sábado, 23 de julho de 2016

Viola enluarada

O homem que fazia sinal para meu táxi na calçada carregava uma garrafa e um violão. Já estava anoitecendo, mas resolvi fazer uma última corrida, o violão foi o fator decisivo para que eu parasse. Afinal, alguém que gosta de música merece crédito.

O sujeito pediu que eu o levasse até a Azenha. Contou que estava começando um namoro, que resolvera fazer uma surpresa para sua amada: comprou uma champanha, duas taças, pegou seu violão, ensaiou a música preferida dela… Faria uma serenata!

Uau, um romântico!

Ao longo da corrida, o passageiro me contou que sua namorada tinha terminado seu casamento, mas que o ex-marido não aceitava bem a separação, continuava a importuná-la. O homem tentava, em vão, voltar para casa. Visando animar sua querida, meu cliente resolveu fazer-lhe a surpresa musical.

O problema é que meu passageiro, apesar de cantar bem, era um músico iniciante, tinha pouca prática com o violão. Quando falei que tocava razoavelmente bem o instrumento, o cara implorou-me para ajudá-lo. Quer saber? Vamos nessa.

Estacionei o táxi e fomos para o portão da moça - eu de viola em punho e meu apaixonado cliente com a champanha e as taças. Tasquei os primeiros acordes da canção e meu parceiro começou a cantar. Logo uma luz se acendeu na casa - parecia estar funcionando. Meu passageiro empolgou-se e colocou sentimento na voz.

Felizmente eu tinha deixado o táxi aberto. Foi só o tempo de jogar o violão pra cima, me enfiar no volante, dar a partida e arrancar fedendo. O passageiro, aos berros, mandando eu acelerar!

Por pouco o marido da mulher não nos alcançou. Ao que parece, ele tinha conseguido reconquistar a esposa. O homenzarrão saiu pela porta da frente, só de cuecas, com um cutelo enorme na mão, prometendo partir meu passageiro ao meio. Por sorte, atrapalhou-se com a chave do portão. Tempo suficiente para batermos em retirada.

Quando minha mulher perguntou onde tinha conseguido as taças e a champanha, expliquei que era uma gorjeta que fiz por merecer.

2 comentários:

Psicanalista disse...

Real , ou ficção?

Dalva M. Ferreira disse...

Quem diria, quem diria???