domingo, 29 de setembro de 2013

Máquina de moer automóveis

O taxista estacionou no subsolo de um supermercado. Em uma vaga afastada, num canto menos iluminado do estacionamento onde poderia ficar a sós com seus pensamentos. Apoiou uma das mãos no táxi e agachou-se devagar até encostar um dos joelhos no piso - o cigarro preso entre os dentes, a boca contraída de raiva. Maldição!

Aquele não era apenas mais um entre os quatro mil táxis de Porto Alegre. Aquele era o SEU táxi. O único daquele modelo na praça. Importado, exclusivo. Nada popular. Tinha escolhido aquele carro a dedo. Sessenta longos meses para pagar. Quem se importa. Era o melhor da praça.

Depois de uma última tragada, esmagou o cigarro no piso. O rangir dos pneus ao fundo, os carros manobrando, os carrinhos de compras sacolejando. O taxista respirou fundo tentando controlar sua raiva. Evitava olhar para a roda do táxi.

Nada de calotas. Rodas de liga leve, pneu de perfil baixo, silicone no capricho, pretinho depois da lavagem, brilhando. Não deixou de lavar o carro em nenhum dos 15 dias em que estava na praça. Aspirador, aromatizante lavanda. Queria manter aquele táxi intacto, como havia saído de fábrica.

Mas sonhos acabam. Ajeitou melhor os óculos para avaliar o estrago.

Maldita hora em que foi estacionar. Nunca praticou baliza como deveria. Calculou mal, encostou a roda no meio-fio da calçada. O barulho da pedra raspando no cromado partiu o coração daquele taxista. Agora, ali, no fundo daquele maldito estacionamento, ele precisava enfrentar a verdade: a roda estava arranhada. Maldição!

Depois de assimilar o golpe, o taxista partiu para os próximos 5 anos de trabalho, que transformariam aquele carro em um verdadeiro caco velho - as rodas, por exemplo, dançaram já no primeiro assalto. Não sobrou uma parte sequer que não fosse castigada pelas barbeiragens do trânsito. A praça é uma máquina de moer automóveis.

Mas de todas as marcas, o primeiro arranhão é o que mais dói.

8 comentários:

ricardo garopaba E DO MUNDO blauth disse...

alo Mauro

um belo conto
agora não é apenas um cronista

o poeta está solto
aproveite.......

ha braços
comos disses

ricardo garopaba E DO MUNDO blauth

Eduardo P.L. disse...

É verdade, o primeiro risquinho é muito dolorido.

Clarice disse...

E pensar que há milhões de anos quando um dinossauro quebrava uma unha, ninguém chorava por ele!
Na ordem do universo, deixa isso pra lá, vai! Quem se lembra da primeira ruguinha do rosto?
A imagem do post é de um super-heroi chorando. Bem construída.

Olho vivo, vizinho!

Clarice disse...

Ah, e estou amando cada texto do livro, alguns que a memória comera, mas sempre surpreendentes e cheios de verdades. Parabéns!

Anônimo disse...

Kkkkkkk

FelipeTáxiFortaleza disse...

Realmente o primeiro arranhao eh o q mais dói.

FelipeTáxiFortaleza disse...

Realmente o primeiro arranhao eh o q mais dói.

Robinho do taxi disse...

Ótimo texto foi assim mesmo com meu primeiro carro zero kkkkkkk