domingo, 24 de junho de 2012

A trilha dos sentidos

Tão logo acomodou-se no táxi, com a ajuda da filha, a passageira estendeu a face em minha direção. Fazia questão de um beijo, como sempre. Enquanto eu lhe aplicava um selinho na bochecha, ela abraçou minha cabeça com sua mãozinha magra. Fazia tempo que não nos víamos. Ela anda recolhida. A idade começa a cobrar seu preço.

A filha alertou-me, por sinais, sobre o problema de saúde da mãe. Pelo jeito, minha velha amiga não gosta que toquem no assunto. Sem problemas. Comentei que estava um lindo dia para passear, sair da toca. Ela abriu um sorriso de muitas rugas. Disse que foi o mesmo argumento que a filha usou para convencê-la a sair.

Como a filha não sabia exatamente aonde ir, apenas queria que sua mãe saísse um pouco de casa, sugeri um destino. Um lugar que combinava com aquela tarde de sol: o Jardim Botânico.

O porteiro do parque veio até o táxi. Funcionário antigo, meu conhecido, quis saber da minha coluna, quando eu ia falar dele no jornal. Promessa feita, acabou liberando o ingresso para todos. Cortesia da casa!

Como precisava mesmo esperar para levar minhas passageiras de volta, ofereci-me para acompanhá-las na visita, afinal, conheço bem o lugar - um dos passeios preferidos da minha filha. Sugeri que fizéssemos a trilha dos aromas, um dos caminhos mais legais do JB.

Minha passageira curtiu cada momento. Braço dado com a filha, percorreu a passos lentos o caminho das plantas aromáticas. Alecrim, hortelã, manjericão, um galhinho de arruda atrás da orelha para espantar o mau-olhado. Uma caminhada regada a Pitangas e Araçás, ao som de Sabiás e Aracuãs. A natureza despertando os sentidos.

No fim da corrida, minha idosa passageira fez questão de outro beijo. Ao passar novamente a mão em minha nuca, notou que eu raspara a cabeça. Disse que eu devia estar bonito de qualquer jeito. Um elogio de uma querida amiga, que perdeu a visão, mas manteve a generosidade de sempre.

9 comentários:

Eduardo P.L disse...

Emocionado com seu texto, aqui em Roma, de onde mando um forte abraço ao escritor e amigo!

Anônimo disse...

Conheci seu blog há uns anos e fazia tempo q não entrava aqui. Que delícia ler seus textos novamente!
Márcia G.

ricardo GAROPABA blauth disse...

alo MAURO

sensivel como sempre, mostras que esta sensiblidade se estende além da escrita ou da tarefa de conduzir teus clientes no transito, mas ajudá-las no "viver".......
obrigado Amigo, por seres o que és.....
um abração........

ricardo garopaba blauth

vidacuriosa disse...

Sem falar na beleza do texto e na emoção contida em cada linha, detenho-me na utilidade do conto, mostrando aos olhos do mundo as belezas de Porto Alegre. Curti a sugestão da trilha dos aromas e entendi, ao saber, ao final dos escritos, que a passageira tinha perdido de visão. Eu próprio senti-me inclinado a fazer uma visita ao Jardim Botânico. A secretaria do turismo deveria aproveitar essa crônica para promover a cidade.Abraços!!

Adro disse...

gênio Mauro Castro. bah, emocionei.

Clarice disse...

Que lindo! Que lindo!
Acho que foi ela que te levou pra passear, viu?

Raspou a cabeça? Caro o shampoo, hein?
Beijos

Márcio Lauriano disse...

Bela descrição!
É bom acompanhar sua sensibilidade e "ver" Porto Alegre através das suas palavras.
Sucesso!

Inaie disse...

adoro vir aqui...

Anônimo disse...

Mauro, ajuda a divulgar:

A Luciana Russo Vichino pegou um táxi no sábado para Cumbica. Custou R$120, ela deu R$150, recebeu R$20 de troco e foi embarcar. Na segunda recebi em casa um envelope com a carta do taxista explicando o erro dele no troco e os R$10 da diferença. Esse é o Gilmar, do ponto Portal do Morumbi, que pela gentileza e honestidade me fez acreditar um pouco mais nas pessoas.

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espero q ele receba mais passgeiros por causa disso