ornava perfeitamente com os olhos verdes da Rosicler. Uau! Desnecessário dizer que todos se apaixonaram pela menina, que, óbvio, nos ignorava por completo. Passados mais de 40 anos, como podem ver, não esqueci a Rosicler...
Voltando ao Posto de Saúde. A atendente chama uma certa Rosicler. Fico atento. Será? A mulher que levanta é morena. Ó! Ela não parece a gatinha do colégio. Pudera, passaram-se 4 décadas. Ela parece ter a minha idade. Ó! Pode ser ela! A mulher está obesa, veste uma bermuda legging floriada e chinelos de borracha. Nem sinal do logotipo Adidas. Bom, sei lá, a crise. A mulher move-se com dificuldade, tem um problema em uma perna, eu acho. Ela está à minha frente, vai ao encontro da atendente. Não consigo ver a cor dos olhos: serão verdes? Bem verdes? O cabelo desgrenhado, os braços flácidos gesticulando para a atendente, a voz de taquara rachada. Meu Deus, o que o tempo fez com a Rosicler! O que o tempo fez comigo, que estou no mesmo Postinho, também calçando chinelos de borracha, calvo e com os braços também flácidos. A Rosicler, agora, está discutindo com a atendente, exigindo a presença de um médico, fala de um desgaste no quadril, penso nas minhas dores articulares, aqueles jovens do colégio Polivalente perderam-se no passado. Nada de abrigo Adidas, nada do meu cabelo caindo nos olhos. A Rosicler, ainda de costas para mim, roda a baiana, ameaça chamar a imprensa, a Rádio Gaúcha, sinto-me desconfortável, minha antiga paixão poderia, pelo menos, ter mantido a elegância... É quando ela dá a discussão com a atendente por encerrada e vira-se em minha direção. É quando, por fim, consigo olhar os seus olhos: Castanhos, opacos, nenhum brilho, nem sombra daquele verde estonteante. Não é a "minha" Rosicler!
A mesma atendente, pouco depois, enfia um enorme cotonete nas minhas narinas. Parece aborrecida. Não a culpo: o dia está quente, o Postinho cheio, pessoas desagradáveis como a falsa Rosicler... Haja paciência. Esse ainda será um ano difícil.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

 O homem mais feio do Brasil

A Rede Globo entrou em contato comigo. Primeiro por e-mail, pediram telefone e tal. Pensei, Rede Globo! Uau! Gente! Era a produção do programa Amor & Sexo. Eu pensei, bah, tô arrasando muito! Fernanda Lima, Rio de Janeiro, cachê, tudo pago, carro esperando no aeroporto! Gente, finalmente reconheceram meu talento! Passei telefone, endereço, CPF, data de nascimento, senha do banco, tudo! Pode me ligar, pelamor dedeus!

Do outro lado da linha, a produtora do programa, cheia de dedos, escolhendo as palavras. Eles estavam produzindo um quadro chamado "o homem mais feio do Brasil", quadro que era comum no Programa do Chacrinha, mas que foi, por óbvio, abolido. A ideia era justamente provocar a discussão sobre a ditadura do politicamente correto. Enfim.

Mas por que eu?

Eles precisavam de homens feios. A ideia inicial foi o Fabrício Carpinejar, mas o meu amigo alegou não ter agenda (tá bom). Segundo a produtora, o Fabro teria me indicado, por conta de um texto meu publicado no jornal com o título "a arte de ser feio". Perfeito! Alguém inteligente o suficiente pra escrever uma crônica e burro o suficiente pra pagar esse mico em rede nacional (ela não me disse isso, claro). E lá fui eu pro Rio de Janeiro, andar de carrinho de golfe pelo Projac. Embaixo do braço, uns exemplares do meu livro, que eu ia distribuindo pelas redações dos programas. Tá valendo!

Agora, fiquei sabendo que o Carpinejar será o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Nada mais Justo! Por certo, ele deve ter aceitado. Mas fica a dica, pessoal: caso o Filhote de Cruz Credo, por algum motivo, sei lá, uma diarréia mental espontânea qualquer, resolva não comparecer, já sabem: O FCC (Fabrício Carpinejar Cover) está aqui de bobeira, louco pra posar de escritor

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

 Isso a Globo não mostra

Seu Souza, oitenta e muitos anos, indo fazer a dose de reforço da vacina. Ele me confessa que está preocupado. Diz que teve reações adversas nas doses anteriores, a segunda mais forte, quase precisou baixar o hospital, febre, dor muito forte no corpo. Eu procuro animá-lo, vai ficar tudo bem, seu Souza. Estaciono o táxi em frente ao Postinho do Morro Santana. Observo meu passageiro passar direto pela fila, ele tem prioridade. Aumento o som do rádio, relaxo e espero. Espero. Espero. Eu já estava estranhando a demora do seu Souza em voltar quando percebo uma movimentação estranha na porta do Postinho. Gente se afastando, um falatório, meio que um princípio de tumulto, desço pra conferir o que está rolando.
"Tem alguém morrendo lá dentro!", me informa um homem que estava na fila, fila essa que, agora, se transformou em aglomeração na porta da Unidade Básica de Saúde. Forço a passagem, deve ser o seu Souza! Consigo ver o interior do posto de saúde, lá dentro, médicos enfermeiros, todos em pânico! Um homem, que deve ser o segurança, está ao telefone ligando para a polícia. A polícia! Ele pede que mandem viaturas (no plural), precisam de ajuda, um idoso está tendo uma reação horrorosa!
Eu conheço o homem, o paciente, o passageiro, é o seu Souza! Forço a passagem, eu estou com ele! Uma auxiliar de enfermagem toda escabelada me conduz até a sala onde seu Souza está tendo a "reação". A cena é surreal. Um jovem de jaleco branco, médico, está acuado no canto da pequena sala, outro atrás da maca parece se proteger segurando uma cadeira, eles gritam com o homem que esta no centro do ambiente, deitado no chão, se contorcendo. Consigo identificar o seu Souza. Ou o que sobrou dele! O rosto transformado, ainda se espichando, a cabeça encolhendo, os braços e pernas diminuindo, os membros se atrofiando enquanto, na parte posterior do corpo, onde havia a bunda do seu Souza, cresce uma protuberância, uma excrescência, uma, uma... Cauda! A calça, por fim, cede, o tecido rasga e pode-se ver perfeitamente o rabo surgindo horroroso, ainda gosmento, viscoso, resultando da metamorfose pavorosa, mas já perfeitamente delineado: um rabo de JACARÉ!
O postinho em polvorosa, gente berrando, outros desmaiando, fanático gritando mito, mito, Bolsonaro avisou! Seu Souza estrebuchando no chão, um médico jogando a cadeira sobre o animal que horas antes era meu passageiro, outro batendo com a bengala do seu Souza na cabeça do jacaré, maior tumulto. É quando chega um grupo de homens com macacões laranja, tipo bombeiros, com capacetes de proteção e tubos de oxigênio nas costas. Eles afastam as pessoas com vigor desproporcional, têm pressa, parecem determinados a acabar com a função. Um dos homens joga uma rede sobre o jacaré, enquanto outros dois cobrem o bicho com uma lona preta. Embrulham tudo, ensacam o animal, recolhem e tiram de cena, sob o olhar estupefato da audiência. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo. Noto em um canto da recepção um homem de terno preto e óculos escuros. Ele está sentado de pernas cruzadas, batendo a tampa de uma caneta Bic no tampo de vidro da mesa. Toc, toc, toc. O homem parece indiferente a toda a confusão. Toc, toc, toc.
Toc, toc, toc. Acordo com seu Souza batendo com a ponta da bengala no vidro do meu táxi. Me recomponho, seco o fio de baba que escorria no canto da boca. Meu passageirinho embarca feliz, visivelmente emocionado. Conta que ganhou um bombom, que a equipe de enfermagem está oferecendo aos idosos da terceira dose. Lembra da sua mulher, que ficou pelo caminho, vítima da Covid. Agradece por tê-lo esperado, me oferece o bombom, que eu aceito enquanto retornamos de volta ao ponto inicial. Um chocolate ajuda a manter o pique, zomba seu Souza, que me pegou cochilando.
Preciso colocar o sono em dia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021


 

Foi assim. Meu táxi requisitado por um motel. Entrei, os passageiros me esperando na garagem do apartamento. Os semblantes não eram dos melhores. A mulher entre preocupada e sorridente, um mistério no rosto. O homem visivelmente irritado. Vamos lá. Boa tarde, boa tarde, taxista, temos um probleminha. Como eu imaginava. É o certo a fazer quando se tem um probleminha: peça ajuda a um taxista. Nóis dá o jeito.
Ocorre que os dois eram amantes (por óbvio, num motel), e o homem estava em apuros. Depois de se divertirem e tal e coisa, o homem relaxou, estiradão, barrigão pra cima (eu imaginando a cena). Depois de refeito do cansaço, resolveu se levantar pra tomar uma ducha. Acontece que o lençol levantou-se com ele. Grudado na bunda.
Durante a brincadeira lá deles, a mulher, que mascava um chiclete, descartou a goma (para fazer sabe-se lá o que com a boca). O chiclete se perdeu na loucura. Depois de tudo, o homem descansou a nádega cabeluda sobre a borracha grudenta. Imaginem. Arrancado o lençol, restou o chicletão grudado nos pelos da retaguarda. Um horror! Não conseguiram limpar a região. Quanto mais puxavam mais grudava. Para não vestir a calça e grudar também no tecido, que não teria como explicar para a esposa, o homem colocou um panfleto do motel entre o chiclete e a calça. Não tinha como chegar em casa naquela situação. Quem sabe o taxista ajuda?
Casualmente eu tinha visto em algum lugar, não fazia muito tempo, a explicação de como tirar chiclete grudado no sofá. Bom, deveria funcionar pra bunda! O lance era congelar a goma de mascar, até que ela ficasse bem sólida. Daí era só puxar.
Não tinha gelo no motel. Tive que sair com o táxi pra buscar. Encontrei numa loja de conveniência. Lá no posto Ipiranga. Cheguei de volta com um saco de gelo. A solução. O homem pagou mais uma hora, fomos os três pra dentro do quarto: amulher, achando graça, o homem puto da cara e eu com um saco de gelo. Chácomigo!
Bom, aí foi aquele tal de aplicar gelo no local, que além de cabelo, agora tinha resto de propaganda de motel. Imagina. Várias pedras derretidas na bunda até que a coisa se solidificou - a pele já azulada, sem circulação de sangue. Tá feito, decretei. Agora era só uma questão de puxar. Perguntei se a amante queria fazer as honras da casa. Neeem pensar. O homem não tinha coragem. Bom, alguém precisa fazer o trabalho sujo. Eu puxo. Vaaaap!
-- Aaaaaaaaaaiiiiiiiii!!! - O berro ecoou por todos os quartos do motel, rebatendo nos muros, voltando, girando no portão, rodando pelos corredores. Era isso. Estava acabado.
Restou uma marca enorme, vermelha, escalpelada, quase em carne viva. Era só uma questão de manter a bunda longe do olhar da esposa. Um hipoglós, um creme hidratante, sei lá. O tempo cuidaria de apagar a marca do crime.
Você não tem um amigo taxista? Sério? Providencie.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 Transportei agora há pouco uma menina muito corajosa. Uns três aninhos de idade, cabelo ralo e olhos brilhantes. Ela viajou sentada no colo da mãe, agarrada a um unicórnio rosa. Estavam indo para o Hospital da Criança Santo Antônio. Quando a mãe confirmou que ela teria que levar um "pique", a menina disse que estava com medo, mas segurou o choro, a voz embargada, apertou o unicórnio contra o peito. A mulher me explicou que a filha está vencendo uma leucemia, que está lutando bravamente, mas as coletas de sangue são um problema. A pequena Isabela disse que seu unicórnio chama-se "Patas Brilhantes" e que ele também tem medo de pique. Confessei a ela que também tenho, todos tem, que não há problema em sentir medo. E inventei uma história sobre o poder de cura do chifre espiral dos unicórnios, e por um instante ela parece ter esquecido que estava indo para o hospital. Pelo resto da viagem, brincou de espetar a mãe com o pequeno chifre de pelúcia do Patas Brilhantes.

No final da corrida, garanti que ficaria tudo bem com ela, mostrei meu polegar inchado pela artrite e recebi um pique do Patas Brilhantes no dedo. Minhas articulações agradeceram.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 Meio da manhã, um homem chega até meu táxi antevendo o caminho com uma bengala de alumínio. Um deficiente visual. Ele pede que eu toque até uma esquina específica do bairro Santana. Durante a corrida, ele pergunta se posso esperá-lo por um tempo, depois trazê-lo de volta. Claro. Ao chegarmos no ponto indicado, ele pergunta se estou avistando uma ameixeira, bem na esquina. Ele pede que eu estacione o táxi embaixo da árvore. Paro na sombra da ameixeira. Ele pede que eu desligue o rádio e abaixe um pouco o vidro da janela do seu lado. Ok. Ele não fala nada. Ficamos assim por um tempo. Nada acontece. Dou uma espiada. Por baixo dos óculos escuros, meu passageiro está com os olhos fechados. Penso que ele pode ter pegado no sono. Quando decido falar alguma coisa, o homem começa a sorrir. Primeiro um sorriso discreto, que logo se alarga. O homem cego está rindo. Não contenho a curiosidade:

- O senhor está bem? Está rindo de quê? Posso saber?
- Escute, taxista. Fique em silêncio e ouça.
- Não estou ouvindo nada, senhor. A cidade, as buzinas ao longe...
- Escute. Olhe! Aí está! Ouviu?
- Um passarinho cantou.
- Um Sabiá, taxista. É um Sabiá-Laranjeira. Ele continua aqui!
Ficamos por um bom tempo escutando o canto do Sabiá. Meu passageiro feliz, as lágrimas brotando por baixo dos óculos escuros. Quando deu-se por satisfeito, pediu que eu o levasse de volta. Enquanto retornávamos, ele contou que trabalhou por 45 anos naquela esquina. Numa gráfica. Até perder a visão. Fazia três anos que não voltava lá. Disse que, hoje, amanheceu determinado a reencontrar seu velho amigo. O sabiá. Estava feliz.
Meu emocionado cliente contou que costumava passar seu intervalo de meio da manhã naquela esquina, embaixo da velha ameixeira. Disse que nos últimos 20 anos, pelo menos, ele acompanhou o canto daquele Sabiá. O mesmo Sabiá, o mesmo canto, todo ano. A partir da metade de agosto até o início do verão, o mesmo Sabiá volta àquela ameixeira para fazer seu ninho, chocar seus ovos. Três ninhadas, pelo menos. Com o passar dos anos, quanto mais a visão diminuía, mais meu passageiro disse que conseguia identificar o canto específico daquele Sabiá. Os intervalos da manhã eram o momento do encontro do funcionário da gráfica com seu pequeno cantor alado. Segundo afirmou, foi assim pelas últimas duas décadas, pelo menos. Até que precisou abandonar o emprego. Aposentou-se. Havia 3 anos que não voltava àquela esquina, que não ouvia seu velho amigo.
- O frio está com os dias contados, taxista. Meu Sabiá sabe bem disso. O verão logo há de dar as caras. Tempo de fechar os olhos, apurar o ouvido, escutar o que a natureza tem a nos ensinar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Passageira tri interessada no meu livro, vinte pilas, leu uma história, gostou, quase comprando, paramos na esquina da Ipiranga com Silva Só. Um piá vendendo morango. QUATRO BANDEJAS POR VINTE! QUATRO BANDEJAS POR VINTE! Ele gritava. Chamou a atenção da minha cliente. Levantou os olhos do livro, olhou os morangos. Senti o drama. Comentei que estão caros, "dia desses estavam quatro por dez". Mas ela interessada, e o guri gritando: QUATRO BANDEJAS POR VINTE! QUATRO BANDEJAS POR VINTE! A mulher chamou o guri dos morangos, largou o livro. Eu falando dos agrotóxicos, da seca que não adoçou as frutas, das bandejas com vírus. Nada, a mulher analisando os morangos na janela do meu táxi. O piá insistindo aos berros: QUATRO BANDEJAS POR VINTE! TÁ BARATO! QUATRO BANDEJAS POR VINTE!

A passageira fechou negócio com as frutas. Perdi a venda. A literatura acumulando mais uma perda. A gula abatendo a arte... Ainda sugeri que levasse o livro: Harmoniza com morangos e nata. Mas não. Não sobrou dinheiro. O morango está pela hora da morte, admitiu minha cliente. "Já gastei demais!".

terça-feira, 7 de abril de 2020

Estou chegando em frente a um prédio de luxo para desembarcar uma passageira. Enquanto minha cliente me paga, noto três mulheres na porta do edifício, uma delas elegante, altiva, magérrima; as outras duas humildes, por certo trabalhadoras do prédio. Elas estão com seus celulares nas mãos, naquela postura típica de quem espera transporte por aplicativos. É horário do pico, o trânsito está um caos, elas parecem angustiadas. A madame chega na minha janela, não baixo o vidro, ainda estou atendendo a passageira atual, fazendo o troco. As outras duas também parecem interessadas no meu táxi, mas há uma certa hierarquia rolando ali, mesmo que a madame não seja a patroa delas - estão acostumadas a esperar, dar passagem, usar o elevador de serviço.
Por fim, minha cliente desce e eu abro o vidro para atender a madame. Ela pergunta se trabalho por aplicativos. Sim, Cabify, mas está desligado. Ela pergunta se posso levá-la até o Centro, quanto custaria. Em torno de quinze Reais, informo. Ela alega que normalmente paga menos, pergunta se posso atendê-la pelo app, não está conseguindo transporte, está demorando, estão cancelando... Enquanto fala, ela digita no seu smartphone. Quando começo e explicar que teria que ligar o Cabify e tal e coisa, a mulher pede que eu espere um instante, dá 3 passos para trás, algum aplicativo deve ter aceitado sua solicitação. Aproveito para sinalizar às outras duas, elas respondem positivamente. Quando a madame volta a se interessar por mim (novo cancelamento?), minhas novas passageiras já estão embarcando. Game over.
Ar condicionado, carro cheiroso, som ambiente, motorista educado, minhas clientes terão um tratamento vip, profissional, por um preço justo. Serão tratadas como madames, assim como todas no meu táxi.

domingo, 8 de setembro de 2019


O taxista Biela pegou uma corrida para o município de Montenegro. Pé quente. Logo avisou ao passageiro que não conhecia o caminho, não tinha ideia de onde ficava tal cidade. Sem problemas, sessenta e tantos quilômetros de Porto Alegre, o passageiro foi indicando o caminho. Chegando lá, dinheiro no bolso, Biela feliz, mas perdidão, não tinha ideia de como voltar à Capital. De novo o passageiro deu a dica. Mostrou a rodoviária:
- Espera sair um ônibus e siga atrás. Eles vão todos para Porto Alegre.
O taxista ficou atento. Um ônibus grande, lotado, fechou a porta e partiu. Biela seguiu no encalço do coletivo. Deu azar, era uma linha tipo pinga-pinga, parava em tudo que era vilarejo, mas o taxista seguia firme, cada vez mais perdido, sem a menor ideia de onde estava. Para aqui, para ali, entra numa cidade, entra em outra, o dia anoitecendo e nada de chegar em Porto Alegre. Biela ficando agoniado, mas seguindo o maldito ônibus, até que não suportou a ansiedade. Aproveitou uma das tantas paradas e abordou o motorista.
- Amigo, eu sou taxista, estou seguindo o seu ônibus.
- Sim, eu percebi.
- Estamos muito longe da Capital? A que horas o senhor chega em Porto Alegre?
- Porto Alegre? Eu estou seguindo em direção a fronteira, Porto Alegre fica a 300km, no sentido contrário!
Biela foi colocado atrás de um outro ônibus, desta vez no sentido certo. Chegou a Porto Alegre no meio da madrugada, o tanque do táxi vazio, o prejuízo no bolso, mas finalmente em casa. Corrida para fora da Capital nunca mais.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sabe você que estava passando pela entrada do cemitério João XXIII por volta da meia noite? Você que me viu tirando uma morena aparentemente desacordada de dentro do meu táxi, carregando-a no colo, às pressas, seguido por dois cachorros bichon frisé, que latiam histéricos, como se perguntassem onde eu estava levando a dona deles? Sabe você? Eu reconheci você, mesmo em meio àquela loucura, eu notei você, ali, me observando, boca aberta, intrigada, assistindo aquela cena aparentemente incompreensível: o alerta do táxi ligado, as portas abertas, os faróis acesos, a morena desfalecida (aparentemente), o porteiro do cemitério aturdido, tentando evitar minha passagem, os cachorros mordendo meus calcanhares... Eu sei que você me segue aqui no Facebook, que deve estar esperando que eu conte o que estava acontecendo, você provavelmente está lendo esse post. É uma pena que você tenha ido embora. Depois que as viaturas da polícia chegaram, o pessoal da perícia, depois que as coisas se acalmaram, eu procurei por você, mas não a encontrei mais. Eu queria te explicar pessoalmente o que estava rolando alí, para que você não ficasse com uma impressão errada deste seu amigo taxista. É uma pena que você tenha sumido sem saber a verdade, uma pena que você tenha que esperar para saber em detalhes o que rolou ontem à noite. Lamento, mas essa história (entre outras tantas) está reservada para quem comprar meu próximo livro.
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Ter uma drag queen se desmontando no banco traseiro é uma experiência pela qual todo o taxista deveria passar.
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Se você está saindo do Barra shopping, iPhone na mão, sacolas da Zara penduradas no braço, óculos de grife prendendo o cabelo platinado, dando mó pinta de burguesa, se você é essa pessoa: não pergunte ao taxista se ele "faz preço de Uber". Não faça isso, madame
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Déficit de atenção
A senhorinha embarca no meu táxi tímida, sotaque do interior, dá o destino da corrida e se encolhe no canto do banco traseiro. Eu desenho o trajeto na minha cabeça e parto. É um caminho conhecido, apesar de longo, não há dúvidas quanto ao itinerário. Logo estou no piloto automático. Rádio no volume mínimo, a ideia de uma nova crônica fermentando na cabeça - a história de uma noiva que usa o taxista para fazer ciúmes no noivo, um caso real, cheio de detalhes sórdidos, contado por um colega. Resolvo parar em um posto de combustível, numa lojinha de conveniência onde a balconista é uma velha conhecida. Ela é gremista doente, de ir ao estádio, torcida organizada e tudo mais. Ela conta que está com o pai fazendo hemodiálise, não tem conseguido acompanhar o time, mas diz que tem me seguido nas redes sociais, assistiu a algumas reportagens. Resolvo contar para ela a história da noiva, pra ver se funciona com o público. Ganho um café em troca. Não lembrava como essa minha amiga era boa de papo. Não demora estamos às gargalhadas, o tempo voa, nem sei a quanto tempo estou ali jogando conversa fora. Preciso voltar a trabalhar. Vou até o banheiro, faço um xixi, pego uma água mineral e me despeço da minha amiga. Trocamos WhatsApp e prometemos manter contato. Enquanto volto ao táxi dou uma conferida no aplicativo que anda quieto demais, pouca gente precisando de transporte nessa área - imagino que vou voltar vazio até meu ponto...
Quando encosto a mão na maçaneta pra abrir a porta do táxi, noto um movimento estranho no banco traseiro...
A SENHORINHA!
Meu Deus, eu havia esquecido completamente que estava com uma cliente! Ela me olha com cara de assustada, não fala nada, parece sufocada no carro fechado, está a ponto de desmaiar! Abro os vidros do táxi, ofereço um pouco de água mineral, a garrafa toda, mas ela não aceita, pergunta apenas se eu ainda vou demorar muito, se estamos muito longe do seu destino, noto um terço entre os dedos da mulher, ela estava rezando, coitada, talvez pedindo a Deus que não a abandonasse como fez o taxista maluco com o qual estava lidando.
O resto foi silêncio e vontade de não ter nascido.
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Passageira idosa sentada no banco da frente do táxi, ao meu lado. O semáforo fechou e parei na altura de uma parada de ônibus onde dois homens se olhavam, rostos muito próximos. Eu e a passageira observando-os. Eles, então, se beijaram na boca. Sem tirar os olhos dos homens, a vozinha ao meu lado sussurrou, como se falasse para ela mesma "Os homens estão se beijando".
O sinal abriu, eu parti e a senhorinha, ainda com a cabeça virada para o lado direito, como se ainda olhasse a cena anterior, perguntou-me, agora em voz alta: "Os homens se beijando, o senhor viu?". Deixei a pergunta no ar, na esperança que ela acrescentasse alguma observação. Como não falou mais nada, como parecia estar em transe, eu respondi: "Eles se beijaram. O que a sra achou?". Ao que ela respondeu empolgada:
- LINDO!

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O telefone do ponto chama. Uma voz jovem me pergunta se eu me importo de levar uma gatinha no meu táxi. Óbvio que não. Vamos lá.
Depois de esperar por uns 15 minutos em frente a casa, a garota sai pela porta correndo atrás da gata, que se recusa a ser apanhada. O bicho sobe numa árvore como um foguete. A jovem, esbaforida, olha pra mim, me mostra a gata na árvore, encolhe os ombros. Pergunta se tenho alguma técnica para pegar uma gatinha arisca. Dou um longo suspiro... já tive lá minhas técnicas, houve um tempo em que uma gatinha não me escapava. Analiso a altura da árvore, aconselho a garota a desistir da ideia. Ela não me deve nada. Ligue para o nosso ponto quando a gatinha estiver pronta. Ofereço-lhe meu mais sincero sorriso amarelo e parto.
Pequenas derrotas cotidianas que um homem aprende a aceitar.

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NOTÍCIA: taxista descobre a cura da cegueira.
- Taxista, quanto está dando a corrida? não estou enxergando o valor.
- Dez reais.
- Quer dizer que R$9,78 agora virou dez!!

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Eu descia a avenida Oscar Pereira, tranquilo, táxi na banguela, quando um anjo me faz sinal. Parei, porque é do instinto de todo taxista parar para quem lhe solicita, mas já imaginando que aquela seria uma corrida complicada. Sabe quando tu já adivinha a encrenca antes mesmo dela acontecer? Quem é taxista sabe do que estou falando.
- O senhor pode chegar o banco bem para trás, por favor?
- Meu anjo, acho que você não vai caber. Talvez um táxi maior...
- O senhor reclina um pouco o encosto, abre bem a porta, eu me ajeito.
- O anjo não parece bem?
- Porque acha que estou pegando seu táxi? Preciso ir até uma pet shop que tem na rua Santana.
- Pet shop?
- Conheço o veterinário de lá, ele há de me ajudar.
Depois de escancarar a porta do táxi, reclinar o banco, me encolher no meu canto, o anjo deu o jeito de embarcar. Parecia estar sofrendo.
- Toca até a Santana, por favor, altura da clínica psiquiátrica Pinel.
- Algum problema?
- Minha asa direita. Acho que quebrei alguma parte dela, preciso examinar.
- Numa pet shop?
- Bom, é uma asa, o taxista notou que sou um anjo. A medicina para humanos não ensina a lidar com asas... Conheço o veterinário daquela pet, ele já me atendeu outras vezes.
- Como conseguiu quebrar a asa?
- Caí de uma goiabeira. Uma mulher lá me confundiu com outra pessoa, me atrapalhei. O senhor sabe, anjos caídos... vivemos caindo mesmo.
- Sei.
- Semana passada caí da bicicleta.
- Bicicleta?
- Eu comprei uns fones de ouvidos, desses grandes, sabe, potentes, JBL, pedalar com fones é um perigo, não percebi um carro se aproximando por trás, ele não chegou a bater em mim, só o susto mesmo, mas caí. Isso de cair parece uma sinal. Melhor seria ter ficado no céu.
- Taí a pet shop. O anjo tem grana pra pagar o táxi?
- Aceita cartão? BanriCompras?
- Banrisul?
- Tenho Visa também, mas é crédito. Dá pra dividir em três vezes?
- Certo. Tá ruim pra todo mundo.
- Ô.
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Dei uma lavada caprichada no táxi. Cera líquida, perfume, pretinho nos pneus. O carro ficou um brinco. Coisa mais linda do mundo! Estou sentado no banco do ponto, admirando a nave, quando observo uma madame conduzindo um cachorrinho chique pela guia. Um yorkshire tosado, escovado, bandana no pescoço, focinho arrebitado, a petulância sobre patas. A madame se deixa levar pelo animal, que começa a se aproxima do meu táxi. Pressinto o pior: o miserável vai mijar na minha roda.
Não dá outra. O bicho dá uma primeira cheirada no pneu, vira, dá uma segunda cheirada e vira de novo. Ele termina esse último giro já enquadrando o corpo, já preparando para levantar a perna. Meu coração dispara, uma luz vermelha se acende, soa um alarme em minha mente. Disparo em direção ao cachorro. Enquanto corro, solto um grito desesperado:
- NÃÃÃÃÃOOOOO!
A madame leva um cagaço, dá um pulo, solta um berro, num espasmo, fecha os punhos e ergue os braços com violência! A guia estica, puxa o pescoço do cachorro com tudo, uma estilingada que faz o bicho girar sobre o próprio eixo num rodopio fantástico! Eu gritando, a madame berrando, o cachorro girando, soltando um vértice de mijo no ar! Minha nossa senhora dos perpétuos bichanos!
Desnecessário dizer que fui achincalhado pela madame, que perdeu completamente a elegância e desceu o verbo sem pena sobre esse insensível taxista - a sandália Louis Vuitton girando na mão, ameaçando me acertar.
Tô nem aí. Nas rodas do meu táxi ninguém demarca território.
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Meu colega é um cara com espírito empreendedor. Resolveu vender ovos enquanto trabalha em seu táxi. Comprou meia dúzia de galinhas poedeiras, recolheu os ovos, colocou no porta-malas do táxi e saiu a trabalhar.
Verão, calor senegalês em Porto Alegre. Quando abriu o porta-malas do táxi para o primeiro cliente, os pintos saíram voando.
Fim do negócio.

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A jovem esposa de motorista de aplicativo, que busca amainar sua solidão nos braços de um taxista. Uma história carregada de ironia, paixão e verdade, mas que não convém contar.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Não queira estar no lugar de uma avó que pega um táxi em busca de sua neta, na esperança de encontrá-la, de trazê-la para casa, não queira ser esta mulher que sofre, que desabafa com o taxista, esta avó que soube que a neta está grávida, que carrega um bisneto seu no ventre, não gostaria de estar no lugar desta mulher que se culpa por ter trabalhado demais, de não ter visto a filha crescer, a filha vítima da aids, a neta cair no mundo, a roda viva que arrastou a avó até esse estado de desespero, de se lançar nessa busca louca, dentro de um táxi, pela periferia escura onde ela soube que a neta se prostitui, por bairros que ela jamais sonhara trafegar, não queira ser essa mulher que sofre, que quer recuperar o tempo perdido com a neta, com a futura bisneta, com o carinho que faltou e que agora julga ter pra dar, não queira ter que passar por isso ao lado de um desconhecido, de um taxista que você nunca viu na vida, com que você é obrigado a dividir sua angustia, sua busca desesperada, infrutífera, ter que passar pelo constrangimento de abordar outra menina, da idade da sua neta, outra garota que se vira, saber que a neta realmente vive por ali, pela mesma esquina, mas que deve estar fazendo um "programa", no momento, ou chapada, muito louca no barraco, não gostaria de estar na pele da minha passageira, ter que passar por tudo isso, ter que voltar pra casa sem a neta, sem esperança, amparo, ver-se obrigada a dividir sua história com o taxista, por falta de outro alguém com quem contar, não queira estar tão só, desarme o espírito, conecte-se, abra os braços, esteja disponível, sei lá... não espere que seja tarde demais.
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Dentre os taxistas que levam aquela passageira rabugenta até o Jardim Botânico, talvez eu seja o único que a entenda, que tolere seu mau humor, que saiba porque ela sempre vai lá. Foi o meu táxi que ela usou para levar as cinzas do seu cachorro até o JB. Esperei que ela espalhasse pelo lago o que sobrou do bicho. Segundo ela, o único ser vivo que mereceu seu respeito.
- Essa porcaria de táxi não anda mais rápido?
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- Então o senhor é escritor, um taxista escritor!
- Sim.
- Pois eu também escrevo. Escrevo mensagens, sabe, mensagens positivas, as verdades da vida, coisas lindas, pra cima.
- Humm.
- Mas esse seu livro é sobre o quê? São tipo piadas de taxistas?
- Não exatamente.
- Histórias depravadas? Os taxistas me contam cada coisa! Rola muita sacanagem, não é? Já namorei um taxista, sei como é...
- Não diga.
- Eu escrevo mensagens, lindas mensagens, mando pro amigos no Facebook. O senhor tem Facebook?
- Não senhora.
- Que pena.
- Pois é.
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O marido nunca se preocupou em disfarçar seu desconforto com a vizinhança do ponto de táxi - chegou a colocar uma placa no portão do sobrado pedindo respeito aos limites de sua entrada de garagem. Ela sempre discreta, olhos baixos, esposa submissa, nunca deu pinta se concordava ou não com a postura azeda do marido. Foi assim até o dia em que os taxistas invadiram o sobrado atendendo aos seus pedidos de socorro. O homem infartado, urinado, babando, transportado às pressas, o táxi voando para o Pronto Socorro.
Acabo de vê-la saindo (meu carro no limite da sua entrada de garagem). Simpática, brindou-me com um sorriso sincero e dirigiu-se ao táxi da ponta. Destino: Cemitério Jardim da Paz. A brisa abafada de Finados soprando o ramalhete de flores nas mãos da viúva.
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Minha passageira idosa, viúva, que habita solitária um dos últimos casarões do bairro Menino Deus. Quando pega meu táxi, não se importa de fazer o caminho mais longo (desconfio que até prefere), de parar em engarrafamentos, ela aproveita a corrida para interagir comigo, me trata por filho, pronuncia muitas vezes meu nome:
- Então, Mauro, como está, meu filho... A vida é assim mesmo, Mauro, não te preocupa, meu filho, Deus é que sabe, Mauro... Pois é, Mauro... Não tem pressa, Mauro... Aqui está bom, meu filho... Obrigado, Mauro, bom dia pra ti, meu filho... Fica com Deus Mauro...
Procuro levar a conversa com naturalidade, como se fosse só mais uma idosa que precisa exercitar a arte de conversar, de ouvir sua própria voz que já não usa tanto, sem lembrar que sei o que a leva a citar tantas vezes meu nome, a me chamar de filho. Procuro não lembrar que ela me contou do filho brutalmente assassinado, o filho único, talentoso, futuro brilhante, o filho executado na saída de uma festa. Procuro apenas ouvi-la, deixá-la lembrar de como era falar com seu filho que se chamava Mauro.
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Papelada, vistoria, taxa, taxa, imposto, tira ficha, espera, espera, espera, paga, paga, cópia, cartório, tira ficha, autentica, reconhece firma, mais papelada, outra vistoria, volta, paga a taxa da vistoria, Banrisul, espera, espera, espera, volta no Detran, tira ficha, espera, espera, mais vistoria, fila, fila, receita estadual, ficha 375, espera, espera, espera, caiu o sistema, volta no outro dia, não voltou o sistema, vai na EPTC, tira ficha 43, espera, vistoria, paga taxa vistoria, volta na receita, voltou o sistema, ficha 127, volta no Detran, ficha A250, espera, espera...
Uma semana enredado em burocracia pra colocar um táxi novo. Dias de fúria.
Alguém empresta uma arma?
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O taxista estava cansado, tinha trabalhado o dia todo. Já começava a anoitecer quando surgiram dois clientes engravatados. Dois advogados. Explicaram que precisavam estar em Uruguaiana nas primeiras horas do dia para uma audiência importantíssima. Seria a noite toda rodando, cerca de 700 km, uma corrida irrecusável! Trataram o preço e partiram rumo à fronteira oeste.
Assim que o táxi começou a rodar, os clientes dormiram. O taxista, logo que pegou a estrada, também sentiu sono, bateu o cansaço. Mal tinha passado a cidade de Guaíba, o motora resolveu dar uma paradinha em um posto de combustível para tirar uma rápida soneca.
Os 3 dormiram profundamente.
Quando o sol da manhã bateu no táxi, os advogados acordaram. Sacudiram o taxista perguntando se já estavam em Uruguaiana! Mal tinham saído de Porto Alegre. Nem 50 quilômetros rodados.
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A nova cor do táxi
Eu vinha serpenteando pelo meio da Vila dos Comerciários quando um garoto me fez sinal, avisou que uma senhora estava a umas duas esquinas adiante esperando por um táxi. Segui o caminho indicado e avistei a cliente - uma senhorinha idosa apoiada em uma bengala. Ela estava de costas para mim, olhando para o fundo da avenida. Fui chegando devagar primeira marcha, parei o táxi com a porta quase encostada na bengala. Baixei o vidro, perguntei se ela precisava de um táxi. Ela me olhou desconfiada. Deu uma boa olhada no meu carro. Branco, as faixas vermelhas. Torceu o nariz:
- Eu estou esperando um táxi.
- Pois então. Aqui estou!
- O senhor é taxista? Esse é um táxi?
- É um táxi. E novinho em folha!
- Branco? É o mesmo preço do outro?
- Mesmo preço, normal, é a nova cor.
Depois de dar uma última olhada para o fundo da avenida, depois de constatar que eu era o que mais se parecia com um táxi na redondeza, a senhorinha resolveu arriscar.
- Até a Azenha, por favor.
- Pois não.