domingo, 15 de abril de 2012

Falando pelos cotovelos

Mesmo antes de embarcar, a mulher já estava falando. Enquanto entrava no táxi, ela ia aumentando o volume da voz, explicando que se tivesse que esperar por mais um minuto naquele calorão ia acabar derretendo na calçada. Disse que a culpa dessas temperaturas extremas é do próprio homem, que destrói a natureza, que cada verão será mais quente que o anterior, até que morreremos todos...

A mulher não espera que eu comente alguma coisa. Emenda o assunto da temperatura com a importância de manter o bom-humor. É preciso encarar a vida de forma positiva. Disse que suas amigas fazem cirurgias plásticas, mas que esquecem de se divertir, de amar. A passageira explica que é contra qualquer tipo de droga, que nada é mais eficiente que um sorriso, que uma amizade, que as pessoas precisam viver a vida.

Espero um momento de silêncio para para dizer alguma coisa, mas é inútil, a mulher não para de falar. Percebo que ela, na verdade, está falando para si mesma, minha presença ali é um mero detalhe. Nesse ponto, o tema passa a ser religião, que as pessoas precisam aceitar Jesus nos seus corações. Eu, então, desisto de vez de falar qualquer coisa. Nem a cabeça balanço mais. Nem sim nem não. Limito-me a controlar o trânsito, que está pesado.

Quando volto a prestar atenção à mulher, ela esta falando de sua única irmã, que aproveitou o plano de demissão voluntária do governo, aposentou-se, comprou um sítio e se isolou do mundo. Não quis mais vê-la. Não atendeu mais às suas ligações. Um belo dia, a encontraram enforcada em uma figueira do sítio. Ela disse que reza pela alma da irmã, que os suicidas não sobem ao céu e tal e coisa...

Enquanto paga a corrida, a mulher percebe minha indiferença e desculpa-se. Explica que trabalhou a vida toda como dentista de crianças, que desenvolveu a técnica de falar sem parar para que os pequenos pacientes não tivessem tempo de reclamar. Disse que agora, sem perceber, continua falando pelos cotovelos.

Aceito as desculpas, feliz por não ter uma figueira e uma corda por perto.

8 comentários:

Rafael Perfeito disse...

Coitado do espírito dessa irmã... vagando no umbral e ainda ouvindo as rezas intermináveis da sua passageira!

Eduardo P.L disse...

As crianças devem ficar de boca aberta de espanto!!!!!

vidacuriosa disse...

Fiquei até cansado no final do post. Agora entendi o que significa falar pelos cotovelos. Se bem que ela fala pela boca, pelos cotovelos, pelos joelhos, pelo pescoço, até pela, bem deixa pra lá. Muito bom o post, Mauro. E nenhuma outra observação...

Carol RJ disse...

Eu tb me cansei só de ler rs

Clarice disse...

Isso que é anestesia! A pirralhada nem reclamar podia?
Quando ia trabalhar de buzão, dava direto nos nervos aquela turma que entrava e já ia pela metade da conversa que nunca tinha fim. Pqp! Quase de madrugada com essa falação!
Agora pra endoidar de vez tem a turma da construção, que chega e fica provocando antes que a sirene toque, às 7 da matina: Toca, desgraçada! Toca que é hora de trabalhar!

E eu vim morar aqui pra ter sossego. Melhor seria se arranjasse um táxi. Pelo menos teria a paisagem, o calor, a chuva, as histórias pra contar, rs
Abração.

Maykon Souza disse...

Hahaha... muito bom! Durante um tempo frequentei uma dentista que fazia pior. Enquanto trabalhava, fazia perguntas, que ela mesma respondia e tomava conclusões a meu respeito. Era muito engraçado. Ela praticamente criava um personagem pra mim e conversava com ele.
Abraço.
http://amenidadescronicas.blogspot.com/

Bah disse...

AUhauhauah isso deve ser coisa de dentista. A minha que me atende desde criança faz a mesma coisa e pior, ainda quer que a gente responda e qdo ela não entende pede pra repetir.... eu fico fula com essas coisas rs...

Kisu!

Anônimo disse...

NOSSA !!!!PARECE UMA PESSOA Q CARREGAVA UM "CORTADOR DE GRAMA"!!PARABENS MAURO!ADOREI!!!QTIVE A SORTE DE PEGAR ESSE TAXI!!!SUCESSO!