segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Taxistas anônimos

Uma a uma, as pessoas da reunião levantam-se para dar seus depoimentos.
Sou taxista há 24 anos (faz uma pausa, pensativo). Eu era um jovem normal, um adolescente cheio de planos, sonhava em ser desenhista. Cheguei a trabalhar com desenho. Diziam que eu tinha talento, um bom traço, criatividade. Um futuro pela frente.
Não sei como é que acabei caindo nessa. Talvez tenha sido influência do meio onde fui criado – vários casos de taxistas na família – ou as companhias erradas, as más influências, não sei. Acho que isso agora não vem ao caso. O fato é que acabei deixando de lado essa minha veia artística e virei um taxista.
Tudo começou com uma folga ou outra no táxi do meu pai. Uma trabalhadinha aqui ou ali, para arranjar grana pra balada. Logo não me contentava apenas em tirar as folgas de outros taxistas, queria um táxi só para mim. Quando ficava sem trabalhar na praça, sentia-me angustiado, tenso, irritadiço (síndrome da abstinência). Largar o trabalho de desenhista foi o próximo passo.
Acabei virando um taxista em tempo integral. Vendi tudo o que eu tinha, pedi dinheiro emprestado, só faltou me prostituir para comprar meu próprio táxi. Consegui. Tornei-me um taxista de verdade.
Passava dias e noites trabalhando. Quase não aparecia em casa. Muitos amigos me abandonaram quando souberam que havia me tornado um taxista. Passei a ser visto com maus olhos.
Com o dinheiro do táxi comprei de tudo, desde roupas até minha casa própria. Tornei-me dependente completo da profissão. Cheguei ao fundo do poço. Agora estou procurando ajuda para largar o vício. Sei que não é fácil. Sei que é preciso evitar sempre a primeira corrida. Precisamos ser fortes!
A reunião dos taxistas anônimos termina. Todos se cumprimentam e deixam a sala, dispostos a manterem-se longe dos taxímetros

20 comentários:

Gorby disse...

Por certo um grande taxista e um grande bloguer e escritor o qual é um prazer poder acompanhar!!

Abraço

Anônimo disse...

Pois é meu amigo, acho que tambem caí nesse vício.Mas não estou com muita vontade de deixar rsrsrsrs!. Um abraço. marcos ramires, porto alegre

Clarice disse...

Mauro, eu insisto: deixa dessa vida! Volta pro lápis. Compare os riscos(Opa, deu trocadilho!) Ainda é tempo de ilustrar um livro todinho.
Parabéns pela corajodsa profissão.
Abraço e boa semana.

Tiago Medina disse...

Teu texto me fez refletir como acabei me tornando jornalista. Ainda tô no início da carreira, mas já passo pouco tempo em casa, não vejo tanto quem eu gostaria, quanto mais trabalho eu faço, mais aparece...
Bom, eu gosto. Mas será que daqui a 24 anos estarei me perguntando como fui fazer jornalismo ao invés de direito?

abraço

Mari Lopes disse...

Poise é, eu também refleti sobre a minha profissão. Deve existir também um encontro de publicitários anônimos...
Boa semana!

Tássia Jaeger disse...

Um dos melhores que vi por aqui. Parabéns. Sempre surpreendendo!

Dalva M. Ferreira disse...

Fantástico. Eu queria ser você!!!

Plinio disse...

Excelente essa paródia dos A.A. Imaginei, na reunião dos T.A., que até viria uma frase do tipo:"só hoje não vou dirigir olhando para o taxímetro". Em entrevistas sobre a vida de jornalistas, é muito comum referirem-se à profissão como "essa cachaça".

karin disse...

Nunca imaginei que eu ia parabenizar alguem por causa de um vício.Pq é através desse "vício" que acabei te conhecendo.(Mesmo que seja virtual)Beijo.

Anônimo disse...

Absuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuurdo seu texdo do " T.A. "...
Caracolas marinas...e você PENSA MESMO que é taxista?Eu te sinto como colega, escritora que sou.Eu estava navegando na web e te achei.Sou casada com um taxista que é...estudante de canto lírico!!Poderosa, a voz de meu amado.Como poderoso é o teu talento.
Namaste, carissimo colega.Visite meu blog...
http jardinsparalelos.blogspot.com

Giane disse...

Ahsuahahahahah!!!

Ué, desde quando ter uma profissão tão digna e trabalhar e ainda gostar dela, virou um vício?

Quero ser viciada nesse estilo, também!

Beijos mil, Mauro!!!

Tita disse...

Tá aí uma boa questão: em que momento da vida a gente escolhe o que vai ser pro resto da vida?

luka disse...

Eu mesma sou uma das primeiras a dar meu depoimento. Mas não quero me livrar desse vício!kkkk. Bjinhos

Debby disse...

Que lindo, Mauro!
Seu post me fez tb refletir pq escolhi ser professora...

Um abração caloroso do nordeste ^^

infinitopositivo disse...

Pois é Mauro, ex-bancários como eu também se perguntam: "como consegui ficar lá dentro daquele banco mais de vinte anos?". Puxa, que ótimo, estou lúcido!

Prazer em voltar aqui, amigão. Esse "teu mundo" rende sempre grandes histórias.

Antes que me esqueça, viu o Programa do Jô na sexta (04/09)? Um taxista que virou cantor. E leva jeito.

Abração, tchê.

Ery Roberto

Eduardo P.L disse...

Mauro,

primeiro parabéns pelo seu texto. Antes de taxista você é um escritor de talento. Depois blogueiro que honra a classe. E próximamente minha VÍTIMA DA QUINTA, num blog que costumo fazer caricaturas de quem aparece na FOTO DO PERFIL do Varal de Ideias! Parece complicado, mas não é! Basta conhecer um pouco do Varal, vai entender!

Forte abraço e muito sucesso!

Eliana disse...

Seu vício é saudável... não prejudica você e nem ninguém.
Parabéns pelo talento e pelo carisma!

Abraços!

Debby disse...

Oi Maurão!
O livro ainda não chegou, vc acredita?
Tô ansiosa que ele chegue logo! =]

Eu te aviso assim que chegar!
Abraços

Personal Táxi disse...

Meu caro irmão de profissão, quando vier ao Rio de Janeiro, entre em contato comigo para trocarmos umas figurinhas...quem sabe surgirá algo novo na praça!!! Forte Abraço, Paz e Bem.

Nana disse...

Já pensou os "informatas" anônimos? Pq além de passar o dia na frente do computadore passar a aula da facul na frente do computador, a gente ainda chega em casa e vai pro computador!! O vício!