segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Corridas para o cemitério

Duas corridas para o mesmo cemitério, mas com passageiros bem diferentes.
Depois de certificar-se de que teria dinheiro para ir e voltar, a garota embarcou no meu táxi e mandou tocar até o cemitério João XXIII. Tinha pressa, pois estava matando aula e tinha que estar de volta à escola até o fim do último período, quando seu pai iria buscá-la.
Durante o percurso, ela me fazia perguntas sobre o cemitério: se o lugar era perigoso, se conseguiria táxi para voltar, se podia entrar menor desacompanhada. Depois de tirar suas dúvidas, quis saber o que ela faria lá.
A garota me disse que sua mãe morrera quando ela tinha quatro anos de idade. Seu pai, então, a mandou para o Canadá, para morar com sua avó. Passados dez anos, ela estava de volta a Porto Alegre. Como estava tendo sonhos com a mãe, resolveu visitar o túmulo, mesmo contra a vontade do pai, que se negava a levá-la até o cemitério. Contou que economizou o dinheiro da merenda para pagar o táxi.
Na outra corrida, o passageiro era um homem de meia idade. Estava com a roupa e a cara bem amarrotadas, o cabelo despenteado e a barba por fazer. Tinha uma bandeira do Internacional na mão. Pediu que eu tocasse depressa para o cemitério, pois estava atrasado para o enterro do seu pai, que havia morrido no dia anterior.
Ele explicou que o cemitério, por motivos de segurança, fecha à noite. Como o velório seria mesmo interrompido, ele, colorado fanático, aproveitou para ir ao jogo do Internacional. Disse que saiu do estádio muito tarde. Quando caiu na cama, dormiu como uma pedra e acabou acordando atrasado.
Meu passageiro não se sentia culpado por ter ido ao jogo. Disse que seu pai o havia ensinado a amar o Internacional. Iam juntos a todos os jogos, viviam no estádio enrolados na bandeira vermelha. Bandeira, aliás, que ele estava levando para por no caixão.

10 comentários:

Anônimo disse...

É preciso se dar algum sentido à vida, mesmo que seja uma ida ao cemitério... Ai Sérgio logo hj que estou mal vc me faz um post sobre cemitério. Que triste ironia. Bj

Nana disse...

Esses colorados são todos loucos! hehehehe

tatiana disse...

Duas boas histórias. E belas histórias eu diria.

beijos
tati

Carmem Tristão disse...

achava que esse tipo de coisa só acontecia em piada kkkkkkkkkkkk

Anunciação disse...

Boas histórias;inusitadas.

**** disse...

Ainda bem que nenhum dos dois foi puxar seu pé à noite.
Abraços!

Gorby disse...

Uhhhhhhh, que medo!!!

Abraço

Junior Lopes illustrator disse...

Alo Mauro,obrigado pela visita ao blog.
tem mais em
www.juniorlopesillustrator.blogspot.com
abço.

Plinio Nunes disse...

Essa do futebol me lembrou a história do cara que assistia a um jogo do seu time e, nas cadeiras numeradas ao lado, o assento estava vazio. Ele explicou para outro torcedor que a mulher sempre o acompanhava, mas não viera porque tinha morrido. O outro perguntou por que ele não convidou um amigo e ouviu a resposta:
"É que todos os meus amigos estão no velório dela".

Tiago Medina disse...

Duas histórias curiosas que só mesmo taxistas-blogueiros poderiam narrar...
E, no post seguinte, a série deveria ser 'Quero Comprar o Livro e Ganhar um HÁ BRAÇO' - marca registrada do amigo.