domingo, 3 de outubro de 2010

Perdidos na noite

O taxista estava enrascado: a bateria do táxi tinha arreado. Passava da meia-noite, não tinha uma viva alma na rua e o maldito motor havia morrido no meio de uma rua deserta. Quando tudo parecia perdido, eis que surgem três sujeitos mal-encarados caminhando pela calçada escura. Nada está tão ruim que não possa piorar, pensou o taxista.
Mas os caras resolveram ajudar. Empurraram o carro, que acabou pegando no tranco. Não foi nem preciso oferecer carona aos homens. Tão logo o táxi funcionou, eles embarcaram. Disseram que estavam precisando mesmo de uma corrida. "Toca para Viamão".
Em uma situação normal o taxista teria rejeitado o serviço. Sequer teria parado para três homens perdidos no meio da noite. Mas eles o tinham ajudado e, de qualquer forma, já tinham embarcado mesmo, o negócio agora era tocar em frente. Seja o que deus quiser.
Foi uma corrida tensa. Os homens falaram pouco ao taxista, apenas o tranquilizaram. Disseram que precisavam resolver uma "parada" e voltariam para Porto Alegre. Para provar que falavam a verdade, pagaram adiantado pelo transporte. Um valor bem acima do razoável.
Por volta das 3 da manhã, o taxista parou no fim de um beco, que dava em um pequeno campo de futebol, no meio de uma vila do município de Viamão. Um dos homens ficou no táxi, os outros dois atravessaram o campinho e sumiram em meio à cerração da noite. Logo, ouviram-se tiros e o latido dos cachorros ecoando pela vila. Segundos depois os homens voltaram apressados, embarcaram no táxi e ordenaram que tocasse de volta.
Com o corpo tremendo pelo pânico, o taxista acelerou o que pode. Dentro do táxi, o silêncio tão fechado quanto a cerração que se abatia sobre a cidade era piorado pelo cheiro de pólvora, que os homens trouxeram da rua.
Por fim, os passageiros se foram, o dia raiou e o taxista nunca ficou sabendo o que, de fato, aconteceu dentro daquela vila.

16 comentários:

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

se não saiu nada sobre alguma eventual morte no jornal foram só tiros de advertência...

Caminhante disse...

Não tem desses jornais policiais por aí? Vai que alguém morreu com um tiro no peito em Viamão...

Eduardo P.L disse...

Uma taxitramapolicial! Isso da samba!

Eliana disse...

Ahhhhhhhhhhh!!!

E eu que estava curiosa pelo desfecho da história!

Hahahaha

Mas a história é ótima!

É como aquele ditado que diz: "a curiosidade matou o gato"... Nesse caso é melhor dar o assunto como encerrado mesmo!

Clarice disse...

Tomara que essa história seja a sua crueldade da semana. Ou será vingança por conta dos joguinhos viciantes do meu bloguinho?
Cara, eu parei de jogar antes de estragar meu sábado.
Boa semana, vizinho.

Leonardo disse...

Jesus amado... Esses taxistas tem uma intuição muito boa, pena que nem sempre podem usá-la!! kkk'

Anunciação disse...

Nossa,taxista sofre.

Vai de Táxi! disse...

MEDO.

Todo motorista de táxi tem diversas histórias e contos sobre os passageiros. Pois agora chegou a hora da vingança. Depois de passar por várias situações e diálogos curiosos, decidi que era hora de dividir isso com alguém e contar minhas vivências com os motoristas de táxi da capital baiana. VAI DE TÁXI!

http://vaidetaxi.blogspot.com

:D

Euler C. disse...

Putz... dá um frio na barriga. Ainda mais porque eu estou me habilitando agora para ser taxista...

Abraço!

Vai de Táxi! disse...

hahahaha Valeu pelo comentário lá Mauro.

Depois leia os outros contos também. A ideia é contar de forma bem humorada os diálogos e situações vividas dentro do táxi, sobre o olhar do passageiro. Não importa se o taxista é gente boa ou escroto. Sei que existe taxistas legais como você aqui em Salvador... :D

Parabéns pelo seu blog , conheci recentemente que um amigo me passou depois que viu o meu. Vou acompanhar agora também.

Valeu cara,
"Há braços" pra você também.

Roger disse...

Sou um espanhol morando em Porto Alegre e usuário frequente dos táxis da cidade. Escrevo para apresentar-lhes este seriado espanhol protagonizado por um taxista de nome brasileiro, Emerson. Espero que gostem! Abraços, Roger.

http://www.youtube.com/watch?v=RXr70AbCqBc

http://www.youtube.com/watch?v=4eUlqGfr6tI

Tiago Moralles disse...

Valeu pela corrida até o blogue.
Microabraços.

Ricardo Mainieri disse...

Nem sei como o taxista dirigiu de volta.
Imagino suas pernas tremendo e o suor frio escorrendo peito abaixo...
A vida não é fácil.


Abraço.

Ricardo Mainieri

Fatima Rama disse...

Nossa, de tremer as pernas mesmo.

Dalva Maria Ferreira disse...

Obra-prima! Que inveja eu tenho de você, danadinho...

Delafonte disse...

Parece um registro de ocorrência de uma delegacia. Só que policiais de delegacia não escrevem tão bem. Não parece ter acontecido com você, mas com algum colega seu. Acertei? O que não seria mau, claro. Afinal você escreve sobre o vê e sobre o ouve também. Algumas pessoas realmente não dão pra viverem numa repartição pública, presas em ar refrigerado. Elas têm que fazer parte da fauna das ruas. Você, claro, está no topo de uma montanha, olhando tudo com seus olhos de rapina.