domingo, 17 de outubro de 2010

Divina tragédia humana

Em uma vila da periferia, duas garotas aparentando vinte e poucos anos, bem vestidas, fazem sinal para meu táxi. Uma delas está falando ao celular. A outra, também ao telefone, parece estar digitando uma mensagem. Embarcam apressadas, mal me cumprimentam, pedem para ir tocando em frente.
Pela conversa ao telefone, consigo deduzir o que está acontecendo. São prostitutas de luxo. Uma delas descobriu que está grávida. Vieram à vila atrás de uma aborteira. A pessoa que conversa com elas pelo telefone parece ser uma espécie de empresária, agente ou coisa parecida. Passa instruções de como devem proceder.
Com o telefone no viva voz, para que as duas possam escutar, acabo inteirando-me dos detalhes da situação. Elas não parecem se importar. Usam o táxi para uma espécie de conferência com a chefe, que parece ter experiência no assunto. Como a aborteira pediu um preço muito alto, a mulher do outro lado da linha orienta as garotas a procurar uma determinada farmácia onde o balconista, amigo dela, conseguiria um remédio abortivo. "Toca para a tal farmácia".
Elas pedem que eu as espere. Depois de alguns minutos, saem da farmácia sem o remédio. O balconista as orientou a procurar um sujeito no centro da cidade que conseguirá os tais comprimidos. Durante todo o trajeto, a garota que está grávida mostra à outra as mensagens de texto que está trocando com o namorado, um rapaz de família rica, que não sabe que ela faz programas. Ela precisa interromper a gravidez pois o filho que está esperando não é dele - o namorado sempre usa preservativo.
Deixo-as próximo à praça XV, coração da cidade. Fico observando enquanto as duas partem. Entre gritos anunciando compra de ouro e promoções de buffets livres, um pastor, bíblia em punho, prega a palavra de Deus na calçada. A loucura do centro me faz lembrar que também tenho pressa. Desligo o taxímetro e parto para outra.

10 comentários:

Eduardo P.L disse...

Ótima história!

Dona Sra. Urtigão disse...

Gosto da historias que leio aqui, mesmo quando me entristecem pelo tanto que as sei reais.

Adriano Trindade disse...

... e a vida continua.
Um pré-requisito da cidade grande é o morador criar uma "casca" mais grossa para protegê-lo de tudo que acontece.
Caro Mauro, que tantos acontecimentos presencias em POA, se deixasses que tudo que acontece lhe afetasse... não sei se continuaria sendo taxista.
Abraços!

Ricardo Mainieri disse...

Mauro a vida é feita, também, de um percentual de morte.
Este assunto está na "crista da onda", visto que revestiu-se de caráter político e eleitoral.
O taxista, por vezes, me passa a sensação do voyeur. Aquele que espia, mas não pode interferir nas atitudes do observado.
Embora com o gosto do drama da cidade grande, um ótimo texto.

Abraço.


Ricardo Mainieri

Clarice disse...

Uma dezena de possibilidades para longos papos sobre isso tudo. Por ora, vejamos que o noivo é o que me causa mais dó. Guria safada transando sem camisinha. Ainda bem que o noivo usa. Tomara que ele seja teu leitor.
Abraços.

Débora Oliveira disse...

Nossa,sem palavras!
Maurinho, vi um post e lembrei de vc, imagine se essa moda aqui pega? Hahaha: http://marketingnacozinha.com.br/2010/10/pague-o-taxi-com-chiclete/

cezar pereira disse...

coisas da vida cotidiana de uma prosituta, que nao sou dar valor ao namorado.

Dalva Maria Ferreira disse...

Muito oportuno, já que os hipócritas de plantão estão aperreados com a discussão (ainda que tímida) sobre esse tema. Eu não tenho opinião formada, só acho que pimenta no do outro é refresco. Aí eu quero ver essas convicções ferrenhas balançar. Belíssimo texto, como sempre! Abraços.

Luis Baptista disse...

Esta está realmente boa!
Dá que pensar.

Alexandre RJ disse...

Esqueceu a pressa amigo... esqueceu nada, mas estava sim ligado nos detalhes para dividir conosco aqui! Muito boa!