terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Carta aos (colegas) taxistas

Eu fui um dos primeiros taxistas a comprar um celular quando essa “novidade” apareceu por essas bandas. Quando meus passageiros começaram a ligar diretamente para mim, eu apanhei dos meus colegas de ponto. Literalmente. Briga de rolar pela calçada. Tentaram me expulsar do ponto, mas não rolou: a EPTC entendeu que o passageiro tem direito de escolher o taxista que vai lhe atender, seja pelo telefone fixo, seja escolhendo no ponto, seja por celular… enfim. De lá para cá, muita coisa mudou. O próprio celular ficou mais inteligente, tornou-se smartphone.

Quando surgiram os aplicativos para chamada de táxi, o representante da Easy Táxi veio a Porto Alegre conversar comigo. Ele mesmo instalou o app no meu aparelho. Feito isso, pediu que uma funcionária da Easy, desde São Paulo, mandasse uma corrida para mim como forma de me convencer que a coisa funcionava. Saí daquela conversa como o primeiro taxista gaúcho parceiro do aplicativo. Meus colegas, desconfiados, apenas coçavam a cabeça. De lá para cá, muita coisa mudou. Apesar da gritaria dos contrariados, os aplicativos se estabeleceram.

No momento em que digito este texto, fevereiro de 2016, os taxistas de Porto Alegre estão preocupados com a concorrência do Uber, o aplicativo de “carona” colaborativa. Acontece que neste mesmo momento, a empresa Uber, nos Estados Unidos, está preocupada com o app concorrente Lift e seu bigode rosa, que por sua vez está de olho no SideCar, que oferece “caronas” mais descoladas, e isso é só o começo - a Capital gaúcha já estuda um sistema de aluguel de veículos elétricos aos moldes do BikePoa. O mundo está mudando numa velocidade espantosa (desculpem o clichê), o taxista que não perceber isso corre o risco de ficar à margem do mercado.

Os “colegas” taxistas que agridem motoristas do Uber prestam um grande favor à empresa americana - é a mídia mais eficiente e barata para divulgá-los. Além de colocá-los como os pobres injustiçados defensores da mobilidade urbana, detona uma verdadeira caça às bruxas entre os taxistas, que, aos olhos da população, posam como broncos selvagens e antiquados. Quando o motorista do Uber foi agredido naquele episódio lamentável em que todo mundo acabou no Palácio da Polícia, pouca gente perguntou por que o representante da empresa Uber em Porto Alegre chegou ao distrito em um… táxi. Deixa pra lá.

Não acredito que o táxi vá acabar - em plena Nova York, ainda é possível alugar uma carruagem -, mas estou atento às mudanças. Mesmo depois de 30 anos manuseando um taxímetro, não me sinto velho demais para novos desafios. Pretendo acompanhar as tendências. Meus clientes, por exemplo, não me verão mais dirigindo de bermudas, nem com os vidros abertos para amenizar o calor. Meus clientes podem pagar a corrida (mais livro autografado) com cartão de crédito/débito, desfrutam de um carro espaçoso, contam com gps, acesso à internet e a um papo amigo. Tudo sem acrescentar um centavo ao valor que consta no taxímetro. Gorjetas são bem vindas.

Acho que este é o futuro do táxi. Tornar-se um negócio mais moderno, proporcionar uma experiência agradável ao usuário a ponto de fazê-lo esquecer as outras opções - Uber, Lift, SideCar, elétricos de aluguel, carros autônomos, o que seja. O taxista precisa se puxar, não porque a prefeitura está cobrando, mas por uma questão de sobrevivência, porque o MUNDO está cobrando. É hora de deixar de mimimi, de olhar para a frente, pois é lá que o melhor está nos esperando. E é pra lá que eu vou.


15 comentários:

vidacuriosa disse...

Muito bom.

Paulo Silva disse...

Você conhece o projeto da Ordem dos Taxistas do Brasil que está no YouTube?

Paulo Silva disse...

Você conhece o projeto da Ordem dos Taxistas do Brasil que está no YouTube?

Paulo Silva disse...

Você conhece o projeto da Ordem dos Taxistas do Brasil que está no YouTube?

Paulo Silva disse...

Você conhece o projeto da Ordem dos Taxistas do Brasil que está no YouTube?

Tom Costa disse...

Você conhece o projeto da ordem dos taxistas do Brasil???
YouTube e facebook

Paulo Silva disse...

Aplicativos não transportam nenhuma pessoa. Aplicativos não qualificam nenhuma pessoa. Aplicativos são programas de informática. Aplicativos são apenas mais um meio de comunicação, nada mais.

Empresários de aplicativos aproveitam do sistema mercantil escravocrata aplicado na profissão que é vulnerável permitindo todas pessoas entrarem para explorar os taxistas ou concorrer com a profissão de forma ilegal criminosa como é o caso da máfia criminosa internacional UBER.

EasyTaxi, 99Taxis e todas outras se aproveitam do sistema na profissão e do pouco nível intelectual e do know how para ganhar dinheiro dos taxistas na intermediação do trabalhador com o consumidor.

O projeto de lei federal da Ordem dos Taxistas do Brasil que está no YouTube resolverá todos os atuais problemas nesta profissão.

nicuri disse...

Vc é taxista mesmo? incrível !!!

Anônimo disse...

Peraí, achei que explorar profissionais era prerrogativa única e exclusiva dos sindicatos! :-)

Dalva M. Ferreira disse...

Cabra bom!

Tatiana Rocha disse...

Vamos olhar do ponto de vista do usuário dos táxis:
Eu tenho carro, pouco uso táxis, mas não tenho nenhuma vontade!
Em sua grande maioria, os taxistas são mal-educados, sequer tem boa vontade, nem que seja para ligar o ar condicionado! Não nos dão liberdade de escolha, tenho que pegar o PRIMEIRO carro da fila.
Mas pagando o preço da corrida, certamente não quero andar num Uno ou Gol, quero andar no Cobalt, no Corolla. Mas eu não posso.
Sou xingada se preciso de uma corrida as 9:55 que vai custar 10 reais desde a frente da rodoviária(que sabemos que eles passam muito tempo na fila, mas isso não é um problema meu, o motorista do taxi vai dirigir e eu vou pagar, não é nenhum favor!).
Fedor de cigarro ou outros dentro do carro, implorar para o ar ser ligado, escutar músicas que não são do meu gosto, falta de padrão na vestimenta, as vezes acho que eles estão indo para a praia! Ir em qualquer carro, não há padronização, incontáveis faltas de respeito, consideração. Violência verbal com outros motoristas da via, faltas graves de trânsito, fora quando somos os outros usuários da via! Quantas vezes senti medo de andar de táxi pela velocidade acima da permitida ou manobras bruscas.

São inúmeros os abusos da classe para nós que somos clientes, até mesmo atentados sexuais!

Desculpe-me se o meu relato está generalizando os profissionais, e vejo que quem escreve esse blog também sente ou já sentiu-se abusado pelos próprios colegas.

Eu acho que o caso do Uber e afins, nada mais é do que a dor de cotovelo e medo que os profissionais sentem por não serem mais donos da cidade e nos submeter as covardias e faltas de sem-vergonhismo que antes a EPTC era incapaz de intermediar.

Entendam que a concorrência não vem para tirar mercado mas para classificar, padronizar, atender TODOS os públicos, os nichos da sociedade que podem pagar por um táxi ou por um Uber, afinal, a diferença no valor é BEM considerável, sem contar a educação e cordialidade dos quais é EXIGIDO dos motoristas. Eles são avaliados, treinados, coisas que a gente não vê nos laranjinhas.




Clarice disse...

Mauro, vizinho amigo. Inteligente e coerente. Sabe aquela baixinha que tinha a melhor voz do Brasil, a Pimentinha Elis? Ela cantava há muito tempo: "...o novo sempre vem..."

Raramente uso táxi, eis que onde moro pouca necessidade tenho, mas houve um tempo em que as pessoas só se locomoviam de carruagem, que substituiu as pernas. As ditas são enfeites agora e quem andava a cavalo anda de ônibus e vai por aí.

Grande abraço e que cada um seja feliz e venda seu peixe.

Unknown disse...

Parabéns pelo texto e pela coerência nas palavras.E quem não caminha com a modernidade que se aposente e viva sua vidinha fútil. Vc meu querido é quase um Android em pessoa especial d+!Viva o escritor, o taxista, músico sou fã sim!Cheia de orgulho! E quando cansar viva em um paraiso com sua familia e deixes os coitados morrerem de inveja!Abraço

Lilian Santana disse...

Parabéns pelo texto e pela coerência nas palavras.E quem não caminha com a modernidade que se aposente e viva sua vidinha fútil. Vc meu querido é quase um Android em pessoa especial d+!Viva o escritor, o taxista, músico sou fã sim!Cheia de orgulho! E quando cansar viva em um paraiso com sua familia e deixes os coitados morrerem de inveja!Abraço

Anônimo disse...

Hugo Nascimento
Uber: a história se repete

Todos se lembram bem do período da História brasileira que retrata a chegada dos portugueses e o primeiro contato deles com os indígenas que aqui habitavam - cerca de 5 milhões à época. Os nativos foram presenteados com uma variedade de bugigangas. Espelhos, colares, pentes, miçangas! Artigos encantadores para quem vivia longe da civilização. Tudo em troca da exploração. Engodados pela novidade e persuadidos pelo discurso do benefício tiveram que cortar Pau-Brasil para a coroa portuguesa.

Com o mesmo discurso e 500 anos depois, a história se repete. Pregando inovação, tecnologia, modernidade e superioridade, a Uber está convencendo muitos de que seus serviços representam a melhor opção para os cidadãos que precisam se locomover. Pelo poder do marketing convence motoristas a se tornarem “parceiros”, impregna o conceito de salvadores da mobilidade urbana e se posiciona como vítima de uma perseguição injusta.

A empresa Uber pratica dumping sem dó nem piedade; sonega meio milhão de reais mensais em impostos para o município; desrespeita o Código de Defesa do Consumidor (“tarifa dinâmica” e pagamento só com cartão são coisas ilegais) e coloca em risco a vida de milhares ao não vistoriar seus carros. Com obrigações financeiras definidas em lei, os taxistas sofrem a agressividade de uma concorrência desleal travada pela gigante americana que nasceu em uma startup e ganha seu dinheiro transportando pessoas.

É nesse contexto que temos uma atividade sem a tutela do Estado, praticada por uma empresa que impõe suas regras, estabelece valores e se autofiscaliza. Sem escritório em Goiânia, seus dirigentes se furtam ao debate público e sequer podem ser encontrados. Deixam na fogueira até seus motoristas “parceiros” que, sem poder de decisão, ficam reféns de um discurso preestabelecido pela multinacional.

Em muitos países da Europa transportar vidas é coisa séria. Na França, a empresa Uber está sendo multada e banida. Amsterdã, Madri, Bruxelas, Deli, Sydney e a cidade americana do Texas, Austin, impuseram um regulamento mais severo e a empresa decidiu sair. No Brasil a plataforma já enfrenta questionamentos do Ministério Público do Trabalho de São Paulo e outras ações começam a pulverizar em diversas regiões.

A sociedade precisa se perguntar com urgência: vamos reviver a história na modernidade? Tomara que a música da banda Legião Urbana não vire refrão dos brasileiros: “Quem me dera, ao menos uma vez, como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente”.