domingo, 19 de agosto de 2012

Ex-mailove

Ao embarcar no táxi, a passageira parecia irritada. Foi logo perguntando quanto gastaria com uma corrida até a Praia do Lami, no extremo sul da Capital. Quando falei o valor, ela ficou ainda mais irritada. Soltou uns palavrões impublicáveis, mas mandou tocar pra lá.

No caminho, ela explicou que estava indo acudir o ex-marido, que havia ligado para ela, bêbado, ameaçando se matar. O homem estava morando em um sítio, isolado, tendo sérias crises depressivas. Não conseguia aceitar a separação. Irritada, a mulher disse que, se ele não tivesse se matado, ela mesma o mataria.

Enquanto cruzava a zona rural de Porto Alegre rumo ao Sul, a noite caiu. Faróis ligados, pé no fundo e uma sensação estranha de estar entrando numa fria. Ponderei que talvez fosse o caso de passar em uma delegacia, afinal, tratava-se de um possível suicídio. A mulher fez pouco caso. Disse que conhecia o ex-marido. Segundo ela, o sujeito só queria chamar a atenção.

Chegando ao tal sítio, a passageira abriu uma porteira e pediu que eu a acompanhasse. Encontramos o homem caído no assoalho da cozinha! Assim que minha passageira gritou seu nome, ele acordou. Parecia grogue. Estava bêbado. Tinha uma cordinha de plástico amarrada no pescoço por sobre uma manta.

O homem explicou que tentou se enforcar com a única corda de que dispunha: a do varal. Mas o náilon fino teria machucado seu pescoço. Então, ele teve a genial ideia de colocar uma manta para proteger a pele. Ao se jogar de cima do banco, a corda teria arrebentado. Tonto, ele acabou dormindo ali mesmo. 


Patético.

Para piorar a situação, o homem começou a chorar. Dizia-se injustiçado pela mulher. Eu, que não tinha nada a ver com aquilo, olhei para minha passageira batendo o dedo em um relógio de pulso imaginário. É hora de dar tchau!

O ex-marido pagou a corrida. Tentou abraçar-se em mim chorando, mas eu bati em retirada. Quando deixei o sítio, o casal já estava à beira da reconciliação. Que sejam felizes.

7 comentários:

vidacuriosa disse...

Suicídio por enforcamento não é uma boa idéia porque dá uma falta de ar desgraçada. História hilária se não fosse trágica. O dia a dia da cidade está repleto delas.

SÉRGIO LB disse...

MAILOVE... Nossa Mauro! Essa expressão é mais do meu tempo do que o do teu... Mas soubeste guardá-la para utilizar algum dia... E assim fizeste!

Confesso que já a tinha esquecido...

Só pelo título que tu propuseste para a crônica semanal já 'arranca' com uma nota DEZ!

Quanto ao 'suicida': parece que a cordinha, que pretensamente serviria para dar cabo à sua vida, na realidade 'enrolou' mais uma vez a ex-esposa.

Lamentável. Argutamente, fizeste muito bem em não aceitar o 'abraço' do ex-futuro-defunto.

Seria cínico da tua parte se assim tivesse procedido(mas essa não é a tua 'praia').

Então, mais uma nota DEZ!!!

Aceite, pois, o meu "há braço"!

http://amenidadescronicas.blogspot.com.br/ disse...

Tadinho do suicida. Nem se matar mais se pode. Essas cordas de varal que machucam o pescoço tinham que ser proibidas! Deviam inventar um kit suicida, que viesse com corda macia, gelzinho que evitasse irritação da pele e até um hidratante pós-enforcamento...
Patético mesmo...
Abração!
Maykon
http://amenidadescronicas.blogspot.com.br/

Selena Sartorelo disse...

Olá Mauro,

Esses relatos possuem um tempo tão real e tão rapido que deu até prá ver a cor da corda rsrs!!
Gostei muito.

Inaie disse...

acho que n<<<<ao era pra rir, mas eu fiqueo imaginando o cara parecendo o gasparzinho, caido no chao...kkkk

Guilherme Madeira disse...

Que história triste... Coitado do homem... Mas concordo contigo, Mauro, no sentido de que tu não tens nada a ver com a história e o melhor mesmo era "dar no pé".
Bom trabalho e boas crônicas!!

Ligéia disse...

kkkkk Muito engraçado e interessante, Mauro. E gostei muito do título de música de novela, bem apropriado, rs. Tem homem assim mesmo, adora um draminha e chamar a atenção. hahaha Como tem mulher assim mesmo, no fim, quer cuidar do bebezão.

Um abração.