domingo, 18 de agosto de 2013

Alguns fazem mais falta

O que mais me lembro do meu colega Suquinho é do seu hilário mau humor. Do jeito como ele passava o dia emburrado me fazendo rir. Suquinho era o típico rabugento simpático. Vivia ameaçando me processar por eu estar publicando no jornal as histórias que ele me contava.

Suquinho me contava suas (muitas) histórias nas raras vezes em que descia do carro. Em geral, passava o dia todo sentado no táxi, lendo o jornal Zero Hora aberto sobre o volante. Suquinho lia tudo, da manchete de capa à última letra da contracapa, mas se recusava a comentar qualquer notícia, como se passasse o dia todo apenas olhando para o jornal.

Lembro-me de ver meu saudoso colega dentro do táxi, com um sol de verão torrando a lataria. Suquinho parecia não sentir calor, sequer suava, no máximo tirava um dos sapatos e colocava o pé sobre o painel do carro - sempre de meia carpim preta. Se alguém perguntava por que ele não ia para a sombra, Suquinho apenas dava mais uma tragada e voltava ao jornal. Aliás, o cigarro estava sempre entre os dedos. Até o fim.

Quando uma equipe de TV veio ao ponto fazer uma reportagem sobre o Taxitramas, os taxistas cercaram a entrevistadora. Em certo momento, porém, a repórter ficou curiosa sobre aquele taxista que não saía do táxi. Foi até lá e entrevistou o Suquinho. Foi a melhor parte da matéria.

Muito magro, cabelo cuidadosamente desalinhado, camisa social sobre camiseta “baixeira” branca. Suquinho era uma figura interessante. Caminhava como se executasse passos de uma estranha dança. Meio desengonçado, sempre lutando para manter a camisa para dentro da calça frouxa. Toda a segunda-feira, pedia emprestado meu Diário Gaúcho para ver “o que eu havia mentido”.

Quando fui comprar a coroa de flores para o velório do meu querido colega, pensei em colocar uma frase bem sacana na faixa. Tenho certeza que ele teria adorado. Mas acabei rendendo-me à tradicional e sincera mensagem de saudade dos colegas de trabalho. Muita saudade.

7 comentários:

Gisiane paranhos disse...

História real...
muito bem escrita, retratando exatamente, o tão saudoso suquinho...
gisiane

Rafael Perfeito disse...

Não há o vídeo da entrevista com ele?

Maykon disse...

O charme do mau humor é sempre envolvente...

Sérgio L. Buchmann disse...

O SUQUINHO sempre retribuiu aos cumprimentos dados por seus passageiros com um invariável "BOM DIA PARA NÓS" ou "BOA TARDE PARA' NÓS". Era a sua marca registrada.

Mauro Castro disse...

http://www.youtube.com/watch?v=eKe_oH-Ii_w&feature=youtube_gdata_player

o video

Luciane Vasconcellos disse...

Até me deu saudades do tio Adão Edésio Suquinho Silveira. Lembro de dele me chamando,de dentro do carro, com o dedinho e me pedindo" compra uma água com gás no Alemão que eu te dou outra!" e não saía de dentro do carro.

Anônimo disse...

Concordo com a sora Gisiane. Apesar de não seres jornalista, escreve bem, sujeito e predicado postados de maneira correta. Bela história.