domingo, 2 de dezembro de 2018


Sentado dentro do meu táxi, bem na esquina, assisti o acidente em detalhes. Um Logan prata converteu de forma abrupta e uma moto em alta velocidade bateu no carro. O motoqueiro carregava um botijão de gás na garupa, o Logan carregava uma passageira no banco de trás.
Carro amassado, motoqueiro esfolado, recolhe o parachoque que caiu, busca o botijão que rolou, bate-boca, dor, raiva, prejuízo. Eu só observando.
Seria só mais um acidente, entre tantos que presencio diariamente, não fosse um detalhe. O momento em que o "parceiro" motorista de aplicativo cogitou procurar por uma testemunha. Ele olhou pro meu carro parado na esquina, eu sentado ao volante, a testemunha perfeita! O cara chegou a dar alguns passos em direção ao meu táxi, mas desistiu no meio do caminho. Lugar errado para buscar solidariedade, ele deve ter concluído.
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Tenho um passageiro que costuma encontrar-se com sua amante em um cemitério. É sério! Acabei de deixá-lo lá. Alertei-o quanto as previsões de mau tempo, tempestade de granizo e tudo mais. Não adiantou.
- Hoje vamos visitar o túmulo dos avós dela.

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Minha passageira planeja comemorar seus 80 anos fazendo um curso de Reiki Xamânico em uma fazenda de nudismo. Contratou-me para levá-la pela manhã e buscá-la à tarde. Como não tem companhia, minha octogenária cliente deu-me a opção de participar das atividades junto com ela, na base da parceria, tudo pago!
Alguém tem ideia de como seria esse "curso"?

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Num casal de idosos onde um enxerga pouco e o outro é quase surdo, adivinha quem liga para o ponto de táxi:
- Alô, ponto de táxi, boa tarde.
- De onde fala?
- Ponto de táxi.
- É do ponto de táxi que está falando?
- SIM, PONTO DE TÁXI (gritando)!
- Alô.
- ALÔ! PONTO DE TÁXI!
- Alô, alô, eu preciso de um táxi. Alô.
- SIM, QUAL O ENDEREÇO!?
- Alô, é do ponto? É do ponto de táxi?
Desisto.
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- Alô, oi, João, onde você está, meu amor? No Centro? Num cliente, João? Não diga!
- A senhora vai ficar aqui?
- Eu tô num táxi, João. Na Fernandes Vieira, na frente da casa da perua da Luiza. O que é que o teu carro tá fazendo estacionado na frente da casa dessa biscate, João?
- Desligo o taxímetro, ou a senhora...
- Não é o teu carro, João? É a mesma placa, João! O mesmo adesivo Deus é fiel no vidro traseiro! Tu tá de novo com essa vagabunda, João! Não tô acreditando, João!
- Não posso ficar parado aqui em fila dupla, vão multar meu táxi, senhora.
- Taxista, toca pro motel dos Alpes. João, sabe o que é que eu vou fazer? Alô, tá me escutando bem, João? Eu vou pro motel com esse taxista, vou dar pra ele, a gente vai se acabar transando, João!
- Olha só, eu estou trabalhando, não...
- Hum, ele ficou todo assanhadinho, acho que é tarado, esse taxista, João! Aposto que vai ser ótimo, seu imbecil! Ele tá me levando pro motel, João!
- Não, olha...
- Que vai matar o quê, tu não vai matar taxista nenhum, pensa que só porque tu és delegado as pessoas tem medo de ti, João? Grande coisa que tu já tem dois assassinatos nas costas!
- Minha nossa senhora.
- O taxista tá rindo da tua cara, hahahaha!
- Não faça isso, senhora.
- Olha, João, ele é escritor, o taxista! Nossa, que legal, foi o senhor que escreveu esse livro?, Taxitramas, hum.
- Não, não.
- Fica aí com a piranha da Luiza, João, eu vou pro motel com esse taxista, hoje tu vai ser corno, João! Um taxista escritor hahahaha, aposto que vai escrever a história do corno do João hahahaha!
- Me dá aqui esse telefone, alô, alô, seu João, seu João, alô, alô.
- Eu já desliguei. O senhor pode me deixar ali no shopping, por favor.
- Tô ferrado.
- Quanto custa o seu livro?

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Numa corrida em que levava seu cachorrinho para uma clínica veterinária de luxo (sessão de acupuntura) a passageira me confidenciou que está enxugando gastos: está tirando sua mãe de uma clínica geriátrica "metida a besta", colocando a velha em um lugar mais simples.
- Minha mãe está com Alzheimer, não aproveita nada mesmo

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Hoje é quinta-feira e eu vim trabalhar de tênis. Esqueci. Aposto que minha passageirinha da terceira idade vai me cobrar. Semana passada, ela deu a dica:
- Eu venho toda quinta-feira nesse bailinho. É bom, mas falta homem pra gente dançar. O senhor não quer estacionar o táxi? Dançar um pouco comigo? Pago seu ingresso e um refri!
- Mas a senhora disse que não deixam entrar de tênis...
- Vamos combinar pra semana que vem!

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Um homem embarca no táxi fazendo sinal de que não fala, é mudo. Não tenho caneta, ele tenta me explicar onde quer ir:
- As mão enlaçadas sobre o peito.
- Igreja. Não?
- Fecha os olhos. Os olhos fechados.
- Dormir. Clínica do sono? Não?
- Mãos no peito, olhos fechados, língua pra fora.
- Língua pra fora?
- Ajeita a gravata (já irritado), pés juntos, estica pra trás, mãos no peito, olhos fechados!
- Gravata, estica, testemunha, casamento, cartório!?
- Indicador esticado, arma na mão, tiro na cabeça, olhos fechados, língua pra fora?
- Necrotério municipal!
Puto da cara, o mudo desce, vai no táxi de trás pede um papel e escreve às pressas, com letra de forma, bem grande "CEMITÉRIO PORRA!!"
- Ai, nossa, não se irrite.
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O marido pega meu livro pra dar uma espiada, lê uma história, duas, cai na risada, adora. Ele vira pra mulher, que parece enfastiada no banco traseiro do táxi.
- O livro do taxista é ótimo, querida, vamos levar?
- Não.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo
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Sinal vermelho.
Av. Bento Gonçalves, sete da matina. Paro o táxi no semáforo. Na calçada, uma jovem morena, cabelo molhado, short justíssimo, blusinha mínima e botas de canos longos, acima dos joelhos, está parada com as duas mãos no rosto, secando as lágrimas, o rosto deformado pelo choro. Ela parece à beira de um ataque de nervos. Do outro lado da avenida, um bordelzinho de quinta está fechando as portas, um pequeno grupo de "clientes" está deixando o local. Um deles parece xingar a menina que chora na outra calçada. Penso em abrir o vidro do táxi e oferecer ajuda, mas, nisso, pára um ciclista, um senhor, roupas simples, mochila nas costas - típico trabalhador economizando a passagem do ônibus. Ele desce da bicicleta e acode a garota que chora, põe a mão no seu ombro, conversa com ela.
Sinal verde.
Fico curioso quanto ao desenrolar da cena, tento retardar a partida, mas as buzinas me chamam à realidade, engato a primeira marcha e sigo o fluxo. Afinal, a vida é isso mesmo: um eterno seguir o fluxo.
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Corridinha de 7 Reais
- Só tenho 50, o senhor tem troco?
- Tenho, mas essa nota é falsa, senhora.
- Mas eu peguei no banco agora mesmo!
- É beem falsa.
- Então só tenho essa de R$100.
- Também é falsa. É um xerox, senhora!
- Recebi no banco!
- Ali tem uma viatura da polícia, a senhora...
- Não, não, eu detesto polícia.
- Aposto que sim.
E se foi sem me pagar.

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