domingo, 25 de novembro de 2012

Cena no sinal fechado (o mendigo)

O homem entrou no meu táxi falando ao celular. Fez sinal com a mão para que eu seguisse em frente. Tive que pedir que colocasse o cinto de segurança. Ele abriu o vidro e colocou o cotovelo na janela. Falava tão alto que o telefone era quase desnecessário. Discutia com alguém sobre um cheque devolvido.

Quando parei no semáforo, meu passageiro já havia encerrado sua ligação. Um mendigo aproximou-se da sua janela. Era tarde para fechar o vidro. O indigente segurava uma pequena moeda na ponta dos dedos. Com um sorriso de tártaros, mostrou a moeda ao meu cliente, dando a entender que esperava por uma esmola, uma outra moeda daquelas que fosse.

Visivelmente irritado, meu passageiro começou a passar um sermão no mendigo. Perguntou se o homem não tinha vergonha de estar ali pedindo esmola, quando podia muito bem trabalhar, visto que tinha saúde. Disse que tinha dinheiro, mas era dele, que trabalhava para ganhar, que não desperdiçaria com desocupados que se fazem de coitadinhos.

Era um discurso grosseiro, agressivo. O homem ao meu lado estava claramente descontando sua irritação no pedinte. Falava do governo paternalista que incentiva a vagabundagem, que distribui esmola com dinheiro público, que não valoriza o trabalho...

Mas o estranho naquela situação constrangedora era a postura do mendigo. Ele continuava imóvel, com o sorriso inalterado nos lábios, segurando sua moeda do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. Praticamente uma estátua. Seria surdo?

Quando o sinal abriu, antes que eu arrancasse, aconteceu algo inusitado: o mendigo desfez o sorriso e jogou a moeda no colo de meu passageiro! Feito isso, girou sobre os calcanhares e, mudo, partiu em direção à calçada.

Arranquei o táxi sob protesto do meu cliente, que queria tirar satisfação com o pedinte. O movimento da avenida, porém, nos levou adiante. Impossível voltar.

Fiquei com a moedinha. Quando reencontrar aquele mendigo, devolvo uma maior.

5 comentários:

Eduardo P.L disse...

É dando que se recebe. O mendigo lavou a alma. Seu passageiro vai morrer com esse peso na consciência. Mas será que pessoas assim tem consciência?

Mariana Vargas disse...

To meio sem palavras...
o.O

Abraços da Extraterrestre!!

Ricardo garopaba Blauth disse...

sempre devolva maior
Embrulhado em bom senso
Não espere isso
De gente pre ocupada em "crescer"
Os numeros, cifrões
Ao inves da ternura, simplicidade
Só encontrável
Em quem sabe.......
Sonhar..........

Ricardo garopaba Blauth disse...

sempre devolva maior
Embrulhado em bom senso
Não espere isso
De gente pre ocupada em "crescer"
Os numeros, cifrões
Ao inves da ternura, simplicidade
Só encontrável
Em quem sabe.......
Sonhar..........

Dona Sra. Urtigão disse...

Perfeito, adorei a reação do mendigo.